ÉTICA
Inicialmente cabe a pergunta: - O que é Ética?
Qual o significado desta palavra tão em moda hoje em dia?
Conforme o mestre Aurélio, Ética
é o estudo dos juízos de apreciação referente à conduta humana susceptível da
qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a
determinada sociedade, seja do modo absoluto. Já Caldas Aulete define Ética como
a Ciência da Moral e, Moral como o conjunto de regras de conduta
consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar,
quer para grupo ou pessoa determinada.
Apesar da abrangência destas
definições, compreensível pela sua natureza conceitual, ficou bastante claro de
que Ética é radicalmente vinculada à conduta humana, conforme a dicotomia do
bem e do mal em relação a um grupo ou a uma pessoa determinada.
O escritor católico e grande
pensador Gustavo Corção, no precioso livro Fronteiras da Técnica diz o
seguinte: "A Moral está ordenada ao bem do homem todo, segundo as
exigências de sua natureza integral. As virtudes morais operam no sentido do
fim e da perfeição do homem.
Nesta mesma linha de vincular a
Ética, ao destino do homem, o poeta e político Leopold Segal Senghor, que foi
presidente do Senegal, questiona;
"Que é Ética, senão a exigência de fazer voltar cada coisa ao seu
verdadeiro fim, de por todos os instrumentos ao serviço do desenvolvimento
integral do Homem.
Assim, Ética deixa de ser apenas
uma questão de conceito, e por isso influenciada por hábitos e costumes e passa
a ser um problema de consciência, se sobrepondo a padrões de comportamento, a
valores e paradigmas que variam em função de cada cultura.
Podemos então dizer que Ética não é simplesmente o cumprimento de códigos
específicos ou normas legais, e sim uma atitude de profundo e permanente
respeito ao ser humano e o compromisso de contribuir para o seu aperfeiçoamento
e valorização. Uma visão atual mais abrangente ou cósmica, estende esta
consciência à própria natureza. Quem abordou este tema de forma bela e poética
foi São Francisco de Assis, no seu consagrado "Cântico das
Criaturas".
Trazendo estas reflexões sobre
Ética à realidade brasileira, é possível explicar o alto nível de corrupção que
se infiltra insidiosamente em toda nossa sociedade, e colocou o Brasil como um
dos campeões mundiais nesta modalidade de comportamento. É que somos um país de
fraca consciência social, temos sido uma sociedade que aceita insensivelmente
escandalosos desníveis pessoais e regionais, que assiste passivamente à
dilapidação e o criminoso desvio dos escassos recursos públicos das suas
verdadeiras finalidades e cuja mais grave consequência é a degradação e
falência dos nossos programas sociais, provocando o alastramento de uma pobreza
que nos envergonha e assusta.
Merece ser comentada a influencia
do trabalho escravo, abolido após uma forte pressão dos países europeus
liderados pela Inglaterra e muitos anos após os Estados Unidos terem abolido o
seu. Esta longa convivência com a escravidão talvez explique a nossa
insensibilidade frente a tantas injustiças sociais que fazem parte do nosso
cotidiano.
Além do seu condenável aspecto
humano, a escravidão teve uma grave consequência cultural, que nos persegue até
hoje, o desprezo pelo trabalho. Mesmo aquele que tinha um componente
intelectual não era valorizado. O prestígio e o poder ficaram sempre nas mãos
dos negociantes, dos atravessadores e, principalmente, especuladores
financeiros. Os traficantes de escravos consolidaram extraordinárias fortunas,
com a prática deste crime legalizado. Donos do dinheiro, eles detinham grande
poder político, como a seguir veremos.
No seu, excelente livro: Mauá,
O Empresário do Império, Jorge Caldeira relato um episódio que
expressa o desprezo pelo trabalho que existia na sociedade daquela época e que
ainda persiste. Conta ele que no lançamento da pedra fundamental da estrada de
ferro Rio-Petrópolis, empreendida por Mauá, Sua Majestade Imperador Pedro II, presente
ao evento, foi convidado a simbolizar o início das obras, colocando com uma pá
de prata, num carrinho de mão feito em jacarandá, um pouco de terra e
transportando-a por alguns metros. Esta ousadia do Barão, foi considerada pela
imprensa da época, um constrangimento para D. Pedro, que teria sido forçado a
realizar um trabalho braçal, coisa de escravos. Dizem que o Imperador nunca
perdoou Mauá por expô-lo dessa forma ao ridículo.
Com a abolição do tráfico, Mauá fundou
o Banco do Brasil com o seguinte objetivo, conforme suas próprias palavras:
"reunir os capitais que se viam repentinamente deslocados do ilícito
comércio de africanos e fazê-los convergir a um centro, donde pudessem ir
alimentar as torças produtivas do país". Assim ele criou as chamadas
Letras Bancárias, que pagavam juros baixos ao aplicador e aumentavam o fôlego
para o crédito
A pressão por parte dos
conservadores, que representavam os ex-traficantes insatisfeitos com a baixa
remuneração do seu capital, foi tão forte, que o banco de Mauá foi estatizado
por D. Pedro II.
Este privilégio do capital
especulativo foi também apontado por Luiz Tarquínio, um notável empresário
baiano, como um fator que inibia o nosso desenvolvimento, especialmente o processo da industrialização, dizia
ele o seguinte: "é muito difícil alguém investir seu capital num negócio
de risco diante da remuneração das apólices federais que pagam 6% a.a., quando na Inglaterra pagam apenas
2%".
Relatório apresentado em 11 de
setembro de 1870 pela Caixa Econômica da Bahia, antecessora do Banco Econômico
aos seus acionistas, diz o seguinte: "paradoxal se nos apresenta a
situação. Enquanto aumentam as entradas de capital nos estabelecimentos de
crédito, cresciam paralelamente as retiradas, estas devidas à possibilidade de
aplicação desses mesmos capitais de títulos de dívida pública, que se mostravam
mais vantajosos que os juros decorrentes dos depósitos bancários.
Estes são alguns fatos que
revelam o privilégio que o capital especulativo desfrutou ao longo de nossa
história e que é lamentavelmente estimulado pelo próprio estado.
Mais recentemente, já no início
desta década, João Sayad no capítulo "Qual o nosso padrão ético?" do
livro a Ética no Mundo da Empresa, editado pela Fides em 1991, assim inicia sua
exposição: "O Brasil, tenho certeza de que todos vão compartilhar deste
ponto de vista, passa por uma crise econômica, política, cultural, mas antes de
mais nada, por uma crise moral". Esta afirmação foi proferida perante
outro auditório, porém eu tenho certeza que também seria apoiada pelos
presentes. Continuando diz o seguinte: "Vou discutir inicialmente como
chegamos a isso. Como chegamos a um país que não sabe o que quer e, por causa
disso, não tem princípios éticos nem paradigmas morais. Como chegamos a essa
absoluta falta de paradigmas, de exemplos, de modelos, a própria história do
Brasil explica. O Brasil nunca achou um projeto social nunca foi um projeto
político. O Brasil foi antes de mais nada, desde o seu descobrimento, um
projeto econômico. Fizemos parte da expansão colonial portuguesa, com raras
exceções em nossa história, na Inconfidência Mineira, na República, na
Revolução de 30, o Brasil sempre se constituiu num projeto econômico -. como fazer a América no Brasil?"
Que diríamos agora, quando o
Brasil é apenas um projeto monetário, submetido a cartilha do FMI? Aliás, sobre o FMI vale a pena
ouvirmos o que disse Artur Schlesinger, no seu livro Mil Dias. John
Fitzgerald Kennedy na Casa Branca: quanto a insistência de
Washington na ortodoxia fiscal era uma atitude talvez pouco coerente (podemos
dizer pouco "ética"), para
uma nação que financiara grande parte do seu desenvolvimento pela inflação,
pelo papel-moeda sem lastro e apólices vendidas a investidores estrangeiros e
subsequentemente declaradas sem valor. Se os critérios do FMI prevalecem no
século XIX, nosso desenvolvimento teria sido muito mais lento. Ao pregarmos a
ortodoxia fiscal às nações em desenvolvimento, ficamos na posição daquela
prostituta que, tendo se aposentado, com suas economias passa a acreditar que a
virtude pública exige o fechamento de todos os bordéis.
Neste mesmo livro, Robert Appy,
editorialista de O Estado de São Paulo, no capitulo Ética Empresarial e
Inflação, questiona: "é possível que um empresário possa manter uma
atitude ética no clima inflacionário em que vivemos atualmente no Brasil?"
E comentando este clima inflacionário, ele aponta o seu mal maior, a
valorização do fator financeiro o que nas suas palavras conseguiu acabar com a
poupança produtiva, aumentar o desemprego e desprestigiar o trabalho e afirma
textualmente, "a corrupção é a nossa marca registrada e está diretamente
ligada á esse materialismo que se desenvolveu com a inflação, na qual o único critério
de valor é o dinheiro".
Esta afirmação é do início desta
década passada, infelizmente no início de uma nova, podemos fazer pergunta
semelhante, não apenas aos empresários, mas a todos os brasileiros, "é
possível que se possa manter uma atitude ética no clima de recessão a que
levaram o Brasil?"
É curioso para não dizermos,
trágico, que os males causados pela inflação, apontados por Robert Appy
persistem, principalmente o principal, a idolatria ao dinheiro e sua
consequência direta, a corrupção.
Lamentavelmente, não só persistem
como estão agravados problemas como desemprego, desprestígio do trabalho,
destruição da poupança o agora do setor produtivo nacional e o mais grave de
todos, a exacerbação financeira. O culto à moeda atingiu o paroxismo. Afinal de
contas, o nosso projeto é apenas um projeto monetário.
Mas voltamos ao questionamento já
feito, é possível no Brasil de hoje, nesta sociedade corroída por uma corrupção
endémica, adotar-se padrões éticos de comportamento?
Será que o cidadão brasileiro responsável, correto, sério,
que está desempregado e se vê pressionado por credores, com o aluguel, luz,
água, escola dos filhos atrasados pensa em outra coisa a não ser como obter o
dinheiro para resolver estes problemas que lhe atormentam? Será que ele pode
questionar se o emprego que foi oferecido é lícito? Enfim, será que nas
circunstâncias que o cercam ele está em condições psicológicas de fazer
avaliações éticas do seu comportamento? Talvez não furtar seja o seu limite,
mesmo assim, considerando este verbo de uma forma bem simples, sem a
abrangência de Vieira, quando se referia às várias flexões do verbo
"rapio".
E que dizer do empresário, sugado
por custos financeiros inconcebíveis e inimagináveis, assaltado por uma carga
tributária impiedosa, na verdade um autêntico estelionato do estado, paralisado
por uma recessão que é um verdadeiro crime contra uma nação jovem e pujante,
que precisa crescer. Será que ele pode cumprir aqueles vários preceitos que os
códigos de ética das empresas recomendam? Como agir quando está diante de
dilemas que o conduzem fatalmente a desempregar colaboradores dedicados,
honestos, com excelentes serviços prestados, sabendo que vão engrossar a massa
dos desempregados que vagam pelo país?
Esta é uma situação extremamente
difícil e desconfortável para o empresário, mas, como afirmei no início, Ética
é fundamentalmente um problema de consciência, que exige um profundo respeito
ao Homem. Portanto, neste momento em que Ele vive momentos de dificuldades e
angústias, temos que através de todos os meios possíveis, procurar ajudá-lo.
Mas, infelizmente o que se vê, muitas vezes na empresa e sobretudo no serviço
público, é a criação de um clima sádico, de expectativa e insegurança para o
empregado, que chega ao trabalho na dúvida se ao sair, não será como um
desempregado.
O que a Ética recomendaria é que
a demissão fosse precedida de informações e esclarecimentos, se possível de um
programa de treinamento para qualificá-lo a enfrentar com segurança a
competição lá fora. Este procedimento tem sido adotado com êxito por algumas
empresas que muitas vezes orientam seus ex-funcionários na criação de negócio
próprio.
Porém não podemos deixar que
esses graves problemas que devemos enfrentam com sentimentos de justiça,
solidariedade, sensibilidade e muita criatividade, ofusquem nossa visão de
médio e longo prazo. Não podemos deixar da estarmos sintonizados com a
realidade mundial de procurarmos entender o momento histórico que estamos
vivendo.
Vamos nos abstrair das
perplexidades e sombras que se projetam em nosso frágil planeta e
particularmente em nosso país, e refletir um pouco sobre o que fazer
Vejo que temos duas linhas de
ação: a primeira na própria empresa, a outra através uma ação
política, de preferência via entidades de classe.
Dentro da empresa um programa de
qualidade e aplicação do nosso balanço social seria, sem dúvida, procedimento
oportuno de elevado sentido ético.
As conhecidas declarações de
missão e os códigos de ética tão comuns nas grandes empresas, são instrumentos auxiliares
válidos, porém de relativa influência.
No entanto, a ação mais
importante e efetiva para mudar este quadro atual, absolutamente aético, é
combater a nossa corrupção que é sistêmica e endêmica, deve se processar
através uma vigorosa ação política, uma reforma tributária, que vise não apenas
estimular o setor produtivo, mas, sobretudo, reduzir os vergonhosos desníveis
pessoais e regionais, que nos tornam uma sociedade extrema e vergonhosamente
injusta. Também investimentos sociais, especialmente no campo da saúde e
educação, capacitação profissional, etc.
Evidentemente, que esta ação deve
ser articulada com os demais segmentos sociais, as coisas continuarão como
estão. Este é, sem dúvida, o nosso grande desafio, que deve ser inspirado na
ética, mas justificado por várias outras razões, entre elas a simples
sobrevivência.
Na verdade, estamos num processo
de consolidação de democracia que será tanto mais rápido quanto com mais
intensidade dele participarmos.
Mas, antes de finalizar, quero
expressar neste grave momento de crise, nosso otimismo em relação ao futuro do
país. Um otimismo consciente, que decorre da confiança, na competência do seu
setor empresarial e das características singulares do povo brasileiro. Um povo
de grande riqueza humana, solidário, sem bloqueios culturais ou religiosos,
sincrético, aberto a novas idéias, com enorme capacidade de absorver novos
conhecimentos e, principalmente cheio de esperanças.
Sem nenhum ufanismo, posso também
proclamar a excelência dos nossos empresários, sua resistência frente às
dificuldades, sua criatividade e eficiência em superá-los. Exemplo indiscutível
é estarmos sobrevivendo.
09.11.2000
Álvaro Conde Lemos