Textos Dominicais do 2.º
Domingo da Páscoa (B)
Pe. Geraldo Morujão
1ª Leitura
Actos
dos Apóstolos 4, 32-35
32A multidão dos que haviam
abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe
pertencia, mas tudo entre eles era comum. 33Os Apóstolos davam testemunho da
ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande
simpatia. 34Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que
possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, 35que
depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua
necessidade.
Este trecho é chamado o segundo
“relato sumário”. O primeiro (Act 2, 42-47) leu-se
neste mesmo Domingo do ano A. O terceiro (Act 5,
12-16) lê-se no ano C. Chamam-se relatos sumários por serem uma espécie de
bosquejos do estado da primitiva comunidade de Jerusalém, uma descrição um
tanto idealizada, generalizando o que de mais positivo e edificante se
verificou nos inícios. Todos estes três sumários focam três pontos importantes
da vida dos primeiros cristãos, mas este desenvolve o cuidado dos pobres que havia
entre eles. O 1º detém-se mais na sua vida religiosa, e o 3º no dom de operar
milagres, que tinham os Apóstolos.
32 “Um só coração e uma só alma”.
Note-se a redundância que confere grande expressividade ao facto.
Assim os primeiros cristãos viviam de acordo com as palavras de Jesus na sua
oração sacerdotal (Jo 17, 11.21-23; cf. Filp 1, 27). “Uma tal união brota
espontaneamente duma mesma fé em Jesus e dum mesmo amor pela sua adorável
Pessoa” (Renié).
32-34 “Tudo entre eles era comum.
Todos... vendiam...” Esta atitude extraordinariamente generosa dos nossos
primeiros irmãos de Jerusalém ficou para sempre como um lumi¬noso exemplo de
como “compartilhar com os outros é uma atitude cristã fundamental. Os primeiros
cristãos puseram em prática espontaneamente o princípio segundo o qual os bens
deste mundo são destinados pelo Criador à satisfação das necessidades de todos
sem excepção” (Paulo VI). Mas esta atitude cristã
nada tem a ver com a colectivização de toda a
propriedade privada imposta por um estado totalitário, uma vez que aqui era
respeitada a legítima liberdade individual, podendo não se pôr tudo em comum. É
por isto mesmo que se louva o gesto de Barnabé, logo a seguir, nos vv. 36-37, e
se censura a fraude de Ananias e Safira, que muito bem poderiam não ter vendido
o seu campo ou então ter ficado para si com o produto da venda (cf. Act 5, 4). Daqui se conclui que “todos” não se deve entender à letra, ao ser uma generalização, ou uma
hipérbole. Em todos os tempos da vida da Igreja, desde então até aos nossos
dias, numerosos grupos de cristãos têm posto em comum os seus bens, renunciando
mesmo à sua posse, total ou parcial, imitando assim voluntariamente os
primeiros cristãos.
2ª Leitura
1 São João 5, 1-6
Caríssimos: 1Quem acredita que
Jesus é o Messias, nasceu de Deus, e quem ama Aquele que gerou ama também
Aquele que nasceu d’Ele. 2Nós sabemos que amamos os
filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, 3porque o
amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não
são pesados, 4porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. Esta é a vitória
que vence o mundo: a nossa fé. 5Quem é o vencedor do mundo senão aquele que
acredita que Jesus é o Filho de Deus? 6Este é o que veio pela água e pelo
sangue: Jesus Cristo; não só com a água, mas com a água e o sangue. É o
Espírito que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.
Nos domingos pascais do Ano B, a
partir deste 2º Domingo, vamos ter como 2ª leitura trechos respigados da 1ª
Carta de S. João (no ano A temos trechos de 1 Pe; no ano C, do Apoc). O facto de hoje não
começarmos pelo início, mas pela parte final da epístola, só se explica pela carácter baptismal deste Domingo,
que se chamou In albis, numa alusão às vestes brancas
do Baptismo, e Quasi-modo
pelas primeiras palavras latinas do célebre texto baptismal
da Prima Petri adoptado
como cântico de entrada da Missa (1 Pe 2, 2). No breve texto da leitura de hoje
aparece por três vezes a palavra “água” (v. 6) e três vezes “nascer de Deus”
(vv. 2a.2b.4), em que se pode ver uma alusão ao Baptismo. É interessante notar neste trecho o nexo entre a
fé e o amor, e entre o amor de Deus e o dos irmãos, que, pelo Baptismo, se tornaram “filhos de Deus” (vv. 1-2).
1 “Quem ama Aquele que gerou ama
também Aquele que nasceu d'Ele”. Há duas
possibilidades de entender o texto original. A versão litúrgica, pela
utilização das maiúsculas, vê-se que prefere o sentido de que quem ama o Pai
ama também o Filho (um sentido trinitário); mas o
contexto próximo do amor fraterno levou-nos a preferir outra tradução: “todo
aquele que ama Quem o gerou ama também quem por Ele foi gerado” (cf. a nossa
tradução na Bíblia Sagrada da Difusora Bíblica). Assim, o amor aos irmãos é
proposto como uma consequência da filiação divina, a
derivar do amor a Deus (cf. 1 Jo 2, 29 – 3, 2; 4, 7.15; 1 Pe 1, 22-23).
3 “O amor de Deus consiste em
guardar os seus mandamentos”. O ensino de Jesus no Evangelho é neste sentido:
Mt 7, 21; 12, 50; Jo 14,
15.21; 15, 14. “E os seus mandamentos não são pesados”, o que faz lembrar Mt
11, 30: “o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.
6 “Veio com água e com sangue”:
esta insistência faz pensar na intenção de refutar os gnósticos,
a heresia de Cerinto, para quem o Filho de Deus tomou
posse de Jesus no Baptismo – a “água” –, e o
abandonou ao chegar à sua Paixão – o “sangue”. Também se costuma ver na água um
símbolo do Baptismo (cf. Jo
3, 5), em que se recebe o Espírito Santo (cf. Jo 7,
37-39), e, no sangue, a Eucaristia (cf. Jo 6,
53.55-56). Os Padres viram nos três testemunhos unânimes um símbolo e um
reflexo da SS. Trindade; daqui resultou que, em muitos manuscritos da Vulgata,
o texto foi transcrito de diversas maneiras, sendo a mais corrente: “Três são
os que dão testemunho no Céu: o Pai, o Verbo e o Espírito
Santo, e estes três são um só”. Este acrescento
(o chamado comma ioanneum,
que foi objecto de tanta discussão inútil) veio a
entrar para o texto oficial da Igreja, mas, embora a edição da Vulgata sisto-clementina o aceite, a Neovulgata
já não o mantém. Muitos autores, seguindo os Santos Padres, vêem na referência
à água e ao sangue uma alusão aos Sacramentos do Baptismo
e da Eucaristia, figurados, por sua vez, na água e no sangue que brotaram do
lado aberto de Cristo na Cruz (Jo 19, 33-35), o Novo
Adão, de cujo lado saiu a Igreja, qual nova Eva.
Evangelho
São João 20, 19-31
19Na tarde daquele dia, o
primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se
no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes
as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão
perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». 24Tomé, um dos Doze,
chamado Dídimo, não estava com eles quando veio
Jesus. 25Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele
respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos
cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não
acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e
Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois disse a
Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no
meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor
e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que
acreditam sem terem visto». 30Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos
seus discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Estes, porém, foram
escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que,
acreditando, tenhais a vida em seu nome.
Neste breve relato pode ver-se
como Jesus cumpriu a suas promessas que constam dos discursos de despedida:
voltarei a vós (14, 18) – pôs-se no meio deles (v. 19); um pouco mais e
ver-Me-eis (16, 16) – encheram-se de alegria por verem o Senhor (v. 20); Eu vos
enviarei o Paráclito (16, 7) – recebei o Espírito
Santo (v. 22); ver também Jo 14, 12 e 20, 17.
19 “A paz esteja convosco!” Não
se trata duma mera saudação, a mais corrente entre os judeus, mesmo ainda hoje.
Esta insistência joanina nas palavras do Senhor
ressuscitado (vv. 19.21.26) é muito expressiva: com a sua Morte e Ressurreição,
Jesus acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus, origem e alicerce de toda
a verdadeira paz (cf. Jo 14, 27; Rom 5, 1; Ef 2, 14; Col 1, 20).
20 O mostrar das mãos e do peito
acentua a continuidade entre o Jesus crucificado e o Senhor glorioso (cf. Hebr 2, 18); a sua presença, que transcende a dimensão espácio-temporal (cf. vv. 19.26),
é uma realidade que os enche de paz (vv. 19.21.26; cf. Jo
14, 27; 16, 33; Rom 5, 1; Col 1, 20) e de alegria (v.
20; cf. Jo 15, 11; 16, 20-24; 17, 13), conforme Jesus
prometera. “Ficaram cheios de alegria” é uma observação que confere ao relato
uma grande credibilidade; com efeito, naqueles discípulos espavoridos (v. 19),
desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção
de alegria, ao verem o Senhor; ao contrário do que era de esperar, e não se verifica aqui o esquema habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre há uma reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos
Apóstolos procede da certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de
verem como Jesus reatava com eles a intimidade
anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha da sua deslealdade.
22 “Soprou
sobre eles… Recebei o Espírito Santo”. Este soprar de Jesus não é ainda “o
vento impetuoso” do dia de Pentecostes; é um sinal visível do dom invisível do
Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa “sopro”). Aqui, tem
por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só aos
Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que no
dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos reunidos
com Maria no Cenáculo (cf. Act 1, 14; 2, 1), iluminando-os e fortalecendo-os com carismas
extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que estavam incumbidos.
23 A Igreja viu nestas palavras a
instituição do Sacramento da Reconciliação, que é fonte de paz e alegria, e
definiu mesmo o seu sentido literal; de facto Jesus
diz: “a quem perdoardes os pecados”, e não: “a quem pregardes o perdão dos
pecados” (segundo entendeu a reforma protestante). A expressão é muito forte,
pois deve-se ter em conta o uso judaico da voz passiva
para evitar pronunciar o nome inefável de Deus (passivum
divinum); sendo assim, dizer ficarão perdoados
corresponde a “Deus perdoará” e “ficarão retidos” equivale a “Deus reterá”,
isto é, não perdoará (cf. Mt 16, 19; 18, 18; 2 Cor 5, 18-19). Aqui se funda o
ensino do Concílio de Trento ao falar da necessidade de confessar todos os
pecados graves cometidos depois do Baptismo, uma
doutrina que, já depois do Vaticano II, o magistério de Paulo VI reafirma: “a
doutrina do Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente
na prática”; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave
necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colec¬tiva de pecados graves ficam com a grave obrigação de
os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da
Congregação para a Doutrina da Fé, 16-VI-1972); também o Catecismo da Igreja
Católica, nº 1497, afirma: “a confissão individual e
integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua a ser o único meio
ordinário para a reconciliação com Deus e com a Igreja”; cf. tb. o Motu
proprio de João Paulo II, Misericordia
Dei (7.4.2002) e Código de Direito Canónico (nº 960.).
24 “Tomé”,
nome aramaico Tomá significa “gémeo”;
em grego, dídymos.
28 “Meu Senhor e meu Deus!” É da
boca do discípulo incrédulo que sai a mais elevada profissão de fé explícita na
divindade de Cristo, a qual engloba todo o Evangelho numa unidade coerente.
29 “Felizes os que acreditam sem
terem visto”. Para a generalidade dos fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais
apoio humano verificável do que o testemunho grandemente crível da pregação
apostólica e da Igreja através dos séculos (cf. Jo
17, 20). Para crer não precisamos de milagres, basta a
graça, que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade
de coração. O facto de as coisas da fé não serem
evidentes, nem uma mera descoberta da razão, só confere mérito à atitude do
crente, que crê porque Deus revelador não se engana nem pode enganar-nos. Por
isso, Jesus proclama-nos “felizes”, ao submetermos o nosso pensamento e a nossa
vontade a Deus na entrega que o acto de fé implica.
Como Tomé, também nós temos garantias de credibilidade suficientes para aceitar
a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas para não crer são escusas culpáveis,
escusas de mau pagador. Também as estrelas não deixam de existir pelo facto de os cegos não as verem.
30-31 Temos aqui a primeira conclusão do Evangelho de S. João, que nos deixa ver o objectivo que o Evangelista se propôs: fazer progredir na fé e na vida cristã os fiéis, sem que se possa excluir também uma intenção de trazer à fé os não crentes. Este Evangelho foi escrito para crermos que “Jesus é o Messias, o Filho de Deus”. Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca, ou caminhada, sem uma base doutrinal, implica um conteúdo de ensino (cf. Rom 6, 17), pois exige que se aceitem “verdades” como esta, a saber, que Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou messiânico, pois é o “Filho Unigénito que está no seio do Pai” (Jo 1, 18), verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” (v. 28; cf. Jo 1, 1; Rom 9, 5). Note-se que há quem veja o Evangelho segundo S. João contido dentro de uma grande inclusão, que põe em evidência a divindade de Cristo: Jo 1, 1 (O Verbo era Deus) e Jo 20, 28 (meu Senhor e meu Deus), tendo como centro e clímax a afirmação de Jesus: Eu e o Pai somos Um (10, 30).