Textos do 30.º
Domingo Comum B
Pe. Geraldo Morujão
1ª leitura
Jeremias
31, 7-9
7Eis o que diz o Senhor: «Soltai
brados de alegria por causa de Jacob, enaltecei a primeira das nações. Fazei
ouvir os vossos louvores e proclamai: 'O Senhor salvou o seu povo, o resto de
Israel'. 8Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos confins do mundo.
Entre eles vêm o cego e o coxo, a, mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz.
É uma grande multidão que regressa. 9Eles partiram com lágrimas nos olhos e Eu
vou trazê-los no meio de consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por
caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel e Efraim é o meu primogénito».
A 1ª leitura é como habitualmente
escolhida em função do Evangelho; é tirada da parte do livro que os críticos
chamam o “Livro da Consolação” (Jer 30 – 33),
considerada o núcleo de toda a obra do Profeta de Anatot, onde se anuncia a
futura restauração de Israel assente sobre um descendente de David (33, 15-17)
e sobre uma nova Aliança, já não escrita em placas de pedra, mas nos corações
(31, 31-34).
8-9 “Vou trazê-los das terras do
Norte”, isto é, da Assíria, cujo rei Salmanasar V
conquistara o reino do Norte (Israel ou Efraím: v.
9), em 721, havia já cerca de um século. Os israelitas tinham sido deportados
em massa não só para a Assíria, mas também para os mais diversos sítios: “os
confins do mundo”. Notar como é o próprio Deus quem
reconduz os exilados, incapacitados de sair da sua miséria; por isso a salvação
não fica reservada apenas ao soldado que combate e a quem tem capacidade para
se deslocar por seus próprios pés: entre a multidão que regressa para fazer
parte do futuro reino messiânico, vêm “o cego e o coxo, a mulher que vai ser
mãe e a que já deu à luz”: é uma bela forma poética de exaltar a intervenção
divina. O v. 9 faz lembrar o Salmo 126 (125), 5-6, um Salmo de peregrinações
(gradual, ou das ascensões).
2ª leitura
Hebreus 5, 1-6
1Todo o sumo sacerdote, escolhido
de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas suas relações com
Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. 2Ele pode ser
compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também ele está
revestido de fraqueza; 3e, por isso, deve oferecer sacrifícios pelos próprios
pecados e pelos do seu povo. 4Ninguém atribui a si próprio esta honra, senão
quem foi chamado por Deus, como Aarão. 5Assim também, não foi Cristo que tomou
para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe disse: «Tu
és meu Filho, Eu hoje Te gerei», 6e como disse ainda noutro lugar: «Tu és
sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».
O v. 1 é uma bela e válida
síntese do que é ser sacerdote. Os vv. 1-4, começam por descrever as
características gerais dum sumo sacerdote, um sacerdote do A. T., para depois
demonstrar como Jesus cumpriu cabalmente as exigências
desta figura de sacerdote. A leitura de hoje apenas desenvolve a última
característica: a vocação divina (v. 4). Como Aarão, que foi escolhido por Deus
(cf. Ex 28, 1), assim também Jesus não se arrogou por si próprio a honra de se tornar Sumo Sacerdote (v. 5), pois Ele, sendo
o Filho de Deus anunciado no Salmo 2, 7, é constituído Sacerdote de uma
natureza superior à do sacerdócio levítico, pois
cumpre a figura do Salmo 110 (109), 4, um Salmo considerado messiânico pelos
próprios judeus: “sacerdote para sempre à maneira de Melquisédec”.
Mais adiante explicar-se-á a razão da superioridade do
sacerdócio de Melquisédec, no capítulo 7, de que
vamos ter um pequeno trecho no próximo Domingo.
Evangelho
São Marcos 10, 46-52
Naquele tempo, 46quando Jesus ia
a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego,
chamado Bartimeu, filho de Timeu,
a pedir esmola à beira do caminho. 47Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que
passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».
48Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais:
«Filho de David, tem piedade de mim». 49Jesus parou e
disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te,
que Ele está a chamar-te». 50O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter
com Jesus. 51Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?» O cego
respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». 52Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te
salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.
A vivacidade da narração e o
colorido próprio do Evangelho de S. Marcos encontram
aqui um exemplo típico. Assim há uma série de pormenores que não aparecem nos
relatos paralelos de Mateus e Lucas: a referência aos discípulos (v. 46), o
nome do cego com a sua respectiva tradução (v. 46), as palavras que dizem os
que chamam o cego (v. 49: “Coragem! Levanta-te que Ele está a chamar-te”), e
também o gesto de o cego largar a capa e de se levantar dum salto (v. 50), bem
como a forma de ele se dirigir a Jesus com a delicada
expressão “rabbuní” (v. 51), em vez da forma seca rabbí. Todos estes pormenores, bem como aqueles que são
comuns aos restantes Sinópticos, reforçam o valor histórico do Evangelho,
especialmente a referência ao nome do miraculado,
coisa rara nos relatos evangélicos. S. Marcos não foi certamente uma testemunha
ocular do facto, mas, ao registar
todos estes detalhes, teve em conta o Evangelho como
era pregado por Pedro, de quem foi companheiro e colaborador, que Papias chama “o intérprete de Pedro”.
Na passagem paralela, S. Mateus
fala de dois cegos que Jesus curou, ao sair de Jericó. S. Lucas fala da cura de
um, ao entrar em Jericó, ao passo que S. Marcos diz: “Quando Jesus ia a entrar
em Jericó” (v. 46). Se queremos valorizar todos estes
pormenores, podemos recorrer à explicação habitual da discrepância:
trata-se de dois cegos diferentes; e S. Mateus, de acordo com o seu hábito de
sintetizar e simplificar, fala da cura dos dois de uma só vez, quando saía de
Jericó.
A insistência dos Evangelhos na cura de invisuais – com mais de uma dezena de referências – parece que se deve não apenas à frequências deste tipo de doentes, mas também a uma intenção teológica dos evangelistas, de modo a que assim fique patente que Jesus é a luz do mundo, como aparece expressamente no capítulo 9 de S. João na cura do cego (Jo 9, 5; cf. Jo 1, 9; 8, 12; 12, 35-36). Jesus vem iluminar os corações com a luz da fé – “a tua fé te salvou” (v. 52) – vem curá-los, purificando-os; com efeito “o fundo dos olhos é o coração” (R. Guardini); e, sem um coração limpo, não há olhos sãos. Também se pode ver uma intenção didáctica no pormenor de mostrar como o cego deixa de estar à beira do caminho (v. 46), para “seguir Jesus pelo caminho” (v. 52); este é o rumo que toma quem se deixa curar por Jesus; “caminho” tornou-se mesmo uma expressão para designar a fé e a vida cristã (cf. Act 9, 2; 18, 25.26; 19, 9.23; 22, 4; 24, 14).