4º Domingo de Páscoa

(Pe. Geraldo Morujão)

 

1ª Leitura

Actos 2, 14a.36–41

No dia de Pentecostes, 14aPedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: 36«Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». 37Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» 38Pedro respondeu–lhes: «Convertei–vos e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, 39porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». 40E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai–vos desta geração perversa». 41Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Baptismo, e naquele dia juntaram–se aos discípulos cerca de três mil pessoas.

 

36 “Deus fez Senhor e Messias esse Jesus”. É evidente que Jesus não é feito Senhor, isto é, Deus e Messias, só após a prova a que foi sujeito (a Sua Paixão e Morte), mediante a Sua Ressurreição e glorificação. No plano divino, era a Ressurreição de Jesus que devia manifestar plenamente a sua condição e poder divinos e fazê-Lo entrar no gozo perfeito da glória que Lhe competia como Pessoa divina e Messias (cf. Lc 24, 26). O verbo grego “epóiêsen” (fez) parece ser a tradução do verbo hebraico “xamó”: “­colocou-O como”.

38 “O Baptismo em nome de Jesus Cristo”. É chamado assim, “em nome de Jesus”, para o distinguir de outros baptismos correntes na época, como o de João e o dos prosélitos. Chama-se “de Jesus”, não só por ter sido instituído por Jesus, mas também porque nos faz per­tencer a Cristo, incorporando-nos n’Ele (cf. Rom 6, 3; Gal 3, 27). Esta expressão nada nos diz da fórmula ritual usada na administração do Sacramento, que seria a trinitária, como que consta de Mt 28, 19.

“Recebereis o dom do Espírito Santo”. Não se designam aqui os chamados “sete dons do Espírito Santo”, mas sim o dom (que é) o Espírito Santo (trata-se de um “genitivo epexegético, ou de aposição”, como lhe chamam os gramáticos). Não é fácil de saber se o texto se refere à recepção do Espirito Santo mediante o Baptismo ou mediante a imposição das mãos no Sacramento da Confirmação (cf. Act 8, 17; 19, 6).

39 “Quantos de longe”. É uma referência aos gentios (cf. Act 22, 21; Ef 2, 13).

 

2ª Leitura

1 Pedro 2, 20b–25

Caríssimos: 20bSe vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência, isto é uma graça aos olhos de Deus. 21Para isto é que fostes chamados, porque Cristo sofreu também por vós, deixando–vos o exemplo, para que sigais os seus passos. 22Ele não cometeu pecado algum e na sua boca não se encontrou mentira. 23Insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava–Se Àquele que julga com justiça. 24Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, no madeiro da cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fomos curados. 25Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.

 

Os vv. 21b-25 formam um hino a Cristo, muito belo, com uma alusão final ao cumprimento da profecia do Servo de Yahwéh (4º canto: Is 52, 13 – 53, 12) e ao Bom Pastor (cf. Jo 10, 11-16; 21, 15-19); também se pode ver uma alusão a Ez 34, 11-16, onde é o próprio Deus que vem apascentar as suas ovelhas dispersas (alusão em que se pode ver um deraxe cristológico: a aplicação a Jesus do que no A. T. se diz de Yahwéh).

Os conselhos que aqui temos são dirigidos particularmente aos escravos (cf. v. 18). Não sendo possí­vel então acabar com uma ordem social injusta, como era a escravatura, Pedro não desiste de ajudar os escravos a santificarem-se na condição a  que estão sujeitos, imitando a Cristo – seguindo os seus passos – sofredor e obediente até à morte: sendo inocente “sofreu por vós” (v. 21), suportou os nossos pecados… pelas suas chagas fomos curados” (v. 24). Portanto, se os que são escravos forem tratados de modo injusto, que se deixem de lamentações inúteis, mas suportem tudo como Jesus, que “Se entregava Àquele que julga com justiça”, que “não pagava com injúrias” e “não respondia com ameaças” (v. 23). Esta exortação mantém actualidade para nós, hoje, já que é  frequente ter de “suportar sofrimentos por fazer o bem” (v. 30). E “isto é uma graça aos olhos de Deus” (v. 20b).

 

Evangelho

São João 10, 1–10

Naquele tempo, disse Jesus: 1«Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. 2Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3O porteiro abre–lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva–as para fora. 4Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem–no, porque conhecem a sua voz. 5Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». 6Jesus apresentou–lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. 7Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. 8Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. 9Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. 10O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

 

No capítulo 10 de S. João podem ver-se duas parábolas, as únicas do IV Evangelho: a parábola do pastor e o ladrão (1-6) e a do pastor e o mercenário (11-13), ambas explicadas por Jesus. Neste ano, temos a primeira.

1-5      Para uma recta compreensão da parábola devem-se ter presentes os costumes pastoris da Palestina. Durante o dia, os rebanhos dispersavam-se pelas poucas pastagens daquelas zonas pobres. À noite, especialmente a partir da Primavera, eram recolhidos em recintos descobertos, rodeados de uma sebe ou pequeno muro. Nesta cerca, que faz de “aprisco”, era frequente reunirem-se vários rebanhos, que ficam a ser vigiados de noite por algum guarda pago, um “mercenário”, ao passo que os pastores se albergavam em cabanas armadas nas proximidades. De manhã, cada pastor vinha à porta do recinto chamar as suas próprias ovelhas que já lhe conhecem o grito habitual e que vão atrás dele para as pastagens. Quem não entrar pela porta, mas saltar o muro é “ladrão e salteador”, e “não vem senão para roubar, matar e destruir” (v. 10) e não para apascentar o rebanho.

7-10 O sentido da parábola é claro e fica explicado pelo Senhor. Parte de que o Povo de Deus é o rebanho de Yahwéh (Ez 34). Aqueles que, sem mandato divino, vieram antes de Jesus são “ladrões e salteadores” (v. 8), que cuidam só dos interesses próprios, inimigos e rivais de Jesus, causando destruição no rebanho (v. 10), ao passo que Jesus, e só Ele, que veio para dar a vida em abundância (v. 10), é o autêntico Pastor. Jesus apresenta-se como a “Porta” do redil, a porta por onde as ovelhas têm de passar para chegar à salvação e ter a vida eterna, “a vida em abundância”. No v. 7, de acordo com os vv. 1-2,  como a porta que dá acesso ao aprisco, a sua Igreja: assim Jesus indica que só são legítimos pastores, os que passam por Cristo, recebendo d’Ele o mandato; os demais pastores só trazem  ruína ao rebanho.