Sexta-Feira
Santa (Celebração da Paixão do Senhor)
(Pe.
Geraldo Morujão)
1ª leitura:
Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12
13Vede como vai
prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. 14Assim
como, à sua vista, muitos se encheram de espanto, tão desfigurado estava o seu
rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano, 15assim
se hão-de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão
calados, porque hão-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que
nunca tinham ouvido. 1Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se
revelou o braço do Senhor? 2O meu servo cresceu diante do Senhor
como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para
atrair o nosso olhar nem aspecto agradável que possa cativar-nos. 3Desprezado
e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como
aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. 4Ele
suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós
víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. 5Ele
foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas
iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos
curados. 6Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, cada qual
seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós. 7Maltratado,
humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao
matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. 8Foi
eliminado por sentença iníqua, mas, quem se preocupa com a sua sorte? Foi
arrancado da terra dos vivos e ferido de morte pelos pecados do meu povo. 9Foi-lhe
dada sepultura entre os ímpios e um túmulo no meio de malfeitores, embora não
tivesse cometido injustiça nem se tivesse encontrado mentira na sua boca. 10Aprouve
ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como
sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias e a
obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos,
verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a
muitos e tomará sobre si as suas iniquidades. 12Por isso, Eu lhe
darei as multidões como prémio e terá parte nos despojos no meio dos poderosos;
porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os
malfeitores, tomou sobre si as culpas das multidões e intercedeu pelos
pecadores.
Temos aqui o 4.° canto dos Poemas
do Servo de Yahwéh, os quais formam no seu conjunto uma grande unidade
literária, embora apareçam dispersos pela segunda parte do Livro de Isaías.
Todos os quatro cânticos encerram um sentido messiânico e aparecem citados no
Novo Testamento como tendo tido a sua realização
53, 2 “Um rebento”: Esta é uma imagem corrente nos profetas para
designarem o Messias (cf. Is 11, 10; Jer 23, 5-6; Zac 3, 8; 6, 12).
4-
10-12 O êxito da sua missão
expiatória é aqui descrito: uma descendência duradoira (v. 10); verá a luz e
ficará saciado (v. 10); justificará multidões de homens (v. 11); terá em posse
as multidões como prémio (v. 12; cf. Salm 2, 8). Assim sucede com Jesus, que,
através da sua obra redentora consumada no Calvário, alcança para si “um povo adquirido em propriedade” (cf. 1 Pe 2, 9; Ex 19, 5; Is 43,
21), a quem justifica tornando-nos seus filhos “uma descendência duradoira” (v. 10) de Deus, e chega à luz da
glória da Ressurreição.
2ª leitura:
Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9
Irmãos:
14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de
Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade,
nós não temos um sumo sacerdote incapaz de Se compadecer das nossas fraquezas.
Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no
pecado. 16Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a
fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno. 5,7Nos
dias da sua vida mortal, Ele dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e
lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido por causa da sua
piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento. 9E,
tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se, para todos os que Lhe obedecem,
causa de salvação eterna.
A beleza e expressividade
deste texto, tão bem adaptado ao dia de hoje dispensa grandes comentários.
Corresponde ao início da exposição do tema central da epístola (4, 14 – 7. 28),
o sacerdócio de Cristo.
14 “Temos nós um sumo sacerdote”. Jesus não se limita, como o sumo
sacerdote dos judeus, a penetrar no Santo dos Santos no dia da expiação (Yom qipur) para expiar os pecados do povo;
Ele penetra no próprio Céu e abre-nos o caminho para lá; e faz isto, não com o
sangue de animais, mas com o seu próprio sangue (9, 12), com grande sofrimento
da sua parte: “com lágrimas” (v. 7),
pois, apesar de ser o Filho de Deus, quis experimentar quanto custa obedecer e
sofrer (cf. v. 8). Assim, Jesus tem mais um título para se compadecer de nós,
das nossas dores e fraquezas: é que possui a experiência concreta de todas as
provações a que pode um homem ser sujeito nesta vida, com excepção do pecado
(cf. v. 15). Só nos resta ter a fé, a confiança e a humildade de recorrer à sua
infinita misericórdia – “trono da graça”
(v. 16) – para obter a ajuda de que precisamos.
5, 7-9 Ver supra, notas à 2ª leitura do 5º Domingo da Quaresma.
Evangelho:
São João 18, 1-40; 19, 1-42
N Naquele tempo, 1Jesus saiu com os seus
discípulos para o outro lado da torrente do Cédron. 2Havia lá um
jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas, que O ia entregar,
conhecia também o local, porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os
discípulos. 3Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns
guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou
ali, com archotes, lanternas e armas. 4Sabendo Jesus tudo o que Lhe
ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes:
J “A quem buscais?”
N 5Eles
responderam-Lhe:
R “A Jesus, o Nazareno”.
N Jesus disse-lhes:
J “Sou Eu”.
N Judas, que O ia entregar, também estava com eles. 6Quando
Jesus lhes disse: “Sou Eu”, recuaram e caíram por terra. 7Jesus
perguntou-lhes novamente:
J “A quem buscais?”
N Eles responderam:
R “A Jesus, o Nazareno”.
N 8Disse-lhes Jesus:
J “Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que
buscais, deixai que estes se retirem”.
N 9Assim se cumpriam
as palavras que Ele tinha dito: “Daqueles que Me deste, não perdi nenhum”. 10Então,
Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo
sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11Mas
Jesus disse a Pedro:
J “Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o
cálice que meu Pai Me deu?”
N 12Então, a companhia
de soldados, o oficial e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e
manietaram-n’O. 13Levaram-n’O primeiro a Anás, por ser sogro de
Caifás, que era o sumo sacerdote nesse ano. 14Caifás é que tinha
dado o seguinte conselho aos judeus: “Convém que morra um só homem pelo povo”. 15Entretanto,
Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do
sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote, 16enquanto
Pedro ficava à porta, do lado de fora. Então o outro discípulo, conhecido do
sumo sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17A
porteira disse a Pedro:
R “Tu não és dos discípulos desse homem?”
N Ele respondeu:
R “Não sou”.
N 18Estavam ali
presentes os servos e os guardas, que, por causa do frio, tinham acendido um
braseiro e se aqueciam. Pedro também se encontrava com eles a aquecer-se. 19Entretanto,
o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.
20Jesus respondeu-lhe:
J “Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na
sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em
segredo. 21Porque Me interrogas? Pergunta aos que Me ouviram o que
lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei”.
N 22A estas palavras,
um dos guardas que estava ali presente deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe:
R “É assim que respondes ao sumo sacerdote?”
N 23Jesus
respondeu-lhe:
J “Se falei mal, mostra-Me
N 24Então Anás mandou
Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás. 25Simão Pedro continuava
ali a aquecer-se. Disseram-lhe então:
R “Tu não és também um dos seus discípulos?”
N Ele negou, dizendo:
R “Não sou”.
N 26Replicou um dos
servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha:
R “Então eu não te vi com Ele no jardim?”
N 27Pedro negou
novamente, e logo um galo cantou. 28Depois, levaram Jesus da
residência de Caifás ao Pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no
pretório, para não se contaminarem e assim poderem comer a Páscoa. 29Pilatos
veio cá fora ter com eles e perguntou-lhes:
R “Que acusação trazeis contra este homem?”
N 30Eles
responderam-lhe:
R “Se não fosse malfeitor, não t’O entregávamos”.
N 31Disse-lhes
Pilatos:
R “Tomai-O vós próprios e julgai-O segundo a vossa
lei”.
N Os judeus responderam:
R “Não nos é permitido dar a morte a ninguém”.
N 32Assim se cumpriam
as palavras que Jesus tinha dito, ao indicar de que morte ia morrer. 33Entretanto,
Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe:
R “Tu és o Rei dos judeus?”
N 34Jesus
respondeu-lhe:
J “É por ti que o dizes, ou foram outros que to
disseram de Mim?”
N 35Disse-Lhe Pilatos:
R “Porventura sou eu judeu? O teu povo e os sumos
sacerdotes é que Te entregaram a Mim. Que fizeste?”
N 36Jesus respondeu:
J “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse
deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos
judeus. Mas o meu reino não é daqui”.
N 37Disse-Lhe Pilatos:
R “Então, Tu és Rei?”
N Jesus respondeu-lhe:
J “É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao
mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta
a minha voz”.
N 38Disse-Lhe Pilatos:
R “Que é a verdade?”
N Dito isto, saiu novamente para fora e declarou aos
judeus:
R “Não encontro neste homem culpa nenhuma. 39Mas
vós estais habituados a que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis que vos
solte o Rei dos judeus?”
N 40Eles gritaram de
novo:
R “Esse não. Antes Barrabás”.
N Barrabás era um salteador. 1Então Pilatos
mandou que levassem Jesus e O açoitassem. 2Os soldados teceram uma
coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram Jesus num manto de
púrpura. 3Depois aproximavam-se d’Ele e diziam:
R “Salve, Rei dos judeus”.
N E davam-Lhe bofetadas. 4Pilatos saiu
novamente para fora e disse:
R “Eu vo-l’O trago aqui fora, para saberdes que não
encontro n’Ele culpa nenhuma”.
N 5Jesus saiu,
trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse-lhes:
R “Eis o homem”.
N 6Quando viram Jesus,
os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram:
R “Crucifica-O! Crucifica-O!”.
N Disse-lhes Pilatos:
R “Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, que eu não
encontro n’Ele culpa alguma”.
N 7Responderam-lhe os
judeus:
R “Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve
morrer, porque Se fez Filho de Deus”.
N 8Quando Pilatos
ouviu estas palavras, ficou assustado. 9Voltou a entrar no pretório
e perguntou a Jesus:
R “Donde és Tu?”
N Mas Jesus não lhe deu resposta. 10Disse-Lhe
então Pilatos:
R “Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te
soltar e para Te crucificar?”
N Jesus respondeu-lhe:
J 11”Nenhum poder
terias sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti
tem maior pecado”.
N 12A partir de então,
Pilatos procurava libertar Jesus. Mas os judeus gritavam:
R “Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele
que se faz rei é contra César”.
N 13Ao ouvir estas
palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar
chamado “Lagedo”, em hebraico “Gabatá”. 14Era a Preparação da
Páscoa, por volta do meio-dia. Disse então aos judeus:
R “Eis o vosso Rei!”
N 15Mas eles gritaram:
R “À morte, à morte! Crucifica-O!”
N Disse-lhes Pilatos:
R “Hei-de crucificar o vosso Rei?”
N Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes:
R “Não temos outro rei senão César”.
N 16Entregou-lhes
então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. 17Levando
a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz
Gólgota. 18Ali O crucificaram, e com Ele mais dois: um de cada lado
e Jesus no meio. 19Pilatos escreveu ainda um letreiro e colocou-o no
alto da cruz; nele estava escrito: “Jesus, o Nazareno, Rei dos judeus”. 20Muitos
judeus leram esse letreiro, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado
era perto da cidade. Estava escrito em hebraico, grego e latim. 21Diziam
então a Pilatos os príncipes dos sacerdotes dos judeus:
R “Não escrevas: ‘Rei dos judeus’, mas que Ele
afirmou: ‘Eu sou o Rei dos judeus’”.
N 22Pilatos retorquiu:
R “O que escrevi está escrito”.
N 23Quando
crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram
quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. A túnica não
tinha costura: era tecida de alto a baixo como um todo. 24Disseram
uns aos outros:
R “Não a rasguemos, mas lancemos sortes, para ver de
quem será”.
N Assim se cumpria a Escritura: “Repartiram entre si
as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica”. Foi o que fizeram os
soldados. 25Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua
Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o
discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe:
J “Mulher, eis o teu filho”.
N 27Depois disse ao
discípulo:
J “Eis a tua Mãe”.
N E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em
sua casa. 28Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se
cumprisse a Escritura, Jesus disse:
J “Tenho sede”.
N 29Estava ali um vaso
cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e
levaram-Lha à boca. 30Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:
J “Tudo está consumado”.
N E, inclinando a cabeca, expirou.
N 31Por ser a
Preparação, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, – era
um grande dia aquele sábado – os judeus pediram a Pilatos que se lhes
quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados vieram e
quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com
ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as
pernas, 34mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e
logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu é que dá testemunho e o
seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós
acrediteis. 36Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz:
“Nenhum osso Lhe será quebrado”. 37Diz ainda outra passagem da
Escritura: “Hão-de olhar para Aquele que trespassaram”. 38Depois
disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo
dos judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos
permitiu-lho. José veio então tirar o corpo de Jesus. 39Veio também
Nicodemos, aquele que, antes, tinha ido de noite ao encontro de Jesus. Trazia
uma mistura de quase cem libras de mirra e aloés. 40Tomaram o corpo
de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, como é
costume sepultar entre os judeus. 41No local
Os quatro desenvolvidos
relatos da Paixão do Senhor que nos propõem todos os quatro evangelistas não
são um mero relato. Têm um quê de reflexão e meditação sobre tão assombrosos
acontecimentos, à luz do Antigo Testamento. Também nós não devemos passar
apressadamente os olhos por estas páginas, mas meditá-las, metermo-nos dentro
destas cenas e renovar frequentemente a sua lembrança: quem sofre, quanto
sofre, para que sofre e porque sofre, por quem sofre? Esta meditação tem feito
muito santos ao longo de todos os tempos, pois não pode deixar ninguém
indiferente: um tão grande amor só com amor se paga (sic nos amantem quis non redamaret?).
É neste relato onde o
paralelismo com os Sinópticos é maior, embora apareçam muitos pormenores
específicos e sobretudo uma profunda visão teológica muito própria que põe em
relevo a serena majestade de Jesus que caminha livremente para a Cruz como para
um trono de glória e uma fonte de vida para os seus; mesmo quando é esbofeteado
e feito rei de comédia, aparece com toda a dignidade real que Lhe compete;
assim, João evita descrever a agonia, embora a não ignore (cf. v. 11; 12,
27-28).
18, 1-2 “A torrente do Cédron” era uma corrente
de água invernal; há muitas na Palestina a que os árabes chamam wadi. Só é nomeada aqui em todo o N. T. (cf. 2 Sam 15, 23);
corre para o Mar Morto no profundo vale que separa Jerusalém do Monte das
Oliveiras, onde ficava a propriedade
3-12. Apenas João fala da
intervenção de soldados romanos: seria apenas um destacamento duma coorte, pois esta tinha 600 homens. A prisão de
Jesus não se deve à violência exercida mas à sua entrega soberana e consciente
(Eu Sou!); preso, exige a liberdade dos seus (v. 8). Só
João revela os nomes de Pedro e de Malco na cena do golpe de espada.
“Recuaram e caíram por terra”. Jesus, contra o que esperavam os
atacantes entrega-se serenamente. Podemos imaginar que os que iam à frente
tenham ficado tão impressionados com a superior dignidade da atitude de Jesus e
com a sua serena majestade que, perturbados, recuam instintivamente, tropeçam e
caem por terra: a sua agressividade fora desarmada e dominada pela atitude
divinamente superior de Jesus. S. João põe o acento neste pormenor para que vejam
como o Senhor caminha livremente para a morte. Jesus não padece e morre porque
não havia outra saída humana; Jesus padece e morre porque era essa a única
saída divina.
11 “O cálice que Meu Pai Me deu…”: Estas palavras de Jesus parecem
conter uma discreta alusão de S. João ao
cálice da agonia. Mas S. João não quer fixar-se na agonia do horto, por
isso não a relata. É que nos quer apresentar Jesus na sua Paixão sempre como
vencedor e sem a aparência de vencido: Jesus aparece-nos numa atitude
hierática, mesmo quando sofre a maior dor humana. A cruz é um trono donde o
Salvador reina salvando os seus, atraindo a si e reconciliando, é o regresso ao
Pai, a consumação do sacrifício do novo cordeiro pascal com cujo sangue somos
redimidos e libertados (cf. Jo 19, 30.36).
13-14. S. João é o único
que nos conta que Jesus foi levado ao influente Anás que fora sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 e a quem vieram a
suceder cinco dos seus filhos e, nesta data, o seu genro, José Caifás (cf. 11,
49.50.
15-27. O outro discípulo
(v. 15) é provavelmente João. O interrogatório de Anás (vv. 19ss) versa sobre
duas coisas públicas e sabidas: a doutrina
e os discípulos de Jesus, mas os
inimigos suspeitam de planos secretos e sinistros, por se negarem a ver e a
crer (cf. 9, 39-41; 10, 37-38); e uma doutrina do reino e uns discípulos galileus (zelotas?) forneceriam a base da denúncia aos romanos. Jesus
defende-se, mas sem perder a serenidade. Note-se como as três negações de
Pedro, embora contadas de forma resumida e discreta, assumem um aspecto
dramático pelo facto de se introduzir no meio delas (vv. 19-24) o
interrogatório de Anás, a quem Jesus declara: “pergunta aos que Me ouviram…” (v. 21), e é mesmo o ouvinte
privilegiado de Jesus quem nega, ficando patente o contraste entre a afirmação
de Mestre, “Eu sou” (vv. 5.8) e a
negação do discípulo,”não sou” (vv.
17.25). Nos Sinópticos as negações são no pátio da casa de Caifás (cf. Mt 26,
57ss; Mc 14, 53ss; Lc 22, 54ss), uma contradição sem importância, talvez só
aparente, pois o pátio bem poderia ser comum à casa de ambos. João limita-se a
dizer que Jesus foi enviado a Caifás (v. 24), sem relatar a sessão do Sinédrio
que na manhã de sexta-feira O condenou (cf. Lc 22, 66-71; Mc 14, 55-64; Mt 26,
59-66); com isto pretenderia sublinhar que a condenação já estava decretada
(cf. Jo 11, 47-53). É notável a discrição e delicadeza com que o Discípulo
amado relata a tríplice negação do chefe dos Apóstolos. O relato mais
pormenorizado do pecado de Pedro que temos nos Sinópticos pode dever-se muito
bem à tradição oral que procedia do próprio Pedro, que teria a humildade de
contar frequentemente as suas negações com todo o realismo.
28ss. S. João dá ao
processo diante de Pilatos uma grande importância; a narrativa põe em contraste
a serenidade e a segurança de Jesus com a agitação e ansiedade dos inimigos; é
um relato em sete cenas que se desenrolam alternadamente no exterior e na
sede do governador romano, o “pretório”,
pois os acusadores evitam entrar em casa dum gentio para não contraírem uma
impureza legal que os obrigaria a adiar a celebração da ceia pascal; com
efeito, os príncipes dos sacerdotes, o único grupo a ser nomeado (18, 35; 19,
6.15.21) no processo de Jesus, eram do partido dos saduceus, que naquele ano atrasaram
um dia a celebração da Páscoa. As actas do processo de Jesus ainda se
conservariam nos arquivos do império por meados do século II, pois S. Justino,
escrevendo ao imperador Antonino Pio, apela para as Actas de Pilatos (I Apologia 35, 9; 48, 3).
“E poderem comer a Páscoa” (v. 28): Jesus tinha comido a
páscoa, ou cordeiro pascal, mas seguindo um calendário diferente (sobre esta
divergência de datas há muitas tentativas de solução, mas nenhuma definitiva).
Entrar em casa dum gentio (o pretório) era contrair uma impureza e, contraída
no dia em que pertencia celebrar a ceia pascal, levava a ter de se adiar a sua
celebração para o mesmo dia do mês seguinte, o que normalmente ninguém
desejava. Note-se o cúmulo do formalismo hipócrita: tem-se escrúpulo de entrar
em casa dum gentio, mas não se receia condenar o inocente à morte!
18, 28 – 19, 16 O processo de Jesus diante Pilatos é
descrito com todo o pormenor
33-37. As razões para
eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas é denunciado à autoridade
romana como um conspirador político: “rei
dos judeus”. A resposta de Jesus com uma pergunta (v. 34) não é um
subterfúgio, mas um meio de esclarecer qual o ponto de vista para falar de Si
como rei; descartado o ponto de vista pagão (v. 35), Jesus, que não podia negar
a sua realeza, distancia-se igualmente da expectativa nacionalista judaica,
afirmando o carácter transcendente do seu reino (ver Rom 14, 17), o que
colocava a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: não é deste mundo (v. 36) e visa manifestar a verdade (v. 37).
19, 1-7 “E O açoitassem”: a flagelação era uma das penas mais duras previstas no Direito jamais
aplicável a um cidadão romano; os golpes, sem conta prevista, eram aplicados
nas costas nuas da vítima atada a uma coluna, com chicotes de tiras de couro
munidas de peças de metal ou osso nas extremidades, uma tortura suficiente para
causar a morte. Em Mateus e Marcos a flagelação aparece depois da sentença de
condenação, como habitualmente sucedia, para debilitar as forças dos
condenados à cruz; em Lucas é anunciada como um castigo prévio; em João, que
parece reproduzir com mais rigor o que se passou na realidade, tem o carácter
de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um
rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém. No ecce homo, a troça não poderia ser mais
humilhante, mas o Evangelista quer que o leitor descubra o verdadeiro
Messias-Rei, o mistério de quem é esse
homem (cf. Jo 5, 12). A contemplação deste mistério doloroso não pode
deixar de nos tocar a alma profundamente.
7 “Porque se fez Filho de Deus”: Como observa F. Dreyfus, trata-se do
único caso, em toda a história do povo hebreu, em que uma pessoa foi acusada e
condenada por se fazer filho de Deus! A blasfémia era suficiente para se
aplicar a pena de morte, segundo o Levítico 24, 16.
9 “Donde és Tu?” A pergunta de Pilatos assustado não é sobre a naturalidade de Jesus (já antes o mandara a
Herodes: Lc 23,2-6), mas sobre a sua verdadeira natureza: acusado de se dizer Filho de Deus, não será ele um ser
divino? Esta questão sobre a origem de Jesus é fulcral e inevitável, também
para o leitor (cf. Jo 7, 27-28; 8, 14; 9, 29-30). “Mas Jesus não lhe deu resposta”, não para se esquivar, mas é que o
céptico Pilatos (18, 38) não busca a verdade; falta-lhe rectidão.
13. “Sentou-se no tribunal”: O
texto grego permite outra tradução: Pilatos
trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar
numa tribuna; com efeito, não parece que S. João queira dizer que foi
Pilatos que se sentou, pois a cena
passa-se no exterior do tribunal e não há uma sentença. Esta ambiguidade parece
intencional, para exprimir que o prefeito romano só na aparência é que é juiz,
pois o que ele faz é entronizar Jesus, que é quem faz o decisivo julgamento
(cf. Jo 12, 31). Há quem pense que esta entronização
visava pôr a ridículo as autoridades judaicas (vv. 14.19-22), coisa bem ao
jeito de Pôncio Pilatos, que não perdia qualquer ocasião para humilhar os
judeus. “Gabbatá” significa antes lugar elevado, mais provavelmente na
Torre Antónia (um pavimento de pedra
identificado arqueologicamente), embora outros considerem que ficaria na zona
do palácio de Herodes, na cidade alta.
14 “Por volta do meio dia”,
era o final da hora terceira dos romanos (nomeada em Mc 15, 25) e o início da
hora sexta (o meio dia).
17-18 “Levando a cruz”: só João diz claramente que Jesus carrega a cruz às costas (possível alusão – o
chamado rémez a Gn 22, 6 tão usado na exegese midráxica dos rabinos – a Isaac carregando a lenha do sacrifício),
sem falar do Cireneu, para o lugar do “Calvário”,
palavra latina que traduz a hebraica: caveira
ou crânio, a forma que tinha o
penhasco; não era propriamente um monte, mas uma elevação rochosa já fora dos
muros de então, a uns
18 “E lá O crucificaram”. A crucifixão era o suplício mais doloroso e
o mais infamante. Por isso se empenhavam os inimigos de Jesus em que tivesse
este género de morte. Era a melhor maneira de acabar com a memória de Jesus na
gente que O seguia, a maior prova de falsidade
do seu messianismo! Ninguém mais se atreveria a falar dum messias tão
miseravelmente derrotado e tendo sofrido a morte dos maiores criminosos. Cícero
testemunha a infâmia deste horrendo suplício: “Que um cidadão romano seja atado
é um abuso; que seja golpeado, é um delito; que se lhe dê morte, é um quase um
parricídio; que direi eu, então, se é suspenso numa cruz? A uma coisa tão
horrível como esta não se pode aplicar de modo algum um apelativo
suficientemente adequado!” (In Verrem,
II, 5, 66). A morte dum crucificado sobrevinha após uma dolorosíssima agonia,
com uma sede terrível, consequência da perda de sangue pelas feridas abertas,
com dolorosas cãibras que provocavam o
horrível estertor duma asfixia lenta.
19-22 “Esse letreiro”, o títulum
do Direito romano, era o resumo da acta da sentença a ser enviada para os
arquivos do tribunal de César, por isso já não podia ser modificada depois de
ditada e executada a sentença, apesar das insistências dos judeus, que
consideravam este letreiro mais um vexame do procurador romano ao povo. João,
ao sublinhar que estava escrito em hebraico, latim e grego, parece querer indicar
a realeza universal de Jesus.
23-24 “Tomaram as suas vestes”: A divisão da roupa pelos soldados era um
facto banal e corrente, um direito reconhecido aos carrascos; esta só ficou
referida em virtude do seu significado, pois assim se cumpriam as Escrituras (cf. Salm 22, 19)
citadas explicitamente apenas por João, que fala das vestes divididas em
quatro lotes; as roupas de Jesus, mesmo sem excluir a túnica, não podiam dar
quatro lotes, mas disto não há que concluir que se trata duma mera criação literário-teológica,
pois havia as roupas de mais dois condenados, que no conjunto fariam os quatro
lotes. Também era supérfluo dizer que não rasgaram a túnica, pois não iriam
inutilizá-la e, com o que já estava dito, as Escrituras apareciam plenamente
cumpridas; por isso, há exegetas que, partindo da norma de o sumo sacerdote
usar uma túnica sem costura, vêem na insistência neste pormenor (v. 23) a
intenção de apresentar Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, e o seu
despojamento simbolizaria a abolição do sacerdócio antigo. Os Padres vão ainda
mais longe e chegam a ver na túnica sem costura uma imagem da unidade da
Igreja.
25-27. Repare-se na
solenidade deste relato: é uma cena central entre as cinco passadas no
Calvário; a Virgem Maria é mencionada 5 vezes em 3 versículos; há o recurso a
uma fórmula solene de revelação (ao ver…
disse… eis… ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade
filial de Jesus para com sua Mãe para não a deixar ao desamparo, mas que o
Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo: chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir
(cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora; por
outro lado, Ela é a mulher que
simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus
representados no discípulo amado, o qual a
acolheu como coisa sua. Preferimos esta tradução à mais corrente: acolheu-a em sua casa, pois a expressão
grega, usada mais quatro vezes
28-30 “Tenho sede!”: Aquele que viera para nos matar a sede (Jo 4, 14; 7,
37) queixa-se de sede! Deveria ser um dos grandes tormentos de Jesus, sem
sangue, cansado, sem tomar alimento... Mas sempre se tem visto nesta sede de Jesus algo mais: a sua ânsia
pela salvação do mundo. João omite o grito de Mt 27, 46 e Mc 15, 34, referindo
uma exclamação mais de acordo com a imagem de serena majestade do Senhor da
vida e com o seu gosto pelos paradoxos (cf. Jo 4, 14; 7, 37) e em que parece
ver também o cumprimento do Salm 22, 16. O vinagre diluído em água era um
refresco, a posca romana, usado pela gente humilde e pelos
soldados; os três Sinópticos também falam deste vinagre dos soldados (Mt 27,
48; Mc 15, 36; Lc 23, 36), além do vinho com mirra (Mc 15, 23), de efeito
analgésico e oferecido antes da crucifixão; Mt 27, 34 dá-lhe o nome de vinho
com fel para o leitor ter mais facilidade em recordar o Salmo segundo a versão
dos LXX (Salm 68) que então se cumpria e
que todos se dispensaram de citar (cf. Salm 69, 22). Pode-se ver no “ramo de hissopo” uma
alusão ao sacrifício do novo cordeiro pascal (cf. Ex 12, 22, onde se diz que
era com um ramo de hissopo que as portas dos hebreus deviam ser tingidas com o sangue
do cordeiro); como o ramo deste arbusto, de folhas bastas, é curto e parece
demasiado flexível para fixar a “esponja”
(que serviria de tampa à vasilha do refresco), há autores que pensam ter havido
uma corrupção do texto original (a palavra hyssopos,
seria a corrupção de hyssós:
“dardo”, o que não tem qualquer espécie de apoio textual) e traduzem, como fez
a tradução litúrgica, simplesmente por vara,
empobrecendo o profundo significado teológico da passagem.
30. “Tudo está consumado”
corresponde a um verbo grego que encerra a ideia da perfeição que atinge algo
realizado: “cumprido e finalizado com toda a perfeição”. “Inclinando a cabeça”: um gesto que João refere, certamente pela
impressionante imagem que lhe ficou gravada para sempre, mas também por querer
sublinhar o perfeito domínio de si (cf. Jo 10, 18) com que Jesus se entrega até
ao fim, ao empregar a forma activa do verbo, quando era de esperar a forma
média ou passiva, pois um crucificado, ao morrer, não inclina a cabeça, mas
esta é que se lhe inclina… Por outro lado, “entregou
o espírito” (a tradução litúrgica adoptou uma versão mais pobre: “expirou”) é uma fórmula que nunca se
usa para dizer que alguém expirou; por isso, pode ver-se aqui sugerido o
Espírito Santo como dom de Jesus, fruto da árvore da Cruz (cf. Jo 7, 39; 16,
6).
33-34 “Não quebraram as pernas” a
Jesus, por estar já morto; tratava-se do chamado crurifrágio aplicado aos ladrões e destinado a apressar-lhes a
morte, que se dava por asfixia lenta: estes, ao não poderem apoiar-se nas
pernas, deixavam-se asfixiar mais rapidamente. O golpe da lança dado a Jesus,
com que se cumpria a profecia de Zacarias 12, 10, confirma a morte real do
Senhor. Mas João, no golpe da lança,
vê muito mais do que uma confirmação da morte de Jesus; ele contempla o
cumprimento das Escrituras e o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal (cf. Ex
12, 46; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Zac 12, 10; Apoc 1, 7) e parece insinuar, para
além do dom da vida eterna (o sangue:
cf. Jo 6, 53-54) e do Espírito Santo (a água:
cf. Jo 4, 14; 7, 38-39; 3, 5), os Sacramentos da iniciação cristã, a Eucaristia
(o sangue) o Baptismo (a água), a própria Igreja, a nossa Mãe na ordem da graça (cf. Gal 4, 26), a nova Eva, a sair do
lado novo Adão (cf. Gn 2, 22); estes ricos simbolismos já eram vistos pelos
Padres da Igreja. “E logo saiu sangue e
água”, um facto incontestável, mais provavelmente de ordem natural: a água que seria soro do pericárdio, ou
exsudação pleural; de qualquer modo, como Jesus estava morto, não seria um
derramamento abundante.
35 “E ele sabe que diz a verdade”: há quem queira ver aqui uma espécie
de juramento, a saber, o apelo a uma
segunda testemunha abonatória, o próprio Cristo glorioso, ou mesmo o Pai (que
sabe que o evangelista diz a verdade), não faltando quem pense numa glosa. De
qualquer modo, uma afirmação tão solene faz apelo a factos reais, que excluem
uma simbologia desvinculada da história. E, de facto, uma história como a da
Paixão e Morte do Senhor não se inventa, é mesmo verdadeira. A testemunha
privilegiada foi certamente o discípulo amado de Jesus, que garante a verdade
dos factos narrados.
38 “José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo
dos judeus, “homem rico” (Mt 27, 57), “membro do Sinédrio” (Mc 15, 43),
“pessoa recta e justa, que não estava de acordo com a decisão e o procedimento
dos outros” (Lc 23, 50-51). A sua grande coragem, dedicação e lealdade levam-no
a que, quando as circunstancias o exigem, apesar de estas serem as mais
infamantes e delicadas, ali esteja pronto para cumprir o seu dever de piedade
para com o Mestre, na hora da fuga e do estonteamento dos próprios Apóstolos.
39 As
40 “Segundo o costume dos judeus”, os panos de linho da mortalha incluíam um lençol mortuário (em grego síndone: Mt 27, 49 par.) que envolvia
todo o corpo, umas faixas para ligar
os braços e as pernas e aconchegar o lençol, e um lenço, ou sudário propriamente dito, para envolver
a cabeça.