6º DOMINGO DA PÁSCOA B
21 de Maio de 2006
Tema do 6º Domingo da Páscoa
A liturgia do 6º Domingo da
Páscoa convida-nos a contemplar o amor de Deus, manifestado na pessoa, nos
gestos e nas palavras de Jesus e dia a dia tornado presente na vida dos homens
por acção dos discípulos de Jesus.
A segunda leitura apresenta uma
das mais profundas e completas definições de Deus: “Deus é amor”. A vinda de
Jesus ao encontro dos homens e a sua morte na cruz revelam a grandeza do amor
de Deus pelos homens. Ser “filho de Deus” e “conhecer a Deus” é deixar-se
envolver por este dinamismo de amor e amar os irmãos.
No Evangelho, Jesus define as
coordenadas do “caminho” que os seus discípulos devem percorrer, ao longo da
sua marcha pela história… Eles são os “amigos” a quem Jesus revelou o amor do
Pai; a sua missão é testemunhar o amor de Deus no meio dos homens. Através
desse testemunho, concretiza-se o projecto salvador de Deus e nasce o Homem
Novo.
A primeira leitura afirma que
essa salvação oferecida por Deus através de Jesus Cristo, e levada ao mundo
pelos discípulos, se destina a todos os homens e mulheres, sem excepção. Para
Deus, o que é decisivo não é a pertença a uma raça ou a um determinado grupo
social, mas sim a disponibilidade para acolher a oferta que ele faz.
LEITURA I – Act
10,25-26.34-35.44-48
Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias,
Pedro chegou a casa de Cornélio.
Este veio-lhe ao encontro
e prostrou-se a seus pés.
Mas Pedro levantou-o, dizendo:
«Levanta-te, que eu também sou um
simples homem».
Pedro disse-lhe ainda:
«Na verdade, eu reconheço
que Deus não faz acepção de pessoas,
mas, em qualquer nação,
aquele que O teme e pratica a
justiça é-Lhe agradável».
Ainda Pedro falava,
quando o Espírito desceu
sobre todos os que estavam a
ouvir a palavra.
E todos os fiéis convertidos do
judaísmo,
que tinham vindo com Pedro,
ficaram maravilhados ao verem que
o Espírito Santo
se difundia também sobre os
gentios,
pois ouviam-nos falar em diversas
línguas e glorificar a Deus.
Pedro então declarou:
«Poderá alguém recusar a água do
Baptismo
aos que receberam o Espírito
Santo, como nós?»
E ordenou que fossem baptizados
em nome de Jesus Cristo.
Então, pediram-lhe que ficasse
alguns dias com eles.
AMBIENTE
O episódio do livro dos Actos dos
Apóstolos que a leitura de hoje nos propõe faz parte de uma secção (cf.
9,32-11,18) cujo protagonista é Pedro. O tema central desta secção é a chegada
do cristianismo aos pagãos.
A cena situa-nos em Cesareia, a
grande cidade da costa palestina onde residia, habitualmente, o procurador
romano da Judeia. No centro da cena está Cornélio, um centurião romano, que era
“piedoso e temente a Deus”. O episódio refere-se à visita que Pedro faz a
Cornélio, durante a qual lhe anuncia Jesus. Como resultado desse anúncio, dá-se
a conversão de Cornélio e de toda a sua família.
Este episódio tem uma especial
importância no esquema imaginado por Lucas para a expansão da Igreja… Cornélio
é o primeiro pagão oficialmente admitido na comunidade de Jesus (em Act 8,26-40
fala-se de um etíope que foi baptizado por Filipe; mas esse etíope era já
“prosélito” – isto é, simpatizante do judaísmo). Em relação ao pagão Cornélio,
não há indicação de que ele estivesse ligado à religião judaica. A sua
conversão marca uma viragem decisiva na proclamação do Evangelho que, a partir
deste momento, se abre também aos pagãos.
Para os primeiros cristãos
(oriundos do mundo judaico), não era claro que os pagãos tivessem acesso à
salvação e que pudessem entrar na Igreja de Jesus. O pagão era um ser impuro,
em casa de quem o bom judeu estava proibido de entrar, a fim de não se
contaminar. Quereria Deus que a salvação fosse também anunciada aos pagãos?
Para Lucas, é perfeitamente claro
que Deus também quer oferecer a salvação aos pagãos. Para deixar isso bem
claro, Lucas põe Deus a dirigir toda a trama… É Deus que, numa visão, pede a
Cornélio que mande chamar Pedro (cf. Act 10,1-8); e é Deus que arrebata Pedro
“em êxtase” e o prepara para ir ao encontro de Cornélio (cf. Act 10,9-23). A
conversão de Cornélio será, basicamente, histórica; as “visões” e os detalhes
são, provavelmente, o cenário que Lucas monta para apresentar a sua catequese.
Fundamentalmente, Lucas está interessado em deixar claro que Deus quer que a
sua proposta de salvação chegue a todos os homens, sem excepção.
MENSAGEM
Depois de descrever a recepção de
Pedro em casa de Cornélio, Lucas põe na boca de Pedro um discurso (do qual, no
entanto, a leitura que nos é proposta só apresenta um pequeno extracto) onde
ecoa o kerigma primitivo. Nesse discurso, Pedro anuncia Jesus (vers. 38a) a sua
actividade (“andou de lugar em lugar fazendo o bem e curando todos os que eram
oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele” – vers. 38b), a sua morte
(vers. 39b), a sua ressurreição (vers. 40) e a dimensão salvífica da acção de
Jesus (vers. 43b). É este o anúncio que Jesus encarregou os primeiros discípulos
de testemunharem ao mundo inteiro.
O nosso texto acentua,
especialmente, o facto de a mensagem da salvação se destinar a todas as nações,
sem distinção de pessoas, de raças ou de povos. Logo no início do discurso,
Pedro reconhece que “Deus não faz acepção de pessoas; em qualquer nação, aquele
que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável” (vers. 34-35). Portanto, o
anúncio sobre Jesus deve chegar a todos os cantos da terra.
Depois do anúncio feito por
Pedro, há a efusão do Espírito “sobre quantos ouviam a Palavra” (vers. 44), sem
distinção de judeus ou pagãos (vers. 45). O resultado do dom do Espírito é
descrito com os mesmos elementos que apareceram no relato do dia do
Pentecostes: todos “falavam línguas” e “glorificavam a Deus” (vers. 46). É a
confirmação directa de que Deus oferece a salvação a todos os homens e
mulheres, sem qualquer excepção. Pedro é o primeiro a tirar daí as devidas
conclusões e a baptizar Cornélio e toda a sua família.
Os primeiros cristãos, oriundos
do mundo judaico e marcados pela mentalidade judaica, consideravam que a
salvação era, sobretudo, um dom de Deus para os judeus; os pagãos poderiam
eventualmente ter acesso à salvação, desde que se convertessem ao judaísmo,
aceitassem a Lei de Moisés e a circuncisão. O Espírito Santo veio, contudo,
mostrar que a salvação oferecida por Deus, trazida por Cristo e testemunhada
pelos discípulos, não é património ou monopólio dos judeus ou dos cristãos
oriundos do judaísmo, mas um dom oferecido a todos os homens e mulheres que têm
o coração aberto às propostas de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
• O nosso texto pretende deixar
claro que a salvação oferecida por Deus através de Jesus Cristo é um dom
destinado a todos os homens e mulheres. Para Deus, o que é decisivo não é a
pertença a uma raça ou a um determinado grupo social, mas sim a disponibilidade
para acolher a oferta que Ele faz. A salvação só não chega àqueles que se
fecham no orgulho e na auto-suficiência, recusando os dons de Deus. O Baptismo
foi, para todos nós, o momento do nosso “sim” a Deus e à salvação que Ele
oferece; mas é preciso que, em cada instante, renovemos esse primeiro “sim” e
que vivamos numa permanente disponibilidade para acolher Deus, as suas
propostas, os seus dons.
• Para nós, a ideia de que Deus
não exclui ninguém da salvação e não faz acepção de pessoas parece um dado
perfeitamente lógico e evidente. No entanto, a lógica universalista de Deus
deve convidar-nos a reflectir acerca da forma como, na prática, acolhemos os
irmãos que caminham ao nosso lado… O Deus que ama todos os homens, sem
excepção, convida-nos a acolher todos os irmãos – mesmo os “diferentes”, mesmo
os incómodos – com bondade, com compreensão, com amor; o Deus que derrama sobre
todos a sua salvação convida-nos a não discriminar “bons” e “maus”, “santos” e
“pecadores” (frequentemente, os nossos juízos acerca da “bondade” ou da
“maldade” dos outros falham redondamente); o Deus que convida cada homem e cada
mulher a integrar a comunidade da salvação diz-nos que temos de acolher e amar
todos, independentemente da sua raça, da cor da sua pele, da sua origem, da sua
preparação cultural, do seu lugar na escala social. Não apenas em teoria, mas
sobretudo nos nossos gestos concretos, somos chamados a anunciar esse mundo de
Deus, sem exclusão, sem marginalização, sem intolerância, sem preconceitos.
• Quando Pedro chega a casa de
Cornélio, este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés… Mas Pedro
disse-lhe imediatamente: «levanta-te, que eu também sou um simples homem»
(vers. 25-26). A atitude humilde de Pedro faz-nos pensar como são ridículas e
desprovidas de sentido certas tentativas de afirmação pessoal diante dos
irmãos, certas poses de superioridade, a busca de privilégios e de honras, as
lutas pelos primeiros lugares… Aqueles a quem, numa comunidade, foi confiada a
responsabilidade de presidir, de coordenar, de organizar, de animar, devem
sentir-se “simples homens”, humildes instrumentos de Deus. A sua missão é
testemunhar Jesus e não procurar privilégios ou a adoração dos irmãos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 97
(98)
Refrão 1: O Senhor manifestou a
salvação a todos os povos.
Refrão 2: Diante dos povos
manifestou Deus a salvação.
Cantai ao Senhor um cântico novo
pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço
Lhe deram a vitória.
O Senhor deu a conhecer a
salvação,
revelou aos olhos das nações a
sua justiça.
Recordou-Se da sua bondade e
fidelidade
em favor da casa de Israel.
Os confins da terra puderam ver
a salvação do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai.
LEITURA II – 1 Jo 4,7-10
Leitura da Primeira Epístola de
São João
Caríssimos:
Amemo-nos uns aos outros,
porque o amor vem de Deus
e todo aquele que ama nasceu de
Deus e conhece a Deus.
Quem não ama não conhece a Deus,
porque Deus é amor.
Assim se manifestou o amor de
Deus para connosco:
Deus enviou ao mundo o seu Filho
Unigénito,
para que vivamos por Ele.
Nisto consiste o amor:
não fomos nós que amámos a Deus,
mas foi Ele que nos amou
e enviou o seu Filho
como vítima de expiação pelos
nossos pecados.
AMBIENTE
A primeira Carta de João é, como
vimos nos domingos anteriores, um escrito destinado às Igrejas joânicas da Ásia
Menor, afectadas pelos ensinamentos de certas seitas heréticas. Essas seitas
(que negavam elementos fundamentais da proposta cristã a propósito da
encarnação de Cristo e do “mandamento do amor”) traziam os cristãos confusos e
baralhados, sem saberem o caminho da verdadeira fé. Nesse contexto, o autor da
carta vai apresentar uma espécie de síntese da doutrina cristã, detendo-se
especialmente a esclarecer as questões mais polémicas.
Uma dessas questões polémicas (e
à qual o autor da primeira Carta de João dá grande importância) é a questão do
amor ao próximo. Os hereges pré-gnósticos afirmavam que o essencial da fé
residia na vida de comunhão com Deus e negligenciavam as realidades do mundo.
Achavam que se podia descobrir “a luz” e estar próximo de Deus, mesmo odiando o
próximo (cf. 1 Jo 2,9). Ora, de acordo com o autor da primeira Carta de João, o
amor ao próximo é uma exigência central da experiência cristã. A essência de
Deus é amor; e ninguém pode dizer que está em comunhão com Ele se não se deixou
contagiar e embeber pelo amor.
O texto que nos é proposto
pertence à terceira parte da carta (cf. 1 Jo 4,7-5,12). Aí, o autor estabelece
como critério da vida cristã autêntica a relação entre o amor a Deus e o amor
aos irmãos. É nessa dupla dimensão que os cristãos devem encontrar a sua
identidade.
MENSAGEM
Como cenário de fundo da reflexão
que o autor da primeira Carta de João apresenta, está a convicção de que “Deus
é amor”. A expressão sugere que a característica mais marcante do ser de Deus é
o amor; a actividade mais específica de Deus é amar. A prova indesmentível de
que Deus é amor é o facto de Ele ter enviado o seu único Filho ao encontro dos
homens, para os libertar do egoísmo, do sofrimento e da morte (vers. 9). Jesus
Cristo, o Filho, cumprindo o plano do Pai, mostrou em gestos concretos,
visíveis, palpáveis, o amor de Deus pelos homens, sobretudo pelos mais pobres,
pelos excluídos, pelos marginalizados… Lutou até à morte para libertar os
homens da escravidão, da opressão, do egoísmo, do sofrimento; aceitou morrer
para nos indicar que o caminho da vida eterna e verdadeira é o caminho do dom
da vida, da entrega a Deus e aos irmãos, do amor que se dá completamente sem
guardar nada para si. Mais ainda: esse amor derrama-se sobre o homem mesmo
quando ele segue caminhos errados e recusa Deus e as suas propostas. O amor de
Deus é um amor incondicional, gratuito, desinteressado, que não exige nada em
troca (vers. 10).
Os crentes são “filhos de Deus”.
É a vida de Deus que circula neles e que deve transparecer nos seus gestos…
Ora, se Deus é amor (e amor total, incondicional, radical), o amor deve ser uma
realidade sempre presente na vida dos “filhos de Deus. Quem “conhece” Deus –
isto é, quem vive numa relação próxima e íntima com Deus – tem de manifestar em
gestos concretos essa vida de amor que lhe enche o coração (vers. 8). Os que
“nasceram de Deus” devem, pois, amar os irmãos com o mesmo amor incondicional,
desinteressado e gratuito que caracteriza o ser de Deus (vers. 7). O amor aos
irmãos não é, pois, algo de acessório, de secundário, para o crente; mas é algo
de essencial, de obrigatório. Ser “filho de Deus” e viver em comunhão com Deus,
exige que o amor transpareça nos gestos de todos os dias e nas relações que
estabelecemos uns com os outros.
ACTUALIZAÇÃO
• “Deus é amor”. O autor da
primeira Carta de João não chegou a esta definição de Deus através de raciocínios
académicos e abstractos, mas através da constatação do modo de actuar de Deus
em relação aos homens. Sobretudo, ele “viu” o que aconteceu com Jesus e como
Jesus mostrou, em gestos concretos, esse incrível amor de Deus pela humanidade.
João convida-nos a contemplar Jesus e a tirar conclusões sobre o amor de Deus;
convida-nos, também, a reparar nessas mil e uma pequenas coisas que trazem à
nossa existência momentos únicos de alegria, de felicidade, de paz e a perceber
nelas sinais concretos do amor de Deus, da sua presença ao nosso lado, da sua
preocupação connosco. A certeza de que “Deus é amor” e que Ele nos ama com um
amor sem limites, é o melhor caminho para derrubar as barreiras de indiferença,
de egoísmo, de auto-suficiência, de orgulho que tantas vezes nos impedem de
viver em comunhão com Deus.
• O que é “nascer de Deus” ou ser
“filho de Deus”? É ter sido baptizado e ter passado, por um acto institucional,
a pertencer à Igreja? “Nascer de Deus” é receber vida de Deus e deixar que a
vida de Deus circule em nós e se transforme
• Se somos “filhos” desse Deus
que é amor, “amemo-nos uns aos outros” com um amor igual ao de Deus – amor
incondicional, gratuito, desinteressado. Um crente não pode passar a vida a
olhar para o céu, ignorando as dores, as necessidades e as lutas dos irmãos que
caminham pela vida ao seu lado… Também não pode fechar-se no seu egoísmo e
comodismo e ignorar os dramas dos pobres, dos oprimidos, dos marginalizados…
Não pode, tampouco, ser selectivo e amar só alguns, excluindo os outros… A vida
de Deus que enche os corações dos crentes deve manifestar-se em gestos
concretos de solidariedade, de serviço, de dom, em benefício de todos os
irmãos.
ALELUIA – Jo 14,23
Aleluia. Aleluia.
Se alguém Me ama, guardará a
minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a
nossa morada.
EVANGELHO – Jo 15,9-17
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São João
Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos:
«Assim como o Pai Me amou, também
Eu vos amei.
Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus
mandamentos,
permanecereis no meu amor.
Se guardardes os meus
mandamentos,
permanecereis no meu amor,
Assim como Eu tenho guardado os
mandamentos de meu Pai
e permaneço no seu amor.
Disse-vos estas coisas,
para que a minha alegria esteja
em vós
e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento:
que vos ameis uns aos outros,
como Eu vos amei.
Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos
amigos.
Vós sois meus amigos, se fizerdes
o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos,
porque o servo não sabe o que faz
o seu senhor;
mas chamo-vos amigos,
porque vos dei a conhecer tudo o
que ouvi a meu Pai.
Não fostes vós que Me
escolhestes;
fui eu que vos escolhi e
destinei,
para que vades e deis fruto
e o vosso fruto permaneça.
E assim, tudo quanto pedirdes ao
Pai em meu nome,
Ele vo-lo concederá.
O que vos mando é que vos ameis
uns aos outros».
AMBIENTE
O Evangelho deste domingo
situa-nos, outra vez, em Jerusalém, numa noite de Quinta-feira do mês de Nisan
do ano trinta. A festa da Páscoa está muito próxima e a cidade está cheia de
forasteiros. Jesus também está na cidade com o seu grupo de discípulos.
Há já alguns dias que as
autoridades judaicas tinham decidido eliminar Jesus (cf. Jo 11,45-57). A morte
na cruz é agora mais do que uma probabilidade: é o cenário imediato; e Jesus
está plenamente consciente disso. Os discípulos também já perceberam que estão
num momento decisivo e que, nas próximas horas, Jesus lhes vai ser tirado.
Estão apreensivos e com medo. Será que a aventura com Jesus chegou ao fim?
É neste contexto que podemos
situar a última ceia de Jesus com os discípulos. Trata-se de uma “ceia de
despedida” e tudo o que aí é dito por Jesus soa a “testamento final”… Jesus
sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos ficarão no mundo,
continuando e testemunhando o projecto do “Reino”. Nesse momento de despedida,
as palavras de Jesus recordam aos discípulos o essencial da mensagem e
apresentam-lhes as grandes coordenadas desse projecto que eles devem continuar
a concretizar no mundo.
No texto que nos é proposto, Jesus
procura apontar à sua comunidade (de ontem, mas também de hoje e de sempre) o
verdadeiro “caminho do discípulo” – o caminho da união a Jesus e ao Pai. Na
perícopa anterior (cf. Jo 15,1-8) Jesus tinha usado, para tratar este tema, a
imagem dos ramos (discípulos) que hão-de dar fruto (missão) pela sua união com
a videira (Jesus), plantada pelo agricultor (Deus); agora, Jesus fala dos
discípulos como “os amigos” que Ele escolheu para colaborarem com Ele na
missão.
MENSAGEM
Neste discurso de despedida de Jesus
aos discípulos, João propõe-nos uma catequese onde são apresentadas as
principais coordenadas desse “caminho” que os discípulos devem percorrer, após
a partida de Jesus deste mundo. João refere-se, de forma especial, à relação de
Jesus com os discípulos e à missão que os discípulos serão chamados a
desempenhar no mundo.
1. A relação do Pai com Jesus é o
modelo da relação de Jesus com os discípulos. O Pai amou Jesus e demonstrou-lhe
sempre o seu amor; e Jesus correspondeu ao amor do Pai, cumprindo os seus
mandamentos… Da mesma forma, Jesus amou os discípulos e demonstrou-lhes sempre
o seu amor; e os discípulos devem corresponder ao amor de Jesus, cumprindo os
seus mandamentos (vers. 9-10).
2. Quais são esses mandamentos do
Pai que Jesus procurou cumprir com total fidelidade e obediência? João
refere-se aqui, evidentemente, ao cumprimento do projecto de salvação que Deus
tinha para os homens e que confiou a Jesus. Jesus, com absoluta fidelidade,
cumpriu os “mandamentos” do Pai e apresentou aos homens uma proposta de
salvação… Libertou os homens da opressão da Lei, lutou contra as estruturas que
escravizavam os homens e os mantinham prisioneiros das trevas; ensinou os
homens a viver no amor – no amor que se faz serviço, doação, entrega até às
últimas consequências. Apresentou-lhes, dessa forma, um caminho de liberdade e
de vida plena. Da acção de Jesus nasceu o Homem Novo, livre do egoísmo e do
pecado, capaz de estabelecer novas relações com os outros homens e com Deus.
Os discípulos são o fruto da obra
de Jesus. Eles formam uma comunidade de homens livres, que acolheram e
assimilaram a proposta salvadora que o Pai lhes apresentou
3. Agora os discípulos, nascidos
da acção de Jesus, estão vinculados a Jesus. Devem, portanto, cumprir os
“mandamentos” de Jesus como Jesus cumpriu os “mandamentos” do Pai. Eles devem,
como Jesus, ser testemunhas da salvação de Deus e levar a libertação aos
irmãos. Essa proposta que Jesus faz aos discípulos é uma proposta que conduz à
vida, à realização plena, à alegria (vers. 11).
4. A proposta de salvação que
Jesus faz aos homens e da qual nascerá o Homem Novo resume-se no amor (“é este
o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei” – vers. 12).
Jesus amou totalmente, até às últimas consequências, até ao dom da vida (vers.
13). Como Jesus, através do amor, manifestou aos homens a salvação de Deus,
assim também devem fazer os discípulos. Eles devem amar-se uns aos outros com
um amor que é serviço simples e humilde, doação total, entrega radical. Desse
amor nasce a comunidade do Reino, a comunidade do mundo novo, que testemunha,
através do amor, a salvação de Deus. Deus faz-Se presente no mundo e age para
libertar os homens através desse amor desinteressado, gratuito, total, que tem
a marca de Jesus e que os discípulos são chamados a testemunhar.
5. Como é a relação entre Jesus e
esta comunidade de Homens Novos que aprenderam com Jesus a viver no amor e que
são as testemunhas no mundo da salvação de Deus?
Esta comunidade de homens novos,
que ama sem medida e que aceita fazer da própria vida um dom total aos irmãos,
é a comunidade dos “amigos” de Jesus (vers. 14). A relação que Jesus tem com os
membros dessa comunidade não é uma relação de “senhor” e de “servos”, mas uma
relação de “amigos”, pois o amor colocou Jesus e os discípulos ao mesmo nível.
Jesus continua a ser o centro do grupo, mas não se põe acima do grupo.
Estes “amigos” colaboram todos
numa tarefa comum. Têm todos a mesma missão (testemunhar, através do amor, a
salvação de Deus) e são todos responsáveis para que a missão se concretize. Os
discípulos não são servos a soldo de um senhor, mas amigos que, voluntariamente
e cheios de alegria e entusiasmo, colaboram na tarefa.
Entre esses “amigos”, há total
comunicação e confiança (o “servo” não conhece os planos do “senhor”; mas o
“amigo” partilha com o outro “amigo” os seus planos e projectos). Aos seus
“amigos”, Jesus comunicou-lhes o projecto de salvação que o Pai tinha para os
homens e também a forma de realizar esse projecto (através do amor, da entrega,
do dom da vida). Jesus revela Deus aos “amigos”, não através de enunciados
sobre o ser de Deus, mas mostrando, com a sua pessoa e a sua actividade, que o
Pai é amor sem limites e trabalha em favor do homem.
6. Os discípulos (os “amigos”)
são os eleitos de Jesus, aqueles que Ele escolheu, chamou e enviou ao mundo a
dar fruto (vers. 16a). Tal não significa que Jesus chame uns e rejeite outros;
significa que a iniciativa não é dos discípulos e que a sua aproximação à
comunidade do Reino é apenas uma resposta ao desafio que Jesus apresenta.
O objectivo desse chamamento é a
missão (“escolhi-vos e destinei-vos para que vades e deis fruto” – vers. 16b).
Jesus não quer constituir uma comunidade fechada, isolada, voltada para si
própria, mas uma comunidade que vá ao encontro do mundo, que continue a sua
obra, que testemunhe o amor, que leve a todos os homens o projecto libertador e
salvador de Deus. O resultado da acção dos discípulos de Jesus será o
nascimento do Homem Novo – isto é, de homens adultos, livres, responsáveis,
animados pelo Espírito, que reproduzem os gestos de amor de Jesus no meio do
mundo. Dessa forma, concretizar-se-á o projecto salvador de Deus. Esse “fruto”
deve permanecer – quer dizer, deve tornar-se uma realidade efectivamente
presente no mundo, capaz de transformar o mundo e a vida dos homens. Quanto
mais forte for a intensidade do vínculo que une os discípulos a Jesus, mais
frutos nascerão da acção dos discípulos.
Nessa acção, os discípulos não
estarão sozinhos. O amor do Pai e a união com Jesus sustentarão os discípulos
que, no meio do mundo, se empenham em realizar o projecto de salvar o homem
(16c).
7. O nosso texto termina com uma
nova referência ao mandamento de Jesus: “amai-vos uns aos outros” (vers. 17). O
amor partilhado é a condição para estar vinculado a Jesus e para dar fruto. Se
este mandamento se cumpre, Jesus estará sempre presente ao lado dos seus
discípulos; e, essa presença impulsionará a comunidade e sustentá-la-á na sua
actividade em favor do homem.
ACTUALIZAÇÃO
• As palavras de Jesus aos
discípulos na “ceia de despedida” deixam claro, antes de mais, que os
discípulos não estão sozinhos e perdidos no mundo, mas que o próprio Jesus
estará sempre com eles, oferecendo-lhes em cada instante a sua vida. Este é o
primeiro grande ensinamento do nosso texto: a comunidade de Jesus continuará,
ao longo da sua marcha pela história, a receber vida de Jesus e a ser
acompanhada por Jesus. Nos momentos de crise, de desilusão, de frustração, de
perseguição, não podemos esquecer que Jesus continua ao nosso lado, dando-nos
coragem e esperança, lutando connosco para vencer as forças da opressão e da
morte.
• Os discípulos são os “amigos”
de Jesus. Jesus escolheu-os, chamou-os, partilhou com eles o conhecimento e o
projecto do Pai, associou-os à sua missão; estabeleceu com eles uma relação de
confiança, de proximidade, de intimidade, de comunhão. Este tipo de relação que
Jesus quis estabelecer com os discípulos não exclui, no entanto, que Ele
continue a ser o centro e a referência, à volta da qual se constrói a
comunidade dos discípulos. Jesus é, de facto, o centro à volta do qual se
articula a vida das nossas comunidades? Que lugar é que Ele ocupa na nossa
vida? Como é que no dia a dia desenvolvemos e aprofundamos o nosso encontro e a
nossa comunhão com Ele?
• Fazer parte da comunidade dos
“amigos” de Jesus não é ficar “a olhar para o céu”, contemplando e admirando
Jesus; mas é aceitar o convite que Jesus faz no sentido de colaborar na missão
que o Pai lhe confiou e que consiste em testemunhar no mundo o projecto
salvador de Deus para os homens. Compete-nos a nós, os “amigos” de Jesus,
mostrar em gestos concretos que Deus ama cada homem e cada mulher – e de forma
especial os pobres, os marginalizados, os débeis, os pequenos, os oprimidos;
compete-nos a nós, os “amigos” de Jesus, eliminar o sofrimento, o egoísmo, a
miséria, a injustiça, tudo o que oprime e escraviza os irmãos e desfeia o
mundo; compete-nos a nós, os “amigos” de Jesus, sermos arautos da justiça, da
paz, da reconciliação, do amor; compete-nos a nós, “amigos” de Jesus,
denunciarmos os pseudo-valores que oprimem e escravizam os homens… Nós, os
“amigos” de Jesus, temos de ser testemunhas desse mundo novo que Deus quer
oferecer aos homens e que Jesus anunciou na sua pessoa, nas suas palavras e nos
seus gestos. Estamos, de facto, disponíveis para colaborar com Jesus nessa missão?
• Sobretudo, os “amigos” de Jesus
devem amar como ele amou. Jesus cumpriu os “mandamentos” do Pai – isto é, o
projecto de Deus para salvar e libertar os homens – fazendo da sua vida um dom
total de amor, sem limites nem condições; a cruz é a expressão máxima dessa
vida vivida exclusivamente para os outros. É esse o caminho que Jesus propõe
aos seus discípulos (“é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros
como Eu vos amei”). É aqui que reside a “identidade” dos discípulos de Jesus…
Os cristãos são aqueles que testemunham diante do mundo, com palavras e com
gestos, que o mundo novo que Deus quer oferecer aos homens, se constrói através
do amor. O que é que condiciona a nossa vida, as nossas opções, as nossas
tomadas de posição: o amor, ou o egoísmo? As nossas comunidades são, realmente,
cartazes vivos que anunciam o amor, ou são espaços de conflito, de divisão, de
luta pelos próprios interesses, de realização de projectos egoístas?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
6º DOMINGO DE PÁSCOA
(adaptadas de “Signes
d’aujourd’hui”)
1. A LITURGIA MEDITADA AO LONGO
DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana
anterior ao 6º Domingo de Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste
domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher
um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da
paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa
comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a
Palavra de Deus.
2. BILHETE DE EVANGELHO.
Jesus não se contentou em dizer:
«amai-vos uns aos outros». Antes e depois dele, muitos recomendaram isso. Mas
Jesus precisa: «Como o Pai Me amou, também Eu vos amei». Tudo está nesta
conjunção «como», porque Jesus pede para vivermos o que Ele próprio viveu. É
isso um verdadeiro testemunho. É o testemunho que Ele dá algumas horas antes da
sua última refeição, quando lava os pés aos seus discípulos, dizendo-lhes: «é
um exemplo que vos dei a fim de que vós façais também como Eu fiz». Isso chama-se
coerência. Jesus manifestou sempre a coerência entre as suas palavras e os seus
actos. Se Ele chama os discípulos «amigos» e não «servos», é porque os faz
confidentes do seu pensamento e convivas da sua refeição, e é pelo seu
testemunho, o do amor mútuo, que eles serão, por sua vez, autênticos
testemunhos.
3. À ESCUTA DA PALAVRA.
O amor, sempre o amor.
Não haverá exagero, na Igreja, em
falar sempre de amor? Muitos cristãos hoje, incluindo muitos jovens, têm
saudade de uma religião forte, que ensine a lei, os mandamentos e a exigência
da moral, recorrendo a uma estrita disciplina. Evidentemente, para que isso
seja eficaz, é preciso falar mais do pecado e insistir na ameaça das punições
divinas! Porém… Nestes nove versículos de São João, as palavras «amar», «amor»,
«amigo» aparecem doze vezes! Como fugir a isso? Jesus faz depender tudo de uma
fonte primeira: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no
meu amor». Falando do amor de Deus, cometemos muito facilmente o erro de
transpor para Deus a nossa maneira humana de amar. O amor que conhecemos
implica sempre uma reciprocidade: ser amado para amar, receber para dar.
Imaginamos então que o amor de Deus por nós depende da nossa maneira de o
receber e de lhe responder. Ora, fazendo assim, esquecemos a palavra de São
João: «não fomos nós que amámos Deus, foi Ele que primeiro nos amou». O amor de
Deus por nós existe antes de nós. Eu posso recusar este amor, mas Deus jamais
deixará de me amar. Nunca poderei esgotar o seu amor. Somente deixando-me amar
por Ele, chegarei, pouco a pouco, a amar como Ele nos ama!
4. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Ser verdadeiro.
Tenhamos, nesta semana, a coragem
de responder em verdade à declaração de amor que o Senhor nos faz. A cada um de
nós, Ele diz: «Escolhi-te». Sinceramente, no fundo de mim mesmo, o que
respondo? Sou verdadeiramente feliz por isso? Como é que esta escolha do Senhor
dá fruto?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES
DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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