Textos da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo
Missa do dia
(Pe. Geraldo Morujão)
Primeira leitura
Actos
dos Apóstolos 12, 1-11
1Naqueles dias, o rei Herodes
começou a perseguir alguns membros da Igreja. 2Mandou matar à
espada Tiago, irmão de João, 3e, vendo que tal procedimento agradava aos
judeus, mandou prender também Pedro. Era nos dias dos Ázimos.
4Mandou-o prender e meter na cadeia, entregando-o à guarda de quatro piquetes
de quatro soldados cada um, com a intenção de o fazer
comparecer perante o povo, depois das festas da Páscoa. Enquanto 5Pedro era
guardado na prisão, a Igreja orava instantemente a Deus por ele. 6Na noite anterior
ao dia
1-2 “Herodes”: é Herodes Agripa I, o terceiro monarca do mesmo nome a ser nomeado no
NT; era filho da Aristóbulo e sobrinho de Herodes Antipas
(o que mandara matar o Baptista) e neto de Herodes, o Grande (o da construção
do Templo e da matança dos inocentes). Depois de uma vida libertina em Roma,
obteve o favor de Calígula, vindo a poder usar o título de rei dum território
quase tão grande como o do avô, apresentando-se muito zeloso da religiosidade
judaica. “Tiago” é o filho de Zebedeu e Salomé, irmão
do Apóstolo João evangelista. O seu martírio deve ter sido um ano ou dois após
a tomada de posse de Herodes, a qual se deu no ano 41.
4-6 “Guarda de 4 piquetes de 4
soldados”: note-se o contraste entre a severidade da segurança e a serenidade
de Pedro que dorme; cada piquete correspondia a uma das quatro vigílias da
noite; Pedro “dormia entre
dois soldados”, com uma das mãos atada à mão de um soldado e a outra à do
outro, enquanto “a Igreja orava instantemente a Deus por ele” (belo fundamento
bíblico da oração assídua pelo Papa).
7-10 A intervenção libertadora do
“Anjo do Senhor” já tinha sido assinalada em semelhante circunstância (cf. Act 5, 18-19); esta está na linha da fé da Igreja na protecção dos anjos da guarda, conforme lembra o Catecismo
da Igreja Católica, nº 336: “Desde a infância até à
morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão…”.
Segunda leitura
2 Timóteo
4, 6-8.17-18
Caríssimo: 6Eu já estou oferecido
em libação e o tempo da minha partida está iminente. 7Combati o bom combate,
terminei a minha carreira, guardei a fé. 8E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia e não só a mim, mas a todos aqueles
que tiverem esperado com amor a sua vinda. 17O Senhor esteve a meu lado e
deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse
plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem e eu fui libertado da boca
do leão. 18O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino
celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.
A leitura é um extracto da parte final da Carta, em que o Paulo,
pressentindo a morte iminente, faz como que um balanço da sua vida toda
devotada à causa da Boa Nova. Consideramos o escrito dotado de autenticidade
criticamente segura, não obstante uma certa tendência
negativa mesmo entre diversos autores católicos. De facto
aqui, como em muitos outros pontos das Cartas Pastorais, observam-se pormenores
biográficos de tal maneira vivos, concretos e coerentes, que não se podem
atribuir a um falsário. Há quem pense na intervenção dum secretário diferente
dos habituais, que muito bem poderia ter sido o seu discípulo e companheiro (cf. v. 11) no segundo cativeiro romano, Lucas (Spicq).
6-7 “Já estou oferecido em
libação”, isto é, “sinto que a morte se avizinha”; é uma linguagem que bem pode
proceder do costume, referido por Tácito, de se fazerem libações por ocasião da
morte de alguém. “Combati o bom combate”: São Paulo sempre gostou de comparar a
vida cristã e as lides apostólicas a lutas desportivas, pugilismo, corridas...
(cf. Filp 2, 16; 3, 12-14; 1
Cor 9, 24-26; Gal 2, 2); “terminei a minha carreira”,
à letra, corrida.
17 “A mensagem... fosse
proclamada a todos…” Pensa-se haver aqui uma referência a algum testemunho
público nalguma audiência do tribunal perante grande multidão. “Fui libertado
da boca do leão”, o que não significa forçosamente que estivesse para ser
lançado às feras, mas simplesmente o adiamento da condenação à pena capital,
talvez para se proceder a melhor estudo da causa, em face do surpreendente
testemunho do heróico pregador do Evangelho, que teria deixado os seus juízes
perplexos…
Evangelho
São Mateus 16, 13-19
Naquele tempo, 13Jesus foi para
os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus
discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do
homem?». 14Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é
Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: 15«E vós, quem dizeis que Eu sou?». 16Então, Simão Pedro tomou
a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
17Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que
está nos Céus. 18Também Eu te digo: Tu és Pedro sobre esta pedra edificarei a
minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na
terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos
Céus».
O texto da leitura consta de duas
partes distintas, mas intimamente ligadas: a confissão de fé de Pedro (vv.
13-16), comum a Marcos 8, 27-30 e a Lucas 9, 18-21 (cf. Jo
6, 67-71), e a promessa feita a Pedro (vv. 17-19), exclusiva de Mateus (cf. Jo 21, 15, 23).
13 “Cesareia
de Filipe” era a cidade construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, em
honra do César romano, nas faldas do Monte Hermon, a
uns 40 quilómetros a Nordeste do Lago de Genesaré.
13-17 “Quem dizem
os homens… E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que, em face de Jesus
– uma pessoa tão singular, surpreendente e apaixonante –, não pode deixar de
ser feita em todos os tempos. As respostas podem ser variadas e até
contraditórias, mas só uma é a certa, a resposta de Pedro, a resposta
esclarecida da fé, resposta que Jesus aprova: “Feliz de ti, Simão” (v. 17). “Tu
és o Messias, o Filho de Deus vivo” (v. 16): Messias é a forma hebraica da
palavra do texto original grego, Cristo, que quer dizer ungido (os reis eram
ungidos com azeite na cabeça ao serem investidos). Jesus é o Rei (ungido)
anunciado pelos Profetas e esperado pelo povo. Quando se diz Jesus Cristo é
como confessar a mesma fé de Pedro, reconhecer que Jesus é o Cristo, isto é, o
Messias, mas num sentido mais denso e profundo, a saber, o Filho de Deus, num
sentido que ultrapassa o corrente e que só o dom divino da fé pode fazer
descobrir, segundo as palavras de Jesus a Pedro: “Não foram a
carne e o sangue que to revelaram” (v. 17). A fé de Pedro, como a nossa, não
pode proceder dum mero raciocínio humano, da sagacidade natural, mas da luz, da
certeza e da firmeza, que procede da revelação de Deus. “A carne e o sangue” é
uma forma semítica de designar o homem enquanto ser débil e exposto ao erro e
ao pecado.
18 “Tu és Pedro”. É significativo
que o texto grego não tenha conservado a palavra aramaica “kêphá”,
aliás usada noutras passagens do N. T. sem ser
traduzida, como é habitual com os patronímicos. Aqui o evangelista teve o
cuidado de usar o nome correntemente dado ao Apóstolo Simão: Pedro. É
expressivo o trocadilho, com efeito Pedro é a pedra
sobre a qual assenta a solidez de toda a Igreja do Senhor. Note-se que o
apelido de Pedro = Pedra não existia na época, nem em aramaico (Kêphá), nem em grego (Pétros),
nem em latim (Petrus), uma circunstância que reforça
o seu significado e originalidade. Além disso, este apelido também não era apto
para caracterizar o temperamento ou o carácter do
Apóstolo, pois aquilo que distingue a sua personalidade não é precisamente a
dureza ou firmeza da pedra, mas antes a debilidade, mobilidade e até
inconstância (cf. Mt 14, 28-31; 26, 33-35.69-75; Gal 2, 11-14). Se Jesus assim o chama, é em razão da função
ou cargo em que há-de investi-lo.
“Edificarei a minha Igreja”.
Jesus, ao dizer a minha, significa que tem intenção de fundar algo de novo, uma
nova comunidade de Yahwéh. “Ekklêsía”
é a tradução grega corrente dos LXX para a designação hebraica da Comunidade de
(qehal) Yahwéh, isto é, “o
povo escolhido de Deus reunido para o culto de Yahwéh”
(cf. Dt 23, 2-4.9). Não é,
portanto, a Igreja uma seita dentro do judaísmo, é uma realidade nova e
independente. “Jesus pôde dizer minha, porque Ele a salva, Ele a adquire com o
seu sangue, Ele a convoca, Ele realiza nela a presença divina, a aliança, o
sacrifício”. “As portas do inferno não prevalecerão”. Esta linguagem
tipicamente bíblica (Is 38, 10; Sab 16, 13; cf. Job 38, 17; Salm 9, 14) é uma
sinédoque com que se designa a parte pelo todo. Inferno tanto pode designar a
destruição e a morte (xeol=inferi=os infernos), como
Satanás e os poderes hostis a Deus. Por ocasião da eleição do Papa Bento XVI
viu-se bem como estes poderes hostis à verdadeira Igreja de Cristo mais uma vez
se assanharam…
19 “Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus”. Os poderes conferidos a Pedro não são para ele vir a exercer no Céu, mas aqui neste mundo, onde a Igreja, o Reino de Deus em começo e em construção, tem de ser edificada. No judaísmo e no Antigo Testamento (cf. Is 22, 22), lidar com as chaves é uma atribuição de quem representa o próprio dono, significa adminis¬trar a casa. Ligar-desligar significa tomar decisões com tal autoridade e poder supremo que serão consideradas válidas por Deus, “nos Céus”. É de notar que Jesus diz a todos os Apóstolos esta mesma frase (Mt 18, 18), mas sem que seja tirada qualquer força à autoridade suprema de Pedro, a quem é dado um especial poder de “ligar e desligar” na Igreja, enquanto pedra fundamental e pastor supremo a ser investido após a Ressurreição (Jo 21, 15-17). Este primado de Pedro sobre toda a Igreja – que hoje se designa por ministério petrino – não é conferido apenas a ele, mas a todos os seus sucessores; com efeito Jesus fala a Pedro na qualidade de chefe duma edificação estável e perene, a Igreja; se o edifício é perene também o será a pedra fundamental. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 882, “o Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, «é princípio perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, todos os bispos com a multidão dos fiéis» (LG 23). Em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer” (LG 22). Este é um dos pontos cruciais do diálogo ecuménico, que terá uma saída feliz quando todos os que se consideram cristãos compreenderem que o carisma petrino, por vontade de Cristo, é o indispensável instrumento de união e unidade na legítima diversidade.