3.º Domingo do
Advento B
(Pe. Geraldo Morujão)
1ª
leitura
Isaías
61, 1-2a.10-11
1O
espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a
anunciar a boa nova aos pobres, a curar os corações atribulados, a proclamar
a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, 2aa
promulgar o ano da graça do Senhor. 10Exulto de alegria no Senhor, a minha
alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me
envolveu num manto de justiça, como noivo que cinge a fronte com o diadema
e a noiva que se adorna com as suas jóias. 11Como a terra faz brotar os germes
e o jardim germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça
e o louvor diante de todas as nações.
O
texto da leitura é tirado daquilo que poderíamos chamar o cerne do Terceiro
Isaías (Is 60, 1 – 64, 11): no centro de Is 56 – 66 situa-se o anúncio da
salvação para todas as nações a partir da nova Jerusalém (Sião)
ideal (símbolo de uma nova ordem universal: cf. Apoc
21, 1 – 22, 5). E é em Is 61 que está o cume deste esplendoroso anúncio: o
capítulo começa com os primeiros versículos que integram a leitura de hoje,
em que aparece a falar, num denso monólogo, o mensageiro da boa nova libertadora.
Por um lado, estes dois vv. têm grande afinidade com os poemas messiânicos
do Servo de Yahwéh (cf. Is 49, 1-6 e 42, 1) e,
por outro lado, o sentido profético destas palavras aparece realçado na parafraseada
tradução aramaica (Targum), de que Jesus se teria
servido na sinagoga de Nazaré. Com efeito, esta acrescentava no início deste
texto: «Assim diz o profeta»; deste modo, o texto na boca de Jesus adquiria
uma força surpreendente, ao pôr em evidência que Ele era o profeta-mensageiro
de que falava Isaías – «hoje cumpriu-se esta Escritura…»
(Lc 4, 21) – e o próprio Messias, isto é, o Ungido
(Cristo) pelo Senhor.
«Anunciar
a boa nova aos pobres». Estes pobres – em hebraico, anavim,
um termo técnico do A. T. – não são propriamente os que sofrem de miséria
material ou moral, mas os que vivem numa piedosa atitude de indigência e humildade
diante de Deus, isto é, os que confiam na bondade e misericórdia de Deus e
não nos seus próprios bens ou merecimentos. «Um ano de graça» encerra uma
alusão ao ano sabático (cf. Ex 21, 2-11; Jer 34,
14; Ez 46, 17), ou antes
ao ano jubilar, cada ano cinquenta, em que os escravos
eram restituídos à liberdade e a propriedade regressava aos seus amigos donos
(cf. Lv 25).
10-11
«Exulto de alegria»… O texto adapta-se bem ao tema tradicional da alegria
para este «Domingo Gaudete». A alegria a que se refere – uma alegria comparável
à dos noivos na sua festa nupcial e à do lavrador em face duma boa colheita
– corresponde à maravilhosa restauração de Jerusalém; é a alegria messiânica,
pois o horizonte do oráculo é claramente escatológico, isto é, o de uma intervenção
de Deus em ordem à salvação definitiva. É, pois, coerente que a Liturgia veja
nesta alegria a da Igreja pelo nascimento de Cristo.
2ª
leitura
1
Tessalonicenses 5, 16-24
Irmãos:
16Vivei sempre alegres, 17orai sem cessar, 18dai graças em todas as circunstâncias,
pois é esta a vontade de Deus a vosso respeito
A
leitura contém em parte recomendações finais da Carta. Entre os conselhos,
S. Paulo insiste na alegria – «Vivei sempre alegres»– (v. 16), que é uma virtude
profundamente cristã, consequência lógica da nossa condição de filhos de Deus. Daqui
os apelos constantes do N. T. a viver a alegria: Filp
2, 18; 3, 1; 4, 4; 2 Cor 2, 11; 7, 4; Col 1, 24; Mt 5, 12; Jo 15, 11;
16, 22.24. 17, 13.
18
«É esta a vontade de Deus»: que estejamos sempre alegres, rezemos sem cessar
e demos acções de graças sempre; e isto «
19-21
«Não apagueis o Espírito... mas avaliai tudo, conservando
o que é bom». Há aqui uma referência aos dons carismáticos – atribuídos ao
Espírito Santo –, dons concedidos aos fiéis para o bem espiritual dos outros,
concretamente ao dom da profecia; mais do que para adivinhar, este servia
para «edificar, exortar e consolar» (cf. 1 Cor 14, 1-15). Parece que esta
exortação vai dirigida aos chefes da comunidade, para que não se oponham sistematicamente
aos carismas suscitados por Deus nos fiéis, uma recomendação fortemente expressiva,
pois o Espírito Santo é por excelência luz e fogo. Não é a Hierarquia quem
programa a acção do Espírito Santo, «que sopra onde quer» (Jo 3, 8), mas ela tem a missão de avaliar e discernir a genuinidade
dos carismas (cf. Lumen Gentium, n.º 12).
24
«É fiel Aquele que vos chama». Aqui está o firme garantia da perseverança
na graça e na vocação cristã. S. Paulo, na linha da doutrina já revelada no
A. T., insiste frequentemente na fidelidade divina: 1 Cor 1, 9; 10,
13; 2 Cor 1, 18; Filp 1, 6; 2 Tes 3, 3; 2 Tim 1,
12…
Evangelho
São
João 1, 6-8.19-28
6Apareceu
um homem enviado por Deus, chamado João. 7Veio como testemunha, para dar testemunho
da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8Ele não era a luz,
mas veio para dar testemunho da luz. 19Foi este o testemunho de João, quando
os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem:
«Quem és tu?» 20Ele confessou a verdade e não negou; ele confessou: «Eu não
sou o Messias». 21Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És
Elias?», «Não sou», respondeu ele. «És o Profeta?».
Ele respondeu: «Não». 22Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar
uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes
de ti mesmo?» 23Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai
o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». 24Entre os enviados havia
fariseus 25que lhe perguntaram: «Então, porque baptizas,
se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» 26João respondeu-lhes: «Eu
baptizo em água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis:
27Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia
das sandálias». 28Tudo isto se passou em Betânia,
além Jordão, onde João estava a baptizar.
O
texto evangélico é extraído das referencias a João Baptista que aparecem no
Prólogo do IV Evangelho e do início da narrativa joanina.
6-8
«Um homem… chamado João» O único João de que se fala no IV Evangelho é o Baptista,
sem nunca contar a sua vida e pregação (como os Sinópticos: cf. Lc
3, 1-22 par.); apenas se refere o seu testemunho a favor de Jesus (1, 15.19-35;
3,27-30; 5,33), a fim de que todos acreditassem.
19-28
Nesta secção deixa-se ver o prestígio excepcional do Baptista e a sua humildade,
bem como o ambiente de expectativa messiânica. É interessante notar como o
IV Evangelho abre com o testemunho de João (Baptista), e termina com o do Evangelista (João), ambos apontando
Cristo como o Cordeiro de Deus imolado: 19, 35-36.
A
propósito de Elias, ver Mal 3, 23; Sir 48, 10-11; Mt 11, 14; 17,
19; e de o Profeta, ver Dt 18, 15; Jo
6, 14; Act 3, 22.
19
«Os judeus». S. João costuma designar assim os chefes judaicos, e geralmente
com uma conotação de inimigos de Jesus. Isto explica-se
por escrever para cristãos vindos da gentilidade
e a muitos anos de distância dos acontecimentos (estamos perto do ano 100),
por isso não implica anti-judaísmo. Os «levitas» pertencentes à tribo sacerdotal
de Levi; eram os auxiliares dos sacerdotes, e não podiam oferecer os sacrifícios.
20
«Ele confessou a verdade e não negou. Confessou...»
Esta insistência do Evangelista põe em evidência a hombridade e rectidão
do Baptista, assim como a especial força do seu testemunho. É também de supor
que esta insistência tenha por objectivo animar
os fiéis a confessarem a sua fé em Cristo, apesar do furor das perseguições.
21
«Elias… o profeta». Segundo a crença popular, Elias, elevado ao céu sem morrer
(cf. 2 Re 2, 11-12), deveria regressar no fim dos
tempos: Mal 3, 23 (4, 5); Sir 48, 10; Mt 17, 10-13.
Note-se que não perguntam a João se ele é um profeta, mas o profeta. Com efeito,
os judeus esperavam um profeta distinto do Messias para introduzir os tempos
messiânicos, apoiados em Dt 18, 15. Também a Regra
da Comunidade, daquela época, achada nas grutas do Mar Morto, fala da chegada
de um novo profeta que acompanhará os dois Messias esperados pelos essénios:
um, sacerdote, da tribo de Levi, e outro, rei, da tribo de Judá.
26
«Eu baptizo em água». Baptizar
era mergulhar na água. Tratava-se dum banho ritual que significava a purificação
legal de alguma impureza prevista pela Torá escrita
ou oral. Na época, existia também o baptismo dos
prosélitos, para incorporar um gentio no judaísmo, e ainda o baptismo
dos essénios, um rito de iniciação e purificação dos adeptos que
entravam na seita de Qumrã. O baptismo
de João não era um rito de incorporação ou de iniciação, mas de conversão
interior; as palavras de exortação do Baptista e o reconhecimento público
e humilde dos pecados dispunham o penitente para vir a receber a graça de
Cristo, que já vivia entre o povo, mas que o povo não conhecia na sua qualidade
de Messias. Os profetas tinham anunciado uma purificação com a
água nos tempos messiânicos: Zac 13, 1; Jer 4, 14; Ez 36, 25; 37, 23. O
baptismo de João dispunha para a limpeza da alma, mas o Baptismo de Jesus concede eficazmente o perdão dos pecados
(cf. Mt 3, 11; Mc 1, 4). Dadas as
circunstâncias da época, o simbolismo do rito de baptizar
era então muito mais evidente do que nos nossos dias, mas a eficácia do Baptismo de Jesus só se pode captar pela fé.
28 «Em Betânia, além Jordão», em frente de Jericó, na margem esquerda do rio (cf. Jo 10, 39-40), é diferente da terra de Lázaro (cf. Jo 11, 1.18), a uns três quilómetros a leste de Jerusalém.