Textos da Solenidade da SANTÍSSIMA
TRINDADE
Pe. Geraldo Morujão
1ª leitura
Deuteronómio
4, 32-34.39-40
Moisés falou ao povo, dizendo:
32«Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia
Terá presidido à escolha deste
texto para este dia, a preocupação de, por um lado, pôr em evidência que o
mistério da Trindade divina em nada fere a sua indivisível unidade: “o Senhor é
o único Deus… e não há outro” (v. 39), e, por outro, abrir-nos para a
consideração de que Deus não é um mero princípio explicativo do que existe, uma
força cega, mas um ser pessoal – “o Senhor teu Deus” – um pai providente, que
fez pelo seu povo “tremendas maravilhas” (v. 34). A leitura é tirada da 2ª
parte do 1.° discurso de Moisés, nas estepes de Moab, que aqui atinge o seu ponto culminante ao exaltar, em
estilo oratório e comovente, o incomparável amor de Deus para com o seu Povo.
Mas Ele não aparece como um Deus, cool (fiche), para
quem tudo está sempre bem, pelo contrário, como um verdadeiro pai, que quer ver
os seus filhos felizes, por isso lhes recorda como é indispensável “cumprir as
sua leis e os seus mandamentos” (v. 40). Esta é uma daquelas passagens,
fervorosas e ardentes, que vieram a moldar a alma do piedoso israelita.
2ª leitura
Romanos 8, 14-17
Irmãos: 14Todos os que são
conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. 15Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas o
Espírito de adopção filial, pelo qual exclamamos: «Abba, Pai». 16O próprio Espírito dá testemunho, em união
com o nosso espírito, de que somos filhos de Deus. 17Se somos filhos, também
somos herdeiros, herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo; se sofrermos com
Ele, também com Ele seremos glorificados.
Esta belíssima passagem põe em
relação com as três Pessoas divinas a nossa vida cristã, que é uma vida trinitária. Pela obra redentora de “Cristo” – o Filho (v.
17) –, recebemos o “Espírito Santo” que se une ao nosso espírito (v. 16) e que
nos põe em relação com o “Pai”, levando-nos a bradar: “Abbá, ó Pai!” (v. 15).
Esta filiação adoptiva, põe-nos em relação com cada
uma das Pessoas divinas. Tem-se discutido muito sobre o sentido desta
repetição: Abbá, ó Pai!; parece
não se tratar de uma simples tradução do próprio termo arameu
usado pelo Senhor, mas antes de uma filial explosão de piedosa ternura para com
Deus – Pai Nosso! –, uma espécie de jaculatória pessoal, correspondente à
exclamação: “ó Pai, Tu que és Pai!” (M. J. Lagrange).
Evangelho
São Mateus 28, 16-20
16Naquele tempo, os onze
discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. 17Quando O
viram, adoraram-n'O; mas alguns ainda duvidaram.
18Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
19Ide e fazei discípulos de todas as nações, baptizando-as
em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-as a cumprir tudo o
que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».
Estamos perante o final, sóbrio mas solene de Mateus, que condensa todo o seu Evangelho num
tríptico deveras paradigmático. Assim, temos: no v.
18 Jesus ressuscitado, como o Pantokrátor – “todo o
poder me foi dado no Céu e na Terra!” –; no v. 17, temos a Igreja nascente que
O reconhece como Senhor, apesar da vacilação de alguns – “adoraram-no, mas
alguns ainda duvidaram” –; nos vv. 19-20 está a sua Igreja em missão – “ide…
até ao fim dos tempos”. Ao mesmo tempo, o Evangelista introduz-nos numa visão
holística e cósmica da história da salvação centrada em Cristo (cf. Ef 1, 10.23; 3, 9; Filp 3, 21; Col 1, 16.17.18.20; 3,
11), projectada para todo o Universo na abrangência
dos quatro pontos cardeais, através do recurso à quádrupla
repetição da palavra todo:“ todo o poder” (v. 18), “todas as nações” (v. 19),
“tudo o que vos mandei” (v. 20a), “todos os dias” (v. 20b), que a tradução
litúrgica traduziu por “sempre”, empobrecendo assim a força expressiva do
texto.
16 “O monte que Jesus lhes
indicara”, na Galileia, mas sem mais precisão. Há
quem queira ver esta aparição como a referida por S. Paulo a mais de 500 irmãos
(1 Cor 15, 6).
19-20 “Baptizando…
em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Em nome de não significa em vez
de, mas, tendo em conta o sentido dinâmico da preposição grega eis, trata-se de
ser baptizado para Deus; tenha-se em conta que o nome
não é um simples apelativo, mas um hebraísmo que designa o próprio ser de
alguém. Sendo assim, as palavras da forma do Baptismo
sugerem a substância cristã deste Sacramento, a saber, ficar radicalmente
dedicado para Deus, para em todas as circunstâncias da vida Lhe dar glória (é o
chamado sacerdócio baptismal comum de todos os fiéis:
LG 10; cf. 1 Pe 2, 4-10). A fórmula encerra a referência mais explícita ao
mistério da própria vida de Deus, o mistério da SS. Trindade: a unidade de
natureza é sugerida pelo singular – em nome, não nos nomes –, e a distinção de
hipóstases (não se trata de pessoas como indivíduos ou realidades separadas e autónomas!), pela indicação de cada uma delas como
realmente distintas, pois para cada uma se usa o artigo grego: “em nome de o
Pai e de o Filho e de o Espírito Santo”. Por outro lado, a proposição de parece
corresponder à tradução de um genitivo epexegético (à
maneira dum aposto), o que nos leva a entender a fórmula assim: baptizando… para (dedicar a )
Deus, que é Pai e Filho e Espírito Santo.
20 “Eu estou convosco, todos os dias, até ao fim dos tempos”. Podemos ver todo o Evangelho de Mateus marcado por uma inclusão: Mt 1, 23 – “Deus connosco” – e Mt 28, 20 – “estou sempre convosco” –. Jesus garante a assistência contínua e a indefectibilidade à sua Igreja. A História da Igreja é a melhor confirmação destas palavras de Jesus; mas Ele não prometeu que não haveria crises na sua Igreja – as provocadas quer por perseguições, quer pelo mau comportamento dos seus filhos –, mas sim que todas estas seriam seguramente superadas.