Novo Projeto Nacional de Evangelização da CNBB
(Entrevista com D. Odilo Pedro Scherer)
28/10/2003

 

O Secretário-Geral da CNBB, dom Odilo Pedro Scherer, nesta entrevista, fala do novo Projeto de Evangelização da Igreja, a partir das Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2003-2006). O Projeto, que se intitula “Queremos ver Jesus Caminho, Verdade e Vida” (Jo 12,21b;14,6), passa a ser implantado após a Páscoa do próximo ano.

- A CNBB elaborou, nos últimos anos, dois “projetos nacionais de evangelização”: “Rumo ao Novo Milênio”(1999-2000), em preparação ao Grande Jubileu do ano 2000, e “Ser Igreja no Novo Milênio” (2001-2003), após o Jubileu. A nova gestão da CNBB pretende lançar um novo “projeto”?
R. O Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP) já estudou e definiu as linhas principais de um novo projeto nacional de evangelização, que é lançado no final de outubro, durante a reunião do Conselho Permanente.

- Que sentido tem um “projeto de evangelização” na Igreja?
R. Por um lado, falar em “projeto”, poderia parecer restritivo, pois a Igreja deve colocar em prática a proposta do Evangelho de Jesus no seu todo; poderia parecer também que a Igreja não tem já um “projeto” de ação... De fato, não é isso: um projeto de evangelização, sem deixar de atender à globalidade da missão, ajuda a concentrar os esforços para responder melhor às necessidades e urgências do momento. E no Brasil temos várias situações que desafiam fortemente a missão evangelizadora da Igreja: a experiência da fé e da vida eclesial pouco profunda deixa os batizados com uma identidade cristã e católica muito fraca e com um escasso sentido de pertença à Igreja; e disso decorre, entre outras coisas, o escasso impulso missionário e o empenho cristão na transformação da sociedade não suficientemente assumido; decorre também o fácil abandono da fé ou a busca, em outras partes, de respostas às profundas interrogações existenciais e religiosas, desconhecendo e deixando de procurá-las na própria comunidade católica. É necessária uma ação missionária mais incisiva, organizada e constante; e o projeto de evangelização pode contribuir para alcançar isso.

- Em que consiste o “novo” do projeto a ser lançado?
R. O projeto procurará traduzir na prática as grandes linhas das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora aprovadas na Assembléia Geral da CNBB em maio de 2003. No seu centro estão os conceitos “evangelizar” e “proclamar a boa nova de Jesus Cristo”. A fé e a atitude cristã nascem do encontro vital com a pessoa de Jesus Cristo, caminho, verdade e vida: ele é “a boa notícia” de Deus para a pessoa, a comunidade e a sociedade; nele vemos espelhado o rosto de Deus e ele nos revela o coração do Pai; por ele recebemos o Espírito de Deus, que nos torna capazes de traduzir em “vida nova” nossa fé, já neste mundo. Nossa evangelização, antes de propor uma “doutrina”, precisa ajudar as pessoas a terem este encontro pessoal com Cristo, mediante o anúncio do querigma do Evangelho; a doutrina, a proposta moral e a orientação da vida inteira “no caminho” de Jesus decorrem desse encontro e da aceitação da pessoa de Jesus, como o “Enviado de Deus, cheio do Espírito Santo”, para a vida do mundo.

- Quer dizer que o projeto estará voltado para os que já são cristãos e participam da vida da Igreja?
R. Será, prioritariamente, uma proposta missionária, voltada para atingir os que não participam da vida eclesial. Não podemos ficar indiferentes diante dos muitos batizados, que nunca foram “incluídos” devidamente na vida cristã e eclesial. Mas quem deverá fazer isto? Certamente isto é esperado daqueles que participam de nossas comunidades. A eles, em primeiro lugar, será proposto um novo e aprofundado encontro com Jesus Cristo, para descobrirem a alegria de crer e de pertencer à Igreja, e para sentirem o desejo de contagiar outros com a própria fé.

- Como fazer com que cada católico se sinta um missionário?
R. “Ninguém dá o que não tem”... Para se ter o missionário e o apóstolo, é preciso formar antes o cristão e o discípulo. Se pretendemos que todos os batizados sejam apóstolos e abracem a proposta do evangelho na vida pessoal e a tornem presente e operante nas estruturas da vida social, precisamos ajudar os cristãos a terem uma experiência profunda, alegre e convicta de Deus, através de Jesus Cristo, e também da vida eclesial; se queremos os frutos da fé, precisamos alimentar a vida cristã. E isto faz parte do projeto de evangelização.

- As Diretrizes falam, na sua primeira parte, daquilo que é permanente na vida eclesial: o anúncio da Palavra, a liturgia (sacramentos, especialmente a Eucaristia) e a caridade: de que maneira isto entra no novo projeto?
R. Um projeto de evangelização não pretende, nem poderia parar a vida eclesial; aquilo que é permanente, continua; mas também aí pode ser colocado um novo “acento” e um novo enfoque, de maneira que o “ordinário” da vida cristã e eclesial, experimentado em profundidade e de maneira renovada, manifeste a profundidade e a alegria serena e contagiante da fé, levando ao impulso missionário. O quotidiano da vida eclesial atinge, normalmente, os batizados que freqüentam nossas comunidades e se destina a alimentar neles a fé e a esperança, e a animá-los na caridade. É necessário que o encontro com a Palavra de Deus, a celebração dos mistérios da fé nos sacramentos e a prática da caridade evangélica sejam vitais e tragam forte motivação para os que crêem, para continuarem crendo, e para aprofundarem a comunhão com Deus e com os irmãos. Mas não podemos nos contentar com os que já freqüentam nossas comunidades: se perdemos a dimensão missionária concreta e efetiva, a Igreja vai se empobrecendo e perdendo vitalidade.

- O novo projeto deixará de lado a preocupação social, tão característica da Igreja no Brasil, para concentrar-se somente sobre sua vida interna?
R. Não, certamente. A presença da Igreja nas muitas realidades do mundo e da vida social faz parte essencial de sua missão; os discípulos de Cristo são enviados para serem “fermento, sal e luz” do Evangelho no mundo; da mesma forma, a atuação da Igreja em favor da pessoa, de maneira muito especial em relação aos pobres e necessitados de todos os tipos, é parte da missão da Igreja, à imitação daquilo que fazia Jesus Cristo. De fato, a CNBB deseja que a presença da Igreja no mundo pudesse aprofundar-se e ampliar-se ainda mais, segundo as orientações da doutrina social do Magistério; por isso quer propor, de maneira renovada, os fundamentos e os motivos evangélicos desta atuação cristã na sociedade, para que nela apareçam sempre mais os sinais do reino de Deus, que é vida plena para todas as pessoas.

- Quais são os eixos centrais do projeto?
R. Ao longo dos próximos anos, o projeto prevê a promoção da verdadeira identidade e dignidade da pessoa humana, a renovação da comunidade nos níveis básicos da convivência humana e a construção da sociedade solidária: isso tudo mediante o encontro com Jesus Cristo e sua Palavra. Para cada ano haverá uma frase do Evangelho, como lema; ao mesmo tempo, haverá a indicação de ações e programas – já sugeridos nas Diretrizes -, e que poderão ser implementados a cada ano.

- O projeto prevê a produção de subsídios para ajudar a colocá-lo em prática?
R. Haverá diversos subsídios, como roteiros homiléticos e de reflexão para grupos de base e círculos bíblicos; também será oferecido um subsídio para a preparação de missionários populares e uma espécie de “livro do católico”, com os elementos essenciais da fé, da mística e da moral, incluindo a moral social, onde os católicos poderão ver refletida sua identidade e encontrar as principais indicações sobre a vida cristã e eclesial. Prevê-se também uma pesquisa para conhecer melhor as relações entre os católicos e a sua Igreja, com especial destaque para os que dela participam pouco, ou até deixaram de participar dela; o resultado da pesquisa poderá ser muito iluminador para o trabalho missionário a ser posto em prática.

- Quem são os responsáveis pela elaboração do projeto de evangelização?
R. O projeto está na responsabilidade do Conselho Episcopal Pastoral, que inclui a Presidência da CNBB e os Presidentes das 10 Comissões Episcopais Pastorais.

- De que maneira a CNBB espera atingir os objetivos do projeto?
R. A CNBB propõe o projeto para todas as dioceses do Brasil e oferecerá a supervisão e a assessoria necessárias. O êxito do projeto dependerá de uma profunda motivação a ser despertada nos católicos; por isso, a CNBB espera que se possa colocar em prática aquilo que o Papa pediu na Carta Apostólica “Novo Millennio Ineunte”: que cada católico se sinta um missionário; que cada comunidade da Igreja seja orientada para uma nova missionariedade