Textos do 27.º Domingo Comum B
(Pe. Geraldo Morujão)
1ª leitura
Génesis
2, 18-24
18Disse o Senhor Deus: «Não é bom
que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». 19Então o
Senhor Deus, depois de ter formado da terra todos os animais do campo e todas
as aves do céu, conduziu-os até junto do homem, para ver como ele os chamaria,
a fim de que todos os seres vivos fossem conhecidos pelo nome que o homem lhes
desse. 20O homem chamou pelos seus nomes todos os animais domésticos, todas as aves
do céu e todos os animais do campo. Mas não encontrou uma auxiliar semelhante a
ele. 21Então o Senhor Deus fez descer sobre o homem um sono profundo e,
enquanto ele dormia, tirou-lhe uma costela, fazendo crescer a carne em seu
lugar. 22Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao
homem. 23Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e
carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem». 24Por
isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma
só carne.
A narrativa conserva, na
linguagem e no estilo, todas as características da tradição jarvista,
em particular, uma grande vivacidade de expressão, e, de acordo com o modo de
pensar e de falar da época a que o texto pertence, uma rica linguagem simbólica
ou mítica. No entanto, mesmo quando se vê que adopta
elementos comuns aos mitos cosmogónicos da
antiguidade, esta linguagem é cuidadosamente purificada de toda a magia e
politeísmo que os impregnam, de tal modo que Deus aparece como Senhor
transcendente e Pai providente. Sem dificuldade, sob o estrato da antiga
narração, descobrimos aquele conteúdo verdadeiramente admirável no que diz
respeito às qualidades e à condensação das verdades, que nele estão encerradas
(cf. João Paulo II, numa série de Audiências Gerais de 1979/80, que tomamos
como pano de fundo destas notas). O texto deixa claro que a atracção
dos sexos é algo querido por Deus e que a diferenciação sexual encerra um
sentido intrínseco, não arbitrário, e que não foi introduzida no mundo por
nenhum princípio maléfico misterioso.
18-20 Deus é apresentado em
linguagem antropomórfica, isto é, à maneira humana, como um “oleiro”, e a
deliberar no sentido de ir aperfeiçoando a sua obra, num texto que se presta a veicular ricos ensinamentos de antropologia teológica. “Não
é bom que o homem esteja só”: a solidão do homem, sentida por ele (v. 20) e
reconhecida por Deus (v. 18), traduz, por um lado, a interioridade do ser
humano, capaz de perceber a sua própria solidão (coisa de que os animais não
são capazes), e, por outro lado, como este foi criado por Deus para a comunhão inter-pessoal.
“Um auxiliar semelhante”. O facto de se dizer auxiliar, ou ajuda, não contradiz a
dignidade da mulher, como se esta ficasse reduzida a uma simples muleta para o
homem, pois estamos perante uma complementaridade que é mútua; de qualquer
modo, não se diz que é uma serva ou uma propriedade do marido, destinada
dar-lhe frutos, à maneira de uma terra fecunda, como então se pensava. Por
outro lado, também de Deus se diz que Ele é um auxiliar para o homem; além
disso, a palavra hebraica (‘ézer, auxílio), ao
designar habitualmente o socorro que Deus concede ao seu povo (15 em 21 vezes
no A. T.), indicia que o relato está redigido com base na noção de aliança: a
relação homem-mulher aparece então como um reflexo da relação Deus-homem, uma
relação de aliança (M. Merode).
“O homem deu nome a todos os
animais”, é uma forma de pôr em relevo a superioridade do homem e o seu domínio
sobre eles, que ficam postos ao seu serviço (cf. Gn
1, 28). Adão aparece como um rei que passa revista a todos os seus súbditos.
Impor o nome significava frequentemente ter direito sobre algo ou alguém, assim
como o mudar o nome correspondia a assinalar uma nova missão. Não se pretende
ensinar que os animais foram criados só depois do
homem (nem antes!), apenas o autor visa dramatizar a situação do homem
solitário e enaltecer a Providência amorosa de Deus, que instituiu a sociedade
conjugal para bem do próprio homem e num plano de grande dignidade, sublinhando
que até os próprios animais maiores eram “behemáh”,
isto é, (animais) mudos, que não estavam ao nível do homem. Nesta encenação
poderia haver também, em segundo plano, a condenação da bestialidade, frequente entre os cananeus e os
egípcios (cfr. Lv 18,
23-25) – um pecado que a Lei punia drasticamente (Ex 22, 18; Lev 20, 15-16; cf. Dt 21, 21) –,
e ainda a rejeição do paganismo, que com frequência
prestava culto a animais divinizados, uma aberração absurda, dado que Adão é
superior e nem sequer encontra algum que, ao menos, lhe seja semelhante.
21-22 Ao arrepio da mentalidade
da época, a mulher aparece em toda a sua dignidade, não como os animais, que
são tirados da terra (v. 19); com efeito, ela é tirada da costela do homem, isto
é, “da substância de Adão”, como esclarece S. Gregório de Nissa,
igual por natureza. Para isso – não para o anestesiar,
como às vezes se diz – conta-se que adormeceu profundamente o homem (v. 21), a
fim de que, sem que ele se apercebesse, lhe satisfizesse os seus ideais e
anseios: formou a mulher e apresentou-a ao homem (v. 22). O “sono profundo”
nada tem a ver com alguma espécie de sono de anestesia; o termo hebraico – tardemah – envolve uma certa
conotação de mistério, pois é a palavra que se usa, quando durante um sono
assim designado, ou logo após este, se verificam acontecimentos de grande
alcance (cf. Gn 15, 12; 1 Sam
26, 12; Is 29, 10; Job 4, 13; 33, 15), de modo que
até os LXX não traduziram este termo por hypnos, mas
sim por ékstasis (êxtase). É assim que se pode ver
como a criação da mulher está envolta em mistério, pois aparece como uma
especial acção divina que se insere no âmbito do
mistério da Aliança, no próprio coração da história da salvação. Assim como em Gn 15, 12 o sono de Abraão é o sinal de que este se deixa
ultrapassar por Deus, que lhe revela a Aliança, assim também aqui o sono de
Adão é o sinal de que, pela bissexualidade humana, Deus nos revela o mistério
do matrimónio como imagem de Deus (cf. Gn 1, 26-28). “Em ambos os casos, segundo os textos em que
(...) o livro do Génesis fala do sono profundo (tardemah), realiza-se uma acção
divina especial, isto é, uma aliança carregada de consequências
para toda a história da salvação: Adão dá começo ao género
humano, Abraão ao povo eleito” (João Paulo II, Audiência Geral de 1/11/19).
Note-se que costela, – em hebraico tselá‘ – sugere um
significativo jogo de palavras: o étimo sumério de tselá‘ significa vida e o nome Eva – em hebraico haváh – também significa vida.
22 “E apresentou-a ao homem”.
Também é significativo que não se diga que é o homem a fazer aparecer a mulher ou a descobri-la: tudo é dom e iniciativa divina, e
a relação do homem com a mulher enquadra-se na relação fundamental do homem com
Deus.
23 “Ao vê-la, o homem exclamou”. As
palavras que o hagiógrafo coloca na boca de Adão são a expressão dum entusiasmo
eufórico, próprio dum coração enamorado, em linguagem poética, com ritmo,
elegância, paralelismo e jogo de palavras, logrando-se um belo efeito
literário: Adão, ignorando como a mulher tinha sido formada, verifica que ela
corresponde plenamente ao seu ideal; formada do lado ou da costela sobre o
coração, a mulher procedia do coração do homem, respondendo às suas profundas
aspirações.
“Osso dos meus ossos...” Trata-se
duma expressão corrente para designar parentesco, comunidade de natureza (cf. Gn 29, 14; Jz 9, 2; 2 Sam 5, 1; 1 Cron 11, 1). Esta
afirmação é dum alcance extraordinário, transcendendo de longe as mais
avançadas civilizações em que a mulher sempre foi considerada um ser inferior,
quanto à natureza e direitos. Ela tem a mesma natureza e os mesmos direitos que
o homem, por isso “chamar-se-á mulher”, num jogo de palavras em hebraico: ’ixáh (“virago”: a forma feminina de ’ix, “varão”); ela já
não é mais a beulat-baal (a propriedade dum senhor – Dt 22, 22). Sem diluir diferenças e peculiaridades, há uma
igualdade fundamental entre o homem e a mulher, mesmo quando o relato apresenta
o homem a ser criado em primeiro lugar; a mulher, embora surja como um
auxiliar, ela é criada semelhante a ele (v. 18). Notar que as expressões “osso
dos meus ossos” e “carne da minha carne” são uma espécie de
superlativo hebraico (como “cântico dos cânticos”), equivalente a dizer
que é mesmo carne e osso meu, um “alter ego”,
correspondendo a: “é igual a mim quanto à natureza e quanto aos direitos”,
segundo as categorias do nosso pensamento abstracto.
24 “Por isso, o homem deixará pai
e mãe...” Os laços que unem marido e mulher são mais fortes ainda do que
aqueles que unem os filhos aos pais: a união matrimonial é estável, (perpétua e
indissolúvel, segundo a explicação de Jesus no Evangelho de hoje). É uma união
total e íntima, tão profunda que abarca toda a pessoa, desde o físico até ao
espiritual, segundo a expressão do original hebraico, “wedabaq”,
que a Vulgata traduziu por “et adhærebit”,
melhor que a nossa tradução: “para se unir à sua esposa”. O texto permite ver a
unidade do matrimónio – um só homem com uma só mulher
(a sua mulher) – e a indissolubilidade, pois os dois passarão a ser “uma só
carne”. A expressão hebraica “lebassár ehád” (“in carnem unam”) indica
não apenas o corpo, mas tudo o que constitui a natureza do homem: corpo e
espírito, pensamento e amor, sentimentos e vontade, o que dá azo a João Paulo
II para falar do significado esponsal do corpo humano, um significado que só se
pode compreender dentro do contexto da pessoa: “o corpo tem o seu significado
esponsal porque o homem-pessoa é uma criatura que Deus quis por si mesma e que,
ao mesmo tempo, não pode encontrar a sua plenitude senão mediante o dom de si
próprio” (Audiência Geral de 16/1/80). O Papa acrescenta que no celibato pelo
Reino dos Céus esse significado não se perde, mas é ainda mais pleno, pois se
torna mais expressiva a liberdade do dom no corpo humano; o homem só é capaz de
doação enquanto pessoa e é doando-se que se realiza como pessoa; e a sua máxima
doação é a entrega total (corpo e alma) a Deus.
2ª Leitura
Hebreus 2, 9-11
Irmãos: 9Jesus, que, por um
pouco, foi inferior aos Anjos, vemo-l'O agora coroado
de glória e de honra por causa da morte que sofreu, pois era necessário que,
pela graça de Deus, experimentasse a morte em proveito de todos. 10Convinha, na
verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos
filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor
da salvação. 11Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedem
todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos.
Vamos ter como 2ª leitura até ao
fim do ano litúrgico alguns respigos da epístola aos
Hebreus, poucos, mas expressivos. O tema central do “discurso de exortação”
(cf. 13, 22), que constitui o escrito, nunca é tratado nos restantes livros do
N. T.: o sacerdócio de Cristo, uma elaboração teológica admirável e sublime,
entremeada de exortações, uma verdadeira obra prima que impressiona vivamente o
leitor. Embora pertença ao chamado corpus paulinum,
este documento não parece ter sido redigido por S. Paulo (alguns pensam que
poderia ser um sermão do seu colaborador Apolo: cf. Act
18, 24-28), nem tem um carácter epistolar, se exceptuamos os vv. finais (13, 22-25, que até poderiam ser
um bilhete do próprio Paulo). O trecho de hoje é extraído da 1ª parte,
9-10 “Por um pouco, foi inferior
aos Anjos”. Em constantes citações do A. T. ao longo de toda a epístola, o
autor sagrado faz aqui (nos vv. 5-9) uma releitura cristológica
do Salmo
11 “Procedem todos de um só”:
Jesus, “Aquele que santifica” e os homens, “os que são santificados”, têm uma
origem comum (Deus, Adão, Abraão, ou simplesmente a mesma natureza), o que
torna possível que Jesus seja “sacerdote” e “mediador” (cf. 2, 14-18; 5, 1; 8, 6; 9, 15), podendo, apesar da sua suprema
dignidade, chamar com toda a verdade os homens “seus irmãos” (cf. Jo 20, 17).
Evangelho
*Forma longa: São Marcos 10, 2-16 Forma breve: São Marcos 10, 2-12
Naquele tempo, 2aproximaram-se de
Jesus uns fariseus para O porem à prova e perguntaram-Lhe: «Pode um homem
repudiar a sua mulher?» 3Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» 4Eles
responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para
se repudiar a mulher». 5Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso
coração que ele vos deixou essa lei. 6Mas, no princípio da criação, 'Deus fê-los homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará pai e mãe
para se unir à sua esposa, 8e os dois serão uma só carne'. Deste modo, já não
são dois, mas uma só carne. 9Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
10Em casa, os discípulos interrogaram-n'O de novo
sobre este assunto. 11Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e
casar com outra, comete adultério contra a primeira. 12E se a mulher repudiar o
seu marido e casar com outro, comete adultério».
[13Apresentaram a Jesus umas
crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. 14Jesus,
ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as
estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus.
15Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não
entrará nele». 16E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo as mãos sobre
elas.]
Jesus é posto à prova num tema
hoje bem actual e que já na sua época era debatido
entre os rabinos de então: a escola rigorista de Xamai só permitia o divórcio em casos extremos, como por
adultério, ao passo que para a escola liberal de Hillel
bastava qualquer razão banal, como uma forte atracção
por outra mulher, ou simplesmente servir uma comida com esturro. Na sua
resposta, Jesus não pergunta pelas posições dos rabinos, mas pela Lei de Moisés
na sua forma escrita. No entanto, também não estão no horizonte de Jesus as
modernas questões histórico-literárias, pois neste caso poderia dizer que
Moisés nunca autorizou o divórcio, apenas o considera como um facto real, a exigir regulamentação para minorar os males
que acarreta. De facto, o célebre texto do Deuteronómio, o único na Thoráh a
falar do certificado de divórcio (Dt 24, 1-4), quando
bem lido no original hebraico, de modo nenhum quer dizer que Moisés “permitiu
que se passasse um certificado de divórcio”, como responderam
os fariseus (v. 4). Como explica Díez Macho, a
autorização do divórcio de Dt 24, 1 não passa de uma
simples inclusão na legislação do Pentateuco de um costume do meio ambiente,
mas nem para o canonizar, nem para o autorizar, mas
sim para lhe pôr obstáculo (Sto. Agostinho diz que é mais uma desaprovação do
que uma aprovação). Dt 24 1 é uma tolerância do divórcio reinante, pela dureza do
coração, como justamente Jesus interpretou”. O judaísmo posterior é que
interpretou o texto como uma autorização do divórcio, um privilégio divino para
os maridos israelitas, considerando o final do v. 1 de Dt
24 como um preceito (“escreva-lhe uma carta de repúdio”), quando a verdade é
que se tratava da consideração de mais uma condição (“e se lhe escreve uma
carta de repúdio”); os 3 primeiros vv. devem ser lidos como prótase
(“se…, se…, se…”), aparecendo a apódose só no v. 4,
com o preceito: “(então), o primeiro marido que a despediu não a poderá tomar
de novo por sua mulher” (isso seria indecoroso).
6-9 “Mas no princípio da
criação…”. Jesus apela para as palavras do Génesis
lidas na 1.ª leitura e dá-lhes o seu profundo sentido:
“passarão a ser uma só carne” significa a unidade e indissolubilidade do Matrimónio. Por isso a legítima tradição da Igreja nunca
admitiu a mínima excepção à indissolubilidade dum matrimónio validamente realizado e consumado. A sentença de
Jesus é absoluta e irrevogável: “O que Deus uniu que não o separe o homem” (v.
9); com efeito, não se trata de uma simples imposição duma lei externa, mas de
algo que pertence à própria natureza das cosias.
11-12 “Quem repudiar... e, se a
mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério”. Jesus
apresenta as normas morais tão exigentes para o homem como para a mulher,
reforçando o ensino anterior (vv. 5-9), quando para o judaísmo só o marido é
que podia repudiar a mulher e não o contrário. Jesus não só restituiu o Matrimónio à sua dignidade original, segundo o projecto de Deus para a felicidade do ser humano, mas
também confere a graça do Sacramento do Matrimónio,
que possibilita superar as situações mais difíceis, com que nos deparamos cada
vez mais, e remediar a dureza do coração, uma coisa impossível para a Lei de
Moisés.
13-16 Esta perícope, que fala das crianças, nada tem a ver com a anterior, embora estas sejam as grandes vítimas inocentes dos divórcios; a ligação é artificial, e nada se diz das circunstâncias do momento e do lugar do facto relatado nos três Sinópticos. Então havia o costume de aos sábados os pais abençoarem as suas crianças (com menos de 12 anos), mas só na festa do Yom Kipur é que elas recebiam a bênção dos rabis; que o acontecimento relatado tivesse sido por esta ocasião não passa de mera possibilidade. É apenas S. Marcos – que gosta de registar as emoções de Jesus (cf. 1, 43; 3, 5; 8, 12; 14, 33-34) – quem refere a indignação de Jesus perante a oposição dos discípulos (v. 14), que partilhavam da mentalidade corrente de desprezo pelas crianças; então não se considerava a sua inocência, mas a sua imaturidade. O tema central do relato é o do Reino de Deus, concretamente, que pessoas poderão fazer parte dele: “Só aqueles que o reconhecem e o aceitam como um dom – como uma criança que recebe presentes – é que podem esperar vir a fazer parte dele; o reino é para aqueles que não fazem reivindicações de poder ou de posição social” (The new Jerome B. Commentary). E, sem humildade, como a da criança que se sente débil e insignificante, não é possível entrar no Reino de Deus (cf. Mt 18, 3-4; Mc 9, 35-36), o que está no pólo oposto da atitude dos fariseus, que pensavam poder comprar o Reino de Deus com os seus próprios méritos. Por outro lado, o relato deixa ver como as crianças são tomadas a sério, como pessoas, por Jesus – só Marcos refere que Ele as abraçou – e como elas gostam de se relacionar com Jesus e com o Reino.