Natal do Senhor
B (Missa da Meia-Noite)
(Pe.
Geraldo Morujão)
1ª Leitura
Isaías 9, 1-6
2«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que
habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. 3Multiplicastes a sua
alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os
que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 4Vós
quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava
sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 5Todo
o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao
fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. 6Porque um
menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e
será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz».
7O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre
o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio
do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do
Universo.
Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is 7 –
12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de
esperança que se projectam em tempos vindouros, muito
para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de paz e
alegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Enquadra-se
às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta
luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8, 12; 1, 5.9).
4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande
vitória de Gedeão sobre os medianitas
(Jz 7).
7 O «poder» e a «paz sem fim» serão garantidos para o trono de David
pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que,
embora expressos em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios,
suplantam os predicados de qualquer rei empírico e correspondem ao mistério de
Jesus, Deus feito homem.
2ª Leitura
Tito 2, 11-14
Caríssimo: 11Manifestou-se a graça de Deus, fonte de
salvação para todos os homens, 12ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos
desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e
piedade, 13aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso
grande Deus e Salvador, 14Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos
resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si
mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras.
Este breve texto é tirado da 2ª parte da breve carta a Tito. Depois de
lhe ter dado orientações pastorais para a organização da Igreja em Creta (cap.
1), passa a desenvolver o tema das exigências da vida cristã (cap. 2 e 3). Na
leitura queremos fazer ressaltar o v. 13 que foi adoptado
pela liturgia da Missa (final do embolismo) e o v. 14
que é uma síntese da soteriologia paulina.
13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais
categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N. T. Com efeito,
como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas
designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo.
14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo
conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A
Igreja é o novo povo de Deus.
Evangelho
São Lucas 2, 1-14
1Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada
toda a terra. 2Este primeiro recenseamento efectuou-se
quando Quirino era governador da Síria. 3Todos se foram recensear, cada um à
sua cidade. 4José subiu também da Galileia, da cidade
de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada
Belém, por ser da casa e da descendência de David, 5a fim de se recensear com
Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. 6Enquanto ali se encontravam,
chegou o dia de ela dar à luz 7e teve o seu Filho primogénito.
Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para
eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e
guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram
grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande
alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador,
que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino
recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que
louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens
por Ele amados».
A narrativa do nascimento do Filho eterno de Deus – nunca houve nem
haverá Menino como este! – é deveras encantadora na sua simplicidade. O teólogo
Lucas, dotado de génio de historiador nada precisa de inventar, para a sua peculiar teologia. Dispondo
provavelmente de não muitos dados, como bom historiador, começa por situar o
acontecimento no tempo e no lugar. Ainda ninguém apresentou nenhuma razão
convincente para pôr em dúvida o lugar do nascimento de «Jesus de Nazaré» em
Belém (a pari, todo o mundo fala de Santo António de Pádua e a verdade é que
nasceu em Lisboa!). Por outro lado, as referências do nosso historiador ao
tempo não são contaminadas pela sua preocupação teológica de apresentar o
nascimento do Salvador, em contraste com o César romano, Augusto, que se
ufanava do título de salvador da humanidade. Embora o recenseamento geral na
época de Quirino como governador da Síria – que está bem documentado – seja
bastante posterior (no ano 6 da era cristã), a verdade é que houve muitos
outros censos; Lucas poderia não dispor de dados muito precisos, mas o
historiador teólogo não precisava de mais pormenor para que o nascimento de
Jesus ficasse enquadrado na História geral. De qualquer modo, a história
profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu; papiros
descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em
que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos
(para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o
recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim
se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de
«César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos
«Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa
do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns
6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é
compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino
nascer. De facto é inverosímil
a aventura de empreenderem uma viagem de cerca de
7 «Filho primogénito». Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que
depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter,
mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela
primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também perece
que «primogénito» era uma designação corrente para o
primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de
uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh,
onde se diz que uma tal Arsinoe
morreu com as dores do parto do seu filho primogénito.
«Manjedoira». A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica
patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma
tradição que vem do séc. II (S. Justino, nascido aqui perto), Jesus nasceu numa
gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos
princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias
modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a
Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que
falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma
estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um
lugar de culto dos primeiros cristãos.
«Hospedaria». A palavra grega, katályma, oferece
alguma dificuldade de tradução devido ao facto de
tanto poder significar «hospedaria» (o kan que
existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc
22, 11; Mc 14, 14), o aposento superior ao
rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho
que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não
haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma
gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar
digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que
para o «Senhor» de toda a Criação não havia na terra um sítio digno!
8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se
manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que
os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a
sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras
prescrições legais. O facto de guardarem o gado de
noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem
sequer o mês
14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» – e
advém para os homens a síntese de todos os bens – «a
paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais
rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação
tradicional), ou «os homens que são objecto de boa
vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de
Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos
uma frase com três membros: «glória a Deus..., paz na terra, benevolência
divina entre os homens».