(Notas de
uma palestra para seminaristas)
Pe.
Francisco Faus, da Prelazia do Opus Dei
I. Coisas que acontecem
1.1 Vamos
começar lembrando alguns fatos mais ou menos recentes, como ponto de partida
para uma reflexão esclarecedora sobre temas de importância atual.
1.2
Quando foi levantada e remetida ao Supremo Tribunal Federal a questão da
legalidade do aborto de fetos anencéfalos, houve declarações de autoridades
governamentais (o então ministro da saúde, Humberto Costa; Nilcéia Freire, em
defesa dos "direitos da mulher", etc.), afirmando que esse assunto
devia ser estudado exclusivamente como questão de saúde pública, e
não do ponto de vista ético (depois veremos o tipo de
ideologia que está por trás dessa expressão).
1.3
O mesmo critério foi defendido quando veio à tona o tema das experiências com células-tronco
embrionárias, rejeitando a oposição da CNBB, e de muitos outros, como
intromissão indevida da Igreja e da religião em assuntos científicos e
em decisões de um Estado laico.
As críticas, na grande imprensa, chegaram a ser mordazes, ofensivas para
a Igreja, para os católicos e para os fiéis de outras crenças que afirmavam que
um embrião é mesmo uma vida humana intocável, protegida pela Declaração
Universal dos Direitos Humanos da ONU e pela Constituição brasileira. A Igreja
foi e continua a ser agredida com acusações de ser "intolerante",
"medieval" e, sobretudo, uma "eterna inimiga da ciência",
que obstruiria a pesquisa científica e a reflexão racional em nome da fé e dos
dogmas religiosos. Com expressões cheias de sarcasmo, quer-se repisar a velha
calúnia iluminista de que a fé seria inimiga da ciência e do progresso, e,
portanto, inimiga do homem (da saúde, da cura de doenças, da liberdade,
etc.). Ninguém falou, porém, do cinismo com que quase toda a mídia silencia e
encobre deliberadamente os numerosos progressos e conquistas – não contestados
por nenhuma religião nem ética.– que se estão alcançando com células-tronco
adultas. Quando o jornal ou a tv falam de uma cura obtida mediante
células-tronco adulas, só falam, em geral, de "células-tronco",
deixando no ar o equívoco que leva inconscientemente o leitor a pensar que, sem
dúvida, são as tão defendidas células embrionárias..
1.4
A agressividade, no assunto das células-tronco embrionárias, tornou-se patente
numa Roda Viva de junho, na Televisão Cultura de São Paulo (Também, como é
sabido, em artigos de revistas semanais e grandes jornais). Da Roda Viva
participavam biólogos, juristas, jornalistas. Sintetizando muito o acontecido,
o "moderador" desse "debate", abandonando a necessária
isenção, bandeou-se claramente para o lado dos que defendiam o uso dos embriões
para pesquisa. Por isso, cortou, indignado, a fala dos que pretendiam provar,
com argumentos racionais e científicos (não religiosos) que essa pesquisa é
ilícita. Alegava o moderador que, nesse programa, não se debatiam opiniões
religiosas, nem éticas (que ele identificava com as religiosas), mas
científicas (e esse caráter "científico", só o reconhecia nas opiniões dos partidários de
manipular e eliminar o embrião para pesquisa). Com essa atitude, os
representantes de outras opiniões sentiram-se amordaçados e desistiram de
debater.
O grupo
anti-ética – que dizia falar só em nome da liberdade da pesquisa científica –
não soube depois como responder a algumas perguntas fundamentais, como a de
qual o momento em que começa uma vida propriamente humana, uma vez que o
embrião, desde o primeiro instante da sua existência, não é um simples pacote
de células, mas uma um ser vivo, que possui tudo quanto é necessário para
que, só sendo mantido vivo e alimentado, seja um único e mesmo ser humano esde
o momento da concepão até aos 80 anos ou mais anos, até o fim da vida. A
pesquisadora – que, num dos seus livros, afirmava que a vida humana se inicia a
partir da fecundação do óvulo – não
soube responder, mas, com ar de tolerante condescendência (sabendo que contava
com o apoio de toda a mídia) respondeu dizendo que tem que ser a sociedade quem
"determine", por maioria de opinião dos legisladores (como numa
espécie de "definição dogmática conciliar"?), quando é que começa
mesmo a vida. Em suma, sem recorrer a critério objetivo e racional – nem científico, nem filosófico – algum,
aduziu como "prova" dessa sua afirmação o fato de que, conforme os
países, as leis aprovadas pelos respectivos legislativos fixaram critérios
diferentes para definir quando se produz a morte clínica e, em conseqüência,
podem ser extraídos órgãos para transplante (extraídos do que cada
"parlamento" defina dogmaticamente como "cadáver", sem
critério científico fixo). Alguém disse
que isso lembrava as posições arbitrárias
o nazista Mengele, que usou seres humanos como cobaias nos campos de
concentração. A resposta da cientista foi que o povo alemão, na altura, estava
enganado e não teria aprovado esse procedimento (devia subentender-se,
portanto, em boa lógica, que se esse povo – por seus representantes – aprovasse
as pesquisas científicas de Mengele, ele estaria certo. Veremos adiante como
esta é exatamente a posição que defendem os que, auto-afirmando-se
"avançados", retrocedem até anos 30 do século passado, até a barbárie
nazista, ainda que não queiram reconhecer o "mengelismo" evidente das
suas posições)
1.5
Mais um fato relativamente recente. Nos EUA, no estado do Texas, foi proposto
que se retirasse o texto dos Dez Mandamentos, que estava afixado à parede de
certos edifícios públicos, seguindo um costume antigo. Alegava-se que era um
símbolo religioso, incompatível com o caráter laico do Estado. Parece que a
proposta não foi adiante, a não ser em parte. Por essa mesma razão, na França,
as meninas muçulmanas foram proibidas de usar o véu tradicional islâmico, e na
Alemanha, propôs-se proibir as freiras de levar o hábito nas escolas e
repartições públicas (pois o Estado laico é incompatível com "símbolos religiosos"). Não
ficaria proibido, porém, em nenhum desses casos, que as alunas fossem à escola,
se o quisessem, em roupas sumaríssimas, ou com "uniforme" punk, ou
com a vestimenta estereotipada das bandas de rock-satânico, ou com símbolos
ostensivos de diversas superstições esotéricas, etc, etc.
1.6 Será que tudo isso são apenas posições de
alguns grupos pequenos e clamorosos, ou simples confusões, brigas de opiniões?
Não. Em todas essas posições ideológicas, que visam
"neutralizar" (como explicitaram os representantes da ONU, autores da
"Carta da Terra") a religião e a ética cristã (as "religiões
abraâmicas", como dizia também explicitamente a keniana prêmio Nobel da
Paz 2005), há uma coerência plena, baseada numa ideologia bem definida, que
se deseja impor a todos os países, com força normativa, através dos organismos
da ONU e de grupos internacionais e nacionais de pressão, declaradamente
anti-cristãos. (Ver o artigo Globalização, religiões e Igreja, no site
www.presbiteros.com.br /artigos). Por isso, vale a pena tentar
ver claramente qual é essa ideologia. E, para tanto, será necessário
esclarecer a diferença entre laicidade e laicismo, e
esclarecer também aspectos fundamentais dos conceitos de pluralismo e
democracia.
II. Laicidade e pluralismo
(Boa
parte das idéias contidas até o final desta palestra estão extraídas ou
inspiradas no "Compêndio da doutrina social da Igreja",
preparado pelo Pontifício Conselho "Justiça e Paz", e editado
pelas Ed. Paulinas, São Paulo, em 2005. Quando, ao lado de algum parágrafo
desta palestra, se indicar um número, refere-se a um dos parágrafos numerados
desse excelente Compêndio. O Compêndio, nestas questões, remete-se
constantemente à "Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à
participação e comportamento dos católicos na vida política", da Congregação
para a Doutrina da Fé, de data 24.11.2002).
2.1 Entende-se por laicidade a distinção
entre a esfera política e a religiosa. Chama-se "Estado laico" aquele
que não é confessional, isto é, que não adotou – como era comum em séculos
passados – uma religião como religião oficial do Estado [como hoje acontece nos
países islâmicos]. A Igreja considera essa distinção como um "valor
adquirido e reconhecido pela Igreja", que "faz parte do patrimônio da
civilização..." (571).
2.2
A laicidade do Estado fundamenta-se na distinção entre os planos secular e
religioso. Entre o Estado e a Igreja deve existir, segundo o Concílio Vaticano
II, um mutuo respeito pela autonomia de cada parte.
2.3
O princípio de laicidade comporta, portanto, em primeiro lugar, o respeito de
todas as confissões religiosas por parte do Estado, o qual deve "assegurar
o livre exercício das atividades cultuais, espirituais, culturais e caritativas
das comunidades dos crentes. Numa sociedade pluralista, a laicidade é um lugar
de comunicação entre as diferentes tradições espirituais e a nação".
(572).
2.4 O princípio sadio da laicidade
pressupõe:
a)
independência (não-dependência) do Estado em relação a qualquer igreja ou
comunidade religiosa, e também a independência em relação a posições estritamente
religiosas (um credo, um ritual, etc.); bem como a não-intervenção em
assuntos estritamente religiosos, de competência exclusiva das igrejas e
comunidades (antigamente, p.e., era o Estado que punia os hereges, tanto nos
países católicos como nos países protestantes);
b)
o respeito, por parte do Estado, do direito à liberdade religiosa, sem
outros limites que a ordem pública. Desde que a ordem pública não seja afetada
(com tumultos, brigas, mortes, condutas imorais, privações de liberdades
fundamentais, etc.), as confissões religiosas gozam da liberdade reconhecida
pela Declaração dos Direitos Humanos da ONU, de 10.12.1948, art. 2, 1:
"toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de
religião. Esse direito inclui [...] o direito de manifestar a sua religião ou
crença, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado, por meio
do ensino, a prática, o culto, etc.". Também a Declaração Dignitatis
Humanae (n. 4) do Concílio Vaticano II afirma o direito à liberdade
religiosa das diversas confissões religiosas: direito ao culto público, à
formação dos seus fiéis, à promoção de instituições conformes com seus
princípios religiosos; o direito de não serem impedidas no ensino e profissão
pública da sua fé, de palavra ou por escrito; e o direito de estabelecer
associações (educativas, culturais, caritativas, sociais, etc.).
2.5
A laicidade, bem entendia, não pode significar, porém, que os católicos e
outros crentes devam abster-se de basear-se na "lei moral" em sua
atuação social e pública: na defesa do valor da vida humana, da família, da
educação, de justiça social, etc. É importante ter em conta que há uma ética,
uma moral natural, aprofundada ao longo de milênios já pelos filósofos pagãos,
que não é religiosa nem constituída por dogmas de fé. È racional,
é a sabedoria acumulada ao longo dos milênios pelos sábios sobre os temas
filosóficos mais importantes da "antropologia"; e as suas conclusões racionais são válidas
para os crentes e não crentes que admitam usar a razão (ver, abaixo, n.
4.4). Como recorda o "Compêndio de doutrina social", "a
laicidade, de fato, significa, em primeiro lugar, a atitude de quem respeita as
verdades resultantes do conhecimento natural que se tem do homem que vive em
sociedade, mesmo que essas verdades sejam contemporaneamente ensinadas
por uma religião específica, pois a verdade é uma só. Buscar sinceramente a
verdade, promover e defender com meios lícitos as verdades morais concernentes
à vida social – a justiça, a liberdade,
o respeito à vida e aos demais direitos da pessoa – é direito e dever de todos os membros de uma comunidade social e
política" (571). Ver Nota
doutrinal da Congregação para a Doutrina da Fé, n. 6
2.5
A separação entre Igreja e Estado, a "laicidade" do Estado, não
significa, pois, que o Estado negue à Igreja o direito e o dever de contribuir
para o bem da sociedade (em assuntos não estritamente "religiosos"),
ou que se impeça aos católicos de terem as suas opiniões, de defendê-las e de
cumprir com a sua responsabilidade e o seu direito de participar na vida
pública, como qualquer cidadão. Um Estado que não respeitasse um espaço
para a Igreja na sociedade, ou negasse o direito dos católicos de expressar –
como qualquer outro cidadão – as suas opiniões e opções políticas pessoais,
teria acabado com a democracia, cairia no sectarismo, no
totalitarismo ideológico e prático.
2.6
Como dizia o secretário das relações da Santa Sé com os Estados, o arcebispo
Giovanni Lajolo, "quando a laicidade dos Estados é como deve ser,
expressão da autêntica liberdade, favorece o diálogo e, portanto, a cooperação
transparente e regular entre a sociedade civil e a religiosa, a serviço do bem
comum, e contribui para a edificação da comunidade internacional sobre a base
da participação e não sobre a exclusão e o desprezo".
2.7
Como se vê, a autêntica e sadia laicidade, defende e respeita o sadio pluralismo
(que nenhum católico culto confunde com o indiferentismo religioso).
Cada cidadão pode expor e defender – merecendo o respeito de todos – as suas próprias opiniões políticas,
sociais, etc..(sejam ou não coincidentes com crenças religiosas ou convicções
ideológicas, ou sejam apenas
preferências particulares). É perfeitamente compatível (e sumamente desejável) a
fidelidade à identidade própria de cada qual e as seus "valores" de
vida (p.e. a identidade católica), unida, ao mmesmo tempo, à disponibilidade
respeitosa para o diálogo com todos. Esse é o verdadeiro pluralismo na política (569)..
III. O laicismo
3.1
Completamente diferente da laicidade é o laicismo, ideologia que hoje,
em todo o mundo ocidental – e cada vez mais no Brasil – pretende se impor como
a única admissível. Tem trânsito livre na grande imprensa e na mídia mais
poderosa, que é seu porta-voz (o seu "magistério") e, ao mesmo tempo,
é o "tribunal da inquisição laica", que fustiga, ridiculariza e
"excomunga" todos os que não comungam com esse pensamento.
3.2
Em que consiste o "laicismo"? Como dizia João Paulo II
(24-I-2005), é "uma ideologia que leva gradualmente, de forma mais ou
menos consciente, à restrição da liberdade religiosa até promover um desprezo
ou ignorância de tudo o que seja religioso, relegando a fé à esfera do privado
e opondo-se à sua expressão pública". E, em 12-I-2004: "Um reto
conceito de liberdade religiosa não é compatível com essa ideologia, que às
vezes se apresenta como a única voz da racionalidade [prestem atenção a
isso, pois daqui a pouco veremos as contradições dos laicistas neste tema da
"racionalidade"]. Não se pode cercear a liberdade religiosa sem
privar o homem de algo que é fundamental".
3.3
Em discurso aos bispos dos EUA, em 4-XII-04, João Paulo II sublinhava, além do
anterior, que os leigos católicos devem ter clara a sua missão de
"estender o Reino de Deus através da sua atividade secular, de sorte que o
mundo se impregne do espírito de Cristo e alcance mais eficazmente o seu fim,
na justiça, na caridade e na paz [...]. Mesmo respeitando plenamente a separação
legítima da Igreja e do Estado [...], a catequese deve também deixar claro que,
para o fiel cristão, não pode haver separação entre a fé, que é para ser vivida
e posta em prática, e o seu compromisso de participação total e responsável na
vida profissional, política e cultural".
3.4
Um Estado que queira respeitar as convicções dos cidadãos
"laicistas", pela mesma razão (se quer praticar honestamente o pluralismo
democrático) é obrigado a respeitar as convicções dos cidadãos
cristãos. Caso contrário, imporia um dogma laico e violaria o
princípio de igualdade de direitos.
IV. As falácias do laicismo
4.1
O laicismo quer silenciar os cristãos, afirmando que eles pretendem impor ao Estado posições, soluções ou proibições,
que têm apenas como base a fé, coisa que é incompatível com o Estado laico, que
não pode adotar soluções "religiosas", mas apenas "racionais".
Não hesitam em contrapor, como incompatíveis, razão e fé.
4.2 Aí, insistimos, há uma evidente falácia.
Porque, mesmo que os cristãos, cumprindo com o seu dever de consciência,
defendam posições em matérias humanas e sociais baseadas nas suas convicções
"cristãs", um Estado democrático e pluralista – é preciso repeti-lo,
frisá-lo "usque ad nauseam" –
deveria respeitar essas posições; da mesma forma que esse Estado acha
lógico e necessário respeitar as opiniões de cidadãos que defendem as suas
convicções marxistas (convicções que muitos outros cidadãos acham falsas e
próprias de uma verdadeira "religião materialista"), ou as convicções
hedonistas, ou pan-sexualistas, etc. Como é sabido de todos, se algum
"ecologista" ou seguidor do "New Age" defende que os ratos
e as baratas têm os mesmos ou até maiores direitos que os homens, nenhum Estado
laico vai desclassificá-lo; pelo contrário,
reconhecer-lhe-á o direito inalienável à liberdade de pensamento e de
expressão, de modo que será punido qualquer um que desrespeite essa opinião ou
a impeça de ser defendida democraticamente [e isso será assim, mesmo que esses
ecologistas adotem manifestações públicas ofensivas para outros grupos sociais
e até ações violentas]. Por sinal, houve uma recente manifestação em São Paulo,
na Av. Paulista, contra a vivisecção de animais para pesquisa médica; mas, que
se saiba, ninguém ali se opôs à vivisecção de fetos de até vários meses no
ventre materno, que, como é sabido, é o sistema habitual de abortar: cortar o
feto em pedaços, para extraí-lo do útero materno).
Retomando
o fio do discurso, é patente que, hoje, quando um cristão coerente defende as
suas convicções, as suas "opiniões" (às quais, como cidadão, tem
direito), a máquina laicista vai agredi-lo de palavra e por escrito, vai tentar
silenciá-lo e proceder à sua "exclusão" cívica, com o apoio e o
aplauso de quase toda a mídia.
4.3
Como, de fato, isto acontece diariamente, entende-se o que diz a Nota
doutrinal: "Nas sociedades democráticas todas as propostas são
discutidas e avaliadas livremente. Aquele que, em nome do respeito à
consciência individual, visse no dever moral dos cristãos de serem coerentes
com a própria consciência um sinal (um motivo) para desqualificá-los
politicamente, negando a sua legitimidade de agir em política de acordo com as
próprias convicções relativas ao bem comum, cairia numa espécie de intolerante
laicismo" (n. 6).
4.4 Procuremos dar mais um passo
para desmascarar as falácias do laicismo. No campo social e político, os
católicos defendem, pode-se dizer que em 99, 9 % dos casos, se não em 100 %,
posições que decorrem, não
diretamente da religião nem da Revelação divina, mas apenas da Etica racional.
Por exemplo, sempre que um cristão combate a favor da vida (contra o aborto, as
experiências e manipulações genéticas, etc.), ou do sentido humano da
sexualidade, ou do direito à liberdade de ensino, ou da justiça social, etc.,
faz isso seguindo um ponto de vista filosófico respeitável, baseado na antropologia
filosófica e na ética racional, natural (não sobrenatural).
Imediatamente, porém, os laicistas militantes acusarão esse cidadão de tentar
impor idéias religiosas, contrárias ao caráter laico do estado e à
racionalidade da ciência. De nada adiantará, nestes casos, dizer a verdade,
isto é, que a Antropologia e a Ética racional alcançaram verdades naturais e
aprofundamentos importantíssimos desde há milênios – já o dissemos acima – entre os pagãos, sem
qualquer conotação ou dependência religiosa.
Qualquer
pessoa culta sabe que os pais da Ética natural, racional, foram os filósofos
gregos, principalmente Sócrates e o seu discípulo Platão; depois, dando um
enorme passo à frente, Aristóteles ("Ética a Nicômaco", "Grande
Ètica"), e os filósofos estoicos (Epicteto), etc., até se chegar a Cícero,
com seu tratado moral de inspiração estoica, intitulado "De officiis"
("Dos deveres")", e a
Sêneca com suas "Cartas a Lucílio", etc. Nenhum deles pretendia fazer
teologia. A indagação fundamental de todos eles não era "o que Deus
quer ou manda", mas "qual é a verdadeira felicidade humana",
e toda a ética racional foi – também
entre muitos cristãos, que sabem distinguir entre Ética racional e Moral cristã
– , um esforço da razão para achar as respostas certas a essa indagação básica
sobre o verdadeiro bem e a verdadeira felicidade do homem e da sociedade. Esse
esforço acumulou séculos de sabedoria e atingiu cumes altíssimos do pensamento
humano, que hoje a maioria ignora. Infelizmente, prescindir dessas conquistas
acarreta um empobrecimento lastimável da cultura, da vida social e, sobretudo,
da dignidade humana.
4.5
Muitos laicistas ignoram (por não
saberem mesmo) a história e os tesouros do pensamento ético. Mas muitos outros
que não ignoram esses tesouros, na hora de defender as suas posições
"mudam de camisa", isto é, abandonam a sua cerrada defesa da
"razão contra o obscurantismo religioso", e passam a desprezar e
descartar essa mesma "razão" (sim, a razão!). Primeiro, invocavam
a razão contra a religião. Agora, contra a pretensão de usar a razão
para conhecer a verdade, invocam o agnosticismo, o moderno "dogma
de fé" filosófico que afirma ser impossível conhecer a verdade, e por
isso não se pode mais falar em "verdade" (572)... Justamente a defesa da razão, o
"resgate" da razão contra o agnosticismo é o grande pano de fundo da
Encíclica Fides et ratio: "A razão
– diz João Paulo II– [em
decorrência das filosofias imanentistas e, por isso, agnósticas] curvou-se
sobre si mesma, tornando-se incapaz, com o passar do tempo, de levantar o olhar
para o alto e de ousar atingir a verdade do ser. A filosofia moderna
[...], em vez de se apoiar sobre a capacidade que o homem tem de conhecer a verdade,
preferiu sublinhar as suas limitações e condicionalismos. Daí provieram várias
formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação
filosófica a perder-se nas areias movediças de um ceticismo geral" (n. 5).
4.6
É um retrato perfeito do nosso tempo. Suprimida a capacidade de a razão atingir
verdades, negada, portanto, a existência de verdades objetivas e universais
(pois o agnóstico jamais poderá conhecer ou admitir "verdades"), o
que resta? Só a vontade, o puro e simples querer, apetecer, desejar. Toda a Encíclica Veritatis Splendor
desmascara e alerta sobre os perigos dessa tendência de fazer da liberdade
a fonte da verdade, isto é, de só aceitar como "verdadeiro"
e "certo" (por enquanto,
porque amanhã o "certo" vai mudar) o que livremente escolhe
a "maioria", por consenso. Se ficarem de acordo em dizer
que a vida começa quando a criança tem dois anos de idade (e que, em
conseqüência, até os dois anos, a criança pode ser retalhada, desmanchada,
etc.), esse "consenso" será "a verdade" que todos
deverão acatar. Não existe, não resta nenhum "referencial"
objetivo, absoluto e permanente da verdade e do bem, fora do desejo, do
interesse, dos apetites e paixões, quando se põem de acordo.e chegam ao
"consenso" (lembre-se a menção a Mengele na citada Roda Viva).
4.7
Entende-se, por isso, que o Compêndio diga: "Chega´se também e mais
radicalmente a negar a ética natural. Esta negação, que faz entrever uma
condição de anarquia moral, cuja conseqüência é a prepotência do mais forte sobre
o mais fraco, não pode ser acolhida por nenhuma forma legítima de pluralismo,
porque mina as próprias bases da convivência humana (572). Certo. Mas, na atual
mentalidade predominante, laicista e agnóstica, em que "tudo é
convencional e negociável", como dizia João Paulo II, essa
"prepotência do mais forte sobre o mais fraco", essa ditadura, é
inevitável, pela razão muito simples de que são os mais fortes economicamente,
politicamente e "midiaticamente" os que dominam nos organismos
políticos nacionais e internacionais, e impõem, como se fosse majoritária, a
opinião de uma minoria de grupos poderosos. Por ex., é um fato que, em
todas as decisões da ONU e dos seus organismos sobre família, mulher,
natalidade, etc.,dominam quase totalmente as poderosas ONGS (transbordantes de
dólares) do Movimento Gay e do Movimento Feminista ("for choice",
abortista, antinatalista). Centenas de ONGS
católicas, ou cristãs de outras denominações, ou simplesmente defensoras
da ética natural, são barradas de modo radical e despudorado (além de não
obterem um tostão das fontes internacionais que alimentam as outras). E, deste
modo, vai-se impondo no mundo, de maneira sistemática, agressiva e
massiva, a ideologia laicista, e
o mundo cai, sem reparar, no que João Paulo II e Bento XVI chamaram, com toda a
razão (ainda que a mídia se exaspere perante essas afirmações), a ditadura
do relativismo..
4.7
Por isso, e já como conclusão, é natural que, que o Compêndio (n. 570),
citando a Exortação apostólica Christifideles laici, frise o seguinte
(que devemos meditar e ajudar a meditar a todos os católicos responsáveis):
"Tenha-se presente que, em face das múltiplas exigências morais
fundamentais e irrenunciáveis, o testemunho cristão deve considerar-se um dever
inderrogável que pode chegar ao sacrifício da vida, ao martírio, em nome da
caridade e da dignidade humana (Christifideles laici, n. 39). A
história de vinte séculos de Cristianismo, também a do último século, é rica em
mártires da verdade cristã, testemunhas da fé, da esperança, da caridade
evangélicas. O martírio é o testemunho da própria conformação pessoal a Jesus
crucificado, que se expressa até na forma suprema de derramar o próprio sangue,
de acordo com o ensinamento evangélico: Se no grão d trigo que cai na
terra... morrer, produzirá muito fruto (Jo 12, 24)".