O Problema da Liberdade - Doutrina Social da Igreja -
Fulton Sheen
1. OS DIREITOS DA RELIGIÃO
Qual a relação entre a religião e os negócios públicos? A uma pergunta
foram dadas duas respostas diversas no século passado, ambas erradas: 1) a
religião é estranha aos negócios públicos; 2) a religião é inimiga dos negócios
públicos.
1. A época do liberalismo julgou ser possível servir a um tempo a Deus
e a Mammon. A religião era tida como uma espécie de luxo sentimental a que o homem
se podia apegar se assim o quisesse, mas que devia ser mantida num
compartimento separado da ordem econômica e política. Seis dias da
semana eram dados ao homem para ganhar a vida; um dia por semana devia ser
concedido ao repouso. Se, em vez de repousar, um homem desejasse “Ir à igreja”,
isso só era de sua conta; mas sob condição alguma devia ele levar consigo sua
“igreja” para o trabalho na segunda-feira pela manhã. A religião era
considerada um assunto “particular”; os negócios eram “públicos”: Daí não ser
considerado de bom tom trazer o assunto de religião a um jantar, embora se
pudessem discutir à vontade as idéias políticas do vizinho ou mesmo sua
consciência. A política e a economia eram terrenos em que cada qual devia
decidir por si, tivesse ou não razão, e qualquer tentativa da parte da Igreja
de sugerir princípios morais que governassem esses domínios era encarada como
injustificável intromissão. A religião era qualquer coisa que se traz consigo,
que se veste, como um terno de roupa, mas não uma parte integrante da vida, tal
como ver ou ouvir.
Criou-se assim uma atitude mental em que se supunha que o grande ato
redentor do Calvário não tinha significação alguma para a ordem social. A alma
convertia-se num insignificante subúrbio da cidade chamada Negócio. Se a
política e a economia não interferiam na religião, argumentava-se, por que
deveria a religião interferir na política e na economia? A liberdade religiosa
era assim adquirida na suposição de que devia abster-se da ordem secular.
Tornava-se a religião uma área delimitada da vida, isolada de qualquer contato
com o temporal e qualquer tentativa da parte da religião de introduzir
considerações éticas ou morais nos negócios era considerada
abusiva, como se a virtude da justiça fosse qualquer coisa que se
pregasse do púlpito num domingo, mas que não devesse ser praticada numa fábrica
a segunda feira.
O mundo admitia de bom gado que a religião pudesse revelar ao homem seu
Deus estava para com a astronomia de Newton. Como Newton pôs o universo debaixo
da lei, presumiram os newtonianos que Deus não era mais necessário para
explicar a ordem e a harmonia das esferas, como se a descoberta de uma lei
abolisse a necessidade de um Legislador. Newton trouxe
Deus até seu universo para explicar duas irregularidades que não se
podiam ajustar
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em sua lei, a saber: Por que certas estrelas fixas não caem e por que
certos astros,
girando em diferentes órbitas não colidem. Tornava-se assim Deus um
meio
cômodo de explicar irregularidades que a ciência não podia ainda
esclarece, um
remendão cósmico qualificado andando de um lado para outro a tapar os
rombos
do universo newtoniano. De modo semelhante permitia-se que Deus
cuidasse das
irregularidades do universo político e econômico, isto é, Ele e Seus
crentes podiam
fazer o serviço de ambulância para os pobres, os indigentes e os
aleijados, que a
ordem política e econômica não tinha ainda meios de atender. Mais
tarde, com o
progresso e a ciência, mesmo essas irregularidades desapareceriam e não
se
necessitaria mais da religião. Desse modo era a religião relegada para
um lugar
retirado do mundo; uma catacumba onde os homens podiam ir repousar; mas
só
depois de terem lavado as mãos dos negócios. Chegava-se quase a pensar
que o
homem que ia à igreja era diferente do homem que ia ao trabalho, ou que
o
homem, como criatura política e econômica, tinha escapado de algum modo
miraculoso à queda do homem. O resultado dessa separação entre a
religião e os
negócios públicos era impedir a religião para uma posição de crescente
alheamento
dos negócios públicos. “Eu não incomodo a Igreja, por que razão haveria
ela de me
incomodar?” tornou-se o falacioso refrão para justificar o divórcio de
duas coisas
destinadas a serem tão inseparáveis como a cabeça e o corpo.
2. Essa atitude mental de afastamento da religião dos negócios públicos
levou ao
segundo período mais contemporâneo, no qual a religião é considerada
inimiga dos
negócios públicos. A transição é algum tanto natural, pois dizer que a
religião é
impertinente à ordem social vale o mesmo que conceder à irreligião
predomínio na
ordem social. Deixar a religião fora dos negócios públicos não é como
deixar o azul
fora de uma colcha de retalhos; é como arrancar os olhos fora da
cabeça. A cegueira
é a conseqüência da doutrina de que os olhos são desnecessários à vida;
a
desavença é a conseqüência da doutrina de que o mútuo amor é
desnecessário às
relações entre marido e mulher; a violência, a desordem, o derramamento
de
sangue são a conseqüência da doutrina de que a justiça é estranha à
ordem
econômica. De modo semelhante, deixar a religião fora da ordem social
não é a
negação de alguma coisa indiferente; é a privação de alguma coisa
indispensável.
Deixar fora da ordem secular a justiça, o amor, a caridade, os direitos
humanos, os
deveres, todos os quais pertencem. à religião, é como deixar a alma
fora do corpo.
Deixar a alma fora do corpo não é ficar com o corpo sem alma, é a
morte; deixar a
religião fora da sociedade não é ficar com uma civilização secular, é o
caos.
Demonstra a história que, se uma sociedade ignora a religião, nunca se
transforma
exatamente em uma sociedade irreligiosa; torna-se anti-religiosa. A
vida é apenas a
soma das forças que resistem à morte, e uma vez terminada a resistência
a essas
forças contrárias começa o desaparecimento. Do mesmo modo, no mesmo
instante
em que se nega à religião o direito de interferir na ordem política e
econômica,
apodera-se destas a anti-religião. A ordem secular nunca vive no vácuo:
nem
mesmo neutra pode ser; se os cidadãos de um Estado abandonaram a
religião e o
seu dever de dar a Deus o que a Deus pertence, imediatamente julgará
César que
até Deus recebe Sua autoridade de César. É então permitido a qualquer
propagandista barato de Moscou ou Berlim pregar o seu ateísmo ou o seu
racismo,
enquanto o homem de Deus que prega a justiça e a caridade é tido como
um inútil
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intruso. O ódio de classe é o mau fruto do desprezo da caridade; a
desonestidade
em política é a triste herança do desprezo da justiça; o comunismo na
vida nacional
é o resultado do desprezo da redenção e do amor fraterno.
O mundo comete um grave erro ao pensar que pode deixar a religião fora
de sua
norma de procedimento nacional e continuar a ser o mesmo mundo de
antes. Seria
isso verdade se a religião não passasse de um acidente da ordem social
como as
corridas de cavalos, e não a soma das virtudes que condicionam a
justiça e a paz. A
casa vazia será, afinal, a casa arruinada e a sociedade a- religiosa
será, afinal, a
sociedade anti-religiosa. A religião que não interferir na ordem
secular logo
descobrirá que a ordem secular não se absterá de interferir nela, assim
como a mãe
que se abstém de corrigir os seus filhos desobedientes verá breve os
filhos a corrigi-la.
O mesmo mundo que há vinte anos aceitava ser a religião desligada da
economia e
da política, é o mundo que hoje hostiliza a religião. Não é bem porque
a violência, o
ateísmo, o racismo sejam conseqüentes ao declínio da religião, como o
castigo se
segue ao ato de desobediência; é antes porque são eles inseparáveis,
como um lírio
podre e seu desagradável odor, ou a semeadura e a colheita.
Se o camponês não plantar trigo, não ficará estéril seu campo no
outono; cobri-lo-ão
as ervas daninhas. Deixai os homens crescer sem cuidarem se sua alma
pertence
a Deus ou a César, e, antes que eles o saibam, César os possuirá de
corpo e alma.
Chama-se isso totalitarismo ou teoria estatal, que diz que o homem todo
pertence
ao Estado. Tal regime deve necessariamente perseguir a religião, pois
para possuir
o homem ele tem de desprezar a religião que afirma que o homem tem
direitos
independentes do Estado. Em princípio, uma filosofia totalitária que
nega valor à
pessoa humana fora da raça ou da classe, é necessariamente
anti-religiosa. O
totalitarismo tem de agir assim se quiser sobreviver, pois nunca poderá
possuir
inteiramente o homem enquanto não alijar a Igreja, que diz que o homem
não
pertence inteiramente ao Estado. A Igreja opõe-se a tal absorção do
homem pelo
totalitarismo e por esta razão é perseguida. Uma vez que o Estado
inclui a religião
sob a política, toda e qualquer atividade religiosa da parte da Igreja
passa a ser
encarada como uma interferência política. O totalitarismo é errado não
por ter um
ditador, mas porque o ditador está dispondo até da alma do homem, ao
fazer da
pessoa um meio para um fim, do homem um aspecto econômico do Estado, ou
uma
gota de sangue do organismo político, ou um operário do Estado-fábrica.
Quanto
mais insistir a Igreja em seu direito à alma do homem tanto mais será
perseguida;
eis por que tem ela sido chamada “reacionária no México”;
“anti-revolucionária” na
Rússia; “política” na Alemanha; “contra-revolucionária” em Barcelona.
César
crucificará o Cristo sempre que César julgar que ele próprio é Deus.
O que se dá no mundo moderno é apenas uma repetição do que aconteceu no
começo da era cristã. A princípio o Filho de Deus é ignorado como um
estranho ao
mundo, para depois ser perseguido.
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A principio Ele foi considerado como um estranho ao mundo que veio
salvar. “Ele
veio para o que era seu, e os seus não O receberam.” Ele não foi
abertamente
rejeitado; foi apenas ignorado. Não houve violência alguma contra Ele
quando Sua
Mãe batia de porta em porta pela cidade de Belém. Simplesmente “não
havia
lugar”. Afinal de contas, que relação teria a religião com a economia,
e que relação
teria Deus com o mundo? Os homens estavam então demasiadamente ocupados
com seus cofres, com suas contas e com seus impostos para se
incomodarem com o
Criador, exatamente como agora estão ocupados de mais com seus negócios
e suas
dissensões políticas. Ele pode vir ao mundo, se quiser, mas que Ele
próprio
encontre lugar para Si. Aqui não há lugar. A fim de melhor dar a
entender que o
homem havia rejeitado o seu Criador, Ele é expulso da cidade para os
montes, para
longe das estalagens, para os estábulos lá fora, dentre os homens para
o meio dos
animais. E quando se deita um olhar nessa Criança, que foi alijada da
terra que
criara, e literalmente expulsa para fora da cidade de Seus pais,
deitada num leito de
palha entre um boi e um burro, não se podia deixar de ver nesses
animais o
símbolo da rejeição humana. “Não havia lugar na estalagem.”
A religião, dissemos acima, é primeiro ignorada, depois perseguida. A
indiferença à
religião é o começo do ódio à religião. Assim se deu com o Cristo. Em
Seu
Nascimento os homens não Lhe deram atenção; simplesmente batiam as
portas no
rosto de Sua Mãe. Dentro de dois anos estarão eles perseguindo-o como a
um
criminoso. Primeiro mostram-se indiferentes ao lugar em que ele nasceu;
agora,
intolerantes só porque nasceu. Antes apenas não O queriam em suas
estalagens;
agora não O querem no mundo. Primeiro Ele é tão estranho às suas vidas
que O
deixam com os seus inofensivos animais; agora é Ele considerado inimigo
de suas
vidas e mais perigoso do que feras. Nem mesmo O querem agora deixar em
seus
estábulos, tal como a Rússia não O quer deixar em seus tabernáculos.
Parte de
Herodes a ordem de que toda criança do sexo masculino abaixo de dois
anos de
idade deve ser morta. Nenhum rei poderá ser soberano se este novo Rei
Infante
também pretender a Realeza. Herodes não poderá possuir inteiramente o
homem
se esta Criança se intitular Rei do homem. Aquele que primeiro
desprezou a
Criança agora teme a Criança. A caverna do pastor torna-se agora o
antro do
bandido, enquanto Herodes despacha seus soldados, que se lançam como
falcões
em perseguição de um Infante que mal aprendeu a andar. A irreligião
apoderou-se
do lugar deixado pela religião; a perseguição seguiu-se à indiferença;
o assassínio
dos inocentes veio na esteira do nascimento do Inocente. A indiferença
ao Cristo
não termina e nem pode terminar na ausência do Cristo; acaba no
Anticristo.
Foi assim no começo; é assim agora, e será assim até o fim; ensinaram a
Europa a
cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu nome é ouvido; não O podem
deixar só.
Eles não são precisamente homens sem religião; são homens contra a
religião; não
mostram frieza para com Deus; entregam-se ao ateísmo com todo o ardor.
Donde tiram eles energia para esse ódio? Donde tal entusiasmo pelo
ateísmo?
Como conseguem tal apostolado pelo Anticristo, tantas espadas para a
pilhagem
das coisas de Deus e assassínio das mulheres de Deus? Donde tirou a
Rússia esse
ímpeto para implantar em Valência, pela primeira vez na história do
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ocidental, um regime declaradamente contra Deus? Tirou-o da realidade
de Deus.
Os homens não se entusiasmam por fantasmas. Os homens não saem a campo
para
dar combate as ficções da imaginação nem a mortos. Odeiam, entretanto,
os vivos.
Rejeitando-O, estão eles prestando-Lhe testemunho. Ninguém odeia César,
Napoleão ou Genghis Khan. E por que não? Porque morre o ódio quando
perece o
objeto odiado. Os homens já não cerram mais os punhos contra um
Bismarck, nem
montam mais guarda ao túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda os punhos
contra
o Cristo. Dizem que Ele está morto, mas põem sentinelas em Seu
“túmulo”. Dizem
que Ele é inofensivo enquanto criança, contudo Herodes manda os seus
soldados
matar a Criança indefesa.
A verdade é que eles odeiam porque crêem - não com a fé viva dos
redimidos, mas
com a fé dos condenados. Não haveria nunca vacinação se não existissem
germes;
não haveria nunca proibição se não houvesse alguma coisa a proibir, e
não haveria
nunca ateísmo se não houvesse alguém a negar. Seu ódio é apenas a vã
tentativa de
desprezo. Odeiam simplesmente porque foram destinados a amar.
O que é de notar é que exatamente nas nações em que Ele tem sido mais
rejeitado,
maior tenha sido a derrota do homem. Na mesma proporção em que Ele é
perseguido, persegue-se o homem; quando o mundo rejeita Aquele que
enalteceu o
valor do homem, começa este a perder todo o valor. No momento em que o
mundo
perde Aquele que amou o homem a ponto de morrer por ele, o próprio
homem
deixa de ter qualquer valor; no instante em que ele esquece o preço
outrora pago
por uma alma humana, a alma começa a ser um instrumento do Estado. Esta
derrota do homem na Rússia, na Alemanha, no México, e até certo ponto
na Itália,
onde o homem não tem direito algum senão aquele que o Estado lhe
concede,
torna-se tanto mais flagrante quando ocorre numa época em que o homem
tem
tudo o que pode conduzir ao sucesso na vida. Nunca dantes teve o homem
tanto
Poder, e nunca dantes foi tal Poder acumulado assim para a destruição
da vida
humana; nunca dantes esteve tão defendida a educação e nunca dantes se
esteve
mais longe do conhecimento da Verdade; nunca dantes houve tanta riqueza
e
nunca dantes tanta pobreza; nunca dantes tivemos tão abundantes
alimentos e
nunca dantes tantos homens famintos. O homem vê-se cercado de luxos e
comodidades com que as gerações precedentes nunca sonharam; todavia,
nunca
seus esforços foram tão frustrados, nunca se sentiu tão miserável e
intranqüilo
diante do futuro. Tem tudo, e todavia nada tem, porque esqueceu uma
coisa - seu
próprio mérito, seu próprio valor intrínseco, seu próprio alto destino.
Somente
Alguém que pagou o preço pode dizer-lhe quanto ele vale. Tendo perdido
a etiqueta
do preço da Redenção, marcada “Valor Infinito”, fácil é que os
ditadores pensem
não ter ele nenhum valor, julguem que ele é simplesmente uma gota de
sangue na
corrente de sangue da raça, um soldado a mais no exército, um dente a
mais nas
rodas de engrenagem no Grande Trator Proletário.
É preciso que o homem seja redescoberto, não o homem animal que tanto
conhecemos, mas o homem racional que conhecemos tão pouco. Essa
redescoberta
está condicionada ao conhecimento d’Aquele a cuja imagem e semelhança
foi o
10 homem criado, pois só quando reconhecemos os direitos de Deus é que
o homem
começa a ser livre.
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2. FALSAS LIBERDADES
As duas palavras de que mais se abusa no mundo moderno são amor e
liberdade.
Para a nossa geração amor geralmente significa sexo, e liberdade
significa o direito
de usar da palavra. Só nos interessa aqui a liberdade em suas duas
formas errôneas,
das quais uma agoniza e a outra vem raiando. A liberdade de indiferença
é o erro já
em declínio de uma ordem social decadente; a liberdade de necessidade é
o erro
que desponta com o novo Estado opressor.
LIBERDADE DE INDIFERENÇA
A liberdade de indiferença é assim chamada por ser indiferente à
verdade, à
moralidade, à justiça e ao bem social. Como tal, dominou o mundo por
vários
séculos, definindo-se invariavelmente como direito de o indivíduo
dizer, fazer, ou
pensar o que bem lhe aprouver. Supondo não existir norma absoluta para
a
verdade e o erro, coloca o indivíduo como a autoridade suprema e
considera toda
regulamentação da liberdade como indefensável e injustificada
restrição.
Evidentemente tal opinião considera a liberdade mais em termos de ordem
física
do que de ordem moral, ou mais como uma ausência de coação do que como
um
direito a escolher o bem. São bem conhecidas de todos nós suas falsas
manifestações nos setores da fisiologia, religião, educação, política e
economia. Em
filosofia ela afirmava não existir aquilo que se chama a Verdade “com V
maiúsculo”; a verdade é meramente passageira, - nós a forjamos à medida
em que
vivemos. A verdade é mero ponto de vista, pois cada homem é a medida do
bom e
do verdadeiro. Naturalmente, tal sistema engendra tantas filosofias
quantas são as
cabeças. A fim de que o mundo pudesse ficar a salvo do conflito de
tantas opiniões,
cultivou-se o espírito de tolerância como a mais desejável de todas as
virtudes.
Quem ainda acreditava na verdade era freqüentemente tido como homem de
visão
acanhada, enquanto que aquele que não cuidava de distingui-la do erro
era louvado
pela sua largueza de vistas. Em religião, a liberdade de indiferença
afirmava que
pouco nos deve importar aquilo em que cremos; uma religião é tão boa
quanto a
outra, o que afinal vale dizer ser tão má uma quanto outra. Em
educação,
asseverava que toda disciplina é uma restrição da liberdade e um
injustificado
ataque ao direito do indivíduo ao que ingloriosamente se rotulou de
“afirmação da
personalidade”. Na ordem política, supunha que o Estado exerce simples
função
negativa, qual seja proteger os direitos do indivíduo. A moralidade era
considerada
como um problema de aritmética, e a verdade e o erro eram determinados
pela
contagem de votos, bem esquecidos de que a verdade é verdade mesmo que
ninguém a siga e o erro é erro mesmo que todos estejam errados. Na
ordem
econômica afirmava que, se se deixasse aos indivíduos a liberdade de
gerir seus
negócios como bem lhes aprouvesse, sem nenhuma interferência social da
parte do
governo, resultaria daí o maior de todos os bens. Por isso, qualquer
tentativa da
parte do Estado de regulamentar o uso da propriedade privada era
tachada de
usurpação e violação dos direitos constitucionais. Eram essas as
diversas
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manifestações da falsa liberdade de indiferença, também chamada
liberalismo ou
economia do laissez faire, que quer dizer laissez moi faire.
Os males de tão falsa
concepção eram duplos: sociais e econômicos. Socialmente, produzia uma
civilização formada por uma série de contraditórias correntes de
egotismo, uma em
desacordo com a outra. O mundo começava a assumir o aspecto de um
“salve-se
quem puder”, dito que se enaltecia ao ser chamado the struggle for
existence.
Ninguém se interessava pelo bem comum, mas unicamente por sua própria
pequenina pessoa, o que valia dizer que cada homem era o seu próprio
deus no
panteão dos outros pequenos deuses. Economicamente, a liberdade de
indiferença
resultava em tremendas desigualdades de riqueza em que o poder e o
crédito
ficavam concentrados nas mãos de poucos, enquanto a grande maioria dos
cidadãos ficavam reduzidos ao estado de assalariados com pouca ou
nenhuma
segurança material para o futuro. Uma vez de posse da riqueza, tal
liberdade
apenas significava uma coisa: o direito de os ricos tornarem-se mais
ricos e de os
pobres ficarem mais pobres. Deixar economicamente cada indivíduo livre
para
fazer o que desejasse resultava em desordenada e má distribuição da
riqueza.
Sessenta e cinco por cento das famílias dos Estados Unidos recebiam
menos de
$1,500 por ano em 1935-36: 48 de cada 100 famílias tinham menos de
$1,000 por
ano. O primeiro décimo das famílias da América, tinha uma renda 18
vezes maior
que a do ultimo, enquanto que o ultimo décimo da renda total
correspondia ao
sustento de um numero de famílias 82 vezes maior que o décimo superior.
Quinze
de cada 100 famílias necessitavam de auxílio para viver. Metade das
famílias da
zona rural estavam abaixo da linha dos $1,000 e três quartas partes
estavam abaixo
da linha dos $1,500.
REAÇÃO
Urgia fazer alguma coisa para contrabalançar o egoísmo individual e as
desigualdades econômicas; por um ou outro meio devia-se fazer os homens
elevarem-se acima de seus desejos individuais e voltarem-se para o bem
de todos;
precisava-se encontrar um meio de fazer as forças econômicas penderem
para o
bem comum, de igualar as desigualdades, e restaurar nas consciências o
sentido do
caráter funcional da riqueza em prol do bem comum. Mas como fazer o
homem
pensar que é o protetor de seu irmão? Como ensinar o homem a ver que a
liberdade
não significa indiferença ao bem de todos os cidadãos? A religião
poderia tê-lo
feito, pois só a religião tem o poder de inculcar a caridade e a
justiça, sem as quais
nenhuma sociedade pode subsistir. A unidade da vida social e econômica
teria sido
assim restaurada na sociedade por um movimento livre dos espíritos.
Mas, uma vez
que se rejeitou a religião como solução, em parte por terem os
espíritos perdido o
amor da verdade, só restava um meio, que foi forçá-los a viver para o
bem-estar
geral; isto é, apoderar-se da riqueza e do poder a fim de nivelar as
desigualdades.
Assim nasceram na Europa as ditaduras do fascismo, do nazismo e do
comunismo.
Se por si mesmas as ovelhas não querem andar juntas na unidade do
redil, então
que se ponham os cães a latir em seu encalço. Se os indivíduos não
querem
responder ao apelo da consciência que Deus lhe deu, e que os incita a
reconhecerem suas responsabilidades sociais, então os ditadores
forçá-los-ão a
13 isso. A unidade assim alcançada não procedeu do interior por meio da
religião, mas
do exterior por meio da força.
As ditaduras fascista, nazista e comunista representam a oscilação de
um conceito
de sociedade em que o indivíduo era soberano, para o outro igualmente
absurdo de
uma sociedade em que o Estado é soberano. A violência ativa inerente ao
fascismo,
nazismo e comunismo é apenas a reação ou talvez mesmo o produto da
violência
passiva de um liberalismo que permitia que os fortes devorassem os
fracos.
Naturalmente, nenhum ditador pode jamais conquistar as massas senão
prometendo-lhes liberdade. Empregaram a força, agiram como tiranos,
eliminaram
toda oposição e expurgaram as minorias, mas tiveram sempre o cuidado de
faze-lo
sob o nome sagrado da liberdade. Assim foi que a palavra liberdade
passou a ter
uma nova significação.
LIBERDADE E NECESSIDADE
A liberdade não seria mais identificada com a indiferença mas com a
necessidade.
Tal como Frederico Engels, o comunista a definiu: “Liberdade é
necessidade”. Por
exemplo, uma pedra é livre quando, obedecendo á lei da gravidade, cai
ao solo logo
que a soltamos. O homem é livre de acordo com esta opinião, porque sabe
que tem
de agir de acordo com determinadas leis. Quando um homem sabe o que tem
de
fazer e o faz, então é livre. Assim também, dizem os ditadores, um
homem é livre
enquanto obedecer à vontade do ditador que sempre se identificou com o
bem
comum. Desse modo um cidadão da Rússia só goza da liberdade da palavra
e da
liberdade de imprensa com a condição de usá-la para apoiar Stalin; do
contrário é
um demolidor, e a única liberdade que lhe resta é a liberdade do
martírio. Na
Alemanha, na Itália e na Rússia não há minorias políticas. O governo
está
identificado com um partido, e liberdade de votar significa liberdade
de aprovar a
vontade do ditador. Em teoria, não ha razão para que a ditadura invada
o santuário
da alma; na pratica, contudo, a maior parte dos ditadores não se limita
à política ou
à economia; tornam-se também ditadores das consciências, como tão bem o
provam a Alemanha e a Rússia. As novas ditaduras supõem que podemos
tratar
com a vida humana da mesma forma como quem lida com mercadorias, e que
a
alma do homem é suscetível da mesma regulamentação que a lavoura ou a
indústria. Na pratica, isso significa fortalecimento da O.G.P.U.,
tcheca, e
organizações policiais para dar caça àqueles que pensam de modo
diferente. Nestas
circunstâncias, a nova liberdade, em vez de acabar com o caos,
organiza-o
superficialmente; consegue obter, valendo-se da força, a unidade
externa, embora
raramente a unidade interna pela aquiescência geral. Eis por que as
ditaduras do
mundo não estão inaugurando uma nova ordem; são meras transições para
uma
nova ordem que é dever nosso criar.
Nossa geração esta assistindo, quer o saiba, quer não, ao ocaso e à
aurora de dois
conceitos radicalmente falsos de liberdade: uma liberdade de
indiferença, que dá
ao indivíduo o direito de ignorar a sociedade, e uma liberdade de
necessidade, que
dá ao Estado o direito de ignorar o indivíduo absorvendo-o na raça, na
nação ou na
classe e destruindo a liberdade de escolha. A primeira espécie de
liberdade
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resultava em licença, a segunda atira-nos na escravidão; a primeira era
indiferente
à verdade; a segunda identifica a verdade com os decretos de um
ditador; a
primeira prometia a riqueza individual à custa do bem comum, a segunda
promete
a riqueza social à custa da liberdade da pessoa humana; a primeira
esquece a
sociedade, a segunda esquece o homem. A liberdade de indiferença é o
pecado de
um liberalismo agonizante; a liberdade de necessidade é o pecado do
nascente
absolutismo do Estado. A liberdade de indiferença operava na sociedade
de modo
muito semelhante ao da bomba colocada debaixo de uma casa. Uma vez que
se
desse a explosão, todos os tijolos, todas as vigas, todos os pedaços de
vidro, todas as
tábuas ficavam livres de fazer o que desejassem sem nenhuma preocupação
com o
bem-estar da própria casa. A liberdade de necessidade, ao contrário,
opera na
sociedade como uma prensa de lagar. Cada cacho de uva da vinha, quando
atirado
na tina com milhares de outros cachos, perde sua própria identidade;
sua
existência tornou-se agora inseparável do vinho. No primeiro exemplo, a
liberdade
de indiferença arruinava a sociedade ao definir a liberdade como a
licença
individual que ignorava o bem social; no segundo exemplo, a liberdade
de
necessidade arruína a humanidade ao definir a liberdade como a
necessidade que
dá ao ditador o direito de usurpar toda a personalidade de um homem, de
modo
que ele não ouse pensar, querer ou sentir separado da massa, da classe
ou da raça a
que pertence.
Leão XIII de há muito, em 20 de julho de 1888, advertiu-nos a respeito
das
conseqüências dos falsos conceitos de liberdade. “A verdadeira
liberdade da
sociedade humana não consiste em cada qual fazer o que bem desejar,
pois isso
acabaria simplesmente em distúrbio e confusão, e acarretaria a ruína do
Estado...
De igual modo a liberdade não consiste no poder daqueles que,
autoridades, ditam
desarrazoadas e caprichosas ordens a seus súditos, o que seria
igualmente
criminoso e levaria à ruína da coisa pública .” (Libertas
Praestantitssimum .)
Esses dois falsos conceitos da liberdade desempenharam um papel na
morte de
Jesus Cristo. E quase certo dizer que Ele foi crucificado em nome da
falsa
liberdade. A liberdade de indiferença ou o espírito de tolerância
crucificou-O no
individualismo de Pilatos. A liberdade de necessidade ou a nova
intolerância
crucificou-O em nome das massas. Depois de uma noite inteira de
padecimentos,
aquela noite em que, flagelado com os olhos vendados, Lhe põem na
cabeça uma
ridícula coroa de espinhos e Lhe dão um caniço como cetro, Jesus Cristo
é levado
diante de Pilatos. Respondendo a uma pergunta, Nosso Senhor diz a
Pilatos que o
Seu Reino não é deste mundo e a seguir acrescenta: “Para este fim
nasci, e para este
fim vim ao mundo - para trazer testemunho à Verdade. Todo aquele que é
da
Verdade ouve Minha Voz.” (S. João, XVIII, 37.) Havia muito que Pilatos
renunciara
à crença na verdade e bondade absoluta; o que para os homens era
verdade ou erro,
para ele não passava de “um ponto de vista”. Verdade universalmente
aceita não
existia; e para melhor afirmar sua crença na relatividade da verdade,
de modo
zombeteiro pergunta: “Que é a verdade?”, e volta as costas à Verdade
sem esperar
pela resposta.
15
Numa hora a indiferença de Pilatos teve seu natural desfecho quando
mandou que
trouxessem o Cristo e Barrabás a seu ensolarado pórtico e disse à
população que
escolhesse entre os dois: “Qual dos dois quereis que vos solte:
Barrabás ou Jesus,
que é chamado o Cristo?” (S. Mateus, XXVII, 17.) Aqui chegava o falso
espírito de
tolerância à sua última e lógica conseqüência: indiferença ao Cristo e
a Barrabás, à
verdade e ao erro, à virtude e ao vício. Era outro modo de dizer que
liberdade é
indiferença, e indiferença à verdade, naquele dia, significava o que
tem significado
sempre desde então: a crucifixão da Verdade. Parta-se do falso
pressuposto de que
democracia significa liberdade de ser indiferente à verdade e à
virtude, e a
democracia acabará, como naquele dia, crucificando a ambas.
As massas nem sempre escolhem com acerto; a verdade não é o que a maioria
quer.
Liberdade não significa direito de preferir o sedicioso ao Salvador, ou
de ser
tolerante a ponto de pregar a Justiça numa árvore. Uma vez que essa
falsa
liberdade meça as conseqüências de sua indiferença, procura logo lavar
as mãos do
sangue culpado, tal como Pilatos naquele dia em que após lavá-las, com
as mãos
molhadas brilhando aos raios do sol, gritou: “Estou inocente do sangue
desse
homem.” Mas a água não lava a nódoa desse crime; nem todas as águas dos
sete
mares poderiam lavar o sangue rubro de suas mãos. Assim tem sido até
neste
mesmo instante em que dizemos: “Padeceu sob Pôncio Pilatos.”
Mal podia Pilatos acreditar no que ouvia quando lhe pediram que
soltasse
Barrabás, e enquanto os gritos da populaça atroavam contra a
balaustrada de
mármore de sua fortaleza, fez uma outra pergunta: “Que devo fazer com o
vosso
Rei, o Cristo?” Mas responderam-lhe: “Se soltares este Homem não és
amigo de
César. Todo aquele que se faz rei é inimigo de César.” (S. João, XIX,
12.)
Chegara a vez de a nova liberdade de necessidade e a nova intolerância
mandarem-no
matar. A liberdade de indiferença realizara sua tarefa como a maioria
que vota
pela morte da verdade; a liberdade de necessidade tem ainda sua nojenta
tarefa a
realizar. Na prática, significa isso que não há nenhum Deus acima de
César,
nenhum direito acima do governo, nenhuma liberdade de palavra acima do
régulo.
Significava exatamente isso na Sexta-feira da Paixão, quando a populaça
apelava
para o seu ditador, a quem odiava mais que às serpentes, e protestava
seu amor por
César contra o Cristo. “Se o Cristo não quiser obedecer a César e
renunciar ao
absurdo de dizer: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus”, então
entreguem-no à morte. César é o único Rei; o Ditador é a única lei; o
partido é o
único governo. Até mesmo os direitos de Deus emanam de César. Ou
fazê-lO
submeter-se ou mandá-lO para a cruz.” Pois liberdade, pensavam eles, é
obediência
à vontade do ditador.
E para a cruz foi Ele, crucificado pela corrompida liberdade do liberalismo,
que é
indiferente à verdade, e pela desmoralizada liberdade da ditadura que
identifica a
Verdade com César. O Calvário desse dia é um quadro do mundo moderno. A
crise
daqueles tempos como a dos nossos próprios tempos é a crise da
liberdade. Como o
Cristo foi crucificado na Sexta-feira da Paixão pela falsa liberdade,
assim hoje é o
homem crucificado. O mundo moderno há vários séculos que não tem
liberdade e,
16
se seguir nova definição da liberdade, não a terá por mais alguns. O
liberalismo e o
capitalismo, que foram indiferentes à moralidade e à verdade, não nos
deram a
liberdade mas apenas um pretexto de sermos individualmente egoístas. A
ditadura,
os Estados totalitários, fascismo e comunismo, não nos dão a liberdade,
mas
apenas o direito de sermos coletivamente egoístas. Aqueles criavam
escravos
econômicos, e estes criam escravos políticos. Ambos são amigos de sua
própria
espécie de liberdade, e nenhum homem é amigo da liberdade se não
desejar que os
outros a possuam tão bem quanto ele. O liberalismo e o capitalismo, por
se
mostrarem indiferentes à verdade, tornavam impossível que uma
democracia se
defendesse contra o fascismo, o comunismo ou o nazismo, pois, se não
existe a
verdade, nada há então a defender.
A liberdade é mais do que um fenômeno econômico tal como a democracia
corrupta pretende; é mais do que um fenômeno político tal como quer a
ditadura
tirânica; a liberdade é mais do que uma aristocracia da riqueza tal
como o
capitalismo pretende; e mais do que uma aristocracia de privilégio tal
como quer o
comunismo; a liberdade não significa separação do direito das
responsabilidades
tal como afirmou o liberalismo; nem significa a separação das
responsabilidades
dos direitos tal como assevera o comunismo. A liberdade não é
livre-pensamento
tal como julga o liberalismo, nem é o pensamento imposto tal como
supõem as
ditaduras. A liberdade não é direito de escolher entre Barrabás e o
Cristo tal como o
espírito de tolerância proclama; nem é o direito de dizer que não
existe outro Deus
senão César tal como proclama a nova intolerância.
Não temos liberdade em nosso mundo moderno, mas precisamos recuperá-la
ou
perecer. Não a encontraremos voltando ao liberalismo, nem
convertendo-nos em
ditadura, pois não está nem nesta nem naquela. Só a podemos recuperar
retornando a uma Verdade que não é nem a voz da maioria nem as
imposições da
minoria, uma Verdade que é inseparável da finalidade do homem; isto é,
a união
com o seu último fim, que é Deus. Quando o homem conforma o seu pensar
e suas
ações com essa Finalidade, é livre porque está com a verdade. Será
pedir demais ao
mundo moderno que faça isso? Precisa nossa civilização moderna, assim
como o
Cristo, de ser primeiro crucificada pela liberdade de indiferença e
pela liberdade de
necessidade, para que possa ressurgir? A resposta a essa pergunta está
nas mãos de
Deus. Mas isto certamente sabemos: se amarmos a Verdade, a “Verdade nos
libertará”.
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3. A VERDADEIRA LIBERDADE
Para se compreender o que realmente é a liberdade é necessário fugir às
duas
posições extremas de que falamos no capítulo anterior. Um desses erros
extremos é
o do liberalismo, para o qual liberdade significa direito de falar,
pensar ou fazer
aquilo que o indivíduo quer. Discursos do Dia da Independência, campanhas
políticas, arengas de capitalistas e de chefes trabalhistas, certos
discursos de
formatura, político-radicais, todos cantam loas e essa espécie de
liberdade. Uma
coisa há que lhes é comum a todos - todos falam como se a liberdade
neste mundo
fosse um fim e não um meio. Batem-se pela liberdade, mas nenhum deles
nos diz
por que quer ser livre. Insistem em serem livres de alguma coisa, mas
esquecem
que estar livre de alguma coisa implica estar livre para alguma coisa.
Estar livre de
reumatismo só é compreensível porque quero estar livre para andar.
Esqueça-se a
finalidade da liberdade, e a liberdade tornar-se-á absurda. O mundo
moderno vem
há muito falando em liberdade e, no entanto, esqueceu por que quer ser
livre. Deu
mais importância ao desejo que ao objeto desejado. Está errado, pois
ninguém quer
ser livre apenas para ser livre, mas ser livre para realizar um
propósito ou atingir
um objetivo. Queremos o pára-brisa em nosso carro para ficarmos livres
da poeira
a fim de viajarmos com segurança. Desgraçadamente, é muito grande o
número
daqueles que em seus debates pela liberdade querem uma liberdade mais
rica, mais
ampla e mais abundante, sem que jamais resolvam o que com ela querem
fazer.
Porque esqueceram a finalidade da vida, inventaram a idéia de progresso,
que é
mudança sem finalidade. Confundiram um passo à frente com um passo na
direção
certa. Em vez de trabalharem para um ideal, mudaram o ideal e
chamaram-lhe
progresso, esquecidos de que nunca podem saber se estão ou não fazendo
progresso a não ser que tenham um alvo fixo. Neste sentido tinha razão
Chesterton
ao dizer: “Há uma coisa que nunca faz nenhum progresso. É a idéia de
progresso.”
Essa falsa liberdade criou espíritos mais interessados na busca da
verdade do que
na própria verdade; não procuravam para encontrar mas para ter a emoção
da
pesquisa; batiam não para que lhes abrissem a porta da verdade, mas
para ouvirem
o ruído de suas pancadas; perguntavam não para saber qual a finalidade
da vida,
mas para escutar o eco de suas próprias vozes. Compraziam-se em falar
na gloriosa
procura da verdade, mas tinham o cuidado de evitar descobri-la. A
procura da
verdade acarreta apenas poucas responsabilidades e pode muitas vezes,
com
afetada insinceridade, revestir-se de uma falsa aparência, mas sua
descoberta é um
fardo e um desafio que poucos encaravam de boa vontade. Nisto reside o
primeiro
defeito de nossa corrupta liberdade - esquecemos por que queremos ser
livres.
Enquanto não respondermos a essa pergunta, nossas arengas sobre a
liberdade não
passarão de “metal que soa ou címbalo que tine”.
O outro erro extremo que temos de evitar é a falsa liberdade do
fascismo, nazismo e
fascismo soviético ou comunismo, segundo o qual liberdade significa
obediência à
vontade de um Ditador. Os ditadores perceberam que o homem precisa ter
algum
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ideal ou finalidade fora de si mesmo, mas em vez de fazer consistir
essa finalidade
no desenvolvimento da personalidade humana, impuseram como objetivo a
raça no
nazismo, o Estado no fascismo e a classe no comunismo. Tomava assim a
coletividade o lugar da personalidade. A idéia é justa ao insistir que
a liberdade tem
um fim, mas é falsa ao impor o fim errado, qual seja, o Estado
onipotente. A
ditadura acerta ao propor um fim, mas erra ao impor uma finalidade
terrena em
lugar de uma sobrenatural, um fim econômico em lugar de um espiritual,
César em
lugar de um Deus. Afinal isso significa a destruição da liberdade de
escolha de
todos os cidadãos do Estado, isto é, a liberdade de palavra, a
liberdade de
consciência, a liberdade de imprensa e de reunião. Os cidadãos na
Rússia e na
Alemanha gozam exatamente da mesma espécie de liberdade que a de dois
homens
lutando dentro do cárcere. Dizia um ao outro: “Quero que você saiba que
sou aqui
tão livre quanto você.” Esta nova espécie de liberdade é muito
semelhante à
liberdade dos cucos nos relógios de cuco. Quando chega a vez do povo
votar 100
por cento seguindo o Ditador, o mecanismo de um exército, o terror, a
propaganda
e o temor das expurgações, põem o eleitorado em ação, tal como o
mecanismo do
relógio põe o cuco em ação na hora fixada.
Esse conceito de liberdade é também falso, porquanto coloca a liberdade
na
coletividade e não no homem, e identifica a liberdade com aquilo que os
homens
fazem e não com aquilo que o homem é. Torna-se então a liberdade um
tributo do
Estado e não do homem; nessa teoria o composto é que é livre, não os
componentes. Cada pessoa é como a engrenagem de uma máquina, cuja
função é
inteiramente determinada pelo maquinista do Estado ou pelo ditador. Um
homem
na Rússia ou na Alemanha não tem mais liberdade de escolha que o êmbolo
na
máquina. Será livre enquanto agir como o êmbolo, mas se se afirmar que
o homem
é mais do que um êmbolo, e que é livre de se recusar a ser um êmbolo no
mecanismo do Estado, será banido como um demolidor. O termo “demolidor”
é
significativo, pois o próprio fato de ser alguém chamado demolidor, é
por si mesmo
revelador de que o Estado é apenas uma máquina e não um corpo moral
formado
de seres humanos, dotado cada qual de direitos inalienáveis, dos quais
o mais
precioso é a liberdade.
Dois erros devem então ser evitados: um que esquece a finalidade da
liberdade, e
outro que pretende que a liberdade reside apenas na coletividade, e não
no homem.
Se evitarmos essas duas posições extremas, a de um liberalismo
moribundo e a de
uma crescente ditadura, chegaremos à mais positiva e exata idéia de
liberdade, a
que evita os dois erros apontados: a Liberdade não é o direito de fazer
o que me
pareça, nem é a necessidade de fazer o que quer que o ditador me
imponha: ao
contrário, a liberdade é o direito de fazer o que eu devo. Nessas três
expressões
“querer”, “ser necessariamente” e “dever” estão contidas as três opções
que se
oferecem ao mundo moderno. Das três escolhemos “dever”.
Essa pequenina palavra “dever” significa que o homem é livre. O fogo é
necessariamente quente, o gelo é necessariamente frio, mas o homem deve
ser
bom. “Dever” implica moralidade, isto é, um poder moral distinto do
poder físico. A
liberdade não é o poder de fazer qualquer coisa que se queira, tão
freqüentemente
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enunciado pelo moço moderno nestas palavras: “Posso fazer isso, se
quiser, não
posso? Quem me Impedirá?” Certamente você pode fazer qualquer coisa que
lhe
agrade ou queira. Pode roubar o seu vizinho, pode bater na sua mulher,
pode
encher colchões com giletes usadas, e também matar a tiros de
metralhadoras as
galinhas do vizinho, mas você não deve fazer nada disso porque dever
implica
moralidade, direitos e obrigações.
A liberdade é, pois, mais um poder moral do que um poder físico, um
“dever” e não
um “poder”. Além do mais, “dever” está intrinsecamente relacionado com
uma
finalidade. Quando digo “devo comer a minha comida”, há uma
inconfundível
relação entre comida e saúde. Quando digo “devo estudar”, a palavra
“devo”
envolve a finalidade do estudo, qual seja a aquisição do conhecimento.
Há milhares
de pequeninos “devos” em todas as vidas, cada um dos quais é
inseparável de um
objetivo, de um propósito ou finalidade, por exemplo: “devo pagar
minhas contas”,
“devo ser bom”. A razão está constantemente erguendo pequeninos alvos
de
“devos”, ou finalidades, e a vontade, qual flecha, tenta atingi-los.
Debaixo de todos
os pequeninos “devos” da vida, há um supremo “devo”, qual seja “devo
alcançar o
fim para que fui criado”. Atrás de todas as finalidades há uma grande
finalidade,
dada em resposta à pergunta: “Por que existo?” É pergunta que muito
poucos se
fazem. Não guardariam em casa por cinco minutos um traste de dez
centavos sem
indagar de sua finalidade, mas seguirão pela vida a fora sem sequer
saberem por
que vivem. Enquanto não respondermos a essa pergunta, nenhuma outra há
que
mereça resposta; e o modo como respondermos a ela determinará o rumo de
nossa
vida neste mundo e o nosso destino no outro.
Por que fui criado? Que devo fazer de minha vida? Suponhamos que se
faça parar
um certo número de homens na rua e que se lhes proponha tal pergunta,
qual seria
a resposta? Diria um provavelmente: “para constituir família”; outro:
“para ficar
rico”; um outro ainda: “para ser uma pessoa educada”. Mas tais resposta
são
apenas parciais. A resposta óbvia será: “o homem quer ser feliz”, e
constituir
família, fazer fortuna, ou receber educação são para ele modos de
conceber a
felicidade. No fundo, ele quer a vida, quer a verdade, quer o amor. Não
quer a vida
apenas por trinta minutos, mas para sempre; não quer conhecer apenas as
verdades da geografia, mas a verdade toda; não quer um amor que morre,
mas um
Amor extático, belo e eterno. Daí o ridículo dos casamentos modernos
com seus
divórcios: “Quero amar-te durante 2 anos e 8 meses.” O mundo não nos dá
essa
felicidade, pois quando o homem tiver sua família constituída abominará
ter de
deixá-la; quando tiver empilhado seus dólares, quererá uma pilha ainda
maior;
quando completar sua educação, começará a sentir orgulho do que sabe e
assim
resvalará na mais profunda ignorância. Visto que a felicidade do Amor,
da Verdade
e da Vida eterna não pode ser alcançada aqui na terra, segue-se que teremos
de
alcançá-la depois desta vida, pois se não houvesse alimentos não
haveria estômago;
se não houvesse coisa para ver, não haveria olhos; e se não houvesse o
Perfeito-
Amor, a Perfeita-Vida e a Perfeita-Verdade, não haveria espírito, nem
vontade,
nem coração almejado e lutando por eles. E assim a razão sugere ao
homem sua
finalidade, que se identifica com a resposta da Revelação. O melhor
modo de
descobrir para que foi feita uma coisa é recorrer ao seu criador. “Por
que Deus me
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