Textos
Dominicais para o 4.º Domingo da Páscoa (B)
Pe. Geraldo
Morujão
1ª leitura
Actos dos Apóstolos 4, 8-12
Naqueles dias, 8Pedro,
cheio do Espírito Santo, disse-lhes: «Chefes do povo e anciãos, 9já
que hoje somos interrogados sobre um benefício feito a um enfermo e o modo como
ele foi curado, 10ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: É
em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou
dos mortos, é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa
presença. 11Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e
que veio a tornar-se pedra angular. 12E em nenhum outro há salvação,
pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos
ser salvos».
Temos aqui a resposta de
Pedro aos chefes judeus que o interrogaram acerca do milagre da cura do coxo de
nascença, que mendigava junto à porta chamada Formosa, que dava para o recinto
das mulheres, no Templo.
11 “Jesus é a pedra desprezada (...) pedra angular”. É uma alusão ao
Salmo 117 (118), de acordo com os LXX. Em Mt 21, 42-44, Jesus aplica a Si o
texto do Salmo, cujo sentido mais profundo é messiânico, mesmo que o Salmista
não pensasse em mais do que no pequenino povo de Israel, desprezado por todos,
mas um povo donde viria a salvação através do Messias (sentido típico).
12 “Não há salvação em nenhum outro (nome)”, isto é, em nenhuma outra
pessoa. O próprio nome de Jesus – Iexúah
–, escolhido por Deus, significa: Yahwéh
é Salvação. Mesmo aqueles que se salvaram antes de Cristo vir à terra,
puderam chegar à salvação pelos méritos de Jesus. Toda a graça depois do
primeiro pecado chega ao homem pela mediação da Cristo.
2º leitura
1 São João 3, 1-2
Caríssimos: 1Vede que
admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamarmos filhos de Deus. E somo-lo
de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos,
agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas
sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque
O veremos tal como Ele é.
No coração da 1ª Carta de João está o apelo a viver como filhos de
Deus (cap.3); a uma tão grande dignidade e a tão grande dom não se pode ficar
indiferente, é forçoso romper de ver com o pecado (vv. 3-10) e corresponder com
obras de amor (vv. 11-24).
1 “E somo-lo de facto”. Não se diz apenas que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para um semita
entender para quem o ser chamado (por
Deus) equivalia a ser. Trata-se dum
realidade sobrenatural fundamental, mas que o
mundo sem fé não pode captar nem apreciar.
2 “Seremos semelhantes a Deus, porque O veremos...”. Há quem pretenda
ver nesta expressão a referência a uma ideia corrente na religião helenística,
segundo a qual o conhecimento de Deus diviniza aqueles que chegam a alcançá-lo.
A Teologia explicita que “agora” a
filiação divina já nos capacita para a glória do Céu, não se tratando de algo
meramente legal e extrínseco, à maneira da adopção humana de um filho; trata-se
de algo sobrenatural, que implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe
1, 4). “O veremos tal como Ele é”, isto
é, não apenas indirectamente através das suas obras, mas contemplando-o face a face (cf. 1 Cor 13, 12).
2ª leitura
São João 10, 11-18
Naquele tempo, disse Jesus: 11«Eu
sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. 12O
mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo,
deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. 13O
mercenário não se preocupa com as ovelhas. 14Eu sou o Bom Pastor:
conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, 15Do
mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas
ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e
preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só
Pastor. 17Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder
retomá-la. 18Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente.
Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu
Pai».
Todos os anos no 4º Domingo de
Páscoa – o Domingo do Bom Pastor, dia mundial de oração pelas vocações –, a
leitura evangélica é tirada do capítulo 10º de S. João. No ano passado, ano A,
leram-se os primeiros dez versículos, onde aparecia a parábola do pastor e do
ladrão; este ano temos, na sua sequência, a parábola do pastor (bom) e do
mercenário, as únicas parábolas que aparecem em todo o 4.° Evangelho, se bem
que se trata antes de uma alegoria, em que os seus elementos não são mero
adorno, mas se revestem de significado. Para a sua compreensão devem ter-se
presentes os costumes da época; durante o dia, os vários rebanhos pertencentes
a distintos donos – os pastores –
dispersavam-se pelas escassas pastagens da região; ao cair da noite, todos os
rebanhos recolhiam a um recinto comum fechado por uma sebe ou um muro baixo – o redil – em pleno descampado, onde eram
defendidos das feras e dos ladrões por um guarda – o porteiro –, que podia ser contratado – um mercenário – pelos donos; de manhã, cada pastor voltava e, da
porta do recinto, chamava as suas próprias ovelhas, que já conheciam o seu
grito habitual e o seguiam a caminho das pastagens; os ladrões não entravam pela porta vigiada, mas saltavam pela vedação,
pois o seu objectivo não era apascentar, mas dizimar os rebanhos, roubar e
matar.
11-18 “Eu sou o Bom Pastor”: a descrição da figura do Bom Pastor não é original, mas decalcada em Ezequiel 34, 1-31 e
37, 16ss; a novidade está em dar a vida
pelas suas ovelhas (vv. 11 e 15). Assim, Jesus aparece a revelar-se como
Deus incarnado, dando cumprimento ao anúncio profético: Eu próprio cuidarei do meu rebanho e velarei por ele (cf. Ez 34,
11.12-13.15.16.20.22.31); Deus aparece frequentemente na Escritura como o Pastor de Israel (cf. Gn 49, 24; Salm
23; 78, 52; 80, 2; Is 40, 11; Jer 31, 10…). Jesus como o Bom Pastor é uma das mais comovedoras revelações do Novo Testamento
(cf. Mt 18, 12-14; Lc 15, 4-7; 1 Pe 2, 25; 5, 4...).
12 “O mercenário”. A propósito desta figura, pergunta e responde Santo
Agostinho: “Quem é o mercenário? É aquele que vê vir o lobo e foge. Aquele que
busca a sua glória, não a glória de Cristo; aquele que não se atreve, com
liberdade de espírito, a reprovar (o procedimento de) os pecadores (...) Tu
calas, não reprovas: tu és mercenário, pois viste vir o lobo e fugiste (...)
porque te calaste; e calaste-te, porque tiveste medo”.
16 “Tenho ainda outras ovelhas”. São certamente os gentios, não os
judeus da diáspora. Também a elas se dirige a missão de Jesus através dos seus
mensageiros que há-de enviar a todo o mundo (cf. Mt 28, 19-20). Estes enviados
– lembrar que é hoje o dia mundial de oração pelas vocações – permitirão que se
venha a constituir um só rebanho: a Igreja universal (católica) que congregue
todos os redimidos dos quais Jesus é o Senhor, o único Pastor.