Textos do 19.º Domingo Comum B
Pe. Geraldo Morujão
1ª leitura
1 Reis 19, 4-8
Naqueles dias, 4Elias entrou no
deserto e andou o dia inteiro. Depois sentou-se
debaixo de um junípero e, desejando a morte,
exclamou: «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus
pais». 5Deitou-se por terra e adormeceu à sombra do junípero. Nisto, um Anjo do Senhor tocou-lhe e disse:
«Levanta-te e come». 6Ele olhou e viu à sua cabeceira um pão cozido sobre
pedras quentes e uma bilha de água. Comeu e bebeu e tornou a deitar-se. 7O Anjo
do Senhor veio segunda vez, tocou-lhe e disse: «Levanta-te e come, porque ainda
tens um longo caminho a percorrer». 8Elias levantou-se, comeu e bebeu. Depois,
fortalecido com aquele alimento, caminhou durante quarenta dias e quarenta
noites até ao monte de Deus, Horeb.
A leitura é extraída do chamado
ciclo de Elias, na parte final do Livro 1º dos Reis. Jezabel,
a esposa pagã do rei Acab, patrocinadora do culto de Baal no reino do Norte, obriga ao exílio o profeta Elias,
depois de este ter exterminado os sacerdotes Baal,
que colaboravam com a rainha na destruição da religião de Yahwéh.
Na leitura, o profeta aparece-nos totalmente desalentado na sua fuga a caminho
do Horeb (provavelmente, outro nome do Sinai), onde
pensava refugiar-se, esperando alguma comunicação divina (vv. 9-14), que lhe
garantisse a continuidade da Aliança e a preservação da religião javista, naquele mesmo monte onde Deus comunicara com
Moisés, por isso se chama “monte de Deus” (v. 8). É bastante clara a alusão à
viagem de Israel, perseguido pelo faraó, através do deserto até ao Sinai. Este
“pão cozido nas brasas” – subcinericius panis – é considerado uma figura da Sagrada Eucaristia:
“confortados com a sua força, podem os cristãos, depois do caminho desta
peregrinação cheia de misérias, chegar à pátria
celestial” (Concílio de Trento, DzS 1649).
2ª leitura
Efésios
4, 30 – 5, 2
Irmãos: 30Não contristeis o
Espírito Santo de Deus, que vos assinalou para o dia da redenção. 31Seja eliminado do meio de vós tudo o que é azedume, irritação,
cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade. 32Sede bondosos e
compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente, como Deus também
vos perdoou em Cristo. 1Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados.
2Caminhai na caridade, a exemplo de Cristo, que nos amou e Se entregou por nós,
oferecendo-Se como vítima agradável a Deus.
Continuamos a ter como 2ª
leitura, desde o XV Domingo comum deste ano B, textos respigados da Epístola
aos Efésios. Na sequência
do Domingo anterior, continua a exortação a um novo modo de vida cristã e à
prática das virtudes.
30 “Não contristeis o Espirito Santo”. O cristão é pertença de Deus, trazendo na
sua alma a marca dessa pertença (carácter baptismal), que o destina a glorificar a Deus e à glória
celeste, “para o dia da redenção”. O Espírito Santo é o vinculo da unidade dos
cristãos dentro do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja (cf.
vv. 4-5), por isso qualquer pecado que ensombre a unidade e a santidade
deste Corpo, magoa-O e entristece-O. Os vícios que no contexto são fustigados
são os contrários à caridade e à castidade.
5, 1
“Procurai imitar a Deus, como filhos...” É próprio dum filho parecer-se com o
pai, possuir os seus modos, as suas qualidades. É fácil de descobrir a alusão
às próprias palavras do Senhor: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste”
(Mt 5, 48; cf. 1 Cor 11, 1; 1 Tes 1, 6).
2 “Oferecendo-se como vítima...”
A tradução, embora não literal, ajuda a tornar mais explícito um sentido que
geralmente os exegetas querem ver na associação dos dois termos cultuais –
“oferta e sacrifício de agradável odor” (proforá e thysía) – numa referência à dupla função de Jesus, como
sacerdote e como vítima. Este é um dos textos clássicos para falar da Morte de
Cristo como um verdadeiro sacrifício.
Evangelho
São João 6, 41-51
Naquele tempo, 41os judeus
murmuravam de Jesus, por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu». 42E
diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua
mãe? Como é que Ele diz agora: 'Eu desci do Céu'?» 43Jesus respondeu-lhes: «Não
murmureis entre vós. 44Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o
trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. 45Está escrito no livro dos
Profetas: 'Serão todos instruídos por Deus'. Todo aquele que ouve o Pai e
recebe o seu ensino vem a Mim. 46Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele
que vem de junto de Deus viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo: Quem
acredita tem a vida eterna. 48Eu sou o pão da vida. 49No deserto, os vossos
pais comeram o maná e morreram. 50Mas este pão é o que desce do Céu para que
não morra quem dele comer. 51Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. 52Quem comer
deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de
dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».
Continuamos com o discurso do pão
da vida, na forma dialogada característica do IV Evangelho. O selecção litúrgica , preocupada de
pôr em evidência o sentido eucarístico do discurso, incluiu os vv. 51-52, em
que a Eucaristia é claramente referida, passando mesmo da designação de “pão da
vida” para “pão vivo”, a saber, de Jesus (Palavra de Deus), em quem é preciso
crer (o pão da vida, a verdade que dá o sentido da vida), para Jesus
Eucaristia, que é preciso receber (o pão vivo). Com estes dois versículos
também irá começar a leitura do Evangelho do próximo Domingo.
41 “Os judeus”. A designação tem
44 “Ninguém
pode vir a Mim, se o Pai… o não atrair”. Vir a Jesus é crer nele e segui-lo;
ora isto é algo que supera uma simples atitude de atracção
humana, é algo divino, é uma graça, um dom sobrenatural. Com efeito, quem se
aproximasse de Jesus sem a graça da fé não seria capaz de ver mais do que um
homem, ou até um profeta singular, mas não poderia reconhecer o próprio Deus incarnado e não entenderia as suas palavras, como aquela
gente que procurava Jesus, de forma egoísta e interesseira, sem aderir à sua
palavra. E por isso “murmuravam” (v. 41).
52 “É a minha Carne”. A clareza das palavras de Jesus é o fundamento da certeza e da firmeza da fé da Igreja, que o Magistério sempre tem proclamado sem ambiguidades: “Realizada a transubstanciação, as espécies do pão e do vinho adquirem sem dúvida um novo significado e um novo fim, dado que já não são o pão e a bebida correntes, mas são o sinal duma coisa sagrada, sinal dum alimento espiritual; adquirem, porém, um novo significado e um novo fim enquanto contêm uma realidade, que com razão denominamos ontológica porque, sob as ditas espécies, já não existe o que havia antes, mas uma coisa completamente diversa; e isto é assim não unicamente em virtude do juízo da fé da Igreja, mas em razão da própria realidade objectiva, uma vez que, convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo, já não fica nada do pão e do vinho, mas somente as espécies: sob elas Cristo, todo integralmente está presente na sua realidade física, mesmo corporalmente, embora não do mesmo modo como os corpos estão num lugar” (PAULO VI, encíclica Mysterium Fidei).