Textos Dominicais do Domingo de Ramos
(B)
(Pe. Geraldo Morujão)
Procissão
São Marcos 11, 1-10
Naquele tempo, 1ao aproximarem-se
de Jerusalém, cerca de Betfagé e de Betânia, junto do monte das Oliveiras,
Jesus enviou dois dos seus discípulos 2e disse-lhes: «Ide à povoação que está
em frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso, que ninguém montou
ainda. Soltai-o e trazei-o. 3E se alguém perguntar porque
fazeis isso, respondei: ‘O Senhor precisa dele, mas não tardará em mandá-lo de
volta’». 4Eles partiram e encontraram um jumentinho, preso a uma porta, cá fora
na rua, e soltaram-no. 5Alguns dos que ali estavam perguntaram-lhes: «Porque
estais a desprender o jumentinho?» 6Responderam-lhes como Jesus tinha dito e
eles deixaram-nos ir. 7Levaram o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as
capas e Jesus montou nele. 8Muitos estenderam as suas capas no caminho e
outros, ramos de verdura, que tinham cortado nos campos. 9E tanto os que iam à
frente como os que vinham atrás clamavam: «Hossana! Bendito O que vem em nome
do Senhor! 10Bendito o reino que vem, o reino do nosso
pai David! Hossana nas alturas!»
ou
São João 12, 12-16
12Naquele tempo, a grande
multidão que tinha vindo à festa da Páscoa, ao ouvir dizer que Jesus ia chegar
a Jerusalém, 13apanhou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando:
«Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!» 14Jesus
encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito: 15«Não temas, filha
de Sião: Eis que vem o teu Rei, sentado sobre o filho de uma jumenta». 16Os
discípulos não entenderam isto ao princípio, mas, quando Jesus foi glorificado,
lembraram-se de que assim estava escrito acerca d’Ele
e era isso mesmo que eles tinham feito.
Os quatro evangelistas referem a entrada de Jesus em Jerusalém, com algumas pequenas
diferenças.
“Um jumentinho”. Mateus fala
também da jumenta, mãe do jumentinho para sublinhar o cumprimento da letra da
profecia de Zacarias 9, 9. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé;
Jesus, porém, quer entrar a cavalo, desta vez. Tendo evitado até então todas as
aclamações messiânicas, mostrar-se agora como o
Messias nesta última visita à cidade, entrando montado num humilde jumentinho,
e não como um rei temporal, ou um general vitorioso, montado num corcel. Ele
não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei
cheio de mansidão, o príncipe da paz.
A aclamação é a do Salmo 118
(117), e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: “Bendito o
que vem” (baruk habá é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel).
“Hossana” é uma palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação,
correspondente ao nosso “viva!”, e não uma mera prece, como indicaria a tradução
literal do hebraico: “salva, por favor, (ó Deus)”. A saudação do Salmo era uma
bênção com que se recebia o peregrino que subia a Jerusalém; aqui é uma
aclamação do povo que acompanha Jesus no cortejo. Nos Sinópticos a aclamação,
com distintos matizes, tem o carácter de aclamação messiânica, mas em João a
entrada tem claramente o aspecto de um rito de entronização, com pormenores que
não aparecem nos Sinópticos: a gente sai da cidade a recebê-Lo, e com ramos de
palmeira (Jo 12, 13), como a um rei vitorioso.
Missa
1ª Leitura
Isaías 50, 4-7
4O Senhor deu-me a graça de falar
como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam
abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como
escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem
recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que
me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que
me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso,
não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não
ficarei desiludido.
Quem está a falar neste 3° poema
do Servo de Yahwéh é o próprio servo, que representa profeticamente Jesus
Cristo. Apresenta-se “a falar como um discípulo”, embora não se trate de um
discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo
próprio Deus, tal como dirá Jesus: “a minha doutrina não é minha, mas daquele
que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14, 24).
5 “Eu não resisti nem recuei”.
Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de
opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como
Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6).
Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc
22, 42).
6 “Apresentei as costas àqueles
que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Um
pleno cumprimento deu-se no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26,
67; 27, 26-30; Lc 22, 63-64; etc.
2ª Leitura
Isaías 50, 4-7
4O Senhor deu-me a graça de falar
como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam
abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como
escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem
recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que
me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que
me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não
fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei
desiludido.
O texto isaiano corresponde aos
primeiros 4 versículos do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a
falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se
deduz do contexto imediato deste poema (v. 10). De qualquer modo, considera-se
como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes
iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): “O Senhor Deus”;
na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo (v. 4), na segunda, o
sofrimento que esta docilidade acarreta (vv.5-6); na terceira, a fortaleza no
meio das dores (v. 7).
4 Apresenta-se
“a falar como um discípulo”, embora não se trate de um discípulo qualquer: é um
discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá
Jesus: “a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf.
14, 24).
5 “Não resisti nem recuei”. Mesmo
os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor
alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés
e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus,
porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).
6 “Apresentei as costas àqueles
que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Os
evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se
deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt
26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…
2ª leitura
Filipenses 2, 6-11
6Cristo Jesus, que era de
condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si
próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte
de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os
nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos
abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de
Deus Pai.
A leitura constitui um admirável
hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser
anterior ao este escrito paulino e a mais antiga
confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do
Novo Testamento.
6 “De condição divina”.
Literalmente: “existindo em forma de Deus”. Ora esta forma (morfê) de Deus,
ainda que não significasse directamente a natureza
divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente
divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich
Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma
como a têm os homens, mas significa que Jesus “tinha um ser como Deus, um ser
divino”.
“Não se valeu da sua igualdade
com Deus”. Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo
se considera o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou passivo
(coisa roubada): a Vulgata traduz: “não considerou uma usurpação (rapinam) o
ser igual a Deus” (sentido activo); segundo a interpretação dos Padres Gregos,
a que se ateve a nossas tradução (sentido passivo), teríamos:
“não considerou como algo cobiçado (harpagmón)… Há quem pense que S. Paulo quer
fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que,
sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude
humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer “semelhante aos homens” (v. 7).
7 “Mas aniquilou-se a si
próprio”, à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao
fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação
sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática
(na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina
unidas numa união misteriosa). “Assumindo a condição de servo”, o que não
significa a condição social de escravo, mas a “forma” (morfê) de se conduzir
própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do “servo de Yahwéh”,
a que se refere a primeira leitura de hoje; “tornou-se
semelhante aos homens, aparecendo como homem”, não apenas, como queria a
heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é
“semelhante” (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado
(cf. Hebr 4, 15);“humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de
cruz” (v. 8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento –
a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito
homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai
até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz –
homem, escravo, malfeitor!
9-11 Mas este aniquilamento – o
tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum
história trágica com que tudo acabou; temos o sublime paradoxo da sua
“exaltação”: foi “por isso” mesmo que “Deus” (não Ele próprio, mas o Pai) “O
exaltou” de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe: tenha-se
em conta hypér na composição do verbo grego), o que se deu na glorificação da
humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação
corresponde o “nome” que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser
invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos: já não é apenas
o nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à
morte de cruz – Jesus –, mas com o mesmo nome com que o próprio Deus é
designado na tradução grega do nome divino “Yahwéh” – “Senhor” (Kyrios). A
todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – “toda a língua
proclame que Jesus Cristo é Senhor” (mais expressivo sem artigo, como no
original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – “no céu, na terra e nos
abismos, para glória de Deus Pai” (A tradução da velha Vulgata neste ponto era
pouco expressiva e deficiente: “que o Senhor Jesus Cristo está na glória de
Deus Pai”).
Independentemente da discussão
acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o
mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do
Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois
vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o
fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano
62, se não é mesmo de cerca de 56 (como pensam muitos),
e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo,
anterior à epístola. Assim pensa, por exemplo, o notável Professor protestante
de Tubinga, Martin Hengel.
Evangelho
Forma longa: São Marcos 14, 1-15,
47 Forma breve: São
Marcos 15, 1-39
N [1Faltavam dois dias para a festa da Páscoa e dos Ázimos e
os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem
de Jesus à traição para Lhe darem a morte. 2Mas diziam:
R «Durante
a festa, não, para que não haja algum tumulto entre o povo».
N 3Jesus
encontrava-Se em Betânia, em casa de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio
uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto
preço. Partiu o vaso de alabastro e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. 4Alguns
indignaram-se e diziam entre si:
R «Para
que foi esse desperdício de perfume? 5Podia vender-se por mais de duzentos
denários e dar o dinheiro aos pobres».
N E
censuravam a mulher com aspereza. 6Mas Jesus disse:
J «Deixai-a.
Porque estais a importuná-la? Ela fez uma boa acção para comigo. 7Na verdade,
sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podereis fazer-lhes bem;
mas a Mim, nem sempre Me tereis. 8Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de
antemão o meu corpo para a sepultura. 9Em verdade vos digo: Onde quer que se proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também
em sua memória, o que ela fez».
N 10Então,
Judas Iscariotes um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes
entregar Jesus. 11Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro.
E ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
N 12No
primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos
perguntaram a Jesus:
R «Onde
queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»
N 13Jesus
enviou dois discípulos e disse-lhes:
J «Ide
à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o 14e,
onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus
discípulos?’ 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e
pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».
N 16Os
discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha
dito e prepararam a Páscoa. 17Ao cair da tarde, chegou Jesus com os Doze.
18Enquanto estavam à mesa e comiam, Jesus disse:
J «Em
verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa, há-de entregar-Me».
N 19Eles
começaram a entristecer-se e a dizer um após outro:
R «Serei
eu?»
N 20Jesus
respondeu-lhes:
J «É
um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. 21O Filho do homem vai partir, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por
quem o Filho do homem vai ser traído! Teria sido melhor para esse homem não ter
nascido».
N 22Enquanto
comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e
disse:
J «Tomai:
isto é o meu Corpo».
N 23Depois
tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse
Jesus:
J «Este
é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens.
25Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em
que beberei do vinho novo no reino de Deus».
N 26Cantaram
os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.
N 27Disse-lhes
Jesus:
J «Todos
vós Me abandonareis, como está escrito: ‘Ferirei o
pastor e dispersar-se-ão as ovelhas’. 28Mas depois de ressuscitar, irei à vossa
frente para a Galileia».
N 29Disse-Lhe
Pedro:
R «Embora
todos Te abandonem, eu não».
N 30Jesus
respondeu-lhe:
J «Em
verdade te digo: Hoje, esta mesma noite, antes do galo cantar duas vezes, três
vezes Me negarás».
N 31Mas
Pedro continuava a insistir:
R «Ainda
que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E
todos afirmaram o mesmo. 32Entretanto, chegaram a uma
propriedade chamada Getsémani e Jesus disse aos seus discípulos:
J «Ficai
aqui, enquanto Eu vou orar».
N 33Tomou
consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia. 34Disse-lhes
então:
J «A
minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai».
N 35Adiantando-Se
um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela hora. 36Jesus dizia:
J «Abbá,
Pai, tudo Te é possível: afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que
Eu quero, mas o que Tu queres».
N 37Depois,
foi ter com os discípulos, encontrou-os dormindo e disse a Pedro:
J «Simão, estás a dormir? Não pudeste vigiar uma hora? 38Vigiai e
orai, para não entrardes
N 39Afastou-Se
de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. 40Voltou novamente e encontrou-os
dormindo, porque tinham os olhos pesados e não sabiam que responder. 41Jesus
voltou pela terceira vez e disse-lhes:
J «Dormi
agora e descansai...Chegou a hora: o Filho do homem
vai ser entregue às mãos dos pecadores. 42Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima
aquele que Me vai entregar».
N 43Ainda
Jesus estava a falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele uma grande
multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos
príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e os anciãos. 44O traidor tinha-lhes
dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O e levai-O bem
seguro». 45Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo:
R «Mestre».
N 46Então
deitaram-Lhe as mãos e prenderam-n’O. 47Um dos
presentes puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a
orelha. 48Jesus tomou a palavra e disse-lhes:
J «Vós
saístes com espadas e varapaus para Me prender, como se fosse um salteador.
49Todos os dias Eu estava no meio de vós, a ensinar no templo, e não Me
prendestes! Mas é para se cumprirem as Escrituras».
N 50Então
os discípulos deixaram-n’O e fugiram todos. 51Seguiu-O
um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, 52mas ele, largando o
lençol, fugiu nu.
N 53Levaram
então Jesus à presença do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os príncipes
dos sacerdotes, os anciãos e os escribas. 54Pedro, que O seguira de longe, até
ao interior do palácio do sumo sacerdote, estava sentado com os guardas, a
aquecer-se ao lume. 55Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio
procuravam um testemunho contra Jesus para Lhe dar a morte, mas não o
encontravam. 56Muitos testemunhavam falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos
não eram concordes. 57Levantaram-se então alguns, para proferir contra Ele este
falso testemunho:
R 58«Ouvimo-l’O
dizer: ‘Destruirei este templo feito pelos homens e em três dias construirei
outro que não será feito pelos homens’».
N 59Mas
nem assim o depoimento deles era concorde. 60Então o sumo sacerdote levantou-se
no meio de todos e perguntou a Jesus:
R «Não
respondes nada ao que eles depõem contra Ti?»
N 61Mas
Jesus continuava calado e nada respondeu. O sumo sacerdote voltou a
interrogá-l’O:
R «És Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?»
N 62Jesus
respondeu:
J «Eu
Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre
as nuvens do céu».
N 63O
sumo sacerdote rasgou as vestes e disse:
R «Que
necessidade temos ainda de testemunhas? 64Ouvistes a
blasfémia. Que vos parece?»
N Todos
sentenciaram que Jesus era réu de morte. 65Depois, alguns começaram a
cuspir-Lhe, a tapar-Lhe o rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo:
R «Adivinha».
N E
os guardas davam-Lhe bofetadas. 66Pedro estava em baixo, no pátio, quando
chegou uma das criadas do sumo sacerdote. 67Ao vê-lo a aquecer-se, olhou-o de
frente e disse-lhe:
R «Tu
também estavas com Jesus, o Nazareno».
N 68Mas
ele negou:
R «Não
sei nem entendo o que dizes».
N Depois
saiu para o vestíbulo e o galo cantou. 69A criada, vendo-o de novo, começou a
dizer aos presentes:
R «Este
é um deles».
N 70Mas
ele negou segunda vez. Pouco depois, os presentes diziam também a Pedro:
R «Na
verdade, tu és deles, pois também és galileu».
N 71Mas
ele começou a dizer imprecações e a jurar:
R «Não
conheço esse homem de quem falais».
N 72E
logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro lembrou-se do que Jesus lhe
tinha dito: «Antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás». E desatou a chorar.]
N 15,
1Logo de manhã, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho com os
anciãos e os escribas e todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram
entregá-l’O a Pilatos. 2Pilatos perguntou-Lhe:
R «Tu
és o Rei dos judeus?»
N Jesus
respondeu:
J «É
como dizes».
N 3E
os príncipes dos sacertotes faziam muitas acusações contra Ele. 4Pilatos
interrogou-O de novo:
R «Não
respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».
N 5Mas
Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. 6Pela festa da
Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. 7Havia um,
chamado Barrabás, preso com os insurrectos que numa revolta tinham cometido um
assassínio. 8A multidão, subindo, começou a pedir o que era costume
conceder-lhes. 9Pilatos respondeu:
R «Quereis
que vos solte o Rei dos judeus?»
N 10Ele
sabia que os príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja.
11Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes
soltasse antes Barrabás. 12Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes:
R «Então
que hei-de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos
judeus?»
N 13Eles
gritaram de novo:
R «Crucifica-O!
13»
N 14Pilatos
insistiu:
R «Que
mal fez Ele?»
N Mas
eles gritaram ainda mais:
R «Crucifica-O!»
N 15Então
Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter
mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado. 16Os soldados levaram-n’O para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram
toda a corte. 17Revestiram-n’O com um manto de púrpura
e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido. 18Depois
começaram a saudá-l’O:
R «Salve, Rei dos judeus!»
N 19Batiam-Lhe
na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se
diante d’Ele. 20Depois de O terem escarnecido,
tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida
levaram-n’O dali para O crucificarem.
N 21Requisitaram,
para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene,
pai de Alexandre e Rufo. 22E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer,
lugar do Calvário. 23Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o
quis beber. 24Depois crucificaram-n’O. E repartiram
entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um.
25Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. 26O letreiro que indicava a
causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». Crucificaram com Ele dois
salteadores, um à direita e outro à esquerda. (27) 28Os que passavam
insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:
R «Tu
que destruías o templo e o reedificavas em três dias, 30salva-Te a Ti mesmo e
desce da cruz».
N 31Os
príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo:
R «Salvou
os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! 32Esse Messias, o Rei de Israel,
desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos».
N Até
os que estavam crucificados com Ele O injuriavam. 33Quando chegou o meio-dia,
as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. 34E às três horas
da tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eloí, Eloí, lamá
sabachtháni?»
N que
quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 35Alguns dos
presentes, ouvindo isto, disseram:
R «Está
a chamar por Elias».
N 36Alguém
correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe
a beber e disse:
R «Deixa
ver se Elias vem tirá-l’O dali».
N 37Então
Jesus, soltando um grande brado, expirou. 38O véu do templo rasgou-se em duas
partes de alto a baixo. 39O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O
expirar daquela maneira, exclamou:
R «Na
verdade, este homem era Filho de Deus».
N [40Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, 41que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém. 42Ao cair da tarde – visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado – 43José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 44Pilatos ficou admirado de Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. 45Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. 46José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois depositou-O num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. 47Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.]
A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os
Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e a obra redentora de Cristo.
Houve até quem chegou ao extremo de afirmar que os Evangelhos são “um relato da
Paixão, com uma introdução desenvolvida” (M. Kähler). No entanto, os dados
registados são muitíssimo parcos e concisos, pois o primeiro objectivo destas
quatro narrações não era dar uma informação completa de tudo o que aconteceu;
se fosse assim, seria imperdoável que não se diga nada dos sentimentos dos
intervenientes na acção. Jesus também não é apresentado como um herói que sofre
dores morais e físicas absolutamente indizíveis – a crucifixão era esse
crudelissimum teterrimumque supplicium (Cícero) – com uma serenidade
majestática. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente
põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com
todos e cada um de nós (cf. Gal 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos
pecados (cf. Gál 1, 4). Não obstante, não se nota que esteja subjacente aos
relatos qualquer intenção de mover o leitor à piedade, descrevendo a tragédia
de uma forma comovedora. O que preside à intenção dos relatos é mostrar o
sentido da Paixão do Senhor, o modo como, através de todos estes passos, se
realiza e torna visível a nossa salvação, no pleno cumprimento das Escrituras,
facilitando ao leitor entender o porquê de que tudo isto – tão assombrosamente
paradoxal e escandaloso – tenha realmente acontecido. E é assim que todos os
relatos da Paixão estão ligados aos da glória da Ressurreição, que acaba por
oferecer a saída para tão misterioso enigma (J. M. Casciaro).
Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma
definitiva escrita mais cedo. As quatro narrativas da Paixão não se contradizem,
mas completam-se e deixam ver a focagem teológica própria de cada evangelista.
Marcos é o que se apresenta como mais espontâneo e o que melhor apresenta, na
sua crueza realista, o horror do sofrimento de Jesus. Na agonia do Getxemaní,
só ele diz que Jesus “sentiu pavor” (Mc 14, 33), e não apenas angústia, e
também o pedido de que se afaste o cálice de amargura aparece como mais
urgente: “Abbá,… tudo te é possível. Afasta de mim este cálice” (v. 36). Por
outro lado, só ele diz, na censura aos discípulos adormecidos, que eles “não
sabiam o que Lhe haviam de responder” (Mc 14, 40) e já antes a censura aparecia
mais directamente dirigida a Pedro: “não foste capaz…” (v. 37). Também é de
notar o pormenor exclusivo do segundo canto do galo nas negações de Pedro (Mc
14, 72). Só Marcos diz que Simão Cireneu era “pai de Alexandre e Rufo”
(pensa-se que este pormenor se deve a que estes vieram a ser cristãos bem
conhecidos: cf. Rom 16, 13).