Quem é Jesus
Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador
“Certo dia, Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam
com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Que dizem o povo que eu sou?” Eles
responderam: Uns dizem que és João Batista; outros que és Elias; mas outros
acham que és algum dos profeta que ressuscitou” Mas Jesus perguntou: “E vós
quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: “O Cristo de Deus” (Lucas 9,18-24).
A resposta de Pedro supera em qualidade as
respostas do povo. Estes viam o lado humano sem terem penetrado em profundidade
o mistério daquele homem Jesus de Nazaré. Dizer que Jesus é “O Cristo de Deus”
é diferente; significa afirmar que Jesus é absolutamente único. Os profetas são
muitos. O Messias é um só.
Cristo é a tradução grega do aramaico Mashiah,
Messias, que significa “ungido”, “consagrado”. Na Bíblia, as pessoas escolhidas
para seram reis, sacerdotes e profetas recebiam a investidura mediante o sinal
de um óleo perfumado derramado sobre suas cabeças. Sempre mais claramente,
porém, a Bíblia fala de um “Ungido” especial que aparecerá no final dos tempos
para instaurar o reino de Deus sobre a terra. É portanto um momento fatídico
aquele em que , pela primeira vez alguém reconhece que Jesus, o filho do
carpinteiro de Nazaré, é ele o Messias esperado há séculos.
Jesus até ficou admirado com a resposta de Pedro e ordenou aos apóstolos de não
referir isso a ninguém. Assim fala para não desanimar a ninguém, fora dos apóstolos,
que esperassem um Messias cheio de poderes temporais. E acrescenta:
“O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos
sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.
Assim explicando Jesus não desmente os profetas;
apenas desmente o povo que deseja um Messias que sacuda o jugo do império
romano. Jesus associa a figura do Messias à do servo sofredor de Isaias, o
Messias é alguém que dá a vida em resgate pelos outros, que vence com humildade,
mansidão e amor.
A história recente nos ajuda a compreender quanto
uma idéia deformada do Messias, destacada de suas autênticas raízes
evangélicas, resiste a desaparecer e quanto mal possa fazer. Nos últimos
séculos houve uma sequência de messianismos de tipo político e étnico.
O messianismo é uma crença em um movimento
revolucionário do futuro. Assim foi o comunismo crendo que o operariado
abateria a burguesia, para instaurar um reino de igualdade e de justiça. Assim
foi o nazismo que acreditou que Hitler devia guiar a raça ariana “eleita” para
dominar sobre todos.
A própria ciência pode dar lugar a um messianismo
quando promete um tempo em que, sozinha, dará resposta a todos os problemas do
homem. Até a literatura e os espetáculos levam as crianças e os adolescentes a
um mundo com super-homens. A violência é o ingrediente de fundo que não falta
jamais.
Mas Jesus não é um super-homem com uma arma secreta
mais poderosa do que a dos adversários que poderá usar no último momento. A
força de Jesus reside no interior da sua pessoa e não na arma em que se apoia.
A Jesus basta um olhar e uma palavra para fazer cair por terra diante de si os
seus inimigos, como quando procurávam-no para prendê-lo, disse: “Sou eu” e eles
retrocederam e caíram por terra (cf. Jo 18, 7). Quem não desejaria uma força
como essa? E o que é o mais importante: a vitória de Jesus não consiste em
anular os inimigos ou ridicularizá-los, mas em os mudar e torná-los bons.
O conhecimento de Cristo pode constituir um
antídoto precioso à idealização da força a que se submetem os adolescentes. O
conhecimento de Jesus os ajuda a compreender que existe um outro tipo de força
muito mais raro e digno de admiração. Existe a força imprevisível do amor que
vem de Deus.
O apóstolo Paulo afirma que Jesus fez todos nós
indistintamente filhos de Deus. Ninguém deve sentir-se superior ou inferior
porque é branco ou negro, homem ou mulher porque é de uma classe superior ou
inferior. Graças a Cristo Jesus, tornamo-nos “uma só coisa”. A fé nele nos
ajuda a realizar a solidariedade entre os homens, a amizade entre os povos. O
respeito recíproco faz da humanidade uma só família.