Domingo de Pentecostes
(Pe. Geraldo Morujão)
Missa da Vigília
Ezequiel 37, 1-14
Naqueles dias, 1a
mão do Senhor pairou sobre mim e o Senhor levou-me pelo seu espírito e
colocou-me no meio de um vale que estava coberto de ossos. 2Fez-me
andar à volta deles em todos os sentidos: os ossos eram em grande número, na
superfície do vale, e estavam completamente ressequidos. 3Disse-me o
Senhor: «Filho do homem, poderão reviver estes ossos?» Eu respondi: «Senhor
Deus, Vós o sabeis». 4Disse-me então: «Profetiza acerca destes ossos
e diz-lhes: Ossos ressequidos, escutai a palavra do Senhor. 5Eis o
que diz o Senhor Deus a estes ossos: Vou introduzir em vós o espírito e
revivereis. Hei-de cobrir-vos de nervos, encher-vos de carne e revestir-vos de
pele. 6Infundirei em vós o espírito e revivereis. Então sabereis que
Eu sou o Senhor».7Eu profetizei, segundo a ordem recebida. Quando eu
estava a profetizar, ouvi um rumor e vi um movimento entre os ossos que se
aproximavam uns dos outros. 8Vi que se tinham coberto de nervos, que
a carne crescera e a pele os revestia; mas não havia espírito neles. 9Disse-me
o Senhor: «Profetiza ao espírito, profetiza, filho do homem, e diz ao espírito:
Eis o que diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e sopra sobre
estes mortos, para que tornem a viver». 10Eu profetizei, como o
Senhor me ordenara, e o espírito entrou naqueles mortos; eles voltaram à vida e
puseram-se de pé: era um exército muito numeroso. 11Então o Senhor
disse-me: «Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eles
afirmaram: ‘Os nossos ossos estão ressequidos, desvaneceu-se a nossa esperança,
estamos perdidos’. 12Por isso, profetiza e diz-lhes: Assim fala o
Senhor Deus: Abrirei os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, meu povo,
para vos reconduzir à terra de Israel. 13Haveis de reconhecer que Eu
sou o Senhor, quando Eu abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar,
meu povo. 14Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de
fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, digo e faço».
A leitura é tirada da
última parte da obra de Ezequiel, que, a partir do cap. 33, reúne oráculos de
esperança e de renovação do povo (36, 16 – 39, 29) e de restauração templo e do
culto (40 – 48).
12 “Vos farei ressuscitar”. Não se trata aqui da ressurreição final,
mas do ressurgimento moral do povo de Deus, que, esmagado pelas duras provas do
cativeiro, se ergue de novo e é reconduzido à terra de Israel, segundo a célebre
visão dos ossos relatada nos primeiros versículos deste mesmo capítulo.
14 “Infundirei em vós o meu espírito” (cf. Ez 36, 27). Temos aqui um
anúncio profético da acção do Espírito Santo nas almas com a obra salvadora de
Cristo: “dar-vos-ei um coração novo e porei
em vós um espírito novo; arrancarei o coração de pedra das vossas carnes e
dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36, 26). S. Paulo, como faz na 2.ª
leitura de hoje, há-de insistir nesta ideia da acção do Espírito Santo nas
almas dos cristãos (Rom 8).
Romanos 8, 22-27
Irmãos: 22Nós sabemos que toda a
criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. 23E não
só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos
interiormente, esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo. 24É
em esperança que estamos salvos, pois ver o que se espera não é esperança: quem
espera o que já vê? 25Mas esperar o que não vemos é esperá-lo com
perseverança. 26Também o Espírito Santo vem em auxílio da nossa
fraqueza, porque não sabemos o que pedir nas nossas orações; mas o próprio
Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E Aquele que vê
no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, sabe que Ele
intercede pelos santos, em conformidade com Deus.
22 “Toda a criatura geme”. S. Paulo usa de
uma belíssima prosopopeia, propondo-nos a criação irracional a suspirar também
pela restauração da ordem do mundo transtornado pelo pecado. Na medida em que
os filhos de Deus santificam o mundo, todas as actividades terrenas, também
estas participam da glória dos filhos de Deus. De qualquer modo, o texto é de
difícil interpretação, sobre a qual não há acordo entre os estudiosos.
23 “Possuímos as primícias do Espírito”,
isto é, já possuímos o Espírito Santo, “mas sem que tenhamos ainda tudo o que
esta posse desde já nos garante” (Pirot-Clamer); embora já sejamos filhos
adoptivos de Deus (vv. 14-15), vivemos “esperando
a adopção filial” em plenitude, o que acontecerá só quando se vier a
verificar “a libertação do nosso corpo”,
isto é, de tudo o que em nós é carnal, sujeito à corrupção e à morte (cf. 2 Cor
5, 1-5).
26 “Gemidos inefáveis”. As íntimas moções
da graça, as inspirações do Espírito Santo na alma, não se podem definir, nem
sequer descrever.
São João 7, 37-39
7No último dia, o mais
solene da festa, Jesus estava de pé e exclamou: «Se alguém tem sede, venha a
Mim e beba: 38do coração daquele que acredita em Mim correrão rios
de água viva». 39Referia-se ao Espírito que haviam de receber os que
acreditassem n’Ele. O Espírito ainda não viera, porque Jesus ainda não tinha
sido glorificado.
Em cada um dos oito dias da
festa dos Tabernáculos, em solene procissão, o sumo sacerdote trazia, numa
jarra de oiro, água da fonte de Siloé para aspergir o altar do Templo, a fim de
recordar a prodigiosa água do Êxodo e pedir chuva abundante (cf. Ex 17, 1-7).
Pertenciam ao rito o canto de Is 12, 3 e a leitura de Ez 47. Não podia haver
melhor enquadramento para as palavras de Jesus à multidão que então se
aglomerava: “se alguém tem sede, venha a
Mim!”. As palavras de Jesus parecem aludir a Ez 36, 25ss, onde se anuncia
para os tempos messiânicos que o povo será purificado com uma água pura,
recebendo um Espírito novo, que lhe transformará o coração de pedra; essa água
é o Espírito Santo, que brotará simbolicamente do peito do Senhor aberto pela
lança (cf. Jo 19, 34), se derramará no Pentecostes (Act 2, 1-36) e se recebe
nos Sacramentos da iniciação cristã. Nas palavras de Jesus também se pode ver
uma evocação do convite da sabedoria divina em Sir, 24, 19 e Prov 9, 4-5.
Notar que gramaticalmente
são possíveis duas pontuações diferentes dos vv. 37-38: a da Neovulgata (a que
corresponde a tradução litúrgica), a saber, “Se
alguém tem sede, venha a Mim; e quem crê em Mim que sacie a sua sede! Como diz
a Escritura…”, e a que corresponde à Vulgata, “Se alguém tem sede, venha ter comigo e beba. Aquele que crê em Mim,
como diz a Escritura, correrão das suas entranhas rios de água viva”.
Segundo a primeira interpretação, trata-se do seio do Messias: do peito de
Cristo, atravessado pela lança, vem-nos o Espírito Santo, como fruto
maravilhoso da árvore da Cruz. Na segunda interpretação, trata-se do seio do
crente, a alma do homem santificado por Cristo.
Missa do Dia
Actos dos Apóstolos 2, 1-11
1Quando chegou o dia de
Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2Subitamente,
fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que
encheu toda a casa onde se encontravam. 3Viram então aparecer uma
espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um
deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar
outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. 5Residiam
em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do
céu. 6Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito
admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. 7Atónitos
e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? 8Então,
como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? 9Partos,
medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto
e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da
Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, 11tanto judeus como
prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as
maravilhas de Deus».
1 “Pentecostes”
significa, em grego, quinquagésimo (dia
depois da Páscoa). Os Judeus chamavam-lhe festa
das Semanas (em hebraico, xevuôth,
7 semanas depois da Páscoa). Era uma festa em que se ofereciam a Deus as
primícias das colheitas, num gesto de acção de graças. Mais tarde, os rabinos
também lhe deram o sentido da comemoração da promulgação da Lei no Sinai.
3 “Línguas de fogo que se iam dividindo”. O fogo toma esta forma
talvez para significar o dom das línguas. Esta nova divisão das línguas tem a
finalidade de unir os homens numa mesma fé e não de os separar com aquela
divisão das línguas de que se fala no Génesis (11, 1-9).
4 “Começaram a falar outras línguas”. Jesus tinha anunciado este
prodígio, até então desconhecido (cf. Mc 16,
17). Trata-se de um fenómeno sobrenatural, não do simples fenómeno de
exaltação. No entanto, não há total acordo entre os exegetas para explicar o
milagre das línguas do Pentecostes. A explicação mais habitual é que os
Apóstolos falaram então verdadeiros idiomas novos (cf. Mc 16, 17), mas em Actos
não se fala de línguas novas (kainais),
como em Marcos, mas de línguas diferentes
(cf. v. 4: hetérais). Alguns dizem
que o milagre estava nos ouvintes que ouviam na própria língua das terras donde
vinham (v. 8) aquilo que os Apóstolos diziam
9-11 Temos aqui uma vasta
referência às diversas procedências dos judeus da diáspora: uns teriam mesmo
vindo em peregrinação, outros seriam emigrantes que se tinham fixado na
Palestina. De qualquer modo, esta enumeração bastante exaustiva e ordenada (a
partir do Oriente para Ocidente) põe em evidência a universalidade da Igreja, que é católica logo ao nascer, destinada
a todos os homens de todas as procedências, manifestando-se esta catolicidade
na capacidade que todos têm para captar e aderir à pregação apostólica. Por
outro lado, também a unidade da Igreja se
deixa ver na única mensagem e no único Baptismo que todos recebem; como se lê
na 2.ª leitura de hoje, (v. 13) “a todos
nos foi dado beber um único Espírito”.
1 Coríntios 12, 3b-7.12-13
Irmãos: 3bNinguém pode
dizer «Jesus é o Senhor», a não ser pela acção do Espírito Santo. 4De
facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. 5Há
diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6Há diversas
operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. 7Em cada um
se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. 12Assim como o
corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos,
constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. 13Na
verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos
baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi
dado a beber um único Espírito.
O contexto em que fala S.
Paulo aos Coríntios é o de certa confusão que reinava na comunidade acerca dos
carismas, em especial os de linguagem. Para começar avança com um critério de
discernimento: que quem fala o faça de acordo com a verdadeira fé: “Jesus é o Senhor” é a confissão de fé
na divindade de Jesus. Senhor
equivale a Yahwéh na tradução grega
dos LXX para o nome divino. Um acto de fé não se pode fazer só pelas próprias
forças, é fruto da graça do Espírito Santo, que pelos seus dons, especialmente
o do entendimento e o da sabedoria aperfeiçoam essa mesma fé.
4-5 Pertence à essência da vida da Igreja haver sempre, diversidade de dons espirituais (carismas),
ministérios e operações. Estas três designações referem-se fundamentalmente aos
mesmos dons de Deus em favor da edificação da Igreja, mas cada um destes três
nomes foca um aspecto: a sua gratuidade, a
sua utilidade e a sua manifestação do
poder actuante de Deus. S Paulo
apropria cada um destes aspectos a cada uma das três Pessoas divinas. Toda esta
diversidade e variedade de dons procede da unidade divina e concorre para que
a unidade a Igreja – um só Corpo (v.
13) – seja mais rica. O Concílio Vaticano II – L. G. 12 – recorda normas
práticas acerca destes carismas, ou dons que Deus concede aos fiéis para
“renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, para o bem comum” (v. 7). E diz que os dons extraordinários não se
devem pedir temerariamente, nem deles se devem esperar, com presunção, os
frutos das obras apostólicas; e o juízo acerca da sua autenticidade e recto
uso, pertence àqueles que presidem na Igreja, a quem compete de modo especial
não extinguir o Espírito, mas julgar e conservar o que é bom (cf. 1 Tes 5,
12.19-21). Não se pode opor o carismático ao jerárquico: a vida da Igreja, que
se expande pelos carismas, tem que se manter na esfera da verdade, garantida
pela Jerarquia, a fim de que seja verdadeira vida, e não mera excrescência
doentia e anormal, porventura um princípio de auto-destruição.
12 “Assim como o
corpo...”. A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo
adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver
rivalidades e divisão: “um só corpo”.
Aqui está latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e
Efésios, mas ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de
Cristo, apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – um corpo – dependente de Cristo e com a
mesma vida de Cristo (v. 27).
13 “E a todos nos foi dado beber um único Espírito”. Os exegetas, tendo em conta que no v. anterior
já se tinha falado do Baptismo, pensam em geral haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois então estes Sacramentos se
costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-6).
São João 20, 19-23
19Na tarde daquele dia, o
primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se
encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e
disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as
mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus
disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também
Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados
ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Este texto foi escolhido por nele
se falar também de uma comunicação do Espírito Santo, esta no dia de Páscoa, e
que permite à Igreja o exercício de uma das principais concretizações da sua
missão salvífica: o perdão dos pecados por meio do Sacramento da Reconciliação.
(Ver atrás os comentários feitos para o 2.º
Domingo da Páscoa). Aqui limitamo-nos a citar um belo texto da Declaração
Ecuménica das Igrejas Cristãs (Upsala 1968), baseada num conhecido texto
patrístico: “Sem o Espírito Santo, Deus fica longe; Cristo pertence ao passado,
o Evangelho é letra morta; a Igreja, mais uma organização; a autoridade, um
domínio; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o agir cristão, uma
moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos eleva-se e geme na
infância do Reino; Cristo ressuscita e é alento de vida; a Igreja é comunhão
trinitária; e a autoridade, serviço libertador; a missão é Pentecostes; e o
culto, memorial e antecipação; o agir humano torna-se realidade divina”.