7º Domingo da Páscoa
(Pe. Geraldo Morujão)
Primeira leitura:
Act 1, 12-14
Certamente que foi
escolhido este texto para nos ajudar a preparar a festa do Pentecostes, como os
primeiros que seguiram a Cristo, também com “Maria,
Mãe de Jesus”, perseverando, “unidos
em oração”. Note-se a importância dada à lista dos Apóstolos e como em
todas as quatro que aparecem no N. T., embora não contenham os nomes na mesma
ordem, Pedro é sempre o cabeça de lista.
Segunda Leitura:
1 Pe 4, 13-16
13 “Alegrai-vos…” Os destinatários desta carta, cristãos da Ásia
Menor, estariam a passar momentos difíceis de contradições e perseguição. A
finalidade da carta é a de exortar os fiéis a permanecerem firmes na fé, no
meio dum ambiente hostil, embora não pareça tratar-se ainda de uma perseguição
generalizada. Mas a carta não é um simples apelo à perseverança nas
adversidades, é também um convite à alegria, pois dessa maneira os cristãos
podem participar nos sofrimentos
redentores de Cristo, seguindo o seu
exemplo (cf. 1 Pe 2, 21). Alguns pensam que a Carta poderia ter sido ao
chegarem a Roma notícias das graves dificuldades para a perseverança dos
cristãos daquelas regiões, enquanto S. Paulo a quem estavam ligadas estas
comunidades andava pela Hispânia.
Evangelho:
Jo 17, 1-11
Este trecho é o início do capítulo
17 de S. João, chamado a “oração sacerdotal de Jesus”, por ser uma oração de
intercessão de Cristo-mediador, e também por conter o oferecimento supremo da
sua vida em sacrifício, mas é sobretudo uma oração sem paralelo com a de
qualquer criatura. Reflectindo uma forte tensão psicológica, ela corresponde
aos sentimentos mais profundos do coração de Cristo, quando chegou a sua hora (v. 1), e tem origem na própria oração do Senhor, ao mesmo
tempo que é a síntese mais completa e elevada da cristologia joanina,
profundamente sentida e meditada; nesta longa oração sente-se, juntamente com o
pulsar do coração do Senhor, o vivo pulsar do coração da Igreja que confessa a
fé em Jesus como Cristo enviado do Pai (v.
3). É uma prece solene pela manifestação da sua glória (vv. 1-5), pelos
discípulos presentes (vv. 6-19) e pelos futuros fiéis (vv. 20-26); no centro da
sua estrutura circular está a súplica
pela santificação dos discípulos em ordem ao seu envio ao mundo (vv. 17-19), entre as preces pela unidade
(vv. 11b-16 e 20-23) e os temas da revelação (vv. 6-11a e 25-26) e da glória
(vv. 1-5 e 24).
1-5 “Glorifica-Me... com a
glória que Eu tinha em Ti, antes de que houvesse mundo”. Jesus pede ao Pai
a glória, o esplendor próprio de Deus
para a Sua natureza humana, a sua glorificação que Lhe advirá da
eficácia redentora da Paixão, Morte e Ressurreição. A gloria que o Verbo tinha
como Deus desde toda a eternidade, antes que houvesse mundo, havia de se
comunicar em plenitude à Humanidade assumida. Esta, que já tinha refulgido
ocasional mente durante a Sua vida mortal (Jo 2, 11; 11, 4.40; cf. Mt 17, 2-5),
havia de brilhar com a Ressurreição e na parusia
(Mt 24, 30; 25, 31).
9 “Não rogo pelo mundo”. No entanto, Jesus veio para salvar o mundo
(Jo 3, 16-17; 17, 28.21). Mas aqui o mundo
é tomado no sentido negativo de potência hostil a Deus; são os próprios
homens que recusam a graça e, na sua auto-suficiência, se fecham a Deus e à sua
salvação (cf. Jo 6, 37.44.65). Esta oração sacerdotal
é muito em particular pelos seus discípulos e por aqueles que hão-de vir a crer
(v. 20).
Nossa Senhora do Rosário de Fátima
Apocalipse 21,1–5a
Eu, João, vi um
novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham
desaparecido, e o mar já não existia. Vi também a cidade santa, a nova
Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada
para o seu esposo. Do trono ouvi uma voz forte que dizia: «Eis a morada de Deus
com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio
Deus, no meio deles, será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus
olhos; nunca mais haverá morte, nem luto, nem gemidos, nem dor, porque o mundo
antigo desapareceu». Disse então Aquele que estava sentado no trono: «Vou
renovar todas as coisas».
1 “Um novo Céu e uma nova Terra”. Designação de todo o Universo novo,
isto é, renovado (isto significa o
adjectivo grego original). Esta renovação visa, sem dúvida, o aspecto moral:
renovação que indica, primariamente, a supressão do pecado. Não parece estar
excluída também uma renovação física, sobretudo tendo em conta o que se diz em
2 Pe 3, 10-13 e Rom 8, 19-
2 “A nova Jerusalém”: uma imagem da Igreja, a Esposa do Cordeiro (vv.
9-10): a noiva adornada para o Seu esposo. Também S. Paulo
chama a Igreja “a Jerusalém lá do alto,
que é nossa Mãe” (Gal 4, 26). Também é frequente, na Tradição cristã,
inclusive na Liturgia, como sucede no dia 13 de Maio, acomodar esta simbologia
a Nossa Senhora, a Esposa do Espírito Santo, Mãe e modelo da Igreja.
São João, 19, 25–27
Naquele tempo,
estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de
Cléofas, e Maria Madalena. Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse
a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua
Mãe». E, a partir daquela hora, o discípulo recebeu–a em sua casa.
25-27. Repare-se na solenidade deste relato: é uma cena central entre
as cinco relatadas por João no Calvário; a Virgem Maria é mencionada 6 vezes em
3 versículos, e há o recurso a uma fórmula solene
de revelação (“ao ver… disse… eis…”
). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de
Jesus para com a sua Mãe a fim de não a deixar ao desamparo, mas que o
Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo; com efeito, chegada
a hora de Jesus, é a hora de Ela
assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora.
A designação de “Mulher” assume, na
boca do Redentor, o novo Adão, o sentido da missão co-redentora de Maria: não é
chamada Mãe, mas sim Mulher, como nova Eva, Mãe da nova humanidade, por
alusão à “mulher” da profecia messiânica de Gn 3, 15. Por outro lado, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc
12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, que “a acolheu como coisa própria”. A
tradução mais corrente deste inciso (seguida pela tradução litúrgica) é: “recebeu-a em sua casa”, mas esta forma
de tradução empobrece de modo notável o rico sentido originário da expressão grega
“élabon eis tà idía”, uma expressão
usada mais quatro vezes
É também de notar que S. João, ao
contrário dos restantes Evangelistas, nunca se refere a Nossa Senhora com o
nome de Maria; sempre a designa como a Mãe
(de Jesus), um indício de ser tratada realmente como mãe; com efeito, ninguém
jamais nomeia a própria mãe com o nome dela: para o filho a mãe é simplesmente a mãe!