Quarta-feira
de Cinzas (B)
Pe. Geraldo Morujão
Joel 2, 12-18
12Diz agora o Senhor: “Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns,
lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos.
Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo,
paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem
sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma
bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em
Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai
a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o
esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar,
chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai
ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das
nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’”. 18O Senhor
encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.
Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e com a esperança no
perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel
(1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de
gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou
figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de
exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se ia de alguma praga agrícola. Joel
não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos
grandes profetas. Diante da horrível calamidade
apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera
conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).
12-13 “Convertei-vos a Mim de todo o coração”. Não basta uma manifestação
exterior de dor (rasgar as vestes – v. 13 – era um típico gesto de grande dor
ou indignação, entre os judeus: rasgavam violentamente a túnica exterior, do
pescoço até à cintura, cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na
linguagem bíblica, apenas a afectividade. mas toda a interioridade do homem,
todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também
nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para
Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma e a rasgar o
nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição que é essa profunda mágoa de ter
ofendido ao Senhor infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e
desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele “é clemente e
compassivo, paciente e misericordioso”. A Vulgata e a Neovulgata têm “benignus
et misericors est, patiens et multæ misericordiæ”. “Compassivo”, isto é, dotado
de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo
hebraico “rahum” é derivado de “réhem”(ventre materno), o que sugere que Deus
tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco; assim, o seu
amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós,
compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão “misericordioso”
à letra, “de muita misericórdia” deixa ver que
a misericórdia do Senhor (“hésed”) não é uma bondade qualquer, é a
bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente
hendíadis da S. E.: “amor e fidelidade” (“hésed v-émet”). Este atributo divino
tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança;
uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero
âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a
Aliança, Deus continua a manter-se Fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao
seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso
desamor, as nossas traições e pecados: “jamais algum pecado do mundo poderá
superar este Amor” (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in
misericordia).
14 “Vai reconsiderar”. A expressão é um antropomorfismo com que se fala de
Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em
face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas,
a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo
dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira
humana, ao dizer também que “Ele se encheu de zelo pela sua terra” (v. 18), em
face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da
parte dos seus “ministros” (parce Domine, parce populo tuo: v. 17).
SEGUNDA LEITURA:
2 Coríntios 5, 20 – 6, 2
20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por
nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus.
21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por
amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como
colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça.
2Porque Ele diz: “No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em
teu auxílio”. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.
S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em
Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um
ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e
Ressurreição de Cristo (5, 14-15).
20 “Reconciliai-vos com Deus”. É este o insistente convite que a Igreja nos
faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que “é
Deus quem vos exorta por nosso intermédio”; os Apóstolos, como os demais
ministros de Cristo, são “embaixadores de Cristo”, não apenas “ao seu serviço”,
mas actuando “em vez de Cristo e por autoridade de Cristo”; o próprio texto
original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de),
usada com o sentido da preposição antí (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13;
etc.).
21 “Deus identificou-o com o pecado”, à letra, Deus fê-lo pecado, uma
expressão extraordina¬ria¬mente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não
se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus
permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui
duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe
duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns
pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), para os expiar
sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro,
se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício
pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade
de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra
’axam tem este duplo sentido de “violação da justiça” e de “sacrifício de
reparação pelo pecado”; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos
“justiça de Deus”, isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois
substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo
antitético, tão do gosto paulino).
6, 2 “Este é o tempo favorável”. S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, em que se
classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os
israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que “agora” é que é o tempo realmente
favorável, o tempo
EVANGELHO:
São Mateus 6, 1-6.16-18
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Tende cuidado em não
praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles.
Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim,
quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os
hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em
verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não
saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em
segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando
rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas
sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade
vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no
teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que
está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar
sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens
que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém,
quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não
percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu
Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”.
Os versículos da leitura evangélica são tirados do Sermão da Montanha de S.
Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, não têm paralelos nos outros
evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.
1 “As vossas boas obras” (à letra, a vossa justiça), isto é, os actos
tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de
modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de
piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com
rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a
Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.
6 “Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto”. Segundo estas palavras
de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente,
mas também, a sós: “no teu quarto”. O Senhor ensina aqui a necessidade da
oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à
salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os
um a um (nominatim: Jo 10, 3); daqui que são imprescindíveis tanto a oração
púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a
oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de
nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a
necessidade da oração individual, pois Ele deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23;
Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos
(cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que
tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que
consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta
oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta
Quaresma, que agora começa.