Festa
da Anunciação do Senhor
Pe.
Geraldo Morujão
1ª leitura
Isaías 7, 10-14 8, 10
Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede
um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima
nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”.
13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a
molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso,
o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho
e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco”.
Este célebre texto messiânico é extraído do início do “Livro do Emanuel”,
assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco),
um “menino” descrito com traços que, excedem tudo o que a história da monarquia
hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), lhe dão um carácter messiânico, em quem
os cristãos vêem uma figura do Salvador.
10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído
pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita
contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino,
por mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade,
nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais.
Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente no mesmo momento) que
o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor
dará um sinal verdadei¬ra¬¬mente extraordinário e que o trono de David se
consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).
14 Esse “sinal” é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre
este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum
sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana.
De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado “Livro do
Imanuel” (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar
para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação
de Deus, o Imanuel (o Deus connosco). Ainda que, num primeiro plano, possa
ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura
ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou
um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos,
quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil:
‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas
cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio
a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes
adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar
a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional
defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico
ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e
faz finca-pé
2ª leitura
Hebreus 10, 4-10
Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados.
5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem
oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações
pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a
meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse:
“Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações
pelo pecado”. E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta:
“Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro
culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos
santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para
sempre.
O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando
discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos
os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia,
argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1.
Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide
vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade
(Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito
Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro
culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único
pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente,
mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos
nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz (cf. Encíclica Ecclesia
de Eucharistia, nº 12).
7 “Eis-me aqui”. Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a
Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar
no seio da Santíssima Virgem.
EVANGELHO:
Lucas 1, 26-38
Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia
chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome
da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave,
cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras
e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho,
a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre
a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como
será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito
Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por
isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta
Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela
a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse
então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.
A narrativa da Anunciação reveste-se duma densidade tal, que cada palavra
encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o
acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com
o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.
26 “O Anjo Gabriel”. O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João.
Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa
“homem de Deus” ou também “força de Deus”.
28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria
é absolutamente inaudita:
“Ave”: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como
ao nosso “bom dia”; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta,
pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico “paz a ti” (cf. Lc 10, 5);
a melhor tradução é “alegra-te” – a tradução literal do imperativo grego khaire
–, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística
grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão
aos convites proféticos à alegria da “Filha de Sião” (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23;
Zac 9, 9).
Ó “cheia de graça”: Esta designação tem muita força expressiva, pois está
em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão
portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal
possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo
permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo
divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante
de Deus em Maria: “ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores”. De facto, Maria
é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus
A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original,
doutro modo não seria, em toda a plenitude, a “cheia de graça”, como o próprio
texto original indica.
“O Senhor está contigo”: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira
vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das
grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3,
12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção
de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão
confiada por Ele.
Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido
o inciso “Bendita es tu entre as mulheres”, pois este não aparece nos melhores
manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação
de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.
29 “Perturbou-se”, ferida na sua
humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente
a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina).
Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12),
pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus
medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos
o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro
divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como
Zacarias exigira (cf. Lc 1, 18).
32-33 “Encontraste graça diante de Deus”: “encontrar graça” é um semitismo
para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas
a expressão “encontrar graça diante de Deus” só se diz no A. T. de grandes
figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão
grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina
de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4,
7; Dan 7, 14).
34 “Como será isto, se Eu não conheço homem?” Segundo a interpretação tradicional
desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta
de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente
guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios
ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como
um artifício literário e também a expressão “não conheço” no sentido de “não
devo conhecer”, como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que
a forma do verbo, no presente, “não conheço”, indica uma vontade permanente
que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria
aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio
virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar
a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente
e interessante filme Figlia del suo Figlio.
35 “O Espírito Santo virá sobre ti…”. Este versículo é o cume do relato e
a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, “virá sobre ti”, com a sua
força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4);
“e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra” (a tradução litúrgica
“cobrirá” seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia
dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem
que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada
(Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode
ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, “Arca da
Aliança”).
“O Santo que vai nascer…”. O texto grego admite várias traduções legítimas;
a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução
na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: “por isso também
aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus”. I. de
38 “Eis a escrava do Senhor…”. A palavra escolhida na tradução, “escrava”
talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz
o seu sim a Deus, chamando-se “serva do Senhor”; é a primeira e única vez
que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando
toda uma história maravilhosa de outros “servos” chamados por Deus que puseram
a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome
com que Ela aparece neste relato: “Maria”, o nome que lhe fora dado pelos
homens, “cheia de graça”, o nome dado por Deus, “serva do Senhor”, o nome
que Ela se dá a si mesma.
“Faça-se…”. O “sim” de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo
(génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que
põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado
de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas
Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
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