O Problema da Liberdade - Doutrina Social da Igreja - Fulton Sheen

 

1. OS DIREITOS DA RELIGIÃO

Qual a relação entre a religião e os negócios públicos? A uma pergunta foram dadas duas respostas diversas no século passado, ambas erradas: 1) a religião é estranha aos negócios públicos; 2) a religião é inimiga dos negócios públicos.

1. A época do liberalismo julgou ser possível servir a um tempo a Deus e a Mammon. A religião era tida como uma espécie de luxo sentimental a que o homem se podia apegar se assim o quisesse, mas que devia ser mantida num

compartimento separado da ordem econômica e política. Seis dias da semana eram dados ao homem para ganhar a vida; um dia por semana devia ser concedido ao repouso. Se, em vez de repousar, um homem desejasse “Ir à igreja”, isso só era de sua conta; mas sob condição alguma devia ele levar consigo sua “igreja” para o trabalho na segunda-feira pela manhã. A religião era considerada um assunto “particular”; os negócios eram “públicos”: Daí não ser considerado de bom tom trazer o assunto de religião a um jantar, embora se pudessem discutir à vontade as idéias políticas do vizinho ou mesmo sua consciência. A política e a economia eram terrenos em que cada qual devia decidir por si, tivesse ou não razão, e qualquer tentativa da parte da Igreja de sugerir princípios morais que governassem esses domínios era encarada como injustificável intromissão. A religião era qualquer coisa que se traz consigo, que se veste, como um terno de roupa, mas não uma parte integrante da vida, tal como ver ou ouvir.

Criou-se assim uma atitude mental em que se supunha que o grande ato redentor do Calvário não tinha significação alguma para a ordem social. A alma convertia-se num insignificante subúrbio da cidade chamada Negócio. Se a política e a economia não interferiam na religião, argumentava-se, por que deveria a religião interferir na política e na economia? A liberdade religiosa era assim adquirida na suposição de que devia abster-se da ordem secular. Tornava-se a religião uma área delimitada da vida, isolada de qualquer contato com o temporal e qualquer tentativa da parte da religião de introduzir considerações éticas ou morais nos negócios era considerada

abusiva, como se a virtude da justiça fosse qualquer coisa que se pregasse do púlpito num domingo, mas que não devesse ser praticada numa fábrica a segunda feira.

O mundo admitia de bom gado que a religião pudesse revelar ao homem seu Deus estava para com a astronomia de Newton. Como Newton pôs o universo debaixo da lei, presumiram os newtonianos que Deus não era mais necessário para explicar a ordem e a harmonia das esferas, como se a descoberta de uma lei abolisse a necessidade de um Legislador. Newton trouxe

Deus até seu universo para explicar duas irregularidades que não se podiam ajustar

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em sua lei, a saber: Por que certas estrelas fixas não caem e por que certos astros,

girando em diferentes órbitas não colidem. Tornava-se assim Deus um meio

cômodo de explicar irregularidades que a ciência não podia ainda esclarece, um

remendão cósmico qualificado andando de um lado para outro a tapar os rombos

do universo newtoniano. De modo semelhante permitia-se que Deus cuidasse das

irregularidades do universo político e econômico, isto é, Ele e Seus crentes podiam

fazer o serviço de ambulância para os pobres, os indigentes e os aleijados, que a

ordem política e econômica não tinha ainda meios de atender. Mais tarde, com o

progresso e a ciência, mesmo essas irregularidades desapareceriam e não se

necessitaria mais da religião. Desse modo era a religião relegada para um lugar

retirado do mundo; uma catacumba onde os homens podiam ir repousar; mas só

depois de terem lavado as mãos dos negócios. Chegava-se quase a pensar que o

homem que ia à igreja era diferente do homem que ia ao trabalho, ou que o

homem, como criatura política e econômica, tinha escapado de algum modo

miraculoso à queda do homem. O resultado dessa separação entre a religião e os

negócios públicos era impedir a religião para uma posição de crescente alheamento

dos negócios públicos. “Eu não incomodo a Igreja, por que razão haveria ela de me

incomodar?” tornou-se o falacioso refrão para justificar o divórcio de duas coisas

destinadas a serem tão inseparáveis como a cabeça e o corpo.

2. Essa atitude mental de afastamento da religião dos negócios públicos levou ao

segundo período mais contemporâneo, no qual a religião é considerada inimiga dos

negócios públicos. A transição é algum tanto natural, pois dizer que a religião é

impertinente à ordem social vale o mesmo que conceder à irreligião predomínio na

ordem social. Deixar a religião fora dos negócios públicos não é como deixar o azul

fora de uma colcha de retalhos; é como arrancar os olhos fora da cabeça. A cegueira

é a conseqüência da doutrina de que os olhos são desnecessários à vida; a

desavença é a conseqüência da doutrina de que o mútuo amor é desnecessário às

relações entre marido e mulher; a violência, a desordem, o derramamento de

sangue são a conseqüência da doutrina de que a justiça é estranha à ordem

econômica. De modo semelhante, deixar a religião fora da ordem social não é a

negação de alguma coisa indiferente; é a privação de alguma coisa indispensável.

Deixar fora da ordem secular a justiça, o amor, a caridade, os direitos humanos, os

deveres, todos os quais pertencem. à religião, é como deixar a alma fora do corpo.

Deixar a alma fora do corpo não é ficar com o corpo sem alma, é a morte; deixar a

religião fora da sociedade não é ficar com uma civilização secular, é o caos.

Demonstra a história que, se uma sociedade ignora a religião, nunca se transforma

exatamente em uma sociedade irreligiosa; torna-se anti-religiosa. A vida é apenas a

soma das forças que resistem à morte, e uma vez terminada a resistência a essas

forças contrárias começa o desaparecimento. Do mesmo modo, no mesmo instante

em que se nega à religião o direito de interferir na ordem política e econômica,

apodera-se destas a anti-religião. A ordem secular nunca vive no vácuo: nem

mesmo neutra pode ser; se os cidadãos de um Estado abandonaram a religião e o

seu dever de dar a Deus o que a Deus pertence, imediatamente julgará César que

até Deus recebe Sua autoridade de César. É então permitido a qualquer

propagandista barato de Moscou ou Berlim pregar o seu ateísmo ou o seu racismo,

enquanto o homem de Deus que prega a justiça e a caridade é tido como um inútil

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intruso. O ódio de classe é o mau fruto do desprezo da caridade; a desonestidade

em política é a triste herança do desprezo da justiça; o comunismo na vida nacional

é o resultado do desprezo da redenção e do amor fraterno.

O mundo comete um grave erro ao pensar que pode deixar a religião fora de sua

norma de procedimento nacional e continuar a ser o mesmo mundo de antes. Seria

isso verdade se a religião não passasse de um acidente da ordem social como as

corridas de cavalos, e não a soma das virtudes que condicionam a justiça e a paz. A

casa vazia será, afinal, a casa arruinada e a sociedade a- religiosa será, afinal, a

sociedade anti-religiosa. A religião que não interferir na ordem secular logo

descobrirá que a ordem secular não se absterá de interferir nela, assim como a mãe

que se abstém de corrigir os seus filhos desobedientes verá breve os filhos a corrigi-la.

O mesmo mundo que há vinte anos aceitava ser a religião desligada da economia e

da política, é o mundo que hoje hostiliza a religião. Não é bem porque a violência, o

ateísmo, o racismo sejam conseqüentes ao declínio da religião, como o castigo se

segue ao ato de desobediência; é antes porque são eles inseparáveis, como um lírio

podre e seu desagradável odor, ou a semeadura e a colheita.

Se o camponês não plantar trigo, não ficará estéril seu campo no outono; cobri-lo-ão

as ervas daninhas. Deixai os homens crescer sem cuidarem se sua alma pertence

a Deus ou a César, e, antes que eles o saibam, César os possuirá de corpo e alma.

Chama-se isso totalitarismo ou teoria estatal, que diz que o homem todo pertence

ao Estado. Tal regime deve necessariamente perseguir a religião, pois para possuir

o homem ele tem de desprezar a religião que afirma que o homem tem direitos

independentes do Estado. Em princípio, uma filosofia totalitária que nega valor à

pessoa humana fora da raça ou da classe, é necessariamente anti-religiosa. O

totalitarismo tem de agir assim se quiser sobreviver, pois nunca poderá possuir

inteiramente o homem enquanto não alijar a Igreja, que diz que o homem não

pertence inteiramente ao Estado. A Igreja opõe-se a tal absorção do homem pelo

totalitarismo e por esta razão é perseguida. Uma vez que o Estado inclui a religião

sob a política, toda e qualquer atividade religiosa da parte da Igreja passa a ser

encarada como uma interferência política. O totalitarismo é errado não por ter um

ditador, mas porque o ditador está dispondo até da alma do homem, ao fazer da

pessoa um meio para um fim, do homem um aspecto econômico do Estado, ou uma

gota de sangue do organismo político, ou um operário do Estado-fábrica. Quanto

mais insistir a Igreja em seu direito à alma do homem tanto mais será perseguida;

eis por que tem ela sido chamada “reacionária no México”; “anti-revolucionária” na

Rússia; “política” na Alemanha; “contra-revolucionária” em Barcelona. César

crucificará o Cristo sempre que César julgar que ele próprio é Deus.

O que se dá no mundo moderno é apenas uma repetição do que aconteceu no

começo da era cristã. A princípio o Filho de Deus é ignorado como um estranho ao

mundo, para depois ser perseguido.

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A principio Ele foi considerado como um estranho ao mundo que veio salvar. “Ele

veio para o que era seu, e os seus não O receberam.” Ele não foi abertamente

rejeitado; foi apenas ignorado. Não houve violência alguma contra Ele quando Sua

Mãe batia de porta em porta pela cidade de Belém. Simplesmente “não havia

lugar”. Afinal de contas, que relação teria a religião com a economia, e que relação

teria Deus com o mundo? Os homens estavam então demasiadamente ocupados

com seus cofres, com suas contas e com seus impostos para se incomodarem com o

Criador, exatamente como agora estão ocupados de mais com seus negócios e suas

dissensões políticas. Ele pode vir ao mundo, se quiser, mas que Ele próprio

encontre lugar para Si. Aqui não há lugar. A fim de melhor dar a entender que o

homem havia rejeitado o seu Criador, Ele é expulso da cidade para os montes, para

longe das estalagens, para os estábulos lá fora, dentre os homens para o meio dos

animais. E quando se deita um olhar nessa Criança, que foi alijada da terra que

criara, e literalmente expulsa para fora da cidade de Seus pais, deitada num leito de

palha entre um boi e um burro, não se podia deixar de ver nesses animais o

símbolo da rejeição humana. “Não havia lugar na estalagem.”

A religião, dissemos acima, é primeiro ignorada, depois perseguida. A indiferença à

religião é o começo do ódio à religião. Assim se deu com o Cristo. Em Seu

Nascimento os homens não Lhe deram atenção; simplesmente batiam as portas no

rosto de Sua Mãe. Dentro de dois anos estarão eles perseguindo-o como a um

criminoso. Primeiro mostram-se indiferentes ao lugar em que ele nasceu; agora,

intolerantes só porque nasceu. Antes apenas não O queriam em suas estalagens;

agora não O querem no mundo. Primeiro Ele é tão estranho às suas vidas que O

deixam com os seus inofensivos animais; agora é Ele considerado inimigo de suas

vidas e mais perigoso do que feras. Nem mesmo O querem agora deixar em seus

estábulos, tal como a Rússia não O quer deixar em seus tabernáculos. Parte de

Herodes a ordem de que toda criança do sexo masculino abaixo de dois anos de

idade deve ser morta. Nenhum rei poderá ser soberano se este novo Rei Infante

também pretender a Realeza. Herodes não poderá possuir inteiramente o homem

se esta Criança se intitular Rei do homem. Aquele que primeiro desprezou a

Criança agora teme a Criança. A caverna do pastor torna-se agora o antro do

bandido, enquanto Herodes despacha seus soldados, que se lançam como falcões

em perseguição de um Infante que mal aprendeu a andar. A irreligião apoderou-se

do lugar deixado pela religião; a perseguição seguiu-se à indiferença; o assassínio

dos inocentes veio na esteira do nascimento do Inocente. A indiferença ao Cristo

não termina e nem pode terminar na ausência do Cristo; acaba no Anticristo.

Foi assim no começo; é assim agora, e será assim até o fim; ensinaram a Europa a

cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu nome é ouvido; não O podem deixar só.

Eles não são precisamente homens sem religião; são homens contra a religião; não

mostram frieza para com Deus; entregam-se ao ateísmo com todo o ardor.

Donde tiram eles energia para esse ódio? Donde tal entusiasmo pelo ateísmo?

Como conseguem tal apostolado pelo Anticristo, tantas espadas para a pilhagem

das coisas de Deus e assassínio das mulheres de Deus? Donde tirou a Rússia esse

ímpeto para implantar em Valência, pela primeira vez na história do mundo

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ocidental, um regime declaradamente contra Deus? Tirou-o da realidade de Deus.

Os homens não se entusiasmam por fantasmas. Os homens não saem a campo para

dar combate as ficções da imaginação nem a mortos. Odeiam, entretanto, os vivos.

Rejeitando-O, estão eles prestando-Lhe testemunho. Ninguém odeia César,

Napoleão ou Genghis Khan. E por que não? Porque morre o ódio quando perece o

objeto odiado. Os homens já não cerram mais os punhos contra um Bismarck, nem

montam mais guarda ao túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda os punhos contra

o Cristo. Dizem que Ele está morto, mas põem sentinelas em Seu “túmulo”. Dizem

que Ele é inofensivo enquanto criança, contudo Herodes manda os seus soldados

matar a Criança indefesa.

A verdade é que eles odeiam porque crêem - não com a fé viva dos redimidos, mas

com a fé dos condenados. Não haveria nunca vacinação se não existissem germes;

não haveria nunca proibição se não houvesse alguma coisa a proibir, e não haveria

nunca ateísmo se não houvesse alguém a negar. Seu ódio é apenas a vã tentativa de

desprezo. Odeiam simplesmente porque foram destinados a amar.

O que é de notar é que exatamente nas nações em que Ele tem sido mais rejeitado,

maior tenha sido a derrota do homem. Na mesma proporção em que Ele é

perseguido, persegue-se o homem; quando o mundo rejeita Aquele que enalteceu o

valor do homem, começa este a perder todo o valor. No momento em que o mundo

perde Aquele que amou o homem a ponto de morrer por ele, o próprio homem

deixa de ter qualquer valor; no instante em que ele esquece o preço outrora pago

por uma alma humana, a alma começa a ser um instrumento do Estado. Esta

derrota do homem na Rússia, na Alemanha, no México, e até certo ponto na Itália,

onde o homem não tem direito algum senão aquele que o Estado lhe concede,

torna-se tanto mais flagrante quando ocorre numa época em que o homem tem

tudo o que pode conduzir ao sucesso na vida. Nunca dantes teve o homem tanto

Poder, e nunca dantes foi tal Poder acumulado assim para a destruição da vida

humana; nunca dantes esteve tão defendida a educação e nunca dantes se esteve

mais longe do conhecimento da Verdade; nunca dantes houve tanta riqueza e

nunca dantes tanta pobreza; nunca dantes tivemos tão abundantes alimentos e

nunca dantes tantos homens famintos. O homem vê-se cercado de luxos e

comodidades com que as gerações precedentes nunca sonharam; todavia, nunca

seus esforços foram tão frustrados, nunca se sentiu tão miserável e intranqüilo

diante do futuro. Tem tudo, e todavia nada tem, porque esqueceu uma coisa - seu

próprio mérito, seu próprio valor intrínseco, seu próprio alto destino. Somente

Alguém que pagou o preço pode dizer-lhe quanto ele vale. Tendo perdido a etiqueta

do preço da Redenção, marcada “Valor Infinito”, fácil é que os ditadores pensem

não ter ele nenhum valor, julguem que ele é simplesmente uma gota de sangue na

corrente de sangue da raça, um soldado a mais no exército, um dente a mais nas

rodas de engrenagem no Grande Trator Proletário.

É preciso que o homem seja redescoberto, não o homem animal que tanto

conhecemos, mas o homem racional que conhecemos tão pouco. Essa redescoberta

está condicionada ao conhecimento d’Aquele a cuja imagem e semelhança foi o

10 homem criado, pois só quando reconhecemos os direitos de Deus é que o homem

começa a ser livre.

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2. FALSAS LIBERDADES

As duas palavras de que mais se abusa no mundo moderno são amor e liberdade.

Para a nossa geração amor geralmente significa sexo, e liberdade significa o direito

de usar da palavra. Só nos interessa aqui a liberdade em suas duas formas errôneas,

das quais uma agoniza e a outra vem raiando. A liberdade de indiferença é o erro já

em declínio de uma ordem social decadente; a liberdade de necessidade é o erro

que desponta com o novo Estado opressor.

LIBERDADE DE INDIFERENÇA

A liberdade de indiferença é assim chamada por ser indiferente à verdade, à

moralidade, à justiça e ao bem social. Como tal, dominou o mundo por vários

séculos, definindo-se invariavelmente como direito de o indivíduo dizer, fazer, ou

pensar o que bem lhe aprouver. Supondo não existir norma absoluta para a

verdade e o erro, coloca o indivíduo como a autoridade suprema e considera toda

regulamentação da liberdade como indefensável e injustificada restrição.

Evidentemente tal opinião considera a liberdade mais em termos de ordem física

do que de ordem moral, ou mais como uma ausência de coação do que como um

direito a escolher o bem. São bem conhecidas de todos nós suas falsas

manifestações nos setores da fisiologia, religião, educação, política e economia. Em

filosofia ela afirmava não existir aquilo que se chama a Verdade “com V

maiúsculo”; a verdade é meramente passageira, - nós a forjamos à medida em que

vivemos. A verdade é mero ponto de vista, pois cada homem é a medida do bom e

do verdadeiro. Naturalmente, tal sistema engendra tantas filosofias quantas são as

cabeças. A fim de que o mundo pudesse ficar a salvo do conflito de tantas opiniões,

cultivou-se o espírito de tolerância como a mais desejável de todas as virtudes.

Quem ainda acreditava na verdade era freqüentemente tido como homem de visão

acanhada, enquanto que aquele que não cuidava de distingui-la do erro era louvado

pela sua largueza de vistas. Em religião, a liberdade de indiferença afirmava que

pouco nos deve importar aquilo em que cremos; uma religião é tão boa quanto a

outra, o que afinal vale dizer ser tão má uma quanto outra. Em educação,

asseverava que toda disciplina é uma restrição da liberdade e um injustificado

ataque ao direito do indivíduo ao que ingloriosamente se rotulou de “afirmação da

personalidade”. Na ordem política, supunha que o Estado exerce simples função

negativa, qual seja proteger os direitos do indivíduo. A moralidade era considerada

como um problema de aritmética, e a verdade e o erro eram determinados pela

contagem de votos, bem esquecidos de que a verdade é verdade mesmo que

ninguém a siga e o erro é erro mesmo que todos estejam errados. Na ordem

econômica afirmava que, se se deixasse aos indivíduos a liberdade de gerir seus

negócios como bem lhes aprouvesse, sem nenhuma interferência social da parte do

governo, resultaria daí o maior de todos os bens. Por isso, qualquer tentativa da

parte do Estado de regulamentar o uso da propriedade privada era tachada de

usurpação e violação dos direitos constitucionais. Eram essas as diversas

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manifestações da falsa liberdade de indiferença, também chamada liberalismo ou

economia do laissez faire, que quer dizer laissez moi faire. Os males de tão falsa

concepção eram duplos: sociais e econômicos. Socialmente, produzia uma

civilização formada por uma série de contraditórias correntes de egotismo, uma em

desacordo com a outra. O mundo começava a assumir o aspecto de um “salve-se

quem puder”, dito que se enaltecia ao ser chamado the struggle for existence.

Ninguém se interessava pelo bem comum, mas unicamente por sua própria

pequenina pessoa, o que valia dizer que cada homem era o seu próprio deus no

panteão dos outros pequenos deuses. Economicamente, a liberdade de indiferença

resultava em tremendas desigualdades de riqueza em que o poder e o crédito

ficavam concentrados nas mãos de poucos, enquanto a grande maioria dos

cidadãos ficavam reduzidos ao estado de assalariados com pouca ou nenhuma

segurança material para o futuro. Uma vez de posse da riqueza, tal liberdade

apenas significava uma coisa: o direito de os ricos tornarem-se mais ricos e de os

pobres ficarem mais pobres. Deixar economicamente cada indivíduo livre para

fazer o que desejasse resultava em desordenada e má distribuição da riqueza.

Sessenta e cinco por cento das famílias dos Estados Unidos recebiam menos de

$1,500 por ano em 1935-36: 48 de cada 100 famílias tinham menos de $1,000 por

ano. O primeiro décimo das famílias da América, tinha uma renda 18 vezes maior

que a do ultimo, enquanto que o ultimo décimo da renda total correspondia ao

sustento de um numero de famílias 82 vezes maior que o décimo superior. Quinze

de cada 100 famílias necessitavam de auxílio para viver. Metade das famílias da

zona rural estavam abaixo da linha dos $1,000 e três quartas partes estavam abaixo

da linha dos $1,500.

REAÇÃO

Urgia fazer alguma coisa para contrabalançar o egoísmo individual e as

desigualdades econômicas; por um ou outro meio devia-se fazer os homens

elevarem-se acima de seus desejos individuais e voltarem-se para o bem de todos;

precisava-se encontrar um meio de fazer as forças econômicas penderem para o

bem comum, de igualar as desigualdades, e restaurar nas consciências o sentido do

caráter funcional da riqueza em prol do bem comum. Mas como fazer o homem

pensar que é o protetor de seu irmão? Como ensinar o homem a ver que a liberdade

não significa indiferença ao bem de todos os cidadãos? A religião poderia tê-lo

feito, pois só a religião tem o poder de inculcar a caridade e a justiça, sem as quais

nenhuma sociedade pode subsistir. A unidade da vida social e econômica teria sido

assim restaurada na sociedade por um movimento livre dos espíritos. Mas, uma vez

que se rejeitou a religião como solução, em parte por terem os espíritos perdido o

amor da verdade, só restava um meio, que foi forçá-los a viver para o bem-estar

geral; isto é, apoderar-se da riqueza e do poder a fim de nivelar as desigualdades.

Assim nasceram na Europa as ditaduras do fascismo, do nazismo e do comunismo.

Se por si mesmas as ovelhas não querem andar juntas na unidade do redil, então

que se ponham os cães a latir em seu encalço. Se os indivíduos não querem

responder ao apelo da consciência que Deus lhe deu, e que os incita a

reconhecerem suas responsabilidades sociais, então os ditadores forçá-los-ão a

13 isso. A unidade assim alcançada não procedeu do interior por meio da religião, mas

do exterior por meio da força.

As ditaduras fascista, nazista e comunista representam a oscilação de um conceito

de sociedade em que o indivíduo era soberano, para o outro igualmente absurdo de

uma sociedade em que o Estado é soberano. A violência ativa inerente ao fascismo,

nazismo e comunismo é apenas a reação ou talvez mesmo o produto da violência

passiva de um liberalismo que permitia que os fortes devorassem os fracos.

Naturalmente, nenhum ditador pode jamais conquistar as massas senão

prometendo-lhes liberdade. Empregaram a força, agiram como tiranos, eliminaram

toda oposição e expurgaram as minorias, mas tiveram sempre o cuidado de faze-lo

sob o nome sagrado da liberdade. Assim foi que a palavra liberdade passou a ter

uma nova significação.

LIBERDADE E NECESSIDADE

A liberdade não seria mais identificada com a indiferença mas com a necessidade.

Tal como Frederico Engels, o comunista a definiu: “Liberdade é necessidade”. Por

exemplo, uma pedra é livre quando, obedecendo á lei da gravidade, cai ao solo logo

que a soltamos. O homem é livre de acordo com esta opinião, porque sabe que tem

de agir de acordo com determinadas leis. Quando um homem sabe o que tem de

fazer e o faz, então é livre. Assim também, dizem os ditadores, um homem é livre

enquanto obedecer à vontade do ditador que sempre se identificou com o bem

comum. Desse modo um cidadão da Rússia só goza da liberdade da palavra e da

liberdade de imprensa com a condição de usá-la para apoiar Stalin; do contrário é

um demolidor, e a única liberdade que lhe resta é a liberdade do martírio. Na

Alemanha, na Itália e na Rússia não há minorias políticas. O governo está

identificado com um partido, e liberdade de votar significa liberdade de aprovar a

vontade do ditador. Em teoria, não ha razão para que a ditadura invada o santuário

da alma; na pratica, contudo, a maior parte dos ditadores não se limita à política ou

à economia; tornam-se também ditadores das consciências, como tão bem o

provam a Alemanha e a Rússia. As novas ditaduras supõem que podemos tratar

com a vida humana da mesma forma como quem lida com mercadorias, e que a

alma do homem é suscetível da mesma regulamentação que a lavoura ou a

indústria. Na pratica, isso significa fortalecimento da O.G.P.U., tcheca, e

organizações policiais para dar caça àqueles que pensam de modo diferente. Nestas

circunstâncias, a nova liberdade, em vez de acabar com o caos, organiza-o

superficialmente; consegue obter, valendo-se da força, a unidade externa, embora

raramente a unidade interna pela aquiescência geral. Eis por que as ditaduras do

mundo não estão inaugurando uma nova ordem; são meras transições para uma

nova ordem que é dever nosso criar.

Nossa geração esta assistindo, quer o saiba, quer não, ao ocaso e à aurora de dois

conceitos radicalmente falsos de liberdade: uma liberdade de indiferença, que dá

ao indivíduo o direito de ignorar a sociedade, e uma liberdade de necessidade, que

dá ao Estado o direito de ignorar o indivíduo absorvendo-o na raça, na nação ou na

classe e destruindo a liberdade de escolha. A primeira espécie de liberdade

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resultava em licença, a segunda atira-nos na escravidão; a primeira era indiferente

à verdade; a segunda identifica a verdade com os decretos de um ditador; a

primeira prometia a riqueza individual à custa do bem comum, a segunda promete

a riqueza social à custa da liberdade da pessoa humana; a primeira esquece a

sociedade, a segunda esquece o homem. A liberdade de indiferença é o pecado de

um liberalismo agonizante; a liberdade de necessidade é o pecado do nascente

absolutismo do Estado. A liberdade de indiferença operava na sociedade de modo

muito semelhante ao da bomba colocada debaixo de uma casa. Uma vez que se

desse a explosão, todos os tijolos, todas as vigas, todos os pedaços de vidro, todas as

tábuas ficavam livres de fazer o que desejassem sem nenhuma preocupação com o

bem-estar da própria casa. A liberdade de necessidade, ao contrário, opera na

sociedade como uma prensa de lagar. Cada cacho de uva da vinha, quando atirado

na tina com milhares de outros cachos, perde sua própria identidade; sua

existência tornou-se agora inseparável do vinho. No primeiro exemplo, a liberdade

de indiferença arruinava a sociedade ao definir a liberdade como a licença

individual que ignorava o bem social; no segundo exemplo, a liberdade de

necessidade arruína a humanidade ao definir a liberdade como a necessidade que

dá ao ditador o direito de usurpar toda a personalidade de um homem, de modo

que ele não ouse pensar, querer ou sentir separado da massa, da classe ou da raça a

que pertence.

Leão XIII de há muito, em 20 de julho de 1888, advertiu-nos a respeito das

conseqüências dos falsos conceitos de liberdade. “A verdadeira liberdade da

sociedade humana não consiste em cada qual fazer o que bem desejar, pois isso

acabaria simplesmente em distúrbio e confusão, e acarretaria a ruína do Estado...

De igual modo a liberdade não consiste no poder daqueles que, autoridades, ditam

desarrazoadas e caprichosas ordens a seus súditos, o que seria igualmente

criminoso e levaria à ruína da coisa pública .” (Libertas Praestantitssimum .)

Esses dois falsos conceitos da liberdade desempenharam um papel na morte de

Jesus Cristo. E quase certo dizer que Ele foi crucificado em nome da falsa

liberdade. A liberdade de indiferença ou o espírito de tolerância crucificou-O no

individualismo de Pilatos. A liberdade de necessidade ou a nova intolerância

crucificou-O em nome das massas. Depois de uma noite inteira de padecimentos,

aquela noite em que, flagelado com os olhos vendados, Lhe põem na cabeça uma

ridícula coroa de espinhos e Lhe dão um caniço como cetro, Jesus Cristo é levado

diante de Pilatos. Respondendo a uma pergunta, Nosso Senhor diz a Pilatos que o

Seu Reino não é deste mundo e a seguir acrescenta: “Para este fim nasci, e para este

fim vim ao mundo - para trazer testemunho à Verdade. Todo aquele que é da

Verdade ouve Minha Voz.” (S. João, XVIII, 37.) Havia muito que Pilatos renunciara

à crença na verdade e bondade absoluta; o que para os homens era verdade ou erro,

para ele não passava de “um ponto de vista”. Verdade universalmente aceita não

existia; e para melhor afirmar sua crença na relatividade da verdade, de modo

zombeteiro pergunta: “Que é a verdade?”, e volta as costas à Verdade sem esperar

pela resposta.

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Numa hora a indiferença de Pilatos teve seu natural desfecho quando mandou que

trouxessem o Cristo e Barrabás a seu ensolarado pórtico e disse à população que

escolhesse entre os dois: “Qual dos dois quereis que vos solte: Barrabás ou Jesus,

que é chamado o Cristo?” (S. Mateus, XXVII, 17.) Aqui chegava o falso espírito de

tolerância à sua última e lógica conseqüência: indiferença ao Cristo e a Barrabás, à

verdade e ao erro, à virtude e ao vício. Era outro modo de dizer que liberdade é

indiferença, e indiferença à verdade, naquele dia, significava o que tem significado

sempre desde então: a crucifixão da Verdade. Parta-se do falso pressuposto de que

democracia significa liberdade de ser indiferente à verdade e à virtude, e a

democracia acabará, como naquele dia, crucificando a ambas.

As massas nem sempre escolhem com acerto; a verdade não é o que a maioria quer.

Liberdade não significa direito de preferir o sedicioso ao Salvador, ou de ser

tolerante a ponto de pregar a Justiça numa árvore. Uma vez que essa falsa

liberdade meça as conseqüências de sua indiferença, procura logo lavar as mãos do

sangue culpado, tal como Pilatos naquele dia em que após lavá-las, com as mãos

molhadas brilhando aos raios do sol, gritou: “Estou inocente do sangue desse

homem.” Mas a água não lava a nódoa desse crime; nem todas as águas dos sete

mares poderiam lavar o sangue rubro de suas mãos. Assim tem sido até neste

mesmo instante em que dizemos: “Padeceu sob Pôncio Pilatos.”

Mal podia Pilatos acreditar no que ouvia quando lhe pediram que soltasse

Barrabás, e enquanto os gritos da populaça atroavam contra a balaustrada de

mármore de sua fortaleza, fez uma outra pergunta: “Que devo fazer com o vosso

Rei, o Cristo?” Mas responderam-lhe: “Se soltares este Homem não és amigo de

César. Todo aquele que se faz rei é inimigo de César.” (S. João, XIX, 12.)

Chegara a vez de a nova liberdade de necessidade e a nova intolerância mandarem-no

matar. A liberdade de indiferença realizara sua tarefa como a maioria que vota

pela morte da verdade; a liberdade de necessidade tem ainda sua nojenta tarefa a

realizar. Na prática, significa isso que não há nenhum Deus acima de César,

nenhum direito acima do governo, nenhuma liberdade de palavra acima do régulo.

Significava exatamente isso na Sexta-feira da Paixão, quando a populaça apelava

para o seu ditador, a quem odiava mais que às serpentes, e protestava seu amor por

César contra o Cristo. “Se o Cristo não quiser obedecer a César e renunciar ao

absurdo de dizer: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, então

entreguem-no à morte. César é o único Rei; o Ditador é a única lei; o partido é o

único governo. Até mesmo os direitos de Deus emanam de César. Ou fazê-lO

submeter-se ou mandá-lO para a cruz.” Pois liberdade, pensavam eles, é obediência

à vontade do ditador.

E para a cruz foi Ele, crucificado pela corrompida liberdade do liberalismo, que é

indiferente à verdade, e pela desmoralizada liberdade da ditadura que identifica a

Verdade com César. O Calvário desse dia é um quadro do mundo moderno. A crise

daqueles tempos como a dos nossos próprios tempos é a crise da liberdade. Como o

Cristo foi crucificado na Sexta-feira da Paixão pela falsa liberdade, assim hoje é o

homem crucificado. O mundo moderno há vários séculos que não tem liberdade e,

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se seguir nova definição da liberdade, não a terá por mais alguns. O liberalismo e o

capitalismo, que foram indiferentes à moralidade e à verdade, não nos deram a

liberdade mas apenas um pretexto de sermos individualmente egoístas. A ditadura,

os Estados totalitários, fascismo e comunismo, não nos dão a liberdade, mas

apenas o direito de sermos coletivamente egoístas. Aqueles criavam escravos

econômicos, e estes criam escravos políticos. Ambos são amigos de sua própria

espécie de liberdade, e nenhum homem é amigo da liberdade se não desejar que os

outros a possuam tão bem quanto ele. O liberalismo e o capitalismo, por se

mostrarem indiferentes à verdade, tornavam impossível que uma democracia se

defendesse contra o fascismo, o comunismo ou o nazismo, pois, se não existe a

verdade, nada há então a defender.

A liberdade é mais do que um fenômeno econômico tal como a democracia

corrupta pretende; é mais do que um fenômeno político tal como quer a ditadura

tirânica; a liberdade é mais do que uma aristocracia da riqueza tal como o

capitalismo pretende; e mais do que uma aristocracia de privilégio tal como quer o

comunismo; a liberdade não significa separação do direito das responsabilidades

tal como afirmou o liberalismo; nem significa a separação das responsabilidades

dos direitos tal como assevera o comunismo. A liberdade não é livre-pensamento

tal como julga o liberalismo, nem é o pensamento imposto tal como supõem as

ditaduras. A liberdade não é direito de escolher entre Barrabás e o Cristo tal como o

espírito de tolerância proclama; nem é o direito de dizer que não existe outro Deus

senão César tal como proclama a nova intolerância.

Não temos liberdade em nosso mundo moderno, mas precisamos recuperá-la ou

perecer. Não a encontraremos voltando ao liberalismo, nem convertendo-nos em

ditadura, pois não está nem nesta nem naquela. Só a podemos recuperar

retornando a uma Verdade que não é nem a voz da maioria nem as imposições da

minoria, uma Verdade que é inseparável da finalidade do homem; isto é, a união

com o seu último fim, que é Deus. Quando o homem conforma o seu pensar e suas

ações com essa Finalidade, é livre porque está com a verdade. Será pedir demais ao

mundo moderno que faça isso? Precisa nossa civilização moderna, assim como o

Cristo, de ser primeiro crucificada pela liberdade de indiferença e pela liberdade de

necessidade, para que possa ressurgir? A resposta a essa pergunta está nas mãos de

Deus. Mas isto certamente sabemos: se amarmos a Verdade, a “Verdade nos

libertará”.

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3. A VERDADEIRA LIBERDADE

Para se compreender o que realmente é a liberdade é necessário fugir às duas

posições extremas de que falamos no capítulo anterior. Um desses erros extremos é

o do liberalismo, para o qual liberdade significa direito de falar, pensar ou fazer

aquilo que o indivíduo quer. Discursos do Dia da Independência, campanhas

políticas, arengas de capitalistas e de chefes trabalhistas, certos discursos de

formatura, político-radicais, todos cantam loas e essa espécie de liberdade. Uma

coisa há que lhes é comum a todos - todos falam como se a liberdade neste mundo

fosse um fim e não um meio. Batem-se pela liberdade, mas nenhum deles nos diz

por que quer ser livre. Insistem em serem livres de alguma coisa, mas esquecem

que estar livre de alguma coisa implica estar livre para alguma coisa. Estar livre de

reumatismo só é compreensível porque quero estar livre para andar. Esqueça-se a

finalidade da liberdade, e a liberdade tornar-se-á absurda. O mundo moderno vem

há muito falando em liberdade e, no entanto, esqueceu por que quer ser livre. Deu

mais importância ao desejo que ao objeto desejado. Está errado, pois ninguém quer

ser livre apenas para ser livre, mas ser livre para realizar um propósito ou atingir

um objetivo. Queremos o pára-brisa em nosso carro para ficarmos livres da poeira

a fim de viajarmos com segurança. Desgraçadamente, é muito grande o número

daqueles que em seus debates pela liberdade querem uma liberdade mais rica, mais

ampla e mais abundante, sem que jamais resolvam o que com ela querem fazer.

Porque esqueceram a finalidade da vida, inventaram a idéia de progresso, que é

mudança sem finalidade. Confundiram um passo à frente com um passo na direção

certa. Em vez de trabalharem para um ideal, mudaram o ideal e chamaram-lhe

progresso, esquecidos de que nunca podem saber se estão ou não fazendo

progresso a não ser que tenham um alvo fixo. Neste sentido tinha razão Chesterton

ao dizer: “Há uma coisa que nunca faz nenhum progresso. É a idéia de progresso.”

Essa falsa liberdade criou espíritos mais interessados na busca da verdade do que

na própria verdade; não procuravam para encontrar mas para ter a emoção da

pesquisa; batiam não para que lhes abrissem a porta da verdade, mas para ouvirem

o ruído de suas pancadas; perguntavam não para saber qual a finalidade da vida,

mas para escutar o eco de suas próprias vozes. Compraziam-se em falar na gloriosa

procura da verdade, mas tinham o cuidado de evitar descobri-la. A procura da

verdade acarreta apenas poucas responsabilidades e pode muitas vezes, com

afetada insinceridade, revestir-se de uma falsa aparência, mas sua descoberta é um

fardo e um desafio que poucos encaravam de boa vontade. Nisto reside o primeiro

defeito de nossa corrupta liberdade - esquecemos por que queremos ser livres.

Enquanto não respondermos a essa pergunta, nossas arengas sobre a liberdade não

passarão de “metal que soa ou címbalo que tine”.

O outro erro extremo que temos de evitar é a falsa liberdade do fascismo, nazismo e

fascismo soviético ou comunismo, segundo o qual liberdade significa obediência à

vontade de um Ditador. Os ditadores perceberam que o homem precisa ter algum

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ideal ou finalidade fora de si mesmo, mas em vez de fazer consistir essa finalidade

no desenvolvimento da personalidade humana, impuseram como objetivo a raça no

nazismo, o Estado no fascismo e a classe no comunismo. Tomava assim a

coletividade o lugar da personalidade. A idéia é justa ao insistir que a liberdade tem

um fim, mas é falsa ao impor o fim errado, qual seja, o Estado onipotente. A

ditadura acerta ao propor um fim, mas erra ao impor uma finalidade terrena em

lugar de uma sobrenatural, um fim econômico em lugar de um espiritual, César em

lugar de um Deus. Afinal isso significa a destruição da liberdade de escolha de

todos os cidadãos do Estado, isto é, a liberdade de palavra, a liberdade de

consciência, a liberdade de imprensa e de reunião. Os cidadãos na Rússia e na

Alemanha gozam exatamente da mesma espécie de liberdade que a de dois homens

lutando dentro do cárcere. Dizia um ao outro: “Quero que você saiba que sou aqui

tão livre quanto você.” Esta nova espécie de liberdade é muito semelhante à

liberdade dos cucos nos relógios de cuco. Quando chega a vez do povo votar 100

por cento seguindo o Ditador, o mecanismo de um exército, o terror, a propaganda

e o temor das expurgações, põem o eleitorado em ação, tal como o mecanismo do

relógio põe o cuco em ação na hora fixada.

Esse conceito de liberdade é também falso, porquanto coloca a liberdade na

coletividade e não no homem, e identifica a liberdade com aquilo que os homens

fazem e não com aquilo que o homem é. Torna-se então a liberdade um tributo do

Estado e não do homem; nessa teoria o composto é que é livre, não os

componentes. Cada pessoa é como a engrenagem de uma máquina, cuja função é

inteiramente determinada pelo maquinista do Estado ou pelo ditador. Um homem

na Rússia ou na Alemanha não tem mais liberdade de escolha que o êmbolo na

máquina. Será livre enquanto agir como o êmbolo, mas se se afirmar que o homem

é mais do que um êmbolo, e que é livre de se recusar a ser um êmbolo no

mecanismo do Estado, será banido como um demolidor. O termo “demolidor” é

significativo, pois o próprio fato de ser alguém chamado demolidor, é por si mesmo

revelador de que o Estado é apenas uma máquina e não um corpo moral formado

de seres humanos, dotado cada qual de direitos inalienáveis, dos quais o mais

precioso é a liberdade.

Dois erros devem então ser evitados: um que esquece a finalidade da liberdade, e

outro que pretende que a liberdade reside apenas na coletividade, e não no homem.

Se evitarmos essas duas posições extremas, a de um liberalismo moribundo e a de

uma crescente ditadura, chegaremos à mais positiva e exata idéia de liberdade, a

que evita os dois erros apontados: a Liberdade não é o direito de fazer o que me

pareça, nem é a necessidade de fazer o que quer que o ditador me imponha: ao

contrário, a liberdade é o direito de fazer o que eu devo. Nessas três expressões

“querer”, “ser necessariamente” e “dever” estão contidas as três opções que se

oferecem ao mundo moderno. Das três escolhemos “dever”.

Essa pequenina palavra “dever” significa que o homem é livre. O fogo é

necessariamente quente, o gelo é necessariamente frio, mas o homem deve ser

bom. “Dever” implica moralidade, isto é, um poder moral distinto do poder físico. A

liberdade não é o poder de fazer qualquer coisa que se queira, tão freqüentemente

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enunciado pelo moço moderno nestas palavras: “Posso fazer isso, se quiser, não

posso? Quem me Impedirá?” Certamente você pode fazer qualquer coisa que lhe

agrade ou queira. Pode roubar o seu vizinho, pode bater na sua mulher, pode

encher colchões com giletes usadas, e também matar a tiros de metralhadoras as

galinhas do vizinho, mas você não deve fazer nada disso porque dever implica

moralidade, direitos e obrigações.

A liberdade é, pois, mais um poder moral do que um poder físico, um “dever” e não

um “poder”. Além do mais, “dever” está intrinsecamente relacionado com uma

finalidade. Quando digo “devo comer a minha comida”, há uma inconfundível

relação entre comida e saúde. Quando digo “devo estudar”, a palavra “devo”

envolve a finalidade do estudo, qual seja a aquisição do conhecimento. Há milhares

de pequeninos “devos” em todas as vidas, cada um dos quais é inseparável de um

objetivo, de um propósito ou finalidade, por exemplo: “devo pagar minhas contas”,

“devo ser bom”. A razão está constantemente erguendo pequeninos alvos de

“devos”, ou finalidades, e a vontade, qual flecha, tenta atingi-los. Debaixo de todos

os pequeninos “devos” da vida, há um supremo “devo”, qual seja “devo alcançar o

fim para que fui criado”. Atrás de todas as finalidades há uma grande finalidade,

dada em resposta à pergunta: “Por que existo?” É pergunta que muito poucos se

fazem. Não guardariam em casa por cinco minutos um traste de dez centavos sem

indagar de sua finalidade, mas seguirão pela vida a fora sem sequer saberem por

que vivem. Enquanto não respondermos a essa pergunta, nenhuma outra há que

mereça resposta; e o modo como respondermos a ela determinará o rumo de nossa

vida neste mundo e o nosso destino no outro.

Por que fui criado? Que devo fazer de minha vida? Suponhamos que se faça parar

um certo número de homens na rua e que se lhes proponha tal pergunta, qual seria

a resposta? Diria um provavelmente: “para constituir família”; outro: “para ficar

rico”; um outro ainda: “para ser uma pessoa educada”. Mas tais resposta são

apenas parciais. A resposta óbvia será: “o homem quer ser feliz”, e constituir

família, fazer fortuna, ou receber educação são para ele modos de conceber a

felicidade. No fundo, ele quer a vida, quer a verdade, quer o amor. Não quer a vida

apenas por trinta minutos, mas para sempre; não quer conhecer apenas as

verdades da geografia, mas a verdade toda; não quer um amor que morre, mas um

Amor extático, belo e eterno. Daí o ridículo dos casamentos modernos com seus

divórcios: “Quero amar-te durante 2 anos e 8 meses.” O mundo não nos dá essa

felicidade, pois quando o homem tiver sua família constituída abominará ter de

deixá-la; quando tiver empilhado seus dólares, quererá uma pilha ainda maior;

quando completar sua educação, começará a sentir orgulho do que sabe e assim

resvalará na mais profunda ignorância. Visto que a felicidade do Amor, da Verdade

e da Vida eterna não pode ser alcançada aqui na terra, segue-se que teremos de

alcançá-la depois desta vida, pois se não houvesse alimentos não haveria estômago;

se não houvesse coisa para ver, não haveria olhos; e se não houvesse o Perfeito-

Amor, a Perfeita-Vida e a Perfeita-Verdade, não haveria espírito, nem vontade,

nem coração almejado e lutando por eles. E assim a razão sugere ao homem sua

finalidade, que se identifica com a resposta da Revelação. O melhor modo de

descobrir para que foi feita uma coisa é recorrer ao seu criador. “Por que Deus me

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