Textos
Dominicais do 3.º Domingo da Páscoa (B)
Pe. Geraldo
Morujão
1ª Leitura
Actos dos Apóstolos 3, 13-15.17-19
Naqueles dias, Pedro disse
ao povo: 13«O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos
pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e negastes na presença
de Pilatos, estando ele resolvido a soltá-l’O. 14Negastes o Santo e
o Justo e pedistes a libertação dum assassino; 15matastes o autor da
vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. 17Agora,
irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. 18Foi
assim que Deus cumpriu o que de antemão tinha anunciado pela boca de todos os
Profetas: que o seu Messias havia de padecer. 19Portanto,
arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».
A leitura é extraída do
segundo discurso de Pedro em Actos, após a cura do coxo que mendigava na Porta
Formosa do Templo. O discurso obedece ao molde kerigmático do primeiro anúncio
aos judeus, mas, na perspectiva de Lucas, visa também os seus leitores e também
continua a falar-nos a nós.
13 “O seu Servo Jesus”. O termo original grego é ambíguo – “pais” –, e tanto pode significar filho, como servo. A nossa tradução preferiu “servo” pela referência que parece haver a Jesus que cumpre a
figura messiânica do Servo de Yahwéh (cf. Is 42 – 53). Trata-se de um título
cristológico de sabor primitivo, que se enquadra bem num discurso a ouvintes
judeus.
15 “Autor”. É mais outro título cristológico, raro no N. T. (em grego,
arkhêgós; assim também em 5, 31; cf.
Hebr 2, 10; 12, 2). Jesus não é
apenas o chefe que conduz à vida, mas é quem comunica a vida aos que nele
crêem. O paradoxo é impressionante: matar o Autor da vida, uma vez que Jesus é
Deus. Nas traduções, como a primitiva litúrgica, “príncipe da Vida”, deixa-se
ver mais claramente o contraste estabelecido com “assassino” (v 14), isto é,
aquele que tira a vida.
“E nós somos testemunhas disso” (da ressurreição). A Ressurreição de Jesus é
um facto real que se comprova por testemunhas altissimamente verídicas! É certo
que não é um simples facto histórico natural que tenha entrado no âmbito duma
observação experimental comum, pois Jesus só Se manifestou ressuscitado quando
quis, como quis e a quem quis e com um corpo glorioso (não como um cadáver
reanimado); isto, porém, em nada diminui o valor histórico da sua Ressurreição.
É um facto sobrenatural, mas um facto, embora não encaixe em acanhadas
perspectivas historicistas.
2ª leitura
1 São João 2, 1-5a
Meus filhos, 1escrevo-vos
isto, para que não pequeis. Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o
Justo, como advogado junto do Pai. 2Ele é a vítima de propiciação
pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro.
3E nós sabemos que O conhecemos, se guardamos os seus mandamentos. 4Aquele
que diz conhecê-l’O e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade
não está nele. 5aMas se alguém guardar a sua palavra, nesse o amor
de Deus é perfeito.
Nestes domingos pascais continuamos
a ler extractos da 1ª Carta de S. João. Prestam-se a apelar para os
ensinamentos da encíclica de Bento XVI, Deus
caritas est. Não presidiu à selecção litúrgica dos textos joaninos a ideia
de pôr em evidência a estrutura da obra e todo o seu maravilhoso conteúdo, por
isso algumas palavras-chave, como “comunhão”, “vida eterna” e “luz/trevas” não
chegam a aparecer nos versículos respigados para estes domingos. A escolha
parece privilegiar as noções de “cumprir os mandamentos”, “amor fraterno”,
“nascer de Deus”, “filiação divina”, “libertação do pecado”, “conhecer/saber” ,
“verdade”, “permanecer em…”
1 “Mas, se alguém pecar…”. Se bem que “todo aquele que nasceu de Deus
não comete pecado (...) não peca, mas o Filho de Deus o guarda, e o maligno não
o apanha” (1 Jo 3, 9; 5, 18), a verdade é que a pecabilidade não está excluída
devido à nossa limitada liberdade. Mas, se alguém pecar, que não desespere da
sua desgraçada situação, pois Jesus – como
vítima de expiação – dá-nos a possibilidade de obter o perdão, “se confessamos os nossos pecados” (1,
9). Estas afirmações aparentemente contraditórias (confrontar 1, 8 – 2, 1; 3,
3; 5, 16-17 com 3, 6.9; 5, 18) não são um obstáculo para a unidade da Carta
(negada por Bultmann), pois a contradição é apenas aparente, devendo-se ao
estilo semítico do autor que gosta de afirmações absolutas e contundentes, sem
se preocupar de as matizar devidamente; assim, “o cristão não pode pecar”, corresponde a: “o cristão
não deve pecar”. De qualquer maneira,
há autores que consideram que, assim como sucedeu no IV Evangelho, pode ter
havido uma redacção sucessiva com a intervenção de um redactor final, discípulo
e continuador fiel do Apóstolo (tendo em conta o pronome plural nós joanino), assim também poderia ter
acontecido com esta epístola.
1-2 “Jesus Cristo, o Justo, como advogado… vítima de expiação…”: a
insistência
4 “Aquele que diz: Eu conheço-o, mas não guarda…”. Esta linguagem
parece ser uma crítica aos gnósticos que se ufanavam de possuir um conhecimento
superior de Deus, que garantia a salvação e eximia do pecado, sem cuidar de “guardar os seus mandamentos”; quem
assim fala é “mentiroso e a verdade não
está nele”.
Evangelho
São Lucas 24, 35-48
Naquele tempo, 35os
discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham
reconhecido Jesus ao partir do pão. 36Enquanto diziam isto, Jesus
apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 37Espantados
e cheios de medo, julgavam ver um espírito. 38Disse-lhes Jesus:
«Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos
corações? 39Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo;
tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».
40Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41E como
eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes:
«Tendes aí alguma coisa para comer?» 42Deram-Lhe uma posta de peixe
assado, 43que Ele tomou e começou a comer diante deles. 44Depois
disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava
convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de
Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». 45Abriu-lhes então o
entendimento para compreenderem as Escrituras 46e disse-lhes: «Assim
está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao
terceiro dia, 47e que havia de ser pregado em seu nome o
arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por
Jerusalém. 48Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».
O trecho evangélico de hoje contém
uma primeira parte (vv. 35-43), que poderíamos chamar demonstrativa do facto da
Ressurreição, centrada na afirmação de Jesus “Sou Eu mesmo (em pessoa)” (v. 39), e outra mais catequética (vv.
44-48): “Depois disse-lhes…”.
35-43 A aparição aqui descrita
corresponde à do Evangelho do Domingo passado, descrita
44-48 Estes vv. constituem uma
densa síntese catequética, em se salientam elementos básicos da pregação
primitiva, centrados no cumprimentos das
Escrituras, a desembocar na missão universal dos discípulos “a todas as nações” (v. 47), em ordem a
pregar “o arrependimento e o perdão dos
pecados”. Note-se o valor dado ao testemunho – “vós sois as testemunhas” – dos discípulos (v. 48): “o homem
contemporâneo crê mais nas testemunhas do que nos mestres; crê mais na
experiência do que na doutrina; na vida e nas acções, do que