S. José, esposo da Virgem Maria

Textos Litúrgicos

(Pe. Geraldo Morujão)

1ª Leitura

2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

 

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a“Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre”.

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – “o teu trono será firme para sempre” (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de “Filho de David” dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: “reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim”); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 Naqueles dias, isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica “báyit”, casa e dinastia (v. 11-12).

 

2ª Leitura

Romanos 4, 13.16-18.22

 

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: “Fiz de ti o pai de muitos povos”. Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22“Assim será a tua descendência”. Por este motivo é que isto “lhe foi atribuído como justiça”.

 

Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. 22Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo.

 

 

EVANGELHO:

 

São Mateus 1, 16.18-21.24a

 

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados”. 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

Evangelho

São Mateus 1, 16.18-21.24a

 

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados”. 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: “Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David” (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – “catorze gerações” – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+ [D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, pois para todos os seus elos se diz “gerou”, quando para o último elo se diz “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (v. 16).

18 “Antes de terem vivido em comum”: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

“Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo”: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se “por virtude do Espírito Santo”, não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra “espírito” (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos, coisa totalmente contrária à verdade da Revelação divina.

19 “Mas José, seu esposo…”. Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. Não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois, em face dos dados das suas fontes, nem sequer disso precisava. Maria nada teria revelado a José do mistério que nela se passava e José ao saber da gravidez de Maria, não a denuncia como adúltera; sendo um santo, “justo”, não a condena, pois conhecia a santidade singular de Maria; não admite qualquer suspeita, mas pressente que está perante algo de sobrenatural e não quer intrometer-se num mistério que o ultrapassava. É assim que “resolveu repudiá-la em segredo”, evitando, assim, “difamá-la” (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente “tornar público” (“deigmatísai”) o mistério messiânico. A sua delicadeza extrema levava-o a não pedir explicações a Maria. Ela também não falou de algo tão extraordinário e inaudito. Maria calava, sofria também, deixando nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José.

20 “Não temas receber Maria, tua esposa”. O Anjo não diz: “não desconfies”, mas: “não temas”. Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julgando-se indigno de Maria, decide não se imiscuir num mistério que o transcende; “tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, quis deixã-la ocultamente... José tinha-se, por indigno...” (S. Bernardo). Zerwick pensa que o texto poderia mesmo traduzir-se: “embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus”, exercendo assim para Ele a missão de pai”. O Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: “A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus”.

23 “Será chamado Emanuel”. No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqarat referido a virgem, que é quem põe o nome = “e ela chamará”). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: “e chamarão”), um plural de generaliza¬ção, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai “legal” de Jesus (era ao pai que peetencia pôr o nome, não à mãe). Mateus não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa, muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Note-se que esta técnica de actualização (o deraxe) não é arbitrária, pois se baseia na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey (“não leias”), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de “não ler” as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular da forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqarat – “e tu chamarás”), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqar’ata “e tu chamarás” – lembrar que em hebraico há formas diferentes para o masculino e feminino das 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, “com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: “e (tu, José) o chamarás”. Assim, S. João Crisóstomo parafraseia: “Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer” (Homil. in Mt, 4).

25 “E não a tinha conhecido...” S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração (“não a conhecia”) em vez do chamado aoristo complexívo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria “até que Ela deu à luz”, em vez de: “quando Ela deu à luz”; uma afirmação que não significa necessariamente que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera (assim é também em Jo 9, 18).

 

 

Evangelho alternativo

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: “Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”. 49Jesus respondeu-lhes: “Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

Quando faziam 12 anos, os rapazes israelitas começavam a ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. “Jerusalém” não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino “a caminho de Jerusalém”, onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas “o Mestre”, Ele é “o Profeta”, e, por isso mesmo, não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através dos seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O “Menino perdido” – já não é tão menino, pois é um jovem no pleno uso dos seus direitos como judeu – é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?” Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, “em Jerusalém”, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – “aflitos à tua procura” (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é “elevar-se” ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 “Os pais de Jesus”. “Teu pai” (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 “Eu devia estar na Casa de Meu Pai”. A tradução de “ toû Patrós mou” pode significar tanto “a casa de meu Pai”, como “as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai”. A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: “Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai” (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 “Eles não entenderam”. A resposta do Menino envolvia um sentido muito profundo que ultrapassava uma simples justificação da sua “independência”. Não alcançam ver até onde iria este “estar nas coisas do Pai”, mas também não se atrevem a fazer mais perguntas. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um “sinal” e mais uma “espada” (cf. Lc 2, 34-35).