3.º Domingo da
Quaresma (B)
Pe. Geraldo Morujão
*Forma longa: Êxodo 20, 1-17 Forma breve: Êxodo 20,
1-3.7-8.12-17
1Naqueles dias, Deus pronunciou
todas estas palavras: 2«Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do
Egipto, dessa casa da escravidão. 3Não terás outros deuses
perante Mim. [4Não farás para ti qualquer imagem esculpida, nem figura do
que existe lá no alto dos céus ou cá em baixo na terra ou nas águas debaixo
da terra. 5Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto. Eu, o Senhor
teu Deus, sou um Deus cioso: castigo a ofensa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem; 6mas uso
de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam
os meus mandamentos.] 7Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus, porque
o Senhor não deixa sem castigo aquele que invoca o seu nome em vão. 8Lembrar-te-ás
do dia de sábado, para o santificares. [9Durante seis dias trabalharás e levarás
a cabo todas as tuas tarefas. 10Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu
Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha,
nem o teu servo nem a tua serva, nem os teus animais domésticos, nem o estrangeiro
que vive na tua cidade. 11Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra,
o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso, o Senhor
abençoou e consagrou o dia de sábado.] Honra pai e mãe, a fim de prolongares
os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. 12Não matarás. 13Não
cometerás adultério. 14Não furtarás. 15Não levantarás falso testemunho contra
o teu próximo. 16Não cobiçarás a casa do teu próximo; 17não desejarás a mulher
do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento,
nem coisa alguma que lhe pertença».
Temos na leitura o Decálogo, uma
palavra grega – “Dez Palavras” – segundo o nome que é dado aos Dez Mandamentos
(cf. Ex 34, 28; Dt 4, 13; 10,
4). Com efeito, na origem, seriam 10 breves sentenças lapidares (como:
“não matarás”, “não furtarás”…), que vieram a receber desenvolvimentos explicativos
inspirados. Aparece no contexto da teofania do Monte
Sinai, como Palavras da Aliança (Ex 34, 28). Em Dt
5, 6-21 temos uma formulação muito semelhante. O Decálogo constitui o núcleo
de toda a moral bíblica, para o qual Jesus apela (Lc
18, 20) e que Ele completa e leva à perfeição (Mt 5, 17-48). Vem a ser a expressão
revelada da Lei escrita no coração de todos os homens, a lei natural (cf.
Rom 2, 12-15); todos os preceitos desta lei moral se podem
ver incluídos mais ou menos claramente no Decálogo. A sua distribuição por
10 não tem sido feita sempre do mesmo modo: quando o 1º mandamento é desdobrado
em dois (“adorar um só Deus” e “não esculpir imagens”: vv. 3 e 4), então o
9º e o 10º são englobados num só; a divisão do 1º é a seguida pelos judeus
e por algumas confissões cristãs (como os calvinistas), ao passo que a divisão
do último é a adoptada pelos católicos e luteranos
(desde Sto. Agostinho), tendo em conta o texto de
Dt 5, 21, onde se usam dois verbos diferentes, um para “não
desejarás” (ló thahmór)
a mulher do próximo e outro para “não cobiçarás” (ló
thith’avvéh) as suas coisas.
As várias formulações cristãs
do Decálogo que há nos catecismos têm em conta, por um lado, o progresso da
Revelação, que culminou nos ensinamentos do Novo Testamento; por outro, a
caducidade daquilo que não passava de prescrições cultuais próprias dum povo
e duma cultura. Assim, o 1º mandamento, que se limitava a proibir a idolatria
– “não terás outros deuses” (v. 3) –, é formulado positivamente –“amarás”
–, segundo o ensino de Jesus (cf. Mt 22, 37par). No v. 4 nós suprimimos “não
farás qualquer imagem…”, pois a proibição de fazer imagens é considerada uma
lei meramente ritual, própria da cultura daquele povo, com vistas a evitar
o perigo de induzir à magia e idolatria (no entanto, para a própria Arca da
Aliança, estavam prescritas duas imagens de Querubins: Ex 25, 18). Também
a determinação do “Sábado” como o dia a guardar (v. 8) é actualizada,
tendo em conta que o 1º dia da semana passou a ser “o dia do Senhor” (Apoc 1, 10), já celebrado nos tempos apostólicos (cf. Act 20, 7; 1 Cor 16, 2); com efeito, a determinação do dia
da semana não pertence à lei moral, mas ao culto antigo, que foi abolido (cf.
Hebr 10, 9-10) com o Sacrifício Redentor de Cristo, o novo
Templo (cf. Evangelho de hoje: Jo 2, 19-21). Por
outro lado, os nossos catecismos dizem, para o 6º mandamento: “guardar castidade
nas palavras e nas obras” (os espanhóis dizem “não cometerás actos
impuros”), em vez de “não cometerás adultério” (v. 13), pois Jesus Cristo
não se limitou a condenar o adultério; a revelação cristã fala da castidade
como a perfeita regulação da faculdade generativa
(cf. Mt 5, 8. 27-32; 1 Tes 4, 3-5; 1 Cor 6, 5 19-20;
1 Tim 5, 22). Também para o 9º mandamento não dizemos “não desejarás a mulher
do teu próximo” (v. 17), mas, de acordo com os ensinamentos de Jesus, que
põe em pé de igualdade homem e mulher (cf. Mt 19, 9) e ensina a castidade
como uma afirmação positiva e em toda a sua extensão, a partir da rectidão
interior, do coração (cf. Mt 5, 8.28-30), nós dizemos “guardar castidade nos
pensamentos e nos desejos”.
2 “Eu sou o Senhor teu Deus, que
te tirei... dessa casa da escravidão”. À maneira dos antigos pactos hititas (na época de Moisés os hititas
acabavam de se afastar da Palestina), que começavam com um prólogo histórico,
a justificar a imposição das obrigações ao povo vencido, também o Decálogo
é introduzido com uma referência histórica. Mas aqui as cláusulas não se fundamentam
na derrota do povo, mas num facto salvífico gratuito, procedente do amor do Senhor: a libertação
da escravidão do Egipto. As prescrições da Lei aparecem
como a expressão de uma aliança (cf. Dt 5,2-3),
que não é um pacto para manter um vencido sob controlo e domínio despótico,
mas é um vínculo de amor com que Deus assegura a união com Ele, a liberdade e a bênção (cf. Salmo responsorial),
àqueles que constituiu
8-11 Note-se que o preceito sabático não inclui qualquer acto
religioso de culto; é o próprio descanso que aparece com valor cultual. Neste
preceito está implícita a obrigação de trabalhar, pois só o trabalho justifica
que se imponha a lei do descanso; o apelo para o trabalho de Deus (v. 11)
também sugere a dignidade do trabalho do homem como cooperação com a obra
criadora de Deus.
2ª leitura
1 Coríntios
1, 22-25
Irmãos: 22Os judeus pedem milagres
e os gregos procuram a sabedoria. 23Quanto a nós,
pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios;
24mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder
e sabedoria de Deus. 25Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os
homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do
que os homens.
A leitura é um pequeno trecho
da primeira parte da Carta (1 Cor 1, 10 – 6, 20)
onde S. Paulo começa por corrigir as divisões que havia na comunidade (1,
10 – 4, 21), uns grupinhos à volta do prestígio e da eloquência
dos diversos pregadores do Evangelho (Paulo, Apolo, Cefas…),
havendo cristãos que, fascinados pela sabedoria humana – a dos “judeus” e
a dos “gregos” –, corriam o risco de esquecer ou desvirtuar a autêntica sabedoria
do Cristo, que os salvou pela Cruz. De facto, o
centro da mensagem do cristianismo é particularmente chocante, porque é a
pregação da salvação pela Cruz: Cristo crucificado era um “escândalo para
os judeus”, que esperavam um messias espectacular,
glorioso e vencedor dos inimigos e, por outro lado, constituía uma “loucura
para os gentios”, ciosos de retórica empolada e lisonjeira das vis paixões.
“A sabedoria de Deus” é a loucura do seu incompreensível infinito amor, incompatível
com a soberba auto-suficiente tanto das expectativas messiânicas judaicas,
como do racionalismo grego.
Evangelho
São João 2, 13-25
13Estava próxima a Páscoa dos
judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14Encontrou no
templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados
às bancas. 15Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo,
com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes
as mesas; 16e disse aos que vendiam pombas: «Tirai
tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». 17Os discípulos
recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». 18Então
os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?» 19Jesus respondeu-lhes:
«Destruí este templo e em três dias o levantarei». 20Disseram os judeus: «Foram
precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?» 21Jesus, porém,
falava do templo do seu corpo. 22Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,
os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e
nas palavras que Jesus dissera. 24Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia,
acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia
a todos 25e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele
bem sabia o que há no homem.
Este episódio deverá ser o mesmo
relatado pelos Sinópticos, mas com um profundo simbolismo. O actuar de Jesus é à maneira das acções
simbólicas dos antigos profetas e não se destina a punir transgressores (os
vendi¬lhões actuariam legalmente e de boa fé), mas
a mostrar a sua suprema autoridade na “Casa de meu Pai” (v. 16) e a veicular ensinamentos que ficassem gravados para sempre.
13 “Subiu
a Jerusalém”. A ida a Jerusalém sempre se chamava uma subida, por a cidade
se encontrar nas montanhas de Judá, a 150 metros acima do nível do mar. Era
a primeira ida de Jesus à capital, durante a sua vida pública por ocasião
da Páscoa.
19 “Destruí este templo…” As palavras
do Senhor encerram um sentido misterioso que só a reflexão posterior – “recordaram-se”
(v. 22) instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo
espírito da Verdade (Dei Verbum 19) ¬– permitiu captar; contêm uma maneira de exprimir o mistério
da Incarnação, ao designarem o Corpo de Jesus como
um templo
19 “Eu o levantarei”. Dado o sentido
figurado das palavras de Jesus, João não põe na boca de Jesus “o reconstruirei”.
Note-se que quem protesta da atitude de Jesus não são os comerciantes, mas
“os judeus”, aqui provavelmente dirigentes pertencentes ao sinédrio (cf. Mc 11, 28) que viam
usurpada a sua autoridade de velar pela ordem do Templo; a verdade é que todos
julgavam permitida a venda de animais para os sacrifícios no átrio exterior,
o dos gentios (o nosso adro). Jesus mostra uma autoridade bem superior.
20 “Foram precisos 46 anos…” Esta referência é interessante para a cronologia evangélica. A primeira Páscoa da vida pública de Jesus corresponderia, de acordo com Lc 3, 1, ao ano 28 da nossa era, uma vez que o templo, ainda em obras, começara a ser reedificado por Herodes, o Grande, havia 46 anos. Ora, segundo Flávio Josefo, isto deu-se no ano 18 do seu reinado, isto é, no ano 20/19 a. C. Sendo assim, a Páscoa da Morte de Jesus teria sido a do ano 30, quando Ele andaria pelos 37 anos.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas
Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
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