Textos Dominicais do Domingo da Ascensão do Senhor B

(Dia Mundial das Comunicações Sociais)

Pe. Geraldo Morujão

 

Primeira Leitura:

Actos 1, 1-11

1No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio 2até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. 3Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. 4Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da Qual – disse Ele – Me ouvistes falar. 5Na verdade, João baptizou com água; vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». 6Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?» 7Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; 8mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». 9Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. 10E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, 11que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».

 

Lucas começa o livro de Actos com o mesmo facto com que tinha terminado o seu Evangelho; a Ascensão desempenha assim na sua obra um papel de charneira, pois assinala tanto a ligação como a distinção entre a história de Jesus que se realiza aqui na terra (o Evangelho) e a história da Igreja que então tem o seu início (Actos).

3 “Aparecendo-lhes durante 40 dias”. Esta precisão do historiador Lucas permite-nos esclarecer algo que no seu Evangelho não tinha ficado claro quanto ao dia da Ascensão, pois o leitor poderia ter ficado a pensar que se tinha dado no dia da Ressur¬reição. A verdade é que a Ascensão faz parte da glorificação e exaltação de Jesus; por isso S. João parece pretender uni-la à Ressurreição, nas palavras de Jesus a Madalena (Jo 20, 17), podendo falar-se duma ascensão invisível no dia de Páscoa, sem que em nada se diminua o valor do facto sucedido 40 dias depois e aqui relatado: a Ascensão visível de Jesus, que marca um fim das manifestações visíveis aos discípulos, “testemunhas da Ressurreição estabelecidas por Deus”, engloba uma certa glorifi¬cação acidental do Senhor ressuscitado, “pela dignidade do lugar a que ascendia”, como diz S. Tomás de Aquino (Sum. Theol., III, q. 57, a. 1). Há numerosas referências à Ascen¬são no Novo Testamento: Jo 6, 62; 20, 17; 1 Tim 3, 26; 1 Pe 3, 22; Ef 4, 9-10; Hbr 9, 24; etc.. Mas a Ascensão tem, além disso, um valor existencial excepcional, pois nos atinge hoje em cheio: Cristo, ao colocar à direita da glória do Pai a nossa frágil natureza humana unida à Sua Divindade (Cânon Romano da Missa de hoje), enche-nos de esperança em que também nós havemos de chegar ao Céu e diz-nos que é lá a nossa morada, onde, desde já, devem estar os nossos corações, pois ali está a nossa Cabeça, Cristo.

4 “A Promessa do Pai, da qual Me ouvistes falar”. Na despedida da Última Ceia, Jesus não se cansou de falar aos discípulos do Espírito Santo: Jo 14, 16-17.26; 16, 7-15.

5 “Baptizados no Espírito Santo”, isto é, inundados de enorme força e luz do Espírito Santo, cheio dos seus dons, dez dias depois (cf. Act 2, 1-4).

8 “Minhas Testemunha em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da Terra”. Estas Palavras do Senhor são apresentadas por S. Lucas para servirem de resumo temático do seu livro; o que nos vai contar ilustrará como a fé cristã se vai desenvolver progressivamente seguindo estas 3 etapas geográficas: Act 2 – 7; 8 – 12; 13 – 28.

 

Segunda Leitura:

Efésios 1, 17-23

Irmãos: 17O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de luz para O conhecerdes plenamente 18e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos 19e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força 20que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, 21acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há-de vir. 22Tudo submeteu aos seus pés e -l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, 23que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.

 

Neste texto temos um dos principais temas da epístola: a Igreja como Corpo (místico) de Cristo. A Igreja é a plenitude de Cristo, “o Cristo total” (S. Agostinho). A Igreja recebe da sua Cabeça, Cristo, não só a chefia, mas o influxo vital, a graça; vive a vida de Cristo. Jesus sobe ao Céu, mas fica presente no mundo, na sua Igreja.

17 “O Deus de N. S. J. Cristo”. “O Pai é para o Filho fonte da natureza divina e o criador da sua natureza humana: assim Ele é, com toda a verdade, o Deus de N. S. J. C.” (Médebielle). “O Pai da glória”, isto é, o Pai a quem pertence toda a glória, toda a honra intrínseca à sua soberana majestade. “Um espírito”, o mesmo que um dom espiritual. Não se trata do próprio Espírito Santo; uma vez que não tem artigo em grego, trata-se pois de uma graça sua.

20-22 Ternos aqui a referência a um tema central já tratado em Colosenses: a supremacia absoluta de Cristo, tendo em conta a sua SS. Humanidade, uma vez que pela divindade é igual ao Pai. A sua supremacia coloca-O “acima de todo o nome”, isto é, acima de todo e qualquer ser, de qualquer natureza que seja, e qualquer mundo a que pertença. Mas aqui a atenção centra-se num domínio particular de Cristo, a saber, na sua Igreja, da qual Ele é não apenas o Senhor, mas a Cabeça. A Igreja é o “Corpo de Cristo”; ela é o plêrôma de Cristo, isto é, o seu complemento ou plenitude: a igreja é Cristo que se expande e se prolonga nos fiéis que aderem a Ele. (Alguns autores preferem entender o termo plêrôma no sentido passivo: a Igreja seria plenitude de Cristo, enquanto reservatório das suas graças e merecimentos que ela faz chegar aos homens).

23 “Aquele que preenche tudo em todos”. A acção de Cristo é sem limites, especialmente na ordem salvífica; a todos faz chegar a sua graça, sem a qual ninguém se pode salvar. No entanto, é mais corrente preferir, com a Vulgata, outro sentido a que se presta o original grego: “A Igreja é a plenitude daquele que se vai completando inteiramente em todos os seus membros”; assim, a Igreja completa a Cristo, e Cristo é completado pelos seus membros (é uma questão de entender como passivo, e não médio, o parti¬cípio grego plêrouménou, de acordo com o que acontece em outros 87 casos do N. T.).

 

Pode utilizar-se outra, como 2ª leitura:

Hebreus 9, 24-28; 10, 19-23

24Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para Se apresentar agora na presença de Deus em nosso favor. 25E não entrou para Se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote que entra cada ano no santuário, com sangue alheio; 26nesse caso, Cristo deveria ter padecido muitas vezes, desde o princípio do mundo. Mas Ele manifestou-Se uma só vez, na plenitude dos tempos, para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo. 27E como está determinado que os homens morram uma só vez – e a seguir haja o julgamento –, 28assim também Cristo, depois de Se ter oferecido uma só vez para tomar sobre Si os pecados da multidão, aparecerá segunda vez, sem aparência de pecado, para dar a salvação àqueles que O esperam. 19Tendo nós plena confiança de entrar no santuário por meio do sangue de Jesus, 20por este caminho novo e vivo que Ele nos inaugurou através do véu, isto é, o caminho da sua carne, 21e tendo tão grande sacerdote à frente da casa de Deus, 22aproximemo-nos de coração sincero, na plenitude da fé, tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado na água pura. 23Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel.

 

A leitura é respigada do final da primeira parte de Hebreus em que o autor sagrado expõe a superioridade do sacrifício de Cristo sobre todos os sacrifícios da Lei antiga (8, 1 – 10, 18). Aqui Jesus é apresentado como o novo Sumo Sacerdote da Nova Aliança, em contraste com o da Antiga, que precisava de entrar cada ano – “com sangue alheio” –, no dia da expiação (o Yom Kippur: cf. Ex 16) “num santuário feito por mãos humanas”, ao passo que Jesus entra “no próprio Céu” (v. 24), não precisando de o fazer “muitas vezes” (v. 25-26), pois, “uma só vez” bastou “para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (v. 26), por meio do seu próprio sangue. Como habitualmente, o autor aproveitando a exposição doutrinal para fazer ricas exortações práticas apela, um pouco mais adiante (10, 19-23), para a virtude da “esperança” de também nós podermos chegar ao Céu, apoiados na certeza das promessas de Cristo. A “água pura” é certamente a do Baptismo (cf. 1 Pe 3, 21), que não pode ser encarado à margem da fé e da pureza da consciência. Notar como a SS. Humanidade de Jesus – “o caminho da sua carne” – é focada como o véu do Templo, o que bem pode evocar a nuvem da Ascensão, que ao mesmo tempo esconde e revela a presença invisível de Cristo ressuscitado.

 

Evangelho:

São Marcos 16, 15-20

Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze Apóstolos e disse-lhes: 15«Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16Quem acreditar e for baptizado será salvo mas quem não acreditar será condenado. 17Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome falarão novas línguas, 18se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». 19E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. 20Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

 

A Ascensão de Jesus é referida em S. Marcos com poucas palavras (v. 19b), o que não quer dizer de uma forma mais simples e ou mais primigénea; com efeito, pertence ao apêndice canónico do 3º Evangelho (Mc 16, 9-20, omitido nos manuscritos mais importantes), considerado bastante posterior e uma síntese dos elementos relatados em João, Mateus, Lucas e Actos. Ao prescindir dos pormenores espaciais de Actos (cf. 1ª leitura), este texto ajuda-nos a que nos fixemos no núcleo do mistério, na teologia da Ascensão, uma vez que esta não aparece como uma simples despedida de Jesus, ou um afastamento dos seus, mas sim como a exaltação do “Senhor Jesus” (só aqui Cristo é assim designado em Marcos – v. 19), como a glorificação da sua humanidade, ao ser posto ao mesmo nível da glória, da majestade e do poder de Deus: “sentou-se à direita de Deus” (este pormenor é inexplicavelmente omitido na tradução litúrgica). Por outro lado, não é Jesus que deixa os seus, mas é o Pai que o arrebata para o Céu (v. 19 –“foi levado” da tradução litúrgica é menos expressivo); “foi elevado”, na voz passiva, pressupõe Deus como o sujeito da acção, tratando-se de uma maneira de dizer muito judaica, com o fim de, por respeito, evitar pronunciar o nome divino.

Como em Actos, a Ascensão de Jesus aparece intimamente ligada à missão universal dos discípulos – “ide a todo o mundo” (v 15) –, deixando ver que a partir de agora temos o começo da acção da Igreja: “e eles partiram a pregar por toda a parte” (v. 20).