3º
Domingo da Quaresma A
(Pe. Geraldo Morujão)
1ª Leitura
Êxodo 17, 3-7
3Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela
sede, começou a altercar com Moisés, dizendo: «Porque nos tiraste do Egipto?
Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?»
4Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: «Que hei-de fazer a este
povo? Pouco falta para me apedrejarem». 5O Senhor respondeu a Moisés:
«Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma
na mão a vara com que fustigaste o Rio e põe-te a caminho. 6Eu
estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo
e dele sairá água; então o povo poderá beber». Moisés assim fez à vista dos
anciãos de Israel. 7E chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa
da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem:
«O Senhor está ou não no meio de nós?»
O episódio que constituiu uma prova e fonte de litígio,
enquadra-se bem na vida no deserto do Sinai, onde abunda a fome e a sede e
escasseiam os oásis; é apresentado a dar lugar ao nome de dois sítios: “Meribá”, que, segundo uma etimologia popular,
designa a disputa ou litígio (do povo com Moisés) e “Massá”, nome correspondente a prova ou tentação. Este pecado de falta de fé do povo na Providência divina
é muitas vezes posto em relevo na Sagrada Escritura: Dt 6, 16; 9, 22-24; 33,
8; Salm 95, 8-9; também aparece sublinhada a falta de fé do próprio chefe,
Moisés, cuja dúvida o levou a bater duas vezes na rocha (cf. Nm 20, 1-13;
Dt 32, 51; Salm 106, 32).
2ª leitura
Romanos 5, 1-2.5-8
Irmãos: 1Tendo sido justificados
pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, 2pelo
qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,
apoiados na esperança da glória de Deus. 5Ora, a esperança não
engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito
Santo que nos foi dado. 6Cristo morreu por nós, quando éramos ainda
pecadores. 7Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem
bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. 8Deus prova assim
o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
Dentro do tema central da epístola, a obra da nossa
justificação realizada por Cristo, S. Paulo aponta aqui os efeitos desta sua
obra salvadora: a “paz” (v. 1),
o “acesso à graça”, um orgulho santo, e a esperança
(v. 2), uma “esperança que não engana”,
porque tem como fundamento o “amor de
Deus”. “Esta graça em que permanecemos”
é a graça santificante, a graça da justificação, que nos torna santos, justos,
amigos de Deus e em paz com Ele.
5 “O amor de
Deus foi derramado em nossos corações”. Este amor não é apenas algo que
se situa fora de nós próprios, uma mera atitude de benevolência divina extrínseca,
mas é um dom derramado. É assim
que se fala neste texto dum dom
e dum doador; daqui que a Teologia explicita
esse dom como a virtude infusa da
caridade, inseparável da graça santificante, isto é, um “hábito” permanente,
bem expresso pelo particípio perfeito passivo do original grego – “que permanece
derramado” –, e que o doador é o
Espírito Santo, o qual, por sua vez, também “nos foi concedido” (a graça incriada, ou inabitação da SS.ma
Trindade na alma do justo).
6-8 Este amor de Deus não é uma teoria, pois ele se
revela na morte de Jesus pelos pecadores.
Evangelho
Forma
longa: São João 4, 5-42; forma
breve: São João 4, 5-15.19b-26.39a40-42
5Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria,
chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
6onde estava a fonte de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se
à beira do poço. Era por volta do meio-dia. 7Veio uma mulher da
Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». 8Os
discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. 9Respondeu-Lhe
a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Disse-lhe
Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de
beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». 11Respondeu-Lhe
a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te
vem a água viva? 12Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que
nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?»
13Disse-Lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter
sede. 14Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais
terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para
a vida eterna». 15«Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água,
para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». [16Disse-lhe
Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». 17Respondeu-lhe
a mulher: «Não tenho marido». Jesus replicou: «Disseste bem que não tens marido,
18pois tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade». 19Disse-lhe a mulher: «Senhor,] vejo
que és profeta. 20Os nossos antepassados adoraram neste monte,
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». 21Disse-lhe
Jesus: «Mulher, podes acreditar em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste
monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não
conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.
23Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores
hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que
o Pai deseja. 24Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O
em espírito e verdade». 25Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há-de
vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier, há-de anunciar-nos
todas as coisas». 26Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar
contigo». [27Nisto, chegaram os discípulos e ficaram admirados
por Ele estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles Lhe perguntou: «Que
pretendes?» ou então: «Porque falas com ela?» 28A mulher deixou
a bilha, correu à cidade e falou a todos: 29«Vinde ver um homem
que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?» 30Eles
saíram da cidade e vieram ter com Jesus. 31Entretanto, os discípulos
insistiam com Ele, dizendo: «Mestre, come». 32Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis». 33Os discípulos
perguntavam uns aos outros: «Porventura alguém Lhe trouxe de comer?» 34Disse-lhes
Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar
a sua obra. 35Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e
vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. 36Já
o ceifeiro recebe o salário e recolhe
o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente
com o ceifeiro. 37Nisto se verifica o ditado: ‘Um é o que semeia
e outro o que ceifa’. 38Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».] 39Muitos
samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher,
[que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz». 40Por isso]
os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse
com eles. E ficou lá dois dias. 41Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram
42e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que
acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador
do mundo».
5-6 “Sicar”,
que muitos querem identificar com a Siquém dos tempos dos Patriarcas,
destruída em grande parte por João Hircano em
6 “Jesus, cansado
da caminhada, sentou-Se à beira do poço”. João, que pretende demonstrar
a divindade de Jesus no seu Evangelho (cf. Jo 20, 31), não descuida deixar ver bem claramente a humanidade do
Senhor. Eis o belíssimo comentário de Santo Agostinho: “Não é em vão que se
fatiga o Poder de Deus. Não é em vão que se fatiga Aquele cuja ausência nos
causa fadiga e cuja presença nos conforta. (...) Jesus fatigou-Se com o caminho
por nosso amor. Encontramos ali Jesus que é força e encontramo-Lo fatigado.
Jesus é forte e é fraco. (...) A força de Cristo deu-nos a vida e a fraqueza
de Cristo deu-nos a nova vida. A força de Cristo fez que existisse o que não
existia; a fraqueza de Cristo fez que não perecesse o que existia. Cristo
criou-nos pela sua força e salvou-nos pela sua fraqueza” (In Ioh. Tractus XV, 6).
9 “Sendo eu samaritana”. Os samaritanos eram um povo misto, resultado do cruzamento dos judeus, que
não foram desterrados, quando Sargão II acabou com
o reino do Norte em 721, com os colonos assírios que para ali foram mandados.
As rivalidades, que vinham dos inícios da monarquia, com a divisão em dois
reinos (cf. 1 Re 12; 17, 24-34),
acirraram-se com a reforma de Esdras e Neemias no
regresso do exílio, até que se consumou o cisma religioso. Eles consideravam-se
autênticos israelitas e seguiam os cinco livros de Moisés (o Peutateuco Samaritano). Mas os judeus consideravam-nos semi-pagãos e cismáticos, pois sobre
o monte Garizim tinham chegado a construir um templo,
rival do de Jerusalém. O ódio e desprezo dos judeus pelos samaritanos era
tão grande que, quando querem insultar a Jesus chamam-no “samaritano” (Jo 8, 48) o que
equivalia a chamar-Lhe um renegado, talvez pelos contactos de Jesus com as
gentes da Samaria, quando um judeu praticante devia
abster-se de todo o contacto com os samaritanos.
10-15 “Se conhecesses…”: conhecer, na linguagem bíblica, não se reduz a
estar informado, mas implica uma vivência, como se Jesus dissesse: “Se tu
tivesses a experiência da vida que Deus tem para te dar...”. “Água viva”: dá-se aqui um mal-entendido,
pois a samaritana pensa em água corrente, por oposição à água estagnada do
poço, quando Jesus lhe fala assim, recorrendo a um símbolo bíblico tradicional
(cf. Is 12, 3; 44, 3; Jr
2, 13; 17, 13; Salm 36, 10; ver Apoc
21, 6; 22, 17) para falar dum dom divino que no IV Evangelho se exprime em
diversas categorias sobrenaturais paralelas e que se iluminam mutuamente:
vida eterna, salvação, o próprio Jesus, o Espírito Santo, como se explicita
em 7, 38-
17 “Tiveste cinco maridos”: O contexto deixa
ver que a mulher tinha levado uma vida escandalosa (ver v. 29); embora alguns
queiram ver que temos aqui um símbolo do antigo politeísmo dos samaritanos
(2 Re 17, 29-41) que adoraram 5 ídolos (na realidade o texto
fala de 7) e agora tinham um culto ilegítimo; mas esta hipotética alusão não
anularia o valor do acontecimento relatado.
19-24 Ao ver que Jesus penetra
nos segredos da sua vida irregular, reconhece que está diante dum profeta,
por isso lhe põe a grande questão que opunha os samaritanos aos judeus, a
saber, o lugar do culto (cf. Dt 12, 5), que eles
celebravam no monte Garizim, mesmo depois de destruído
o seu templo cismático por João Hircano.
Jesus declara que com Ele tinha chegado a hora em
que já não tem sentido essa questão acerca do “lugar”,
pois o culto antigo ficava ultrapassado e abolido, sendo Ele próprio o novo
templo (cf. Jo 2, 19.21). Começava um novo culto
“em espírito e verdade”; mas isto não significa um culto mais interior
e menos ritualista, como pregaram os profetas, nem que se devam suprimir todos
os ritos externos. Trata-se de que Deus é espírito (cf. v. 24), isto é, que
infunde uma nova vida, a sua vida divina; por isso o culto tem de corresponder
a essa novidade de vida (Rom 6,
19), digamos, um culto que nos envolva na própria vida trinitária:
adorar o Pai no Espírito Santo (sob
o seu impulso) e na Verdade (através
de Jesus que é a Verdade: 1, 14; 14, 6).
35-38 É fácil de descobrir o sentido da alegoria do
semeador e dos ceifeiros: nos campos de trigo há um espaço de tempo entre
a sementeira e a ceifa, mas no campo de Deus o fruto pode ser imediato, como
aconteceu ali; no entanto, o habitual será que se confirme o ditado (v. 37;
ver Miq 6, 15; Act 8, 4-25). Os discípulos aparecem como os ceifeiros enviados
a colher o que “outros” – os profetas
e Jesus principalmente – semearam.
42 “Salvador
do mundo”: cf. 3, 17; 12, 47; 1 Jo 4, 14; Is 19, 20; 43, 3; Lc 1, 47;
1 Tm 4, 10; Filp 3, 20; Mt 1, 21; Act 5, 31; 13, 23.