Textos Dominicais
Domingo de Ramos da Paixão A
(Pe. Geraldo Morujão)
Evangelho da Bênção dos Ramos
São Mateus 21, 1-11
1Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé,
junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes:
2«Ide à povoação que está em frente e encontrareis uma jumenta presa e, com
ela, um jumentinho. Soltai-os e trazei-mos. 3E se alguém vos disser alguma
coisa, respondei que o Senhor precisa deles, mas não tardará em devolvê-los».
4Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado: 5«Dizei à filha
de Sião: ‘Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num
jumentinho, filho de uma jumenta’». 6Os discípulos partiram e fizeram como
Jesus lhes ordenara: 7trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram-lhes em
cima as suas capas e Jesus sentou-Se sobre elas. 8Numerosa multidão estendia
as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo
chão. 9E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O acompanhavam,
diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome
do Senhor! Hossana nas alturas!» 10Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda
a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» perguntavam. 11E a multidão respondia:
«É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».
9 “Hossana”. Palavra hebraica que aqui tem um sentido de
aclamação, correspondente ao nosso “viva!”, e não uma mera prece, como indicaria
a tradução literal do hebraico: “salva-nos, por favor, (ó Deus)”. A saudação
“Bendito o que vem em nome do Senhor” é tirada do Salmo 117 e dela se fazem
eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: “Bendito o que vem” (baruk habá)
é ainda hoje a saudação de boas-vindas
1ª Leitura
Isaías 50, 4-7
4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para
que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as
manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos.
5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei
as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não
desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio
em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro
como pedra, e sei que não ficarei desiludido.
Quem está a falar neste 3° poema do Servo de Yahwéh é o próprio
servo, que representa profeticamente Jesus Cristo. Apresenta-se “a falar como
um discípulo”, embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo
do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus:
“a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14,
24).
5 “Eu não resisti nem recuei”. Mesmo os maiores profetas
e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência,
embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf.
Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade
do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).
6 “Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei
o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Um pleno cumprimento deu-se
no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Lc 22,
63-64; etc.
2ª Leitura
Isaías 50, 4-7
4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para
que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as
manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos.
5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei
as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não
desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio
em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro
como pedra, e sei que não ficarei desiludido.
O texto é tirado corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema
do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo,
embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste
canto (v. 10). De qualquer modo considera-se como a figura profética de Jesus
Cristo. O texto está consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula
(que a tradução não respeitou): “O Senhor Deus”; na primeira sublinha-se a
docilidade de discípulo, na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta;
na terceira, a fortaleza no meio das dores.
4 Apresenta-se “a falar como um discípulo”, embora não se
trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13),
instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: “a minha doutrina não é
minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14, 24).
5 “Não resisti nem recuei”. Mesmo os maiores profetas e os
maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora
sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3,
11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade
do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).
6 “Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei
o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Os evangelistas hão-de deixar
ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão
do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…
SEGUNDA LEITURA:
Filipenses 2, 6-11
6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da
sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição
de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se
ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de
Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua
proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.
A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação
de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino
e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta
dos escritos do Novo Testamento.
6 “De condição divina”. Literalmente: “existindo em forma
de Deus”. Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente
a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos
especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa
Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha
uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus “tinha um ser como
Deus, um ser divino”.
“Não se valeu da sua igualdade com Deus”. Há diversas possibilidades
de tradução desta rica expressão, segundo se considera o termo grego harpagmós
em sentido activo (roubo), ou passivo (coisa roubada): a Vulgata traduz: “não
considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus” (sentido activo); segundo
a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossas tradução (sentido
passivo), teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón)… Há quem
pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba
dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf.
Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer “semelhante
aos homens” (v. 7).
7“Mas aniquilou-se a si próprio”, à letra, esvaziou-se: Jesus
Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da
glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da
chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana
e a natureza divina unidas numa união misteriosa). “Assumindo a condição de
servo”, o que não significa a condição social de escravo, mas a “forma” (morfê)
de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do
“servo de Yahwéh”, a que se refere a primeira leitura de hoje; “tornou-se
semelhante aos homens, aparecendo como homem”, não apenas, como queria a heresia
doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é “semelhante”
(en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr
4, 15);“humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz” (v.
8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis
– de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem,
assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até
à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz –
homem, escravo, malfeitor!
9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz
– não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou;
temos o sublime paradoxo da sua “exaltação”: foi “por isso” mesmo que “Deus”
(não Ele próprio, mas o Pai) “O exaltou” de modo singularíssimo (à letra,
acima de tudo o que existe: tenha-se em conta hypér na composição do verbo
grego), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição
e Ascensão. A esta exaltação corresponde o “nome” que Lhe é dado por Deus,
o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes
de todos os tempos: já não é apenas o nome usado na sua vida terrena e que
consta da sentença que o condenou à morte de cruz, mas com o mesmo nome com
que o próprio Deus é designado para traduzir o nome divino “Yahwéh” – “Senhor”.
A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – “toda a língua
proclame que Jesus Cristo é Senhor” (mais expressivo sem artigo, como no original
grego) e o seu domínio sobre toda a criação – “no céu, na terra e nos abismos,
para glória de Deus Pai” (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco
expressiva e deficiente: “que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus
Pai”).
Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de
que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação,
fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado
por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também
fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração
teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo
de cerca de 56 (como pensam muitos), e, como dissemos, estes versículos fariam
parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola. Assim pensa, por exemplo,
o notável Professor protestante de Tubinga, Martin Hengel.
Evangelho
Forma longa: Mateus 26, 14 - 27, 66; forma breve: Mateus
27, 11-54
N Naquele tempo,
[14um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes
15e disse-lhes:
R «Que estais
dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»
N Eles garantiram-lhe
trinta moedas de prata. 16E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade
para O entregar. 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com
Jesus e perguntaram-Lhe:
R «Onde queres
que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»
N 18Ele respondeu:
J «Ide à cidade,
a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está
próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».
N 19Os discípulos
fizeram como Jesus lhes tinha mandado, e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da
noite, sentou-Se à mesa com os Doze. 21Enquanto comiam, declarou:
J «Em verdade
vos digo: Um de vós há-de entregar-Me».
N 22Profundamente
entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:
R «Serei eu,
Senhor?»
N 23Jesus respondeu:
J «Aquele
que meteu comigo a mão no prato é que há-de entregar-Me. 24O Filho do homem
vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho
do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».
N 25Judas,
que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:
R «Serei eu,
Mestre?»
N Respondeu
Jesus:
J «Tu o disseste».
N 26Enquanto
comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos,
dizendo:
J «Tomai e
comei: Isto é o meu Corpo».
N 27Tomou em
seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:
J «Bebei dele
todos, 28porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão,
para remissão dos pecados. 29Eu vos digo que não beberei mais deste fruto
da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu
Pai».
N 30Cantaram
os salmos e seguiram para o Monte das Oliveiras.
N 31Então,
Jesus disse-lhes:
J «Todos vós,
esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei
o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. 32Mas, depois de ressuscitar,
preceder-vos-ei a caminho da Galileia».
N 33Pedro interveio,
dizendo:
R «Ainda que
todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».
N 34Jesus respondeu-lhe:
J «Em verdade
te digo: Esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes».
N 35Pedro disse-lhe:
R «Ainda que
tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E o mesmo
disseram todos os discípulos. 36Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade,
chamada Getsémani e disse aos discípulos:
J «Ficai aqui,
enquanto Eu vou além orar».
N 37E, tomando
consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se.
38Disse-lhes então:
J «A minha
alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».
N 39E adiantando-Se
um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:
J «Meu Pai,
se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero,
mas como Tu queres».
N 40Depois,
foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:
J «Nem sequer
pudestes vigiar uma hora comigo! 41Vigiai e orai, para não cairdes
N 42De novo
Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:
J «Meu Pai,
se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade».
N 43Voltou
novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono.
44Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.
45Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:
J «Dormi agora
e descansai. Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue às mãos
dos pecadores. 46Levantai-vos, vamos. Aproxima-se aquele que Me vai entregar».
N 47Ainda Jesus
estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão,
com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos
do povo. 48O traidor tinha-lhes dado este sinal:
R «Aquele que
eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».
N 49Aproximou-se
imediatamente de Jesus e disse-Lhe:
R «Salve, Mestre!»
N E beijou-O.
50Jesus respondeu- lhe:
J «Amigo,
a que vieste?»
N Então avançaram,
deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O. 51Um dos que estavam com Jesus levou
a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe
a orelha. 52Jesus disse-lhe:
J «Mete a
tua espada na bainha, pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada.
53Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de
doze legiões de Anjos? 54Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as
quais assim tem de acontecer?»
N 55Voltando-Se
depois para a multidão, Jesus disse:
J «Viestes
com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava
todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... 56Mas, tudo
isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».
N Então todos
os discípulos O abandonaram e fugiram.
N 57Os que
tinham prendido Jesus levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde
os escribas e os anciãos se tinham reunido. 58Pedro foi-O seguindo de longe,
até ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se com os
guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. 59Entretanto, os príncipes dos
sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para
O condenarem à morte, 60mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado
muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas 61que disseram:
R «Este homem
afirmou: ‘Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».
N 62Então,
o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:
R «Não respondes
nada? Que dizes ao que depõem contra Ti?»
N 63Mas Jesus
continuava calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote:
R «Eu Te conjuro
pelo Deus vivo, que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».
N 64Jesus respondeu-lhe:
J «Tu o disseste.
E Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso,
vindo sobre as nuvens do céu».
N 65Então,
o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:
R «Blasfemou.
Que necessidade temos de mais testemunhas? 66Acabais de ouvir a blasfémia.
Que vos parece?»
N Eles responderam:
R «É réu de
morte».
N 67Cuspiram-Lhe
então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros esbofeteavam-n’O, dizendo:
R 68«Adivinha,
Messias: quem foi que Te bateu?»
N 69Entretanto,
Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:
R «Tu também
estavas com Jesus, o galileu».
N 70Mas ele
negou diante de todos, dizendo:
R «Não sei
o que dizes».
N 71Dirigindo-se
para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:
R «Este homem
estava com Jesus de Nazaré».
N 72E, de novo,
ele negou com juramento:
R «Não conheço
tal homem».
N 73Pouco depois,
aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:
R «Com certeza
tu és deles, pois até a fala te denuncia».
N 74Começou
então a dizer imprecações e a jurar:
R «Não conheço
tal homem».
N E, imediatamente,
um galo cantou. 75Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera:
«Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente.
27, 1Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do
povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. 2Depois
de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos.
3Então Judas, que entregara Jesus, vendo que Ele tinha sido condenado, tocado
pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos, dizendo:
R 4«Pequei,
entregando sangue inocente».
N Mas eles
replicaram:
R «Que nos
importa? É lá contigo».
N 5Então arremessou
as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. 6Mas os príncipes
dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:
R «Não se podem
lançar no tesouro, porque são preço de sangue».
N 7E, depois
de terem deliberado, compraram com elas o Campo do Oleiro. 8Por este motivo
se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». 9Cumpriu-se
então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata, preço
em que foi avaliado Aquele que os filhos de Israel avaliaram 10e deram-nas
pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me tinha ordenado».]
N 11Entretanto,]
Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:
R «Tu és o
Rei dos judeus?»
N Jesus respondeu:
J «É como
dizes».
N 12Mas, ao
ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu.
13Disse-Lhe então Pilatos:
R «Não ouves
quantas acusações levantam contra Ti?»
N 14Mas Jesus
não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado.
15Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha
do povo. 16Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. 17E, quando
eles se reuniram, disse-lhes:
R «Qual quereis
que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»
N 19Ele bem
sabia que O tinham entregado por inveja. 20Enquanto estava sentado no tribunal,
a mulher mandou-lhe dizer:
R «Não te prendas
com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».
N Entretanto,
os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse
Barrabás e fizesse morrer Jesus. 21O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
R «Qual dos
dois quereis que vos solte?»
N Eles responderam:
R «Barrabás».
N 22Disse-lhes
Pilatos:
R «E que hei-de
fazer de Jesus, chamado Cristo?»
N Responderam
todos:
R «Seja crucificado».
N 23Pilatos
insistiu:
R «Que mal
fez Ele?»
N Mas eles
gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N 24Pilatos,
vendo que não conseguia nada e aumentava
o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:
R «Estou inocente
do sangue deste homem. Isso é lá convosco».
N 25E todo
o povo respondeu:
R «O seu sangue
caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
N 26Soltou-lhes
então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para
ser crucificado. 27Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório
e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. 28Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O
num manto vermelho. 29Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça
e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O,
dizendo:
R «Salve, Rei
dos judeus!»
N 30Depois,
cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. 31Depois
de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e
levaram-n’O para ser crucificado.
N 32Ao saírem,
encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar
a cruz de Jesus. 33Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar
do Calvário, 34deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois
de o provar, não quis beber. 35Depois de O terem crucificado, repartiram entre
si as suas vestes, tirando-as à sorte, 36e ficaram ali sentados a guardá-l’O.
37Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação:
«Este é Jesus, o Rei dos judeus». 38Foram crucificados com Ele dois salteadores,
um à direita e outro à esquerda. 39Os que passavam insultavam-n’O e abanavam
a cabeça, dizendo:
R 40«Tu, que
destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se
és Filho de Deus, desce da cruz».
N 41Os príncipes
dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele,
dizendo:
R 42«Salvou
os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora
da cruz e acreditaremos n’Ele. 43Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se
O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».
N 44Até os
salteadores crucificados com Ele O insultavam. 45Desde o meio-dia até às três
horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. 46E, pelas três horas da
tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eli, Eli, lema sabachtani!»,
N que quer
dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 47Alguns dos presentes,
ouvindo isto, disseram:
R «Está a chamar
por Elias».
N 48Um deles
correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana
e deu-Lhe a beber. 49Mas os outros disseram:
R «Deixa lá.
Vejamos se Elias vem salvá-l’O».
N 50E Jesus,
clamando outra vez com voz forte, expirou.
N 51Então,
o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu
e as rochas fenderam-se. 52Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos
que tinham morrido ressuscitaram; 53e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição
de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. 54Entretanto, o
centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o
que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:
R «Este era
verdadeiramente Filho de Deus».
N 55Estavam
ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a
Galileia, para O servirem. 56Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria,
mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. 57Ao cair da tarde,
veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado
discípulo de Jesus. 58Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E
Pilatos ordenou que lho entregassem. 59José tomou o corpo, envolveu-o num
lençol limpo 60e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar
na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se.
61Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente
do sepulcro. 62No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes
dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos 63e disseram-lhe:
R «Senhor,
lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de
três dias ressuscitarei’. 64Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em
segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo
e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior
do que a primeira».
N Pilatos respondeu:
R 65«Tendes
à vossa disposição a guarda: ide e guardai-o como entenderdes».
N 66Eles foram
e guardaram o sepulcro, selando a pedra e pondo a guarda.
A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente
por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e obra redentora
de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente
põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para
com todos e cada um de nós (cf. Gál 2, 20), como a tremenda gravidade dos
nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho
que tomou a forma definitiva escrita mais cedo.
N.B. – Podem ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor,
17 Durante os sete dias que duravam as festas da Páscoa comia-se
pão sem fermento (ázimo), em memória do pão que os israelitas cozeram apressadamente
ao fugir da escravidão do Egipto (cf. Ex 12, 34).
18 Os encarregados de preparar a Ceia pascal, em que se comia
um cordeiro sacrificado no Templo, foram Pedro e João (Lc 22, 8-13; cf. Mc
14, 12-16) a quem Jesus deu indicações precisas: seria na casa de um homem
que encontrariam com uma bilha de água. É natural que Jesus já tivesse falado
a esse homem no assunto e que ele fosse conhecido dos Apóstolos. Talvez Jesus
tivesse querido evitar que Judas ficasse a conhecer o local da Ceia para que
este não o fosse indicar aos inimigos que poderiam aproveitar esta ocasião
para O prenderem.
26-29 Podem ver-se os comentários à 2.ª leitura de Quinta-Feira
Santa.
30 Referência aos Salmos que então se rezavam: 113-118.
31-35 Jesus mostra que sabe tudo o que vai acontecer. O aviso
a Pedro de que iria negar o Mestre não evitou a sua estrondosa queda, porque
lhe faltou humildade. O Senhor permitiu aquela humilhação de Pedro para que
o Chefe da Igreja fosse grande pela humildade e para lição de todos nós. Comenta
S. João Crisóstomo: “Aprendemos daqui uma grande verdade, a saber, que não
é suficiente o desejo do homem, a não ser que se apoie na ajuda de Deus”.
36-46 Temos aqui uma das páginas mais impressionantes e misteriosas
do Evangelho. Jesus podia ter dominado perfeitamente o ímpeto da emoção da
sua sensibilidade finíssima. No entanto, deixa que ela reaja na proporção
da gravidade da hora. Desta maneira revela-se como homem em tudo igual a nós
(excepto no pecado) e aparece-nos como modelo que pode ser imitado por nós,
que não temos o perfeito domínio da sensibilidade. Assim o Senhor nos aparece
estendido por terra (v. 39) e sentindo uma angústia tão profunda que se queixa
dizendo que sente uma tristeza de morte, suando sangue (Lc 22, 44), precisando
de buscar apoio nos mais íntimos para consolo da sua dor e solidão. Jesus
diz a Pedro, Tiago e João que fiquem perto, mas, por delicadeza, não os quer
impressionar com a sua agonia, por isso se afasta deles na distância de um
tiro de pedra (Lc 22, 41 ). Pede-lhes que velem e rezem não só para Lhe servirem
de companhia e apoio humano, mas também para terem a coragem de se portarem
bem, à altura da tremenda hora que se avizinha. Ainda que eles tenham podido
ouvir algumas palavras da oração do Senhor, não se aperceberam perfeitamente
do que se passava com Jesus, aliás não se teriam deixado adormecer; é, pois,
natural que só depois da Ressurreição tenham ficado a saber os pormenores
da oração do Senhor no Getsemani, quando Ele lhos contou.
35 “Passe de mim este cálice”. Não obstante a perfeita identificação
da própria vontade humana de Jesus com a sua vontade divina, a mesma vontade
do Pai – “não se faça como Eu quero, mas como Tu queres” –, a viva repugnância
da finíssima sensibilidade de Jesus pelos iminentes martírios da Sua Paixão
leva-O a falar assim.
“Cálice” significa no Antigo Testamento a ira divina que
faz cair a dor sobre os pecadores (cf. Is 51, 17.22; Jer 25, 15; Lam 4, 21;
Ez 23, 33; Sal 75(74), 9). Jesus não é pecador, mas esta mesma imagem sugere
a “expiação vicária”: Jesus sofre uma dor expiatória dos pecados da Humanidade
(cf. 2 Cor 5, 21; Is 53, 1-12). O motivo da agonia de Jesus parece ser, antes
de mais, a antevisão da sua Paixão e Morte na cruz, mas juntava-se a isto
um motivo de dor não de menos importância e que facilmente podemos adivinhar:
a visão da maldade e ingratidão humana, a falta de correspondência a tão grande
excesso do amor de Deus pelas criaturas, o abandono e adormecimento dos mais
íntimos, etc.
45 “Dormi agora e descansai”. Costumam entender-se estas
palavras de Jesus como uma censura com certa ironia. Porém estas palavras
poderiam indicar uma certa condescendência para com a fraqueza dos Apóstolos,
ao dar-lhes tempo de repouso antes de começar o drama da sua prisão.
49 Na escuridão da noite (embora houvesse Lua cheia, havia
as sombra das árvores), convinha um sinal para que os encarregados de prender
a Jesus atacassem de surpresa. Judas escolheu o sinal mais discreto e mais
velhaco: um sinal de afeição e cortesia como manifestação da traição. A tão
monstruosa vilania, Jesus corresponde com enorme delicadeza, deixando uma
porta aberta ao arrependimento, ao tratar o traidor por “amigo”; assim nos
ensina a respeitar e a tratar com caridade os nossos inimigos.
53 “Uma legião” era um efectivo militar com mais de 6.000
homens.
57-58 Jesus comparece perante as autoridades judaicas. Este
julgamento não sabemos se foi feito em duas ou três sessões: S. João fala
da comparência do Senhor perante Anãs, sogro de Caifãs e sumo sacerdote deposto,
que conservava grande preponderância (Jo 18, 19-24); S. Lucas fala da sessão
oficial do Sinédrio, de manhã, em que é dada a sentença (Lc 22, 66-67), relato
que coincide com a sessão nocturna perante Caifãs contada aqui por S. Marcos.
Como S. Mateus (que coincide com S. Marcos) fala de uma outra sessão depois
de amanhecer (Mt 27, 1), ou houve três sessões ou então teremos de supor que
S. Mateus, por motivos redaccionais, simplificou as coisas, atribuindo a uma
sessão nocturna o que se passou na sessão diurna.
61 O depoimento das testemunhas era deturpado, pois Jesus
não tinha dito “posso destruir o Templo”, mas “desfazei este Templo” e referindo-se
ao seu corpo (Jo 2, 19).
63-65 Jesus cala-se perante as falsas acusações, mas fala
agora quando tem de dar testemunho da sua missão, embora isto Lhe acarreta
a morte. E fá-lo aplicando a si dois textos bíblicos considerados como referidos
ao Messias: Salm 109(110), 1 e Dan 7, 13. De acordo com o uso respeitoso de
evitar pronunciar o nome inefável de Jahwéh, diz “à direita do Todo-Poderoso”,
(v. 64). O Senhor é condenado por blasfémia: não por se declarar o Messias,
mas por declarações com que se situava num nível divino.
70-75 As negações de Pedro. A fé de Pedro que Jesus louvara
(Mt 16, 17) tem de suportar uma dura prova (cf. Lc 22, 31-32). O rápido desenlace
dos acontecimentos deixara Pedro desconcertado e sem força para reagir e confessar
o seu Mestre: se Ele lhe mandara arrumar a espada quando O tentava defender
(Mt 26, 52), que lhe restava fazer agora por Jesus? Um homem tão impulsivo
como Pedro não se resignava a seguir Jesus até à morte sem lutar. Pedro sentia-se
atordoado e confuso: quando vê que os seus planos humanos de defesa falharam
tem a grande fraqueza de negar insistentemente o Mestre e com juramento, esquecendo
os insistentes protestos de fidelidade pouco antes feitos (v. 35). Mas, se
foi grande o seu pecado, também foi profundo o seu arrependimento, merecendo
da misericórdia do Senhor não vir a ser rejeitado como chefe da sua Igreja.
27, 3-5 O desespero de Judas. Judas também se arrepende,
mas o seu arrependimento não é uma conversão, um regresso para Deus; é um
fechar-se na sua miséria e na sua soberba ferida pelo remorso. Judas desespera
porque não sabe confiar na misericórdia infinita de Deus. A sua soberba não
o deixa voltar atrás, pedir perdão a Deus e ir ao encontro dos seus irmãos,
os Apóstolos.
9 O Evangelista sublinha que se cumpre o que estava previsto
por Deus: não era uma fatalidade inexorável ou um fracasso de Jesus. A citação
de Jeremias (32, 6-9) é completada com um oráculo doutro profeta (Zac 11,
12-13).
11-31 Jesus no tribunal do procurador romano. O recurso à
autoridade romana tornava-se necessário para que se pudesse levar a cabo legalmente
a morte de Jesus, coisa que não estava nas atribuições do Sinédrio. Pilatos
foi procurador na Palestina de
24 O gesto hipócrita de Pilatos com que pretende justificar
a sua cobardia pode explicar-se por um certo medo supersticioso de vir a sofrer
más consequências da sua iníqua sentença, demais que a sua mulher tinha tido
um pesadelo de mau presságio (v. 21): lavar as mãos teria o sentido mágico
de afastar de si qualquer castigo divino.
32 Simão de Cirene. Este cireneu é um estranho que é forçado
a levar a cruz de Jesus (talvez só o pau transversal. segundo era costume,
pois o poste vertical já estaria erguido no lugar da execução). É de fazer
pensar a solidão de Jesus: não tem um amigo, um discípulo, um beneficiário
dos seus milagres que apareça para O ajudar a levar a Cruz. Este serviço de
Simão de Cirene há-de ser bem recompensado, pois os seus dois filhos, Alexandre
e Rufo. hão-de vir a tornar-se cristãos dignos de especial menção (Mc 15,
21; Rom 16, 13).
34 Provou, mas não quis beber. Costumava ser oferecida aos
que iam ser crucificados uma mistura de vinho com mirra, para lhes acalmar
as terríveis dores. Jesus, por delicadeza e deferência, provou, mas não quis
beber, para poder sofrer conscientemente todas as dores por nós.
35 Cf. Sal 21(22), 19.
45 Com estas palavras do Salmo 21 (22), 2, o Senhor deixa-nos
ver toda a magnitude do seu sofrimento físico e moral. Não são palavras de
desespero ou protesto, mas uma oração de desabafo, com que mostra como sofre
no máximo grau de intensidade a sua alma e o seu corpo, mas numa atitude de
abandono, pois este é o tom do Salmo, que Jesus rezaria inteiro e não apenas
o 1º versículo.
51 O véu do Templo era um cortinado que separava, no santuário,
o Santo do Santo dos Santos. Este rasgar-se significa que, a partir da morte
de Jesus, ficam abertas para todos os homens as portas do Céu (cf. Hebr 9,
15) e também que acabou a Antiga Aliança dando lugar à Nova, selada com o
sangue de Cristo. Os sinais prodigiosos que acompanham a morte de Jesus atestam
a transcendência do que se passa no momento: não morre mais um homem qualquer,
é o Filho de Deus que morre, redimindo a Humanidade pecadora.
52-53 Passagem muito difícil de interpretar e sobre cujo
sentido nunca houve acordo. Cristo foi certamente o primeiro a ressuscitar
(1 Cor 15, 20; Col 1, 18), por isso haverá que distinguir dois factos: a abertura
dos túmulos (talvez devida ao tremor de terra) e a ressurreição de muitos
santos que só teria vindo a dar-se depois da ressurreição de Jesus (v. 53).
No v. 52 S. Mateus, não se fixando na ordem dos acontecimentos, adianta a
referência à ressurreição, como se dissesse: “e muitos corpos dos santos que
tinham morrido vieram a ressuscitar”. Esta falta de atenção à ordem dos factos
narrados é frequente
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