Textos do Domingo de Pentecostes A
Pe. Geraldo Morujão
Actos dos
Apóstolos 2, 1-11
1Quando
chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo
lugar. 2Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante
a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. 3Viram
então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou
uma sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e
começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se
exprimissem. 5Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de
todas as nações que há debaixo do céu. 6Ao ouvir aquele ruído, a
multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua
própria língua. 7Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos
galileus os que estão a falar? 8Então, como é que os ouve cada um de
nós falar na sua própria língua? 9Partos, medos, elamitas, habitantes
da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da
Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, 11tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes,
ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».
1 “Pentecostes” significa, em grego, quinquagésimo (dia depois da Páscoa). Os
judeus chamam-lhe Festa das Semanas
(em hebraico, xevuôth, 7 semanas depois da Páscoa). Era uma festa
em que se ofereciam a Deus as primícias das colheitas, num gesto de acção de
graças. Mais tarde, os rabinos também lhe deram o sentido da comemoração da
promulgação da Lei no Sinai.
3 “Línguas de fogo que se iam dividindo”. O fogo toma esta forma
talvez para significar o dom das línguas. Esta nova divisão das línguas tem a
finalidade de unir os homens numa mesma fé e não de os separar com aquela
divisão das línguas de que se fala no Génesis (11, 1-9).
4 “Começaram
a falar outras línguas”. Jesus tinha anunciado este prodígio, até então
desconhecido (cf. Mc 16, 17).
Trata-se de um fenómeno sobrenatural, não dum simples fenómeno de exaltação. No
entanto, não há total acordo entre os exegetas para explicar o milagre das
línguas do Pentecostes. A explicação mais habitual é que os Apóstolos falaram
então verdadeiros idiomas novos (cf.
Mc 16, 17), mas em Actos não se fala de línguas
novas (kainais), como em Marcos,
mas de línguas diferentes (cf. v. 4: hetérais). Alguns dizem que o milagre
estava nos ouvintes, que ouviam na própria língua das terras donde provinham
(v. 8) aquilo que os Apóstolos diziam em aramaico. Outros, especialmente nos
nossos dias, põem este milagre em relação com o dom das línguas, ou glossolalia,
carisma de que se fala em 1 Cor 14, 2-33:
seria então um tipo de oração extática, especialmente de louvor, em que se
articulavam sons ininteligíveis (algo parecido com aquele fenómeno místico a
que Santa Teresa de Jesus chama “embriaguez espiritual, júbilo místico”). Sendo
assim, o que aconteceu de particular no dia do Pentecostes, foi que não era
preciso um intérprete (como em 1 Cor 14, 27-28) para que os ouvintes
entendessem o que diziam os Apóstolos: os ouvintes de boa fé receberam o dom de
interpretar o que os Apóstolos diziam, ao passo que os mal dispostos diziam que
eles estavam ébrios (v. 13). De qualquer
modo, em Actos nunca se diz que a pregação de Pedro (cf. vv. 14-36) foi em
línguas; o discurso aparece como posterior a este fenómeno referido no v. 4; em
línguas poderia ser algum tipo de oração de louvor, a “proclamar as maravilhas do Senhor” (v. 11).
9-11 Temos aqui uma vasta
referência às diversas procedências dos judeus da diáspora: uns teriam mesmo
vindo em peregrinação, outros seriam emigrantes que se tinham fixado na
Palestina. De qualquer modo, esta enumeração bastante exaustiva e ordenada (a
partir do Oriente para Ocidente) pretende pôr em evidência a universalidade da Igreja, que é católica
logo ao nascer, destinada a todos os homens de todas as procedências,
manifestando-se esta catolicidade na capacidade que todos têm para captar e
aderir à pregação apostólica. Por outro lado, também a unidade da Igreja se deixa ver na única mensagem e no único
Baptismo que todos recebem; como se lê na 2.ª leitura de hoje, (v. 13) “a todos nos foi dado beber um único
Espírito”.
1 Coríntios
12, 3b-7.12-13
Irmãos: 3bNinguém
pode dizer «Jesus é o Senhor», a não ser pela acção do Espírito Santo. 4De
facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. 5Há
diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6Há diversas
operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. 7Em cada um
se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. 12Assim como o
corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos,
constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. 13Na
verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos
baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi
dado a beber um único Espírito.
O contexto em que fala S. Paulo
aos Coríntios é o de certa confusão que reinava na comunidade acerca dos
carismas, em especial os de linguagem. Para começar, avança com um critério de
discernimento: que quem fala o faça de acordo com a verdadeira fé; “Jesus é o Senhor” é a confissão de fé
na divindade de Jesus. “Senhor” equivale
a Yahwéh na tradução grega dos LXX
para o nome divino. Um acto de fé não se pode fazer só pelas próprias forças, é
fruto da graça do Espírito Santo, que pelos seus dons, especialmente o do
entendimento e o da sabedoria aperfeiçoam essa mesma fé.
4-5 Pertence
à essência da vida da Igreja haver sempre, diversidade
de dons espirituais (carismas), ministérios
e operações. Estas três designações
referem-se fundamentalmente aos mesmos dons de Deus em favor da edificação da
Igreja, mas cada um destes três nomes foca um aspecto: a sua gratuidade, a sua utilidade e a sua manifestação do poder actuante de Deus. S Paulo apropria cada um destes aspectos a
cada uma das três Pessoas divinas. Toda esta diversidade e variedade de dons
procede da unidade divina e concorre para que a unidade a Igreja – um só Corpo (v. 13) – seja mais rica. O
Concílio Vaticano II – L. G. 12 – recorda normas práticas acerca destes
carismas, ou dons que Deus concede aos fiéis para a “renovação e cada vez mais
ampla edificação da Igreja, para o bem
comum” (v. 7). E diz que os dons extraordinários não se devem pedir
temerariamente, nem deles se devem esperar, com presunção, os frutos das obras
apostólicas; e o juízo acerca da sua autenticidade e recto uso, pertence
àqueles que presidem na Igreja, a quem compete de modo especial não extinguir o
Espírito, mas julgar e conservar o que é bom (cf. 1 Tes 5, 12.19-21). Não se
pode opor o carismático ao jerárquico: a vida da Igreja, que se expande pelos
carismas, tem que se manter na esfera da verdade, garantida pela Hierarquia, a
fim de que seja verdadeira vida, e não mera excrescência doentia e anormal,
porventura um princípio de auto-destruição.
12 “Assim como o corpo...”. A comparação
não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à
Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: “um só corpo”. Aqui está latente a
doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios, mas ainda não se
considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo, apenas se considera
que os cristãos de Corinto são um organismo – um corpo – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v.
27).
13 “E a todos nos foi dado beber um único Espírito”. Os exegetas em geral, tendo em conta
que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam haver aqui uma
referência ao Sacramento da Confirmação, pois então estes Sacramentos se
costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-6), como ainda hoje no Oriente.
São João 20, 19-23
19Na tarde
daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os
discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio
deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto,
mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem
o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim
como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto,
soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles
a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os
retiverdes serão retidos».
Este texto foi escolhido por nele
se falar também de uma comunicação do Espírito Santo, esta no dia de Páscoa, e
que permite à Igreja o exercício de uma das principais concretizações da sua
missão salvífica: o perdão dos pecados por meio do Sacramento da Reconciliação.
(Ver atrás os comentários feitos para o 2.º
Domingo da Páscoa). Aqui limitamo-nos a citar um belo texto da Declaração
Ecuménica das Igrejas Cristãs (Upsala 1968), baseada num conhecido texto
patrístico: “Sem o Espírito Santo, Deus fica longe; Cristo pertence ao passado;
o Evangelho é letra morta; a Igreja, mais uma organização; a autoridade, um
domínio; a missão, uma propaganda; o culto, uma evocação; o agir cristão, uma
moral de escravos. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos eleva-se e geme na
infância do Reino; Cristo ressuscita e é alento de vida; a Igreja é comunhão
trinitária; e a autoridade, serviço libertador; a missão é Pentecostes; e o
culto, memorial e antecipação; o agir humano torna-se realidade divina”.