Textos da Solenidade do Nascimento de S.
João Baptista
24 de junho
Pe. Geraldo Morujão
Primeira Leitura
Isaías 49, 1-6
1Terras de Além-Mar, escutai-me povos de longe, prestai atenção. O Senhor
chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe.
2Fez da minha boca uma espada afiada, abrigou-me à sombra da sua mão. Tornou-me
semelhante a uma seta aguda, guardou-me na sua aljava.
3E disse-me: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória».
4E eu dizia: «Cansei-me inutilmente, em vão e por nada gastei as minhas
forças». 5Mas o meu direito está no Senhor e a minha recompensa está no meu
Deus. E agora o Senhor falou-me, Ele que me formou desde o seio materno, para
fazer de mim o seu servo, a fim de Lhe restaurar as tribos de Jacob e
reconduzir os sobreviventes de Israel. Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força. 6Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Farei de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins
da terra».
Este texto é o II Cântico do
Servo de Yahwéh. O sentido profundo desta passagem
visa o Messias, Luz das nações (v. 6; cf. Lc 2, 32).
No entanto, temos aqui, como tantas vezes na Liturgia, uma adaptação deste
texto a outra figura que não é o Messias, mas o seu Precursor, João Baptista.
Joga-se, portanto, com o sentido acomodatício, que não é um sentido
propriamente bíblico; é um sentido que nós pomos na Sagrada Escritura, tendo em
conta uma certa semelhança de fundo ou meramente
verbal. Aqui trata-se suma “acomodação real ou por
extensão”, pois há uma grande semelhança de fundo entre o texto e o que
realmente se passou com o Baptista: v. 1b – Chamado antes do nascimento (cf. Lc 1, 13-17); v. 1b – Santificado no ventre materno (cf. Lc 1, 15.41-44); Chamado antes do nascimento (cf. Lc 1, 13-17); 1b – Santificado no ventre materno (cf. Lc 1, 15.41-44); 2 – Pregador intrépido das exigências
divinas (cf. Mt 3, 7-10; 14, 4); 5-6 – Reconduz Israel a Deus e restaura o Povo
(cf. Lc 1, 16-17; 3, 1-20.
Segunda leitura
Actos
dos Apóstolos 13, 22-26
Naqueles dias, Paulo falou deste
modo: 22«Deus concedeu aos filhos de Israel David como rei, de quem deu este
testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que
fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, como prometera, Deus fez
nascer Jesus, o Salvador de Israel. 24João tinha proclamado, antes da sua
vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de
Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem
julgais mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem
eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’. 26Irmãos, descendentes
de Abraão e todos vós que temeis a Deus: a nós é que foi dirigida esta palavra
de salvação».
A leitura é tirada do discurso de
São Paulo em Antioquia da Pisídia, por ocasião da
primeira grande viagem, o primeiro discurso querigmático
do Apóstolo a ser registado nos Actos
dos Apóstolos. Corresponde a um modelo primitivo, mas a redacção
de Lucas tem presente certamente os seus leitores, a
quem se dirige ao redigir a sua obra.
24-25 “João dizia”. Breve
referência à substância da pregação do Baptista: a preparação do povo para
receber bem o Messias que ele anunciava. Mas a santidade de João era tão grande
e impressionante que ele precisou de deixar bem claro
que “eu não sou aquilo que julgais”, pois o tinham como o Messias (cf. Jo 1, 20-30; 3, 25-30).
Evangelho
São Lucas 1, 57-66.80
Naquele tempo, 57chegou a altura
de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. 58Os seus vizinhos e parentes souberam
que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela.
59Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do
pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio e disse: «Não, Ele vai chamar-se João».
61Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome».
62Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se
chamasse. 63O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João». Todos
ficaram admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua
e começou a falar, bendizendo a Deus. 65Todos os vizinhos se encheram de temor
e por toda a região montanhosa da Judeia se
divulgaram estes factos. 66Quantos os ouviam contar
guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?». Na
verdade, a mão do Senhor estava com ele. 80O menino ia crescendo e o seu
espírito fortalecia-se. E foi habitar no deserto até ao dia em que se
manifestou a Israel.
A leitura de hoje apresenta-nos o
relato do nascimento do Precursor bem como da imposição do nome e circuncisão.
Na vigília já se leu o anúncio do nascimento.
63 “O seu nome é João”. Com
grande surpresa para toda a família, o menino não recebe o nome do pai, ou,
como era mais frequente, o do avô paterno, mas o nome
anunciado pelo Arcanjo Gabriel: João, que quer dizer “Yahwéh
concedeu uma graça”. Do versículo anterior deduz-se que Zacarias estava mudo e
surdo, pois lhe “perguntaram por sinais” (v. 62).
80 “E foi habitar no deserto”. Não é crível que João tenha ido para o deserto ainda menino muito pequeno, como dizem os apócrifos, nem apenas pouco tempo antes da vida pública de Cristo. O facto de Lucas dizer logo neste momento que João foi para o deserto, corresponde a uma técnica da composição lucana, chamada técnica de eliminação: antes de passar a outro assunto, avança com coisas que se referem à pessoa de que está a falar, eliminando o que entrementes sucedeu, sem se preocupar da cronologia; assim se explica que a Virgem Maria não apareça no nascimento do Baptista, etc. João, tendo à sua frente uma carreira brilhante, pois era da classe sacerdotal, renuncia a ela, para levar uma vida recolhida e penitente, vida que havia de conferir grande autenticidade e autoridade à sua futura pregação. Não foi para um deserto arenoso, mas para uma zona pobre e árida, provavelmente a Noroeste do Mar Morto. Por ali se fixaram os essénios, concretamente a seita de Qumrã, dirigida pelos sacerdotes sadoquitas dissidentes do sacerdócio oficial de Jerusalém. Até que ponto manteve João contacto com estes essénios é coisa para nós desconhecida, ainda que provável.