Natal do Senhor
B (Missa do Dia)
Pe.
Geraldo Morujão
1ª Leitura
Isaías 52, 7-10
7Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz,
que traz a boa nova, que proclama a salvação e diz a Sião:
«O teu Deus é Rei». 8Eis o grito das tuas sentinelas que levantam a voz. Todas
juntas soltam brados de alegria, porque vêem com os próprios olhos o Senhor que
volta para Sião. 9Rompei todas em brados de alegria,
ruínas de Jerusalém, porque o Senhor consola o seu povo, resgata Jerusalém. 10O
Senhor descobre o seu santo braço à vista de todas as nações e todos os confins
da terra verão a salvação do nosso Deus.
Esta página maravilhosa de Isaías que se refere à boa nova do fim do
desterro trazida a Jerusalém pelos «belos pés do mensageiro do mensageiro que
anuncia a paz», serve, na Liturgia de hoje, como de um hino triunfal a Cristo
que vem à terra.
10 «O Senhor descobre o seu santo braço». Antropomorfismo que contém uma
expressiva e frequente metáfora: o braço designa o
poder e a força. Descobrir o braço é manifestar o poder.
2ª Leitura
Hebreus 1, 1-6
1Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais,
pelos Profetas. 2Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a
quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo. 3Sendo
o Filho esplendor da sua glória e imagem da sua substância, tudo sustenta com a
sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados,
sentou-Se à direita da Majestade no alto dos Céus 4e ficou tanto acima dos
Anjos quanto mais sublime que o deles é o nome que recebeu em herança. 5A qual
dos Anjos, com efeito, disse Deus alguma vez: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te
gerei»? E ainda: «Eu serei para Ele um Pai e Ele será para Mim um Filho»? 6E de
novo, quando introduziu no mundo o seu Primogénito,
disse: «Adorem-n’O todos os Anjos de Deus».
Hebreus, o célebre escrito doutrinal e exortatório,
começa com um prólogo solene que nos situa, sem rodeios, perante a suma
dignidade da pessoa de Jesus Cristo, à semelhança do prólogo do Evangelho de S.
João. Começa por mostrar que é n’Ele
que o Pai nos fala e se revela de modo exaustivo e definitivo, em contraste com
toda a revelação anterior, fragmentária, variada e feita numa fase da história
da salvação já superada. «Falou-nos por seu Filho», por isso a história da
salvação chegou ao seu apogeu e plenitude, de modo que já não há lugar para
mais nenhuma revelação ulterior (cf. DV, 4). Como observa S. João da Cruz, o
Pai tendo-nos dito a sua própria Palavra, já não tem mais outra palavra para
nos dizer (cf. Subida ao Monte Carmelo, 2, 22).
3 «Esplendor da glória de Deus. Fórmula muito expressiva no original,
mas dificilmente traduzível em toda a sua riqueza. O Filho é a irradiação da
substância do Pai, distinto d’Ele, mas da mesma
substância; é «Deus de Deus, luz de luz», como diz o símbolo de Niceia para exprimir a processão
ou origem do Filho no Pai, sendo com Ele um mesmo e único Deus.
«Imagem do ser divino». À letra, «reprodução da sua essência». Mais que
imagem, quer significar, no original, a marca deixada pelo sinete no lacre, por
um selo branco no papel, ou pela matriz na moeda cunhada. O Filho identifica-se
com o Pai, quanto ao ser divino, mas esta imagem põe em evidência sobretudo a distinção de Pessoas na igualdade, como o cunho
se distingue do objecto cunhado. A primeira expressão
visa mais a identidade da natureza («esplendor», ou luz e irradiação).
Evangelho
Forma longa: São João 1, 1-18 Forma
breve: São João 1, 1-5.9-14
1No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No
princípio, 2Ele estava com Deus. 3Tudo se fez por meio d’Ele
e sem Ele nada foi feito. 4N’Ele estava a vida e a
vida era a luz dos homens. 5A luz brilha nas trevas e as trevas não a
receberam. 16(Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. 7Veio como
testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por
meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.). 9O Verbo
era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. 10Estava no
mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu.
11Veio para o que era seu e os seus não O receberam. 12Mas, àqueles que O
receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de
Deus. 13Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade
do homem, mas de Deus. 14E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. 15(João dá
testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia:
‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’».
16Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. 17Porque,
se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de
Jesus Cristo. 18A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito,
que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.)
A leitura evangélica de hoje é o prólogo do IV Evangelho, que constitui
a chave para uma profunda compreensão de toda a obra do discípulo amado e da
Pessoa adorável de Jesus Cristo: Ele é o Verbo incriado,
o Deus Unigénito, que assumiu a nossa condição humana
e nos oferece a possibilidade de ser filhos de Deus. Discute-se se o
Evangelista compôs este texto para encabeçar a sua obra, ou se aproveitou algum
hino litúrgico já existente (a que acrescentaria os vv. 6-9.13.15.17-18).
Tem a forma dum poema em que os seus 18 versos que se podem agrupar em 4
estrofes (vv. 1-5; 6-8; 9-13; 14-18), cada uma com uma ideia
central, que se vai ampliando e esclarecendo progressivamente. Este prólogo é
como uma solene abertura de uma grande obra musical, onde os grandes temas a
desenvolver ao longo do Evangelho começam por ser apontados: o Verbo Incarnado, Luz e Vida dos homens, Messias e revelador do
Pai, os testemunhos a seu favor, a resposta humana de aceitação ou de rejeição,
bem como as consequências de transcendental
importância que tem a dramática alternativa em que o homem é posto perante a
pessoa de Jesus.
1 «No princípio». Esta expressão faz-nos pensar no início do Génesis, onde se falava da Primeira Criação, que culminou
com a criação do homem; no IV Evangelho fala-se duma Nova Criação, a Redenção
operada pelo Verbo Incarnado, que culmina na elevação
do homem à dignidade de filho de Deus. A própria noção de «princípio» é
diferente em Gn 1, 1 e em Jo
1, 1: lá designava o início do tempo, aqui exprime o princípio absoluto que
transcende o tempo e nos situa na própria eternidade de Deus. É muito
expressivo o imperfeito de duração do verbo grego «eimi»
repetido no v. 1, com três matizes: havia ou existia, estava, era, em contraposição com o aoristo de verbo «gínomai» no v. 3: tudo «foi feito», ao passo que o Verbo
«existia», permanecia na existência («havia o Verbo»)! Não é possível fazer uma
afirmação mais forte e clara da divindade de Jesus – o Verbo que se fez homem
(v. 14) – do que esta com que S. João inicia o seu Evangelho: «O Verbo era
Deus». Com razão desde os Santos Padres o IV Evangelista é figurado pela águia
(cf. Ez 1, 10), pois o seu voo
sobe de chofre até às alturas da divindade de Cristo e o seu olhar aquilino
penetra nas profundezas do mistério da Pessoa divina de Jesus, no seio da
Santíssima Trindade.
3 «Tudo foi feito por Ele». Esta expressão não significa que o Verbo foi
o meio ou instrumento de que o Pai se serviu para criar. Ele age juntamente com
o Pai e com o mesmo e único poder. A preposição grega «diá»
(«por») não se usa com genitivo para indicar apenas a causa instrumental;
também pode indicar a causa principal como é aqui o caso e em Rom 11, 36. Esta
expressão também evidencia que o Verbo não é criatura, uma vez que tudo o que
foi feito, foi feito por Ele, em aberto contraste com a sabedoria, que
Provérbios e Eclesiástico personificam (Prov 8, 22 ss; Sir 1, 4; 24, 8-9), a qual foi
criada e nasceu.
4 «Vida». «Luz». São estes dois dos grandes temas do IV Evangelho (cf. Jo 8, 12; 14, 6). «A Vida era a
Luz dos Homens»: o Verbo é a Luz da Vida (Jo 8, 12),
Luz que conduz à Vida, Vida que é Luz, e Luz que é Vida. São dois conceitos que
caracterizam a esfera da divindade, em oposição antagónica
com as trevas, que são o reino de Satanás e seus sequazes.
Este antagonismo que está patente ao longo dos escritos paulinos
e joaninos, era corrente na
literatura da época tanto judaica (em especial de Qumrã),
como depois na gnóstica.
5 «As trevas não a receberam». Também se pode traduzir «não a
compreenderam», ou «não a dominaram» (tendo em conta o contexto joanino da luta entre a luz e as trevas).
6-8 João não se interessa no seu Evangelho por nos dar a conhecer a vida
ou a pregação moral do seu antigo mestre (Jo 1, 37 ss), mas não perde uma ocasião de pôr em realce o seu
«testemunho» em favor de Jesus (Jo 1, 16.19.29.35; 3, 27; 5, 33). A insistência, em especial nestes versículos
do prólogo (6-8.15) que interrompem o ritmo do poema, concretamente ao dizer
que João «não era a Luz», pode dever-se a querer refutar os «joanitas», uma espécie de seita que seguia o Baptista, sem
ter chegado a aderir a Cristo (cf. Act 19, 3-4).
9 Este versículo tem diversas traduções legítimas; a litúrgica segue a
tradução preferível da Neovulgata, ao passo que a
Vulgata dizia: «era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este
mundo».
10 «Não O conheceu», isto é, não O reconheceu como o Verbo de Deus e
Salvador.
11 «Os seus» poderia designar o povo de Israel, enquanto propriedade de
Deus (cf. Ex 19, 5; Dt 7, 6), mas parece designar,
dado o paralelismo com o v. anterior, a humanidade no seu conjunto. A
observação amarga de S. João (cf. Jo 12, 37) não tem
vigência só para o dia de Natal (cf. Lc 2, 7), pois
também cada um de nós sempre pode «acolher» melhor a Jesus.
12 «Deu-lhes o poder», isto é, concedeu-lhes a graça, dom e favor
inteiramente gratuito que supera as possibilidades de qualquer criatura. «O
Filho de Deus fez-se homem, para que os filhos do homem, os filhos de Adão, se
fizessem filhos de Deus... Ele é o Filho de Deus por natureza, nós pela graça»
(Santo Atanásio).
13 «E estes». Textos muito antigos e de grande valor têm o singular –
«Este» – (adoptado pela Bíblia de Jerusalém) referido
a Jesus, indicando assim simultaneamente a concepção e o parto virginal da
Santíssima Virgem (um nascimento sem sangue).
14 Duma penada, S. João exprime toda a riqueza do mistério do Natal, sem
se deter a narrar os seus pormenores, como S. Lucas. «Fez-se carne» é um
hebraísmo para dizer que Se fez homem; de qualquer modo, põe-se o acento no
aspecto mortal e passível: o Verbo eterno, a Segunda Pessoa divina, torna-se um
de nós, sem deixar de ser Deus, em tudo igual a nós, excepto
no pecado (cf. Hbr 4, 15).
«Habitou», literalmente significa: «ergueu a sua tenda no meio de nós». Parece
haver aqui uma alusão à presença de Deus no meio do seu povo, na nuvem branca
que pairava, no deserto, sobre a Tenda da Reunião. Esta
alusão torna-se mais clara, se temos em conta o texto original grego – «eskénôsen» (ergueu a tenda) – que tem uma
certa assonância com «xekhniná» a presença de
Deus no meio do Povo (cf. Ex 40, 34-38). Esta presença misteriosa, mas real,
continua-se na Santíssima Eucaristia, «Incarnação
continuada».
A «Glória» do Verbo incarnado, que S. João e
os demais viram, é a manifestação externa da sua divindade: os seus milagres, a
sua transfiguração, a sua ressurreição, etc..
«Filho Unigénito». S. João, ao longo de todo o
seu Evangelho, tem o cuidado de sempre reservar um termo grego para designar
Jesus como Filho do Pai – yiós –, usando outra
palavra para se referir a nós, enquanto filhos de Deus: téknon
(cf. v. 12). Nós «tornamo-nos» filhos de Deus, (v.
12), ao passo que Jesus é o Filho por natureza, igual ao Pai, o «Unigénito» (vv. 14.18). O termo «Unigénito»
(muitos traduzem por «Único») presta-se a exprimir o que a Teologia veio a
explicitar como a «geração» eterna e única do Verbo no Pai.
«Cheio de graça e de verdade». S. João aplica ao Verbo incarnado a mesma definição que Yahwéh
dá de Si mesmo a Moisés em Ex 34, 6: «Deus de muito amor e fidelidade». Por um
lado, é mais uma referência à divindade de Cristo, por outro, põe em relevo as
qualidades que resumem a grandeza do seu Coração de «pontífice misericordioso e
fiel» (Hebr 2, 17).
16 «Graça sobre graça», isto é, graças em catadupa, umas atrás das
outras, procedentes da plenitude de Cristo, como duma fonte inexaurível (cf. Jo 7, 37-39), ou também, como pensam alguns, «graça após
graça», ou «graça em vez de graça» (Cristo-Moisés, Antiga-Nova Aliança), ou ainda
«graça correspondente à graça» (a do Verbo: graça criada-graça incriada).
17 «Jesus Cristo» é aqui identificado explicitamente com o Verbo. A Lei
mosaica limitava-se a dar normas, mas só por si não podia salvar ninguém, só a
graça que Cristo nos trouxe a salvação.
18 «A Deus nunca ninguém O viu. Todas as «visões» de Deus eram indirectas, pois o homem não pode ver a
Deus sem morrer (cf. Ex 19, 21; Is 6, 5), mas em Jesus temos a máxima
manifestação de Deus à criatura nesta vida, a tal ponto que, mesmo sem
contemplarmos a essência divina, quem vê a Jesus vê o Pai (Jo
14, 9). Com a Incarnação do Verbo temos a maior
revelação de Deus à Humanidade.
«O Filho Unigénito, que está no seio do Pai». Outra
variante possível na transmissão do texto original: «Deus Unigénito»
(adoptada pela Neovulgata).