Textos Dominicais do 29º Domingo Comum B
Pe. Geraldo Morujão
1ª leitura
Isaías 53, 10-11
10Aprouve ao Senhor esmagar o seu
Servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como vítima de expiação,
terá uma descendência duradoira, viverá
longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os
sofrimentos, verá a luz e ficará saciado. Pela sua sabedoria, o Justo, meu
Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades.
Temos apenas 2 versículos do IV
canto dos Poemas do Servo de Yahwéh (Is 52, 13 – 53, 12); de todos os quatro é o mais impressionante, o mais
comentado e o mais meditado no cristianismo. Surpreende vivamente o leitor o facto de se apresentar o triunfo e glorificação do servo
sofredor, precisamente por meio do seu sofrimento e humilhação; mais ainda, ele
assume as nossas dores e misérias com o fim de as curar,
a chamada “expiação vicária”, uma concepção teológica deveras original. As
tentativas de identificação deste “servo” passaram por várias fases. O judaísmo
alexandrino viu nele o povo de Israel sofrendo as tribulações da diáspora, mas
alentado pela esperança da sua exaltação, ao passo que o judaísmo palestino via
na sua glorificação o futuro messias, mas os sofrimentos eram referidos ao
castigo dos gentios; em Qumrã o texto era aplicado ao
Mestre da Justiça, o provável fundador da seita. A interpretação cristã é
unânime em reconhecer neste servo de Yahwéh a Jesus
na sua dolorosa Paixão, Morte e Ressurreição pela salvação de todos. O texto
é-nos proposto neste Domingo em função do Evangelho: “o Filho do Homem veio
para servir e dar a vida pela salvação de todos” (Mc
10, 45).
2ª leitura
Hebreus 4, 14-16
Irmãos: 14Tendo nós um sumo
sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na
profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de
se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em
tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 15Vamos,
portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos
misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno.
O autor, depois de já ter
proclamado a superioridade de Cristo sobre os Anjos (1, 5 – 2,
18) e sobre Moisés (3, 1 – 4, 11), começa agora a expor que Ele – Sumo
Sacerdote da Nova Aliança – é superior aos sacerdotes da antiga. Já tinha
apresentado este sumo sacerdote da nossa fé como sendo “digno de crédito” (3,
1.6), o que nos estimula a que “permaneçamos firmes na fé que professamos” (v.
14); agora passa a apresentar outra sua qualidade, “a misericórdia”, que nos
inspira a máxima confiança. Com efeito,
Jesus, ao contrário do sumo sacerdote da lei antiga, que era uma figura
distante e separada dos pecadores (recordem-se as exigências do Levítico: Lv 21); Jesus é “capaz
de se compadecer das nossas fraquezas”, porque Ele mesmo “foi provado em tudo
como nós, excepto no pecado” (cf. 1ª leitura do IV
Canto do Servo de Yahwéh).
14 “Que penetrou os Céus”. Jesus
– o novo Josué (o nome hebraico é o mesmo: «Yehoxúa‘»)
segundo a referência do v. 8 – já penetrou no descanso da nova terra prometida,
os Céus, tendo-nos deixado aberta a entrada, que
atingiremos, se não formos infiéis como os antigos israelitas (daí o apelo a
conservar a fé, com firmeza). Por outro lado, o texto sugere uma referência ao Yom-Kipur, ou Dia da Expiação, em que o sumo sacerdote
penetrava no Santo dos Santos (imagem dos Céus) através dos dois véus do
santuário, a fim de expiar os pecados do povo.
16 “Trono
da graça”. Esta expressão parece inspirada no “trono da glória” de que se fala
no A. T. (1 Sam 2, 8; Is 22, 23; Jer
14, 21; 17, 12; Sir 47, 11), o que terá influenciado a
variante de dois códices da Vulgata, que registam thronum gloriæ. É interessante
notar que, segundo os rabinos, Deus tinha dois tronos: o da justiça e o da
misericórdia. O trono de Jesus, de que se falou em 1, 8, já não aparece como o
trono de justiça do Salmo 45, 7 ali citado, mas é o da
misericórdia, o “trono da graça”, a que podemos recorrer “cheios de confiança”.
Evangelho
*Forma longa: São Marcos 10,
35-45 Forma breve: São Marcos 10, 42-45
[Naquele tempo, 35Tiago e João,
filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e
disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir».
36Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?»
37Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua
direita e outro à tua esquerda». 38Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis.
Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo
com que Eu vou ser baptizado?» 39Eles
responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu
vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado.
40Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim
concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». 41Os outros dez, ouvindo
isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João.]
42esus chamou-os e disse-lhes:
«Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio
sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. 43Não deve ser
assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, 44e
quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; 45porque o Filho
do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção
de todos».
Jesus vai a caminho de Jerusalém
(cf. 10, 32-33). Apesar dos três anúncios da Paixão, os discípulos, embora com uma certa sensação de medo (ibid.), não deixam de pensar que
muito em breve o anunciado reino de Deus se irá manifestar (cf. Lc 19, 11), pois todo o seu interesse se fixava nisto.
Antes que alguém lhes passe à frente, os dois irmãos, Tiago e João, sem
atenderem à figura ridícula que faziam e à tensão e inveja a provocar nos
colegas (v. 41), atrevem-se a tentar que o Mestre se comprometa com eles,
garantindo-lhes os primeiros postos no reino, que imaginam terreno. Isto vai
dar lugar a que Jesus os corrija, mas sem os humilhar, e deixe um ensinamento
muitíssimo importante para todos e para sempre (vv. 42-45); neste sentido
ensina o Vaticano II, GS 3: “Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas
unicamente este objectivo: continuar (…) a obra de
Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade (…), para servir, e não
para ser servido”. Assim também fica reprovado o servir-se da Igreja, em vez de
a servir. A grandeza do discípulo de Cristo é servir
desinteressadamente, como fez o Mestre (cf. Jo 13,
14-17).
38-39 “Beber o cálice… receber o baptismo”, neste contexto, são duas imagens do sofrimento e
da morte (cf. Lc 12, 50; Is 51, 17-23; Mc 14, 36; Salm 42, 8; 69, 2-3.15-15). A generosidade e audácia dos
dois agradou a Jesus, que lhes promete virem a participar do seu destino
doloroso –“beber o cálice” –, mergulhados no mistério do seu sofrimento – “baptismo”. De facto, Tiago foi
martirizado em Jerusalém pelo ano 44 (Act 12, 2), por
Herodes Agripa I; João foi preso
e flagelado em Jerusalém (Act 4, 3; 5, 40-41), sofreu
mais tarde o exílio na ilha de Patmos (cf. Apoc 1, 9), mas nada se sabe de seguro sobre o seu
problemático martírio.
40 “Não me pertence a Mim concedê-lo”. A expressão não implica inferioridade de Jesus, como pretendiam os arianos; não é que falte poder a Jesus; Ele é que, fazendo tudo o que faz o Pai e com o mesmo poder, nada faz com independência do Pai (cf. Jo 5, 17-30). Segundo a explicação habitual, os dois dirigiram-se a Jesus como o Messias ao instaurar o reino, e, enquanto tal, Ele não faz mais do que executar o projecto divino.