A FÉ E OS OBSTÁCULOS À FÉ
(d. Estêvão
Bettencourt)
Fonte: Pergunte e Responderemos 445 - pp.
242-250
O Enigma do Homem:
Em síntese: A fé é a adesão do homem a Deus que lhe fala, revelando o mistério
de sua vida íntima e o seu plano de salvação. Visto que se trata de verdades
transcendentes, a fé é adesão no claro-escuro ou na penumbra. Por isto é um ato
da inteligência que não tem a evidência do que professa, mas é movida pela
vontade para dizer o seu "Sim". A vontade, porém, só pode impelir ao "Sim"
se está isenta de paixões e afetos desregrados, pois a fé exige conversão.
Vê-se, pois, que o ato de fé mexe com toda a personalidade do ser humano. Daí
encontrar obstáculos diversos de ordem intelectual e de ordem moral. As crises
de fé têm motivos complexos, muitas vezes ligados a problemas de ordem ética.
* * *
Pode-se dizer que o ato de fé é o ato
mais nobre que alguém possa realizar, pois procede da inteligência aplicada ao
mais nobre objeto, que é o Ser infinitamente perfeito ou Deus. As crises de fé
por que passam muitas pessoas em nossos dias, têm motivos complexos e variados.
No intuito de colaborar na solução dessas crises, vamos, a seguir, propor o que
é propriamente a fé, e quais os obstáculos que a podem pôr em xeque.
1. Que é a Fé?
O Concílio do Vaticano I (1870), tendo
em vista concepções errôneas do século XIX, definiu a fé nos seguintes termos,
que bem resumem o ensino tradicional da Igreja:
"A fé... é uma virtude
sobrenatural pela qual, prevenidos e auxiliados pela graça de Deus, cremos como
verdadeiro o conteúdo da Revelação, não em virtude da verdade intrínseca
(evidência) das proposições reveladas, vistas à luz natural da razão, mas por
causa da autoridade de Deus, que não se pode enganar nem pode enganar a
nós" (Denzinger-Schöenmetzer; Enquirídio de
Definições... 3008 [1789]).
O Concílio do Vaticano II, em 1965,
retomou o conceito de fé, encarando outros aspectos:
"Ao Deus que revela, deve-se a
obediência da fé, pela qual o homem livremente se entrega todo a Deus,
prestando ao Deus revelador um obséquio pleno do intelecto e da vontade e dando
voluntário assentimento à revelação feita por Ele" (Constituição Dei Verbum nº 5).
Estas duas definições convergem entre
si, propondo as seguintes conclusões:
1) A fé não é um sentimento cego, nem
meramente emotivo. Afaste-se a afirmação: "Todos temos que crer em
alguma coisa, qualquer que seja". Essa "alguma coisa"
não pode ser algo de vago, indefinido, sentimental, mas é algo que o intelecto
reconhece "inteligentemente".
2) A fé não é mero ato de confiança,
mero ato do coração e dos afetos, que se entregam a Deus como Salvador. Isto
quer dizer: a fé tem caráter também intelectual ou inteligente (não meramente
cerebrino ou frio, sem dúvida). É o ato mais nobre do homem, pois aplica a
faculdade mais digna do ser humano (a inteligência) ao Objeto mais elevado e
perfeito, que é Deus. Afaste-se, pois, todo anti-intelectualismo ao se tratar
da fé.
3) A fé é um ato da inteligência...,
mas não só da inteligência. É uma atitude da inteligência movida pela vontade.
Com efeito; o objeto proposto pela fé não é evidente por si mesmo (não é claro
à razão, por exemplo, que Jesus é Deus e Homem). A inteligência humana tem o
direito (às vezes... tem mesmo o dever) de estudar cada uma das proposições da
fé: Jesus é Deus e Homem, Deus é Uno e Trino, Jesus está presente na
Eucaristia... Após estudar a documentação respectiva (ou o porquê crer), a
inteligência conclui: não são proposições evidentes como "dois e dois
são quatro, o todo é maior do que qualquer de suas partes", mas também
não são absurdas e contraditórias como "o círculo é quadrado, o
triângulo é redondo...". Se fossem evidentes por si mesmas, a
inteligência estaria coagida a dizer-lhes "Sim", como é coagida a
dizer "Sim" a "dois mais dois são quatro". Por
conseguinte, feito o exame das proposições da fé, a inteligência diz ao
estudioso: "Se queres, podes crer" e passa para a vontade a
decisão final - o assentimento ou a recusa.
4) Vê-se, pois, que a fé não é movida
pela evidência intrínseca das proposições reveladas por Deus, mas ela tem
motivos de credibilidade. Ela pede credenciais; baseia-se na evidência
extrínseca, ou seja, na autoridade e credibilidade de quem ou do que transmite
a mensagem. Antes de crer, a inteligência vê que deve crer; existem preâmbulos
necessários à fé. Diz S. Tomás de Aquino: "O homem não acreditaria se
não visse que deve crer" (Suma Teológica II/II q.1, art. 4, ad. 2).
5) Por conseguinte, a fé é um ato
livre; é um obséquio voluntário prestado pelo fiel à autoridade de Deus que se
revela. É portanto um ato mais nobre do que os atos cujo objeto é tão evidente
que eles se tornam obrigatórios. O ato de fé supõe reflexão e decisão
consciente e responsável.
6) Acontece, porém, que a vontade
humana pode ser influenciada, consciente ou inconscientemente, pelas paixões e
os afetos do indivíduo. Alguém pode ter posições preconcebidas contra a fé,
pois esta exige mudança de vida que o homem desregrado pode não querer
realizar; quando a verdade não lhe convém, a pessoa tenta "provar"
que ela não é verdade e que a evidência não aparece. Escreveu o filósofo Thomas
Hobbes (+1678): "Se nisto tivessem os homens interesse, duvidariam da
geometria de Euclides" (Sistema da Natureza 2, 4).
Em muitos casos, a falta de fé não se
deve a dificuldades intelectuais, mas aos sacrifícios que a fé impõe. O
hedonismo, a procura do prazer e a fuga das renúncias dificultam enormemente o
acesso às verdades da fé. Já Sêneca (+63 d.C.) dizia: "Muitas vezes
ocorrem-me pessoas que julgam ser impossível fazer o que elas não podem fazer...
Tais pessoas, na verdade, podem fazê-lo, mas não o querem... Não se diga: 'Não
ousamos fazê-lo por ser coisa difícil', mas 'é coisa difícil porque não o
ousamos fazer'" (A Lucílio, Epístola 104).
7) Vê-se assim que a fé solicita a
pessoa humana e todas as suas faculdades. Ter fé implica a mobilização geral
das virtualidades do indivíduo; "pela fé o homem se entrega todo a
Deus", diz a Constituição Dei Verbum atrás citada.
Examinemos agora a fundamentação
neotestamentária desta noção de fé.
2. Que diz o Novo Testamento?
No Evangelho freqüentemente a palavra crer
(pisteuein, em grego) indica, nos ouvintes, uma atitude de resposta a
uma verdade proposta ou a um ensinamento:
. Jo 7, 46: "Se vos digo a
verdade, por que não me credes?"
. Jo 5, 46s: "Se crêsseis em
Moisés, haveríeis de crer em mim, porque foi a meu respeito que ele escreveu.
Mas, se não credes em seus escritos, como crereis em minhas palavras?".
. Jo 10, 37s: "Se não faço as
obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se as faço, ainda que não
acrediteis em mim, crede nas obras, a fim de conhecerdes e conhecerdes sempre
mais que o Pai está em mim e eu no Pai".
. Jo 11, 26s: "Eu sou a
ressurreição e a vida; crês nisto? - Sim, Senhor; creio que és o Cristo".
São Paulo professa a mesma concepção em
Rm 10, 9: "Se com tua boca confessares que Jesus é Senhor e creres em
teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo".
O cristão crê num fato que ele
considera verdadeiro, e esta fé salva:
. Cl 2, 6s: ".. Enraizados em
Cristo, sobre ele edificados e apoiados na fé, como aprendestes, e
transbordando de alegria. Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs
e enganosas especulações da filosofia, segundo a tradição dos homens".
A doutrina da fé transmitida pelos
Apóstolos é verdadeira e distingue-se das especulações da falsa filosofia. Por
conseguinte, a fé é a adesão à verdade; o que não se coaduna com ela, é
crendice, é heresia ou erro.
. Hb 11, 1: "A fé é a posse
antecipada das coisas que esperamos; é a demonstração das coisas que não
vemos".
Esta quase definição da fé põe em
evidência o aspecto intelectual da fé: ela demonstra ou faz ver antecipadamente
o que o cristão conhecerá plenamente na visão face-a-face da Beleza Infinita.
. Tt 1, 9: "O epíscopo
(=vigilante da lgreja) deve ser de tal modo fiel na exposição da palavra que
seja capaz de ensinar a sã doutrina e refutar os que lhe contradizem".
. Mc 16, 15s: "Ide por todo o
mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será
salvo; quem não crer; será condenado".
Este texto põe em evidência o aspecto
livre do ato de fé. Quem ouve a mensagem do Evangelho, pode aceitá-la crendo,
como a pode rejeitar recusando crer.
Tais passagens bíblicas são citadas
para comprovar que a fé não é um sentimento cego nem um mero ato de confiança
afetiva em Deus, mas, sim, uma atitude da inteligência, que, movida pela
vontade livre, diz "Sim" à Palavra de Deus que se revela.
À guisa de complemento, pode-se
acrescentar que ter fé não é algo raro ou extraordinário para o ser humano. Na
vida cotidiana, todo homem, mesmo o ateu, exercita a fé,... a fé na autoridade
de quem lhe fala, e, na base dessa fé, pauta o seu comportamento. É o que se
dá, por exemplo, com quem lê ou ouve o noticiário dos jornais; notícias
relativas à economia nacional e internacional lhe são transmitidas em caráter
decisivo; se a fonte de informações é segura, a pessoa não se preocupa com
averiguações empíricas, mas crê e tira suas conclusões concretas. Todo homem
crê também nos historiadores que com seriedade lhe relatam o passado. Crê
também que N.N. é seu pai ou sua mãe, sem procurar provas fisiológicas ou
médicas para crê-lo. Crê no médico que lhe receita um remédio ou um
tratamento...
O Papa João Paulo II lembra estes
aspectos na sua encíclica "Fé e Razão":
«Na vida de uma pessoa, são muito mais
numerosas as verdades simplesmente acreditadas do que aquelas adquiridas por
verificação pessoal. Na realidade, quem seria capaz de avaliar criticamente os
inumeráveis resultados das ciências, sobre os quais se fundamenta a vida
moderna? Quem poderia, por conta própria, controlar o fluxo de informações
recebidas diariamente de todas as partes do mundo e que, por princípio, são
aceitas como verdadeiras? Enfim, quem poderia percorrer novamente todos os
caminhos de experiência e pensamento pelos quais se foram acumulando os
tesouros da sabedoria e religiosidade da humanidade? Portanto, o homem, ser que
busca a verdade, é também, aquele que vive de crenças» (nº 32).
Examinemos agora de mais perto os
obstáculos intelectuais e os obstáculos morais que dificultam ou mesmo impedem
o ato de fé.
3. Obstáculos intelectuais
Assinalam-se dois principais
obstáculos: a ignorância religiosa e os vícios de método.
3.1. Ignorância religiosa
O primeiro dos obstáculos intelectuais
é a ignorância ou também a errônea transmissão das proposições da fé. Com
efeito; não é raro alguém negar as verdades da fé, porque não as conhece
adequadamente ou só conhece caricaturas da verdade. Tal é o caso, por exemplo,
de quem rejeita a fé porque julga que ela ensina a criação do mundo em seis
dias de 24 horas, a origem do homem a partir do barro, a da mulher a partir da
costela de Adão... Já Tertuliano (+220 aproximadamente), apologista cristão,
escrevia aos pagãos: "A religião cristã vos pede uma só coisa: que não
a condeneis sem a conhecer".
Pascal (+1662), filósofo e matemático
francês, censurava os que superficialmente abordam as verdades da fé:
"Julgam ter feito grandes esforços
para se instruir porque empregaram poucas horas na leitura de algum livro da
Escritura ou interrogaram algum eclesiástico sobre as dificuldades da fé.
Depois disto ufanam-se de haver procurado em vão nos livros e nos homens" (Pensées, sect. III, nº 194, Brunschvig II, p. 102).
O Pe. Leonel Franca apresenta alguns
exemplos da ignorância religiosa que leva a renegar as verdades da fé:
"Infelizmente é com lacuna de
informações e descuidos críticos que se fundamentam conclusões frágeis e
apressadas de certos manuais de história comparada das religiões. Esbatem-se na
penumbra diferenças essenciais, põem-se em relevo semelhanças de superfície,
forçam-se analogias até a identidade, interpretam-se ritos e cerimônias pela
materialidade externa dos atos e não pelo profundo significado íntimo da idéia
que as anima e especifica; explicam-se todas as concordâncias por simples
empréstimo ou influências históricas. As conclusões são inesperadas e
radicais" (A Psicologia da Fé, p. 77).
O autor se refere aos estudiosos que,
por exemplo, afirmam que o dogma da SSma. Trindade não é senão o eco cristão de
tríades de deuses do Egito e da Índia...; a maternidade virginal de Maria seria
o mito da Virgem-Mãe transposto para o Credo cristão; o Batismo cristão não
seria mais do que uma das tantas abluções rituais da antigüidade; a ceia
eucarística... cópia das refeições sagradas do paganismo... Somente uma análise
superficial dos fatos leva a dizer tais coisas. Na verdade, há manifestações e
cerimônias religiosas que são espontâneas à natureza humana como tal e, por
isto, encontradas em várias correntes religiosas com grande semelhança entre
si. Diferem, porém, umas das outras pelo espírito ou a visão doutrinária que
inspira cada uma dessas práticas. Em conseqüência não se pode falar de
empréstimo ou dependência do Cristianismo em relação a outras correntes
religiosas.
Além de quanto foi dito atrás, deve-se
notar que, em nossos dias principalmente, a fé requer estudo continuado. Com o
passar dos anos, as verdades reveladas podem ser penetradas com mais maturidade.
O cristão as contempla numa síntese harmoniosa, que depende da aplicação da
mente e da vivência concreta. Por outro lado, a multiplicação de correntes
religiosas, sociedades "místicas", escolas de orientalismo, exige do
fiel católico uma constante atualização de seus conhecimentos religiosos, a fim
de que não se deixe levar por objeções mal construídas e sofismas.
Especialmente importante, no caso, é o estudo da Escritura Sagrada e da
História da Igreja.
3.2. Vícios de Método
Há quem se faça de pesquisador
autodidata, às vezes preconceituoso. Tal pessoa dificilmente atingirá a beleza
das verdades da fé.
S. Agostinho, ao descrever seu
itinerário espiritual, refere-se a uma época em que ele queria enquadrar Deus
dentro de imagens quantitativas. Este preconceito lhe dificultou o acesso à
verdade:
"Queria ter na área das realidades
invisíveis uma certeza igual à de que três mais sete são dez... O que não era
suscetível de uma representação quantitativa, parecia-me não existir" (Confissões VI, 4; VII, 1).
Requer-se do estudioso não uma
diminuição do rigor lógico, mas o que Aristóteles considerava sinal de
maturidade científica: a plasticidade da inteligência, que sabe adaptar-se aos
múltiplos aspectos da realidade, procurando em cada aspecto os caminhos que,
decorrentes da própria natureza das coisas, levam à certeza. Trata-se de ser
dócil à realidade investigada em toda a riqueza da sua complexidade.
Os vícios no método de estudo podem
levar a uma falsa certeza ou a um saber falso, que é pior do que a própria
ignorância. Já Platão (+347 a.C.) o notava:
Na obra "Leis", um dos
interlocutores diz a Platão: "Parece-me que receias entrar nessas
questões por causa da nossa ignorância". Responde o mestre:
"Muito mais recearia tratar com pessoas que tivessem estudado tais coisas,
porém mal. No caso, não é a ignorância das multidões a mais perigosa, nem a
mais temível, nem o maior dos males. Ter estudado muito e muito haver
aprendido, mas com métodos viciosos, é mal muito maior" (Leis X 818s).
Com outras palavras: aprender mal é
pior do que não aprender. As falsas "verdades" causam maior mal do
que a ignorância.
Um dos mais sérios obstáculos à
apreensão da verdade é o preconceito do racionalismo. Este afirma que tudo pode
ser explicado racionalmente. O que a razão não abarca, só pode ser lenda ou
mito. Assim fica de antemão excluída a possibilidade de qualquer intervenção
extraordinária de Deus no curso da história. No princípio da investigação
científica põe-se um ato de fé,... ato de fé num preconceito estabelecido dogmaticamente.
Ora a ciência deve ser imparcial; ela não pode ser cerceada por preconceitos ou
por princípios estipulados a priori ou de antemão.
4. Obstáculos Morais
4.1. O Orgulho
O orgulho é a recusa de qualquer
submissão: é a pretensão a uma independência sem limites. É claro que isto
dificulta, se não impede, o acesso a Deus.
O orgulho é excitado pelas conquistas
científicas e tecnológicas do homem contemporâneo, que, ao menos
inconscientemente, tende a colocar Deus de lado para ocupar o lugar dele. Aliás,
já no século passado Pierre Eugéne Marcelin Berthelot (+1907), grande químico
francês, escrevia:
"Para que a ciência não se
fragmente em especialidades, é mister que haja pelo menos um cérebro capaz de
abraçá-la no seu conjunto. Esse cérebro creio ter sido eu; receio ser o
derradeiro" (citado por Paul Painlevé, Le Temps,
20/3/1907).
Não é necessário desenvolver a
temática, clara por si mesma.
4.2. A Sensualidade
A sensualidade é a busca do prazer
sensual pelo prazer, sem respeito à finalidade das funções sexuais. A Moral
filosófica não é contrária ao prazer, mas afirma que o prazer é um derivado
decorrente do exercício harmonioso de determinada atividade.
A sensualidade pode escravizar o homem
e obnubilar a sua mente. Produz desequilíbrio no comportamento humano e assim
incompatibiliza as pessoas com as verdades da fé.
Esta afirmação é evidente aos
pensadores desde os tempos mais remotos. Já Pitágoras, no século VI a.C.,
submetia seus discípulos a longo exercício de virtudes que os preparassem ao
estudo da sabedoria. A ascese era o vestíbulo da escola pitagórica.
Sêneca (+63 d.C.) escrevia:
"Se a virtude a que aspiramos é de
tão grande valor, não é porque a isenção de vícios seja uma felicidade real,
mas porque assegura à alma toda a sua liberdade e a prepara ao conhecimento das
coisas celestes, tornando-a digna de conversar com Deus" (Quaestiones Naturales, Prefácio).
Aliás, o Senhor Jesus o confirma no
Evangelho, dizendo: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão
a Deus" (Mt 5, 8).
O impuro não pode conhecer o puro. A
maneira de viver condiciona a maneira de ver.
À guisa de ilustração, sejam citados
ainda outros pensadores, mesmo não cristãos:
Rogério Bacon (+1294), o fundador da
ciência experimental, escrevia:
"A virtude esclarece a
inteligência e facilita-lhe a compreensão não só das verdades morais, mas até
mesmo a das puramente cientificas" (Opus Malus II).
Maine de Biran (+1824), um dos
pensadores modernos mais perspicazes, observa:
"É mister reconciliar o coração
com as luzes, a consciência com os costumes, os deveres com os prazeres e, por
aí, chegar à paz do coração, a esta paz interior, sem a qual não há felicidade
possível" (Journal Intime).
Na Alemanha Johann Gottlieb Fichte
(+1814) afirmava:
"Se minha vontade é reta, se ela
tende constantemente para o bem, a verdade se revelará sem dúvida à minha
inteligência. Eu sei que não pertence só ao pensamento produzir a verdade" (Destination de l'homme).
A grande Santa Teresa de Ávila (+1582)
notava:
"A coisa mais razoável do mundo
parece-nos loucura quando não temos vontade de praticá-la" (Fundações, cap. V).[1]
Passemos agora à...
5. Conclusão
Escreve o Pe. Leonel Franca em sua
linguagem erudita:
"A conquista da verdade religiosa
encontra numerosos obstáculos, uns de ordem intelectual, outros de caráter
moral. Na realidade viva das almas, a ação de uns e de outros... funde-se na
síntese de um todo solidário e complexo. As ignomínias do coração procuram
sempre a cumplicidade da inteligência. Os extravios intelectuais raras vezes
deixam de refletir-se na desordem dos costumes. Erro e vício colaboram
freqüentemente em afastar o homem da verdade total.
Destas dificuldades triunfam as pessoas
retas e sinceras" (A Psicologia da Fé. Ed. Agir, p. 195).
Após quanto acaba de ser exposto,
verifica-se que a fé mexe com toda a personalidade do ser humano: intelecto
(pois é a adesão à Verdade, e não um sentimento cego), vontade (pois vem a ser
entrega total e livre a Deus, que fala e convida) e afetos ou paixões (pois
exige ordem e equilíbrio no mundo afetivo do ser humano, que é, muitas vezes,
sorrateiro e traidor). A fé, porém, assim concebida vem a ser o antegozo do
encontro final com Deus, que é a Grande Resposta aos anseios humanos.
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Nota:
[1] O pe. Leonel Franca S.J. explica:
«A psicologia religiosa projeta aqui a claridade de suas luzes e mostra-nos
como a desorganização dos costumes e a ascensão espiritual são movimentos, de
sua natureza, opostos, dos quais o primeiro tende fatalmente a paralisar o
segundo. É, antes de tudo, uma questão de lógica elementar. No domínio
religioso, fé e costumes acham-se, de direito, unidos por uma solidariedade
indestrutível. É uma e a mesma realidade que funda em si duas ordens de
relações diversas, uma para com a inteligência, outra para com a vontade. O
conhecimento da vida íntima de Deus e da participação desta vida às criaturas
na economia atual da Providência: eis a fé. As condições práticas de realizar
esta economia e atingir a felicidade dos destinos que nos foram preparados; eis
a lei. O símbolo, portanto, dogmata, e o Decálogo, mandata, são as duas
expressões da mesma realidade objetiva, uma no domínio do pensamento, outra no
domínio da ação; fundando lá a ordem da verdade, aqui a da moralidade; impondo
à inteligência uma regra de crer e à vontade uma norma de agir. Esta conexão
intima, baseada na própria natureza das coisas, cria, para quem se furta ao
dever dos mandamentos, uma situação de hostilidade, manifesta ou latente, às
exigências da fé. Subjugada aos sentidos, a inteligência perde a liberdade
indispensável ao exame objetivo e imparcial da realidade. Os
'livres-pensadores' são os pensadores mais escravos do mundo» (A Psicologia
da Fé, 6ª edição, Rio de Janeiro, p. 171).