TEXTOS DOMINICAIS DO 17º DOMINGO COMUM B
PE. GERALDO MORUJÃO
1ª leitura
2 Reis 4, 42-44
Naqueles dias, 42veio um homem da
povoação de Baal-Salisa e trouxe a
Eliseu, o homem de Deus, pão feito com os primeiros frutos da colheita.
Eram vinte pães de cevada e trigo novo no seu alforge.
Eliseu disse: «Dá-os a comer a essa gente». 43O servo respondeu: «Como posso
com isto dar de comer a cem pessoas?» Eliseu insistiu: «Dá-os a comer a essa
gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há-de
sobrar’». 44Deu-lhos e eles comeram, e ainda sobrou, segundo a palavra do
Senhor.
O nosso texto é extraído do
chamado “ciclo de Eliseu” (2 Rs 2, 13 – 13, 25), onde
se contam grandes prodígios deste profeta. Foi escolhido para a Liturgia de
hoje para pôr em evidência a superioridade de Jesus sobre o maior taumaturgo de
todos os profetas. De facto, o contraste é flagrante:
com 20 pães Eliseu alimentou 100 pessoas, ao passo que Jesus, com 5 pães,
alimenta 5000. A desproporção é de 1 para 5 e de 1 para mil, e nem sequer o
aspecto prodigioso se situa no mesmo plano, pois não se diz que Eliseu
multiplicou o pão, mas apenas que fartou a sua gente.
2ª leitura
Efésios
4, 1-6
Irmãos: 1Eu, prisioneiro pela
causa do Senhor, recomendo-vos que vos comporteis segundo a maneira de viver a
que fostes chamados: 2procedei com toda a humildade, mansidão e paciência;
suportai-vos uns aos outros com caridade; 3empenhai-vos em manter a unidade de
espírito pelo vínculo da paz. 4Há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança na vida a que fostes chamados. 5Há
um só Senhor, uma só fé, um só Baptismo. 6Há um só
Deus e Pai de todos, que está acima de todos, actua
em todos e
A leitura corresponde ao início
das exortações morais da Epístola (cap. 4 – 6). Pelo que diz no v. 1 – “estou
na prisão”– ficamos a saber que S. Paulo escreve
estando prisioneiro. Segundo a opinião tradicional, S. Paulo estaria no primeiro cativeiro
romano, entre os anos 60-61 e 62-63; o Apóstolo não estava num calabouço, mas
no regime da “custodia libera”, com o braço direito preso ao esquerdo dum
soldado que se revezava, esperando, numa certa liberdade, vivendo por conta
própria (cf. Act 28, 16), a hora de ser julgado no
tribunal imperial.
3-6 A unidade de espírito, para
que se apela tem uma base doutrinal sólida: “Há um só Corpo”, o de Cristo, que
é uma única Igreja (cf. Ef 1, 22-23); “há um só
Espírito”, o Espírito Santo, a alma da Igreja; “uma só esperança”, o mesmo Céu
para todos, a vida eterna a que estamos destinados;
“há só Senhor, uma só fé…”. Como diz o Vaticano II, no decreto sobre o
ecumenismo, “o
Espírito Santo, que habita nos crentes, enche e rege toda a Igreja, realiza
aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une a todos tão intimamente em Cristo,
que é o princípio da unidade da Igreja” (UR, 2).
Evangelho
São João 6, 1-15
Naquele tempo, 1Jesus partiu para
o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. 2Seguia-O numerosa
multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes. 3Jesus subiu a um
monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa
dos judeus. 5Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu
encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de
comer?» 6Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem
sabia o que ia fazer. 7Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários
de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos
discípulos, 8André, irmão de Simão Pedro: 9«Está aqui um rapazito
que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?»
10Jesus respondeu: «Mandai sentar essa gente». Havia muita erva naquele lugar e
os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães,
deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes;
e comeram quanto quiseram. 12Quando ficaram saciados, Jesus disse aos
discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca».
13Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada
que sobraram aos que tinham comido. 14Quando viram o milagre
que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o
Profeta que estava para vir ao mundo». 15Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente,
sozinho, para o monte.
A importância doutrinal deste
capítulo 6 do Quarto Evangelho é posta em evidência pelo facto
de ser o mais comprido de todos os relatos joaninos.
Não deixa de ser significativo que tenhamos nos Evange¬lhos seis relatos de
multiplicação do pão: esta insistência parece corresponder a um interesse
motivado pela relação deste milagre com a Eucaristia, podendo observar-se em
todos esses relatos uma grande semelhança de linguagem com os da instituição da
Eucaristia, os quais, por sua vez, têm fortes ressonâncias litúrgicas,
provenientes certamente da vida das primitivas comunidades. Em João o relato do
milagre serve mesmo de introdução ao discurso do pão do Céu que se lhe segue.
Por outro lado, fica patente que a pregação de Jesus
se dirige a pessoas que não são puros espíritos, mas são gente que precisa
tanto do pão para a boca como do pão para a alma. Vêm a propósito as palavras
de Bento XVI, Deus caritas est,
nº 32: “A prática da caridade é um acto da
Igreja enquanto tal, e também ela, tal como o serviço da Palavra e dos
Sacramentos, faz parte da sua missão originária”.
É interessante verificar que S.
João, além de conservar muitos pormenores que os Sinópticos não transmitiram,
em nada contradiz o relato dos outros três Evangelhos. Com efeito, ele refere a ocasião da Páscoa (v. 4), que os pães eram de cevada {v.
9), que o chão tinha erva abundante (v. 10), conserva o nome dos dois
discípulos (vv. 5.8) e que quem tinha os 5 pães era um rapaz (v. 9). Por outro
lado, o IV Evangelho dá maior relevo à figura de Jesus que é quem toma
iniciativas (vv. 6.12).
1. A tradição cristã palestina considera
que “o outro lado do mar da Galileia” não é a margem
oriental, mas o outro lado dum golfo existente na mesma margem ocidental (Tabga).
4ss. A referência à proximidade da Páscoa,
sublinhada com a referência à muita erva própria da
época pascal (v. 10), é como a chave para que o leitor descubra que o milagre
da multi¬pli¬ca¬ção do pão prefigura a Páscoa cristã e a instituição da
Santíssima Eucaristia.
14. “O Profeta”, isto é, o novo Moisés, o Messias anunciado em Dt 18, 15.