Textos do 21.º
Domingo do Tempo Comum B
Pe. Geraldo Morujão
Josué 24, 1-2a.15-17.18b
Naqueles dias, 1Josué reuniu
todas as tribos de Israel
A leitura é tirada do capítulo
final do livro de Josué, uma obra impregnada do espírito e da teologia do Deuteronómio, que celebra a fidelidade do amor de Deus e apela
para a correspondência fiel à escolha gratuita do seu amor. A obra termina com
o relato da Grande Assembleia de Siquém,
para a ratificação da Aliança, cujo rito, à maneira dos pactos hititas, não aparece na leitura (vv. 25-27). O povo decidiu
livremente escolher a Yahwéh, melhor dito, decidiu
não O abandonar. Josué, com vigorosa decisão, adianta-se como seu exemplo: “eu
e minha família serviremos o Senhor” (v. 15); o povo responde: “também nós
queremos servir o Senhor, pois Ele é o nosso Deus” (v. 18b). Como então, ainda
hoje a fidelidade e santidade do povo depende muito da
decidida fidelidade dos seus chefes e daqueles fiéis cujo bom exemplo deixa
rasto.
1 “Siquém”. Cidade ligada à vida dos Patriarcas (Gen 12, 6; 33, 18), na Samaria, entre os montes Garizim
e Ebal, que os arqueólogos localizaram a
15 “Amorreus”.
Designação frequente no A.T., como forma muito
genérica para indicar os habitantes da Palestina antes dos hebreus. Para os
especialistas de História os amorreus são povos
semitas que pelo ano 2.000 se fixaram na Mesopotâmia, Síria e Palestina. A sua
primeira metrópole foi Mari, na margem ocidental do
médio Eufrates, mas no seu apogeu foi Babilónia.
2ª leitura
Efésios
5, 21-32
Irmãos: 21Sede submissos uns aos
outros no temor de Cristo. 22As mulheres submetam-se aos maridos como ao
Senhor, 23porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da
Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. 24Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo
aos maridos. 25Maridos, amai as vossas mulheres, como
Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela. 26Ele quis santificá-la,
purificando-a no baptismo da água pela palavra da
vida, 27para a apresentar a Si mesmo como Igreja cheia de glória, sem mancha
nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada. 28Assim devem os
maridos amar as suas mulheres, como os seus corpos. Quem ama a sua mulher
ama-se a si mesmo. 29Ninguém, de facto, odiou jamais
o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja;
30porque nós somos membros do seu Corpo. 31Por isso, o homem deixará pai e mãe,
para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. 32É grande este
mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja.
Terminamos hoje com a leitura
respigada de Efésios, precisamente com a referência
aos deveres dos esposos cristãos; marido e mulher encontravam-se numa situação
nova relativamente à vida das outras pessoas casadas com quem conviviam, por isso o amor, o respeito e a obediência são
focados numa nova perspectiva, a da união indissolúvel e da mútua entrega entre
Cristo e a Igreja. S. Paulo parte da consideração duma analogia em que o marido
representa Cristo e a esposa a Igreja, por isso as suas exortações têm como
pano de fundo esta representação. Mas de modo nenhum ele pretende reduzir os
deveres e as relações familiares a este figurino. Ele foca os aspectos que se
enquadram nesta semelhança. Assim, ao dizer, “as mulheres submetam-se aos
maridos como ao Senhor” (v. 22), não pretende negar o que diz antes: “sede
submissos uns aos outros” (v. 21), ou contradizer o princípio da igualdade de
dignidade e direitos já dado por assente em Gálatas: “já não há diferença entre
judeu e grego, nem entre escravo e livre, nem entre homem e mulher”(Gal 3, 28). Se
sublinha para a mulher o dever de submissão é em virtude da analogia
estabelecida, pois também o marido tem que ser submisso à mulher (cf. v. 21);
mas também poderíamos pensar que S. Paulo, como bom psicólogo, fala em concreto
da submissão para a mulher, aludindo a que o coração (a mulher) tem de se
submeter à razão (o homem). De qualquer modo, não se opõe à justa promoção da
mulher, o que aliás não é mais do que uma das consequências da doutrina cristã bem entendida e bem
vivida, sem que com isso se queira dizer que já nem tem em nada que se submeter
ao marido, pois também o marido, para ser bom marido, tem que se submeter à
mulher, e, afinal, quando a submissão é ditada pelo amor e respeito mútuos, não
é deprimente, mas libertadora.
32 “É
grande este mistério...” A Vulgata diz “sacramento”, não no sentido técnico da
Teologia, mas no sentido de algo sagrado que contém um significado oculto. Ora
este significado é grande, importantíssimo, do mais alto alcance, pela sua
referência a Cristo e à Igreja. Com isto, S. Paulo ensina que o Criador, ao
unir o homem e a mulher em matrimónio, deixou-nos uma
figura ou “tipo” da união de Cristo com a Igreja, união que é una, indissolúvel
e santificante. Daqui que o Concílio de Trento tenha dito que este texto paulino insinua a sacramentalidade do Matrimónio
cristão.
Evangelho
São João 6,
60-69
Naquele tempo, 61muitos
discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram: «Estas palavras são duras. Quem pode
escutá-las?» 62Jesus, conhecendo interiormente que os discípulos murmuravam por
causa disso, perguntou-lhes: «Isto escandaliza-vos?
63E se virdes o Filho do homem subir para onde estava anteriormente? 64O
espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse
são espírito e vida. 65Mas, entre vós, há alguns que não acreditam». Na
verdade, Jesus bem sabia, desde o início, quais eram os que não acreditavam e
quem era aquele que O havia de entregar. 66E acrescentou: «Por isso é que vos
disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe for concedido por meu Pai». 67A
partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele.
68Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-Lhe Simão Pedro:
«Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida
eterna. 69Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».
A reacção
dos ouvintes de Jesus às suas palavras de revelação no discurso eucarístico
passa da discussão (vv. 41.52) e do escândalo (v. 61) ao abandono da parte de
muitos discípulos que já tinham aderido a Ele (v. 67). No meio deste descalabro
ergue-se a voz de Pedro, em nome dos Doze, numa confissão de fé clara, firme e
decidida, que permanece como o ponto de referência da fé recta
e como paradigma de comunhão entre todos aqueles que ao longo dos tempos hão-de seguir a Cristo.
60-71. As palavras de Jesus não
são palavras “duras” (v. 60), mas são “espírito e vida” (v. 64); não são
palavras humanas, pois são a revelação do espírito de
Deus e dão a vida eterna; por isso têm de ser acolhidas com fé, com a fé,
humilde e firme, de Pedro (v. 69). As palavras de Jesus são espírito, mas de
modo nenhum isto significa que são palavras para serem entendidas
num sentido espiritual e figurado (como pensam muitos protestantes);
elas não são palavras humanas, se o fossem, é que haveria razão para o
escândalo.
69. “O Santo de Deus”: este título, apesar das variantes textuais (na Vulgata aparece Christus Filius Dei, por influência da confissão de Pedro em Mt 16, 16) está mais bem documentado. Não aparece nunca como título messiânico, a não ser na boca dos demónios (Mc 1,24; Lc 4,34); “sendo o Santo de Deus, Jesus não pertence à esfera terrestre, mas à ultra-terrena, ao mundo do divino, e encontra-se com Deus numa relação que nenhum outro ser tem, porque Deus o santificou e o enviou ao mundo (10, 16), por isso Ele, e só Ele, pode dar a vida eterna” (A. Wikenhauser).