Textos do 14º Domingo Comum

Pe. Geraldo Morujão

 

1ª leitura

Ezequiel 2, 2-5

Naqueles dias, 2o Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então Alguém que me dizia: 3«Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim. Eles e seus pais ofenderam-Me até ao dia de hoje. 4É a esses filhos de cabeça dura e coração obstinado que te envio, para lhes dizeres: ‘Eis o que diz o Senhor’. 5Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes –, mas saberão que há um profeta no meio deles».

 

A leitura refere a vocação e a missão do profeta Ezequiel, no exílio de Babilónia. É impressionante o contraste entre grandeza da glória do Senhor antes descrita gongoricamente no capítulo 1º e a debilidade do seu profeta; é Deus que lhe dá força e o anima a dirigir-se a “um povo de cabeça dura”.

3 “Filho de homem”. Esta expressão, com que repetidamente é designado o profeta, põe em contraste a pouquidão humana com a grandeza divina. Quase só em Ezequiel aparece este título. Jesus assumirá este título para designar a aparência humilde com que se revela; a expressão era uma forma discreta de se referir a si (um asteísmo), equivalente a este homem; mas, em parte, a expressão era também um título glorioso (cf. Dan 7, 13). De qualquer modo, é um título exclusivamente usado pelo próprio Jesus, pois mais ninguém assim O chama.

 

2ª leitura

2 Coríntios 12, 7-10

Irmãos: 7Para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça, foi-me deixado um espinho na carne, – um anjo de Satanás que me esbofeteia – para que não me orgulhe. 8Por três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. 9Mas Ele disse-me: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder». Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. 10Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte.

 

A leitura é tirada da 3.ª parte de 2 Cor, em que S. Paulo entra em polémica com os que pretendiam desautorizá-lo. Não receia mesmo apelar para “revelações” extraordinárias (12, 1-6). O texto é rico de ensinamentos para a vida cristã: a humildade, a confiança no poder da graça de Deus e a necessidade da oração. “Um espinho na carne”: a natureza deste espinho é muito discutida. Parece menos provável que se trate de tentações violentas ou de angustiantes preocupações pastorais. É mais provável que se trate de alguma doença que o afligia (paludismo, doença nervosa, doença nos olhos, sendo esta última explicação a mais seguida, a partir dos elementos deduzidos de Act 9, 8-9.18; 23, 5; Gal 4, 15; 6, 11.

 

Evangelho

São Marcos 6, 1-6

Naquele tempo, 1Jesus dirigiu-Se à sua terra e os discípulos acompanharam-n’O. 2Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? 3Não é Ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?» E ficavam perplexos a seu respeito. 4Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». 5E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

 

Por este episódio fica claro que Jesus, embora socialmente aparecesse como um mestre entre tantos, Ele não o era como os restantes, pois não tinha o curriculum de mestre, por isso não vêem nele mais do que um simples carpinteiro, alguém que vivera em tudo uma vida igual à dos seus conterrâneos. “Tiago e José” eram primos de Jesus, filhos duma outra Maria, como se diz em Mt 27, 57 (cf. Mc 15, 47); irmão era uma forma de designar todos os familiares.

3 “O filho de Maria”. Alguns deduzem daqui que S. José já tinha morrido, o que é mais do que provável; com efeito, em todas as passagens onde se fala de parentes de Jesus, nunca se nomeia S. José. Há porém aqui um pormenor curioso: nos lugares paralelos de Mateus e Lucas, Jesus é chamado “filho do carpinteiro” (Mt 13, 55) e “filho de José” (Lc 4, 22). No entanto, não são os Evangelistas a designá-lo assim, mas os ouvintes do Senhor. Mateus e Lucas, que já tinham deixado clara a virgindade de Maria, nos episódios da infância de Jesus, não têm receio de recolher a designação corrente de “filho de José”. S. Marcos, que não tinha referido ainda a virgindade da Mãe de Jesus, evita cuidadosamente a designação de “filho de José”, para que os seus leitores não venham a confundir as coisas. É pois destituído de fundamento afirmar que S. Marcos ignorava a virgindade de Maria.