PARA UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA
QUESTÕES DE ENSINO SOCIAL DA IGREJA...

+ Aldo di. Cillo Pagotto, sss
Bispo Diocesano de Sobral
Presidente da Comissão Episcopal para o
Serviço da Caridade, Justiça e Paz / CNBB

 

Em conformidade com o Projeto Nacional de Evangelização: Queremos Ver Jesus – Caminho, Verdade e Vida, a Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz foi encarregada de ilustrar alguns enfoques sobre o Ensino Social da Igreja.

Nosso objetivo é oferecer algum instrumento para a formação das lideranças cristãs, atuantes nas diversas realidades. Pensamos em artigos, com alguns marcos situacionais, doutrinais e operacionais. O intuito é de levar, através de lideranças, a presença da Igreja junto à sociedade, como uma força de conversão ao Evangelho e de compromisso com as transformações sociais.


De fato, o processo de Evangelização incide na estruturação da pessoa e da sociedade. Implica em atitudes fundamentais e em atividades transformadoras. ‘O que é a alma para o corpo, assim é a presença dos cristãos na sociedade’ - dizia Orígenes.


Na encíclica sobre a Solicitude Social da Igreja’ [Cf n. 41] SS. o Papa João Paulo II esclarece que “... o Ensino Social da Igreja não é uma espécie de terceira via entre o capitalismo liberalista e o coletivismo marxista. Nem é uma alternativa entre soluções menos radicais mas contrapostas, nem uma ideologia. Constitui-se como uma categoria, uma formulação acurada de reflexões à luz da Fé e da Tradição eclesial, resultado de reflexões sobre as realidades complexas da existência humana, na sociedade e no contexto internacional. O ESI visa orientar o comportamento cristão. Sua função principal é interpelar as realidades, examinar sua conformidade e desconformidade com os ensinamentos do Evangelho em relação ao homem, sua vocação temporal e transcendente.”


Nossas lideranças cristãs carecem de uma formação doutrinal acompanhada de habilidades práticas, de modo que ofereçam uma presença segura e atuante nas diversas realidades. Lideranças dos movimentos sociais podem ser enriquecidas com os referenciais do Ensino Social da Igreja, perscrutando os princípios e fundamentos dos valores humanos e evangélicos que garantem a organização da sociedade solidária e fraterna.


Essas lideranças tentam mobilizar os segmentos sociais, expressando suas reivindicações. Querem colaborar com a Igreja e pedem a presença da Igreja na defesa e na promoção dos Direitos Humanos. Outras, respeitam e contam com a Igreja em suas diversas iniciativas. Outrossim, interpelam o discernimento da Igreja sobre a organização e metodologia mais adequada para conquistar direitos e para cumprir os deveres da concidadania.


À Igreja não compete formular soluções técnicas para os diversos e variáveis contextos sociais, nos quais se encarnam os conflitos sociais, os problemas da vida das pessoas e da sociedade, em níveis diversos e de difícil resolubilidade. Nem a Igreja teria resposta automática e imediata para os imensos dramas que afligem a humanidade. Sobretudo porque, para enfrentar as contradições da sociedade, há soluções que obedecem a um processo de superação de conflitos e estão sempre vinculadas ao poder econômico e político.


A missão da Igreja é apresentar os princípios éticos e morais impregnados de um sadio espírito humanitário, alicerçados nos fundamentos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse princípio e fundamento, a Igreja propõe alguns encaminhamentos de questões candentes, oferecendo a sua presença dialogante e serviçal, testemunhando e anunciando os valores perenes da solidariedade e da subsidiariedade, dos direitos e dos deveres que exigem respostas importando em amor, reconciliação, compromisso, reciprocidade, altruísmo.


A postura cristã leva-nos à vivência dos valores humanitários que se concretizam nos nossos relacionamentos familiares e sociais. (Não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e na verdade. Cf. 1 Jo 3,18). Tal prática postula a nossa participação efetiva como filhos e filhas de Deus nos canais abertos para a inclusão social. Por exemplo, nos diversos conselhos paritários, nas diferentes áreas das quais a sociedade se constitui, apresentando políticas públicas adequadas, orçamento participativo destinando-se a prioridades essenciais como na área da Saúde, Educação, geração de ocupação e renda e por aí a fora.


O Ensino Social da Igreja orienta-se por diretrizes éticas, cuja prática pode perpassar qualquer sistema de organização social. Apresenta possibilidades sugestivas que orientam a cidadania com compromissos de responsabilidade na inclusão social. Leva-nos a assumir junto aos canais participativos, influenciando construtivamente os que têm poder para decidir políticas públicas indispensáveis, atendendo as demandas da população.


O desafio para construir uma sociedade solidária apresenta-se diante de todos nós, cristãos. As necessidades interpelam a nossa sensibilidade cristã. Pedem a nossa colaboração na superação das contradições do crescimento econômico, tecnológico, cultural, contra a miséria, a fome, a exclusão.


A 8ª Comissão apresentará ao longo dos anos do PNE três subsídios, abordando temáticas de interesse para enfrentarmos os desafios, formando lideranças. A partir de Setembro próximo, apresentaremos um primeiro núcleo de questões: Fé e Política; Dignidade da pessoa: Cidadania e Comunidade; Estado e suas funções; Cultura e Religiões; Comunidade de Nações; Ecologia; Reformas políticas.