Textos da Festa da Transfiguração do
Senhor
Pe. Geraldo Morujão
1ª leitura
Daniel 7, 9-10.13-14
9Estava eu a olhar, quando foram
colocados tronos e um Ancião sentou-se. As suas vestes eram brancas como a neve
e os cabelos como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume
vivo. 10Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele.
Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal
abriu a sessão e os livros foram abertos. 13Contemplava eu as visões da noite,
quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem.
Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. 14Foi-lhe
entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O
seu poder é eterno, que nunca passará, e o seu reino jamais será destruído.
A leitura é tirada da 2ª parte do
livro de Daniel, a parte profética (7 – 12). Temos aqui a descrição, em estilo
apocalíptico, do julgamento divino, com três quadros: a apresentação do Juiz,
Deus, (vv. 9-10); a destruição do reino inimigo (vv. 11-12, omitidos nesta
leitura); e o estabelecimento do reino de Deus (vv. 13-14).
9-10 “Um Ancião” (à letra, “o
antigo em dias”): é uma forma antropomórfica de falar de Deus eterno (cf. 36,
26; Salm 101[102], 25-26; Is 41, 4). A alvura dos
cabelos não significa velhice, mas glória e luminosidade. As torrentes de fogo
que saem do trono podem simbolizar o poder divino para destruir os seus
inimigos (v. 11; cf. Is 26, 11). Dado o estilo apocalíptico desta passagem, não
se pode partir deste texto para fazer um cálculo, ainda que meramente
aproximado, do número dos Anjos: “miríades de miríades” é um superlativo
hebraico para indicar um número incontável (nós diríamos, “aos milhões”, mas
este numeral não existe em hebraico nem em grego).
13 Alguém
semelhante a um filho de homem. Os exegetas, partindo da análise do contexto
(vv. 18.22-27), dizem que o sentido literal directo
desta expressão visa não um indivíduo singular, mas o povo dos “santos do
Altíssimo” (v. 18). Contudo, como sucede frequentemente, o que é dito em geral
acerca de todo o povo entende-se, de um modo eminente (sentido eminente), como
referido a uma personagem singular, nomeadamente o chefe do povo, neste caso o
próprio Messias. O judaísmo assim o entendeu, e o próprio Jesus (cf. Mt 24, 30;
26, 64); discute-se, porém, se “Filho do Homem” é um
verdadeiro título cristológico (assim parece em Lc 1, 32-33; Mt 8, 20; 24, 30; 26, 64; Apoc
1, 7; 14, 14) ou uma maneira discreta de Jesus se referir a si mesmo (uma
figura chamada asteísmo: o filho do homem equivalendo
a este homem); uma coisa, porém, é certa: este não era um título com que Jesus
fosse tratado nem pelo povo da Palestina, nem pela Igreja primitiva. Os que o
entendem como um título cristológico
sublinham o seu carácter simultaneamente
humilde e glorioso, humano e divino.
2ª leitura
2 São Pedro
1, 16-19
Caríssimos: 16Não foi seguindo
fábulas ilusórias que vos fizemos conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor
Jesus Cristo, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade.
17Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da sublime glória de
Deus veio esta voz: «Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha
complacência». 18Nós ouvimos esta voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no
monte santo. 19Assim temos bem confirmada a palavra
dos Profetas, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a uma lâmpada que
brilha em lugar escuro, até que desponte o dia e nasça em vossos corações a
estrela da manhã.
Neste trecho é aduzido como
argumento de credibilidade a favor do anúncio da “vinda” gloriosa (parusia) de Jesus o facto de
Pedro ter sido testemunha (com outros dois Apóstolos: cf. Mt 17, 1-18 par) da
sua glória divina, que brilhou sobrenaturalmente quando os três estavam com Ele
“no monte santo”. A parusia era negada pelos
trocistas visados na carta, mais adiante (cf. 3, 3-4). O texto não perde a sua
força, mesmo que ele tenha sido redigido, depois da morte do Príncipe dos
Apóstolos, por algum seu discípulo e continuador,
como hoje pensam muitos estudiosos.
Com a Transfiguração, “ficou bem
confirmada a palavra dos Profetas”, que anunciaram a vinda gloriosa do Messias
no fim dos tempos: a Transfiguração foi uma visão antecipada da glória da parusia. Essa palavra da Sagrada Escritura, a que devemos
prestar atenção, funciona como uma luz que “brilha como uma lâmpada em lugar
escuro” (v. 19), “para aqueles que esperam a luz final, a ‘estrela da manhã’
(cf. Apoc 2, 28) a surgir com a parusia
de Cristo (cf. 1 Tes 5, 4)” (The
New Jerome Biblical Commentary, p. 1019). Em Apoc 22,
16, Jesus é “a brilhante estrela da manhã”, pela qual a comunidade orante dos fiéis clamacom
insistência: “vem!” (Apoc 22, 17.20).
Evangelho
São Marcos 9, 2-10
Naquele tempo, 2Jesus tomou
consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto
monte e transfigurou-Se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se
resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia
assim branquear. 4Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 5Pedro
tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos
três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». 6Não sabia o
que dizia, pois estavam atemorizados. 7Veio então uma nuvem que os cobriu com a
sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado:
escutai-O». 8De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser
Jesus, sozinho com eles. 9Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não
contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não
ressuscitasse dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam
entre si o que seria ressuscitar dos mortos.
A cena da Transfiguração situa-se
nos inícios da segunda parte do Evangelho de Marcos. A primeira parte (Mc 1, 1 – 8, 29) parece querer ser
a resposta à incompreensão das pessoas que se interrogam – “quem é este homem?
”– sem atinarem com a resposta certa, culminando com a confissão de Pedro: “Tu
és o Cristo!” (8, 29). Mas perante a revelação da natureza da obra messiânica
de Jesus, que passa pela aparente derrota da Paixão e da Cruz, surge a
incompreensão dos próprios discípulos, a começar pelo próprio Pedro (8, 31-33). A visão antecipada da glória do Messias na
Transfiguração serve de correctivo para aqueles que
ficaram confundidos com o primeiro anúncio da Cruz como meio de salvação (8, 31 – 9, 1). Para nós, é também uma visão antecipada da
vinda gloriosa de Cristo, a encher-nos de esperança (cf. Filp
3, 21). A Transfiguração do Senhor nada tem a ver com os mitos gregos das
metamorfoses. O próprio S. Lucas, melhor conhecedor da cultura grega, teve o
escrupuloso cuidado de evitar o verbo grego usado por S. Marcos – metamorfôthê, transfigurou-Se – substituindo-o por um
circunlóquio: “ao rezar, ficou outro o aspecto do seu rosto”. Nos mistérios
gregos, chega-se progressivamente à transformação da natureza – a metamorfose
–, através duma iniciação mistagógica, ao passo que
esta transfiguração de Jesus foi repentina e passageira, uma manifestação do
que Jesus já era antes.
2 Pedro,
Tiago e João, são os três predilectos de Jesus,
destinados a ser “colunas da Igreja” (Gal 2, 9)
particularmente firmes, também testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37),
diríamos, uma espécie de núcleo duro dos Doze. “A um alto monte”: Os Evangelhos
não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor,
um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré, segundo uma antiga tradição já
referida por Orígenes. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há
exegetas que falam antes do Monte Hermon (2.759 m),
junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha
estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. “E transfigurou-Se diante
deles”: o acontecimento é descrito, não como uma
visão, mas como uma epifania, pois foi Ele mesmo a
“manifestar” a sua própria glória divina, enquanto estava com eles. O facto deveras notável não foi tanto a visão de Moisés e
Elias, mas a da glória de Jesus.
3 “As vestes… resplandecentes…”
S. Marcos não faz referência ao rosto de Jesus que ficou brilhante como o Sol
(Mt 17, 2). O Evangelista não precisava de pormenorizar
mais, pois a referência da brancura sobrenatural das vestes era o suficiente
para que o leitor tomasse consciência da personalidade celestial de Jesus (cf. Dan 7, 9; Act 1, 10; Apoc 3, 4-5; 4, 4; 7, 9).
4 “Moisés e Elias”. A sua
presença à volta de Jesus deixa ver como a Lei e os Profetas convergem para
Ele, uma vez que tinham preparado e anunciado a sua vinda. A própria tradição
rabínica falava de Moisés como precursor do Messias e Malaquias
anunciara a vinda de Elias nos tempos messiânicos (Mal 3, 23).
5-7 “Três tendas”. Assim se
prestava Pedro a facilitar que se prolongasse aquele êxtase paradisíaco. Fala
de três e não de um único refúgio, tendo em conta a desigual dignidade de cada
uma das pessoas. “Não sabia o que dizia”: Pedro, tomado de assombro, pensa em
categorias de um messianismo glorioso e pretende que aquela situação
extraordinária se prolongue e mantenha, totalmente
alheado da realidade do dia a dia. “Veio então uma nuvem”: mas esta não era uma
resposta à sugestão de Pedro para construir um abrigo; a nuvem – a tenda de
Deus (cf. 2 Sam 22, 12; Salm
18(17), 12), que cobriu e envolveu Jesus “com a sua sombra” –, aparece sobretudo como um sinal bíblico da presença de Deus, que
simultaneamente O revelava e O ocultava (cf. Ex 13, 22; 19, 9; 24, 15-16; 33,
9; Lv 16, 2; Nm 9, 15-23;
11, 25). De acordo com Lc 9, 32, este prodígio
deve-se ter verificado de noite, enquanto o Senhor fazia oração (Lc 9, 29). Mas não consta que Jesus se tenha elevado,
levitando no ar, como O pintou Rafael. “Este é o meu Filho”. Com estas palavras
a cena atinge o apogeu: a voz vinda do Céu (a bat-qol,
como garantia divina) é mais uma confirmação divina da anterior confissão da fé
de Pedro (Mc 8, 29). S. Tomás comenta: “Apareceu toda
a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa”.
9 “Ordenou-lhes que não contassem…” Esta ordem pertence à chamada disciplina do segredo messiânico – a que Marcos dá especial ênfase pela preocupação teológica de fazer ressaltar a incompreensão perante Jesus, a ser superada pelos seus só após a glória da Ressurreição –, visa evitar possíveis agitações populares, que só contribuiriam, para perturbar e dificultar a missão de Jesus.