Textos da Solenidade do SANTÍSSIMO CORPO
E SANGUE DE CRISTO
Pe. Geraldo Morujão
1ª leitura
Êxodo 24, 3-8
Naqueles dias, 3Moisés veio
comunicar ao povo todas as palavras do Senhor e todas as suas leis. O povo
inteiro respondeu numa só voz: «Faremos tudo o que o Senhor ordenou». 4Moisés
escreveu todas as palavras do Senhor. No dia seguinte, levantou-se muito cedo,
construiu um altar no sopé do monte e ergueu doze pedras pelas doze tribos de
Israel. 5Depois mandou que alguns jovens israelitas oferecessem holocaustos e
imolassem novilhos, como sacrifícios pacíficos ao Senhor. 6Moisés recolheu
metade do sangue, deitou-o em vasilhas e derramou a outra metade sobre o altar.
7Depois, tomou o Livro da Aliança e leu-o em voz alta
ao povo, que respondeu: «Faremos quanto o Senhor disse e em tudo obedeceremos».
8Então, Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: «Este é o
sangue da aliança que o Senhor firmou convosco, mediante todas estas palavras».
Este texto refere a ratificação da antiga Aliança, por mediação de Moisés,
entre dois protagonistas, Deus e o povo de Israel. O rito é descrito com dois
elementos, a saber: um (vv. 3a. e 7), a leitura das cláusulas postas por Deus –
“as palavras do Senhor” (debarim: ou Decálogo, cf. Ex
20) e “as leis
(mixpatim: ou Código da Aliança, cf. Ex 21 – 22) –,
com a correspondente aceitação pela parte do povo – “nós o poremos em prática”
(vv. 3b e 7). O outro elemento é o sacrifício para selar a Aliança (vv. 4b-6).
É interessante notar como a descrição deste sacrifício conserva uns traços
muito primitivos, pois quem imola os animais não são sacerdotes, mas “alguns
jovens” (v. 5), num altar construído ad hoc e tendo à volta doze estelas
(v.4). Os ritos de sangue eram correntes entre os povos nómadas
daqueles tempos, mas, para o povo de Israel, este rito encerra um significado
particular. Com efeito, o sangue é a vida (cf. Gn 9,
4) e a vida é pertença só de Deus, por isso ele só deve ser derramado sobre o
altar, ou ser usado para ungir pessoas consagradas a Deus (cf. Ex 29, 19-21);
ao dizer-se que Moisés “aspergiu com ele o povo” todo (v. 8), deixa-se ver que
esta aliança não apenas vincula o povo às cláusulas, para obedecer às leis de
Deus, mas sobretudo que este povo fica a pertencer a Deus, como um povo santo,
que Lhe é consagrado, um povo sacerdotal (cf. Ex 19, 3-6). O sangue derramado
em partes iguais – “metade sobre o altar” (v. 6), que representa a Deus, e a
outra “metade” sobre o povo (v. 8) – mostra os laços estreitos da comunhão de
vida que a aliança cria entre Deus e o povo, num impressionante simbolismo. Uma
tal união e aliança é a prefiguração da nova, universal e definitiva aliança,
aquela que unirá para sempre, de modo sobrenatural, o homem com Deus, através
do sangue de Cristo (cf. Mt 26, 28; Heb 9, 11.28: 2.ª
leitura de hoje)
2ª leitura
Hebreus 9, 11-15
Irmãos: 11Cristo veio como sumo
sacerdote dos bens futuros. Atravessou o tabernáculo
maior e mais perfeito, que não foi feito por mãos humanas, nem pertence a este
mundo, 12e entrou de uma vez para sempre no Santuário. Não derramou sangue de
cabritos e novilhos, mas o seu próprio Sangue, e alcançou-nos uma redenção
eterna. 13Na verdade, se o sangue de cabritos e de toiros
e a cinza de vitela, aspergidos sobre os que estão impuros, os santificam em
ordem à pureza legal, 14quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito
eterno Se ofereceu a Deus como vítima sem mancha,
purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!
15Por isso, Ele é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a sua
morte para remissão das transgressões cometidas durante a primeira aliança, os
que são chamados recebam a herança eterna prometida.
11 Cristo é apresentado como Sumo
Sacerdote, numa alusão aos ritos judaicos do Dia da Expiação (Yom Kipur),em
só o sumo sacerdote entrava na parte mais sagrada do santuário, o Santo dos
Santos. Ele “atravessou o tabernáculo maior e mais
perfeito”, isto é, segundo a interpretação feita pela tradução, o Santuário do
Céu, aonde subiu e onde continua a exercer a sua mediação salvífica.
12-15 O sacrifício de Cristo, com
a oferta do seu próprio sangue, isto é, da sua vida imolada, tem uma eficácia
infinitamente superior à dos sacrifícios antigos que não obtinham mais do que
uma pureza legal e exterior.
14 “Quanto mais o sangue de
Cristo… pelo espírito eterno”. É em virtude da sua natureza divina que o seu
sacrifício tem um valor infinito, que não apenas supera os sacrifícios
oferecidos no templo de Jerusalém, mas os torna obsoletos.
Evangelho
São Marcos 14, 12-16.22-26
12No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos
perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a
Páscoa?» 13Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade. Virá ao
vosso encontro um homem com uma bilha de água. 14Segui-o e, onde ele entrar,
dizei ao dono da casa: «O Mestre pergunta: Onde está a
sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus
discípulos?» 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e
pronta. Preparai-nos lá o que é preciso». 16Os discípulos partiram e foram à
cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa.
22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos
discípulos e disse: «Tomai: isto é o meu Corpo». 23Depois tomou um cálice, deu
graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse Jesus: «Este é o meu Sangue,
o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em verdade vos
digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do
vinho novo no reino de Deus». 26Cantaram os salmos e saíram para o Monte das
Oliveiras.
Estamos no relato evangélico da
última Ceia de Jesus, segundo Marcos. Tratando-se duma Ceia Pascal, é deveras
impressionante que nenhum evangelista relate a comida do cordeiro, o elemento
central da ceia judaica. É que todo o interesse se centra nas palavras e nos
gestos de Jesus. Aqui tudo é diferente, porque o cordeiro é Ele próprio.
13-14 O pormenor aqui relatado
mostra como Jesus tinha tudo previsto cuidadosamente e parece até indiciar que
Jesus quereria ocultar a Judas o local da Ceia para
evitar a consumação da traição neste momento.
15 “Uma grande sala grande no
andar superior, alcatifada e pronta”. Estes pormenores, que não aparecem nos outros evangelistas podem denunciar, de acordo
com a tradição, que o Cenáculo era propriedade de Maria de Jerusalém, a mãe de
Marcos, o próprio evangelista que no-los relata.
22 “Isto é o meu Corpo”. A expressão de Jesus é categórica e terminante, com exactamente as mesmas palavras nos quatro relatos paralelos; não deixa lugar a mal entendidos. Não diz: aqui está o meu Corpo, nem isto é o símbolo do meu Corpo, mas sim: isto é o Meu Corpo, como se dissesse: “este pão já não é pão, mas é o Meu Corpo”, isto é, “sou Eu mesmo”. Todas as tentativas de entender estas palavras num sentido simbólico fazem violência ao texto; com efeito, “ser” no sentido de “ser como”, “significar”, só se verifica quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como o signifique. Por outro lado, Jesus, com a palavra “isto” não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; por isso, não tem sentido dizer que com a fracção do pão o Senhor queria representar o despedaçar do seu Corpo por uma morte violenta; e Jesus não podia querer dizer uma tal coisa: se o quisesse dizer, teria de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era, afinal, um gesto usual do chefe da mesa, em todas as refeições, e ninguém lhe podia descobrir outro sentido; por outro lado, o gesto de beber o cálice muito menos condizia com esse tal suposto sentido. Os Apóstolos entenderam as palavras no seu verdadeiro realismo (cf. Jo 6, 51-58). Assim as entende e prega S. Paulo (1 Cor 11) e a Igreja Católica assistida indefectivelmente por Cristo e pelo Espírito Santo. O mistério eucarístico é tão transcendente que não podia passar pela cabeça humana sequer sonhá-lo (cf. a recente Encíclica Ecclesia de Eucharistia).