Dom Dadeus Grings
Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, RS.
Desde o início, a fé cristã está empenhada em reunir seus
fiéis em comunidades. São Lucas descreve a condição dos primeiros cristãos como
perseverantes na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do
pão e nas orações (At 2,42). Chega a dizer que "a multidão dos fiéis era
um só coração e uma só alma" (At 4,32).
As comunidades cristãs caracterizam-se por três notas
fundamentais: reúne-as a mesma fé, o mesmo culto e igual caridade. A dimensão
da fé recebe o aval dos grandes sábios e dos Concílios, que a explicitam para
cada época e definem, com precisão, seu conteúdo. A dimensão do culto é
amplamente elaborada pela liturgia, que reúne, em belas e piedosas celebrações,
os fiéis; e a dimensão da caridade organiza-se num estupendo atendimento
humano, a ponto de se poder dizer, com S. Lucas, que entre eles não havia
necessitados (Lc 4,34).
A teologia da comunidade cristã, resultante da concepção
da Igreja, Corpo Místico de Cristo, recebeu amplo incentivo, principalmente no
século XX. No Brasil tentou-se algo novo neste campo, com a criação das
Comunidades Eclesiais de Base, como concretização do Evangelho e da vida
cristã. Foram apresentadas como o novo jeito de ser Igreja.
Se a necessidade de calcar a unidade da Igreja e firmar
sua vivência comunitária é indispensável para a profissão da fé, ela certamente
não é suficiente. Uma comunidade, que se fechasse totalmente sobre si mesma,
não seria católica. Por isso, nem autêntica expressão da fé cristã. Não poderia
celebrar o culto de Cristo. Nem seria expressão da caridade cristã. O Concílio
Vaticano II nos garante que a Igreja é essencialmente missionária. Foi criada e
existe para evangelizar. É o Corpo de Cristo que deve crescer na dimensão do
mundo.
Os Atos dos Apóstolos dão-nos o modelo da Igreja, que saiu
do Cenáculo de Jerusalém, na manhã de Pentecostes, e se estende até os confins
do mundo. Os Apóstolos são constituídos testemunhas da ressurreição do Senhor e
enviados a fazer discípulos todos os povos.
No episódio dos discípulos de Emaús, Lucas aponta o método
e a meta. Jesus, ao ser reconhecido pelos dois peregrinos de Jerusalém, quando
lhes parte o pão, desapareceu de sua vista. Já lhes tinha explicado as
Escrituras e se revelado vivo e ressuscitado. Se Ele ficasse mais tempo com
eles, não há dúvida, que não arredariam pé do lugar. Estar com Ele é o desejo
supremo e definitivo. Mas, desaparecendo de seus olhos, eles se sentiram
impelidos a anunciá-lo aos outros: correram pressurosos para Jerusalém.
Tornaram-se missionários. Sentiram a necessidade de surpreender os demais
discípulos com esta notícia: Ele está vivo! Estamos salvos! (Lc 24,13 ss).
Mas a Igreja não é feita de discípulos isolados. Lucas nos
dá o modelo na comunidade de Antioquia, para nos fazer entender a natureza de
todas as comunidades cristãs. Afinal, ali os discípulos começaram a ser
chamados cristãos (At 1 l; 26).
Após descrever a organização dessa comunidade, na qual
havia profetas e doutores, refere que, durante o culto, o Espírito Santo pediu
que "lhe fossem separados Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho
destinado". Os dois não partem por iniciativa própria, mas por vocação do
Espírito e enviados pela Comunidade, à qual, depois, voltarão para a prestação
de contas da missão (At 13, 2).
Uma comunidade que se fecha sobre si mesma, na qual não
nascem vocações sacerdotais, religiosas e missionárias, não é cristã. Não está
evangelizada. Ou invertendo, na medida em que, dentro da comunidade, brotarem
vocações para o ministério e para as missões além de suas fronteiras, ela
própria vai aprofundando sua fé, tornando mais frutuoso seu culto e crescendo
em unidade e caridade. Sua convivência cristã adquire nova feição e ela se
sente realizada, pela total participação na plenitude da graça e da verdade de
Cristo. Universalizando-se, a Comunidade se torna não só mais católica, mas
também mais una e santa. Por meio de cada membro que dela sai para as missões,
Deus lhe concede dez novas e autênticas lideranças, que a irão renovar
constantemente.
Porto Alegre assumiu, como Igreja-Irmã, a prelazia do
Xingu. Nosso empenho missionário pela Amazônia se concretiza ali com o envio de
missionários, de recursos financeiros e de orações.