SOLENIDADE DE PENTECOSTES (Jo 20, 19-23)
COMENTÁRIOS
(Pe.
Ignácio, dos padres escolápios)
EXEGESE: A
exegese deste evangelho pode ser vista na primeira parte da Dominica
in Albis deste mesmo ano, do dia 30 de março. Vamos
repetir as explicações dadas no artigo. Por outra parte faremos alguns
comentários, próprios do tempo, chamado pascal que sirvam tanto para entender
os evangelhos como para a vida espiritual dos leitores dos mesmos. Não
precisamos a repetição das traduções dos versículos, já efetuados no texto
citado anteriormente.
JESUS APARECE AOS DISCÍPULOS
OS LUGARES PARALELOS: Temos,
além do relato de João, outros dois paralelos, muito mais breves, como
corresponde a um resumo auricular e não a um testemunho ocular. São Marcos 16,
14-18 e Lucas 24, 36-49. Contrastaremos todos eles para determinar o grau de
historicidade e o valor teológico das afirmações, como catequistas bíblicos.
TEMPO: João é o mais detalhado neste
respeito: estando pois, aquele dia perto
do fim [opsies], o primeiro da semana. Comparado com o relato de Lucas anterior ao
sucesso de João, que este não narra, da aparição aos dois de Emaús, parece que temos uma pequena contradição de tempo.
Os dois pedem a Jesus que fique, pois está na tarde e o dia já há declinado
[temos traduzido literalmente]. Como pode dizer João que depois de uma
caminhada de sessenta estádios, aproximadamente 9 mil
metros, ou duas horas de caminho, ainda era a tarde do dia? Vamos explicar esta
aparente contradição. A tarde começava às quinze horas. Era este também o tempo
em que se iniciavam as jantas. O dia, na primavera palestina, termina entre
17:30 e 18 horas. Caso estejamos, segundo Lucas, no início das 16 horas teremos
mais duas horas de volta e os dois discípulos estariam com os
doze às 18 horas, precisamente o fim do dia como afirma João.
OS
DISCÍPULOS: Além dos doze [melhor onze, porque Judas estava morto]
estavam os dois de Emaús e provavelmente mais, dentre
os que logo nos Atos se dirá eram cento e vinte. Dentre os
onze, faltava Tomé o chamado Dídimo. Tanto
Tomé como Dídimo significam o mesmo: gêmeo. Como diz
Lucas estavam reunidos os onze (!) e seus
companheiros, comentando uma aparição a Pedro [Simão] (Lc
24, 33-34) que João não narra, porque ele não foi testemunha do fato. Temos uma
falha de informação em Lucas, porque não sendo ele testemunha, narra na
totalidade, os onze, quando na verdade faltava um:
Tomás. Também vemos como em Marcos existe uma narração formal e genérica,
quando resume todas as aparições, afirmando
finalmente, que apareceu aos onze quando estavam à mesa e censurou-lhes a
incredulidade e dureza de coração, porque não haviam dado crédito aos que o
tinham visto ressuscitado (34, 14). Vemos que esta última afirmação
é só em parte verdadeira, como constatamos em Lucas 24, 34. Esta falta de
detalhes indica claramente que eles tratam o assunto na sua generalidade, como
um fato que transcende a história e forma parte da tradição. Não assim em João,
onde hora, lugar e circunstâncias permitem conhecer o que uma testemunha viu e
ouviu. Por isso temos dois detalhes importantes: o medo aos judeus
[propriamente jerosolimitanos] e as portas fechadas,
ou melhor trancadas.
JESUS
VEIO: É desta forma como aparece, para estar na frente de
todos, a figura do ressuscitado. Nada de ruídos, de resplendor, de experiências
impressionantes. Como entra a luz quando uma janela é aberta, assim o corpo de
Jesus entrou e se colocou no meio deles (19).
A PAZ: A figura
na frente deles não é uma estátua; fala e comerá logo, para demonstrar que não
é um espírito, uma fantasia, um fantasma. Mas vamos agora estudar suas
palavras. A primeira palavra de Jesus é uma saudação que, podemos dizer, entra
dentro do costume ambiental: PAZ. A palavra hebraica Shalom,
da qual a grega Eirene e a latina Pax
são tradução, significa evidentemente ausência de guerra e vida tranqüila (Lc 14, 32); mas também significa bênção, glória, riqueza,
descanso, bem-estar, saúde física, esperança de êxito, justiça, salvação: ou
seja tudo que acostumamos chamar de estado feliz. Especialmente, paz e justiça
aparecem unidas (Mt 5, 9-10). A paz é dom precioso de Deus (1 Cor 1, 3). Daí
que o futuro Messias, Jesus em definitivo, seja antes de tudo um porta-voz da paz e inclusive se
identifique com ela (Rm 5, 1). É o Messias que a comunica
por meio do Espírito, como antecipação da paz definitiva (Rm
14, 7). Se a primeira vez, a palavra pode ter o significado de uma saudação
(19), quando é repetida pela segunda vez tem um significado profundamente
teológico: ela é a base do Espírito que transforma os discípulos em enviados do
Pai, recebendo o principal carisma da nova era: o espírito de reconciliação
que, basicamente, é perdão. Algo novo está ocorrendo; e esse algo novo é um bem
divino: essa profunda e definitiva paz,
que Deus está disposto a partilhar, como doador, com simples seres humanos.
AS
CHAGAS: Jesus mostrou suas chagas: mãos e pés, segundo Lucas (24,
39) ou mãos e lado, segundo João (20, 21). Lucas declara o propósito dessa
prova, como demonstração de que ele era
o mesmo Jesus crucificado que tinha sido depositado no sepulcro e não um
fantasma. Nem a afirmação de Lucas nega a de João, nem esta poderá ser tomada
como contraditória à de Lucas. Máxime que João distingue duas aparições: uma só
para Tomé em que pede que este introduza a mão no lado, daí que o lado era mais
importante para João do que as chagas do pé. Lucas só traz uma aparição, porque
para ele o importante era que Jesus tinha sido visto pelos onze. Isto
explica as diferenças entre os dois. Não
todos os detalhes são importantes mas só aqueles que
do ponto de vista do autor contribuem para demonstrar ou confirmar seu
propósito. Desde este momento, Jesus será o crucificado, ou seja aquele que em
seu corpo apresenta umas feridas que inicialmente foram vergonha e humilhação
mas que desde agora seriam glória e exaltação. O Jesus-homem,
filho de Maria [filho do homem] agora se apresenta como o Cristo-Senhor
verdadeiro filho de Deus [Cristo Deus].
O PERDÃO
DOS PECADOS: A nova missão dada
por Jesus aos discípulos está intimamente unida ao perdão dos pecados. Por isso
Jesus repete de novo Shalom lekem [Eirene ymin grego, ou Pax vobis latino]. Mas esta paz não é uma saudação mas uma
doação, um presente divino que é um perdão pela conduta imprópria dos
discípulos durante os dias de paixão e morte de Jesus. Jesus esquece e perdoa.
Sua paz, que é felicidade e alegria por sua presença viva no meio deles, quer
ser uma reconciliação sem recriminações nem censuras. O perdão é total. O
desejo de Jesus vai além do simples perdão. Jesus pretende dar aos discípulos
um novo ministério: uma função divina, como dom totalmente extraordinário, que
requeria um ato solene, visível e simbólico; ou
seja, uma ação sacramental em que o
homem é instrumento visível da ação interior divina. A missão atual é
totalmente diferente da dada aos doze (Mt 10, 1 +) e aos discípulos (Lc 10, 1+) que unicamente consistia em anunciar a Boa Nova
e testemunhá-la com o poder de curar e a autoridade sobre os demônios. É uma
missão nova que participa da missão fundamental do próprio Jesus, que vamos
estudar na continuação. Jesus não só envia os discípulos, mas também o Paráclito
(Jo 16, 7). E a missão dos discípulos está na mesma
ordem da missão do Paráclito. É pois uma missão muito
importante.
MISSÃO DE
JESUS: Como o Pai me
enviou, dirá Jesus. Com estas palavras Jesus afirma o sentido de sua vida:
Ele é um enviado do Pai, um mensageiro que tem como finalidade o que na
continuação descreve como doação a seus discípulos: o perdão. Que Jesus era
enviado do Pai, temos clara confirmação em Jo 5, 30 e
36. Mas qual foi a missão
fundamental de Jesus? O anjo anuncia um Salvador que será Cristo-Senhor
(Lc 2, 11). No nome da pessoa estava escrita a missão
de sua vida. Por-lhe-ás o nome de Jesus pois ele salvará seu povo de seus pecados
(Mt 1, 21). E o Batista descreve o futuro Messias declarando-o Cordeiro
de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). A
missão de Jesus se cumpre no momento de sua morte quando pode exclamar: está
consumado (Jo 19, 30). Pouco antes, ao ser
elevado na cruz, reclama do Pai o perdão; e o mais admirável é que esse perdão
não é para os amigos mas para os inimigos: Pai, perdoa-lhes porque não sabem
o que fazem (Lc 23, 34). Foi para essa hora [de
paixão] que ele veio (Jo 12, 27). O perdão é
uma amostra de que Deus é Pai e de que a justiça de Deus é clemência
para quem recebe o evangelho como a Boa Nova da graça: O ano de graça do
Senhor (Lc 4, 19 e Is 61, 2). Na última ceia
declara o mistério encerrado na cruz como o sangue a ser derramado em prol
da multidão para o perdão dos pecados (Mt 26, 28) e João, na sua primeira
carta, resumirá esta missão afirmando: o sangue de seu Filho nos limpa de
todo pecado (1 Jo 1, 7).
MISSÃO
DOS DISCÍPULOS: 1) Jesus a identifica com a sua: como o
Pai me enviou, assim eu vos envio (21). Um favor deve ser tomado em sentido
o mais amplo possível, sem restrição, como dizem os letrados em Direito.
Perdoar não é só usar palavras, mas contribuir com ações, unindo-se à sua
paixão para que os novos sofrimentos atuem como causa segunda do perdão, o qual
Paulo já expressava numa frase de difícil interpretação: Em minha carne
estou completando o que falta às tribulações de Cristo, em favor de seu corpo,
que é a Igreja (Cl 1, 24). E como tal corpo de
Cristo, também ele (sendo parte da Igreja) sofre e adquire méritos para a
conversão dos pecadores, como muitos santos sofreram e S. Agostinho confirma em
seus escritos. A Deus só podemos dar o nosso sofrimento de quem entrega sua
vida, perdendo-a como prova do amor (Rm 5, 8). E
nisso consiste precisamente o sacrifício (Ef 5, 2). 2)
Jesus realiza uma ação que relembra pelo verbo usado, a mesma de
Gênesis 2, 7, segundo a Setenta, quando Deus soprou
sobre o barro para dar vida ao corpo inerte. Logo teremos uma vida nova dada
aos discípulos. Até agora Jesus nunca fez gesto semelhante que implicava modo
diferente de ser discípulo. 3) As palavras que explicam a ação de
Jesus formam um só conjunto com a missão e o sopro, que tem como
significado o perdão dos pecados. Aqui não encontramos menção do Evangelho, não
aparece o Reino, não deixa os efeitos salutares aos ouvintes da palavra, mas os
efeitos são dirigidos aos presentes, todos eles alegres
e com viva fé no Senhor: Se perdoais serão os pecados [dos outros] perdoados,
se não os perdoais [os retiveres forçosamente, segundo o grego] não
estarão perdoados. Os hemistíquios finais de cada frase estão na voz
passiva o que significa uma ação direita de Deus. Poderíamos
traduzir livre, mas literalmente, a nova missão apostólica desta forma:
Deus perdoará a quem perdoardes; e Deus não perdoará a quem não perdoardes. O
melhor comentário é o do Beato Isaac della Stella: A
Igreja nada pode perdoar sem Cristo e Cristo nada quer perdoar sem a Igreja. A
Igreja não pode perdoar senão a quem é penitente, isto é, a quem Cristo tocou
com sua graça; e Cristo nada quer considerar como perdoado a quem despreza a
sua Igreja. 4) Por isso, a condição indispensável do
penitente é seu amor por Cristo, segundo as palavras do
próprio Jesus: Eu vim chamar os pecadores ao arrependimento (Lc 5, 32) e seus muitos pecados
lhe são perdoados porque amou muito; mas aquele a quem pouco se perdoa ama
pouco(Lc 7, 47) ou em termos mais ocidentais: A
quem pouco ama, pouco se perdoa.
INTERPRETAÇÃO: Que
podemos dizer desta segunda missão dos discípulos chamados a perdoar os
pecados? ANTES do século XVI
todas as Igrejas admitiam que os apóstolos e seus sucessores tinham o poder
ministerial de perdoar os pecados dos fiéis em nome de Cristo. DEPOIS, com a vinda da Reforma, os evangélicos
afirmam que este poder e este encargo são entregues a todos os discípulos; de
fato a todos os fiéis de todos os tempos (Jo 17, 20)
e não a Pedro em particular (Mt 16, 19) ou a um ordo
sacerdotal (Lc 24, 48). O perdão não é dado por meio
de um poder ministerial causado por uma recepção do Espírito; porém, escutando
o testemunho dos fiéis, os homens acreditarão (seus pecados lhes serão
perdoados) ou se escandalizarão (seus pecados lhes serão retidos). Estas são as
novas afirmações dos chamados evangélicos. A igreja Romana admite como certo
que o poder dado por Cristo de perdoar os pecados se exerce também no Batismo e
na pregação da palavra (Mc 15, 16). Todo sacerdote no
final da leitura do evangelho diz: Pelos vocábulos ditos, sejam perdoados
nossos delitos. O teólogo Bruce Vawter declara que este
dom do Espírito está aqui relacionado explicitamente com o poder outorgado à
Igreja para continuar ostentando o caráter judicial de Cristo, no referente ao
pecado. Mas há algo mais: especialmente, da passagem atual, temos duas definições
dogmáticas que interpretam a Escrituras em sentido histórico ou literal: A
PRIMEIRA definição é do Concílio de Constantinopla (ano 553) proclamando que quando
o Senhor insuflou sobre os apóstolos, estes recebem realmente e não
figurativamente o Espírito Santo. A
SEGUNDA é do Concílio de Trento, declarando anátema do ponto de vista
católico, a interpretação desta passagem como não se referindo à potestade de
perdoar e reter os pecados no sacramento da
penitência, mas somente restringida à autoridade de pregar o evangelho.
LUGARES
PARALELOS: Em primeiro lugar, temos a passagem da confissão de
Pedro: E te darei as chaves do Reino dos Céus: E se alguma coisa ligares
sobre a terra, estará ligada nos céus. E se alguma coisa desatares sobre a
terra estará desatada nos céus (Mt 16, 19). Pedro recebe de Jesus uma
autoridade que é jurídica como chefe do conjunto apostólico. É definitivamente o
poder de admitir ou rejeitar dentro da comunidade, homens e idéias como
fundamentalmente afins ou inimigas às mensagens verdadeiras do evangelho. Uma
outra passagem é: Em verdade vos digo que tudo que por quaisquer motivos
ligares sobre a terra estará ligado no céu. E tudo que por qualquer causa
desligares sobre a terra estará desligado no céu (Mt 18, 18). Trata-se do
mesmo direito de admitir ou rejeitar homens e doutrinas, porque este versículo
é a conclusão de como tratar aquele que não quer se arrepender uma vez que
rejeita a voz da igreja. Nesse caso será tratado como gentio ou publicano. Uma terceira passagem está em Tiago 5, 16: Confessai,
pois, uns aos outros os vossos pecados e orai uns pelos outros para que sejais
curados. O contexto indica que é nos momentos de doença em que o doente
chama os presbíteros da Igreja para ser ungido e a oração da fé salvará o
doente e o Senhor o porá de pé; e se tiver cometido pecados, estes serão
perdoados (15). Uma quarta passagem é encontrada em 1 Jo
9: Se confessarmos os nossos pecados, ele (Deus) é fiel e justo de modo que demita nossos pecados e nos limpe
de todas as maldades. Finalmente, Pedro, à pergunta dos ouvintes,
que devemos fazer, dirá: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados (At 2, 18). Destes
textos deduzimos :1o) Que Cristo realmente
tem poder para entregar sua autoridade como faculdade a ser exercida visível e
externamente sobre os homens . 2o) Que pelo
menos de duas formas desde os tempos apostólicos essa potestade era usada: no
batismo e na doença. Temos, como confirmação, os casos de Ananias (At 5, 1-11)
e do incestuoso de Corinto (1Cor cap 5) em que o pecado é retido e punido.
COMENTÁRIOS
TEMPO
PASCAL: Podemos chamar assim o tempo transcorrido entre a
ressurreição e a ascensão para os discípulos de Jesus. A nota principal desse
tempo é o aspecto das aparições de Jesus. Seu corpo aparece como o de um corpo
revivido muito mais do que o de um ressuscitado. Vamos explicar: O corpo que
Jesus tomou após os três dias [contados do modo judaico] no sepulcro, era como
o corpo de Lázaro: um corpo totalmente humano, como se a morte não tivesse
existido. Por isso podia ser tocado (Lc 24, 39),
podia comer (Lc 24, 43), andava com eles como se
fosse o mesmo Jesus que com eles tinha convivido nos últimos anos. Mas, uma vez efetuada a ascensão, Jesus não
se mostrará do mesmo modo na suas aparições. Um exemplo é a visão de Paulo. Seu
corpo é o próprio de um ressuscitado: um corpo de luz, corpo glorioso (Fp 3, 21) que resulta da
transformação do corpo humilhado ou psíquico, de cuja semente nasce o novo
corpo espiritual (1 Cor 15, 43). Não intentamos aqui uma solução definitiva mas
podemos vislumbrar uma certa solução ao problema de por que atualmente Jesus
aparece como descrevem em Fátima a forma de Maria aparecer aos três pastorinhos.
CARACTERÍSITICAS
DO TEMPO PASCAL: Vamos estudar o tempo pascal dos onze e dos outros
discípulos da época de Jesus. Que aconteceu de importante que sirva para nós
neste século XXI? Neste período de tempo, como diz o Papa Leão Magno, na sua
homilia da Ascensão (séc V), foram revelados aos apóstolos grandes mistérios.
Em primeiro lugar foi proclamada a imortalidade, não apenas da alma, mas também
do corpo. Nesses dias, os apóstolos receberam o Espírito Santo através do
alento vital do Senhor Jesus, que conferiu a eles o poder de perdoar os pecados.
Pedro recebeu o mandato de cuidar do rebanho do Senhor de modo especial. Era o
mesmo Pedro que anteriormente tinha recebido as chaves do Reino, pondo em suas
mãos a autoridade de abrir ou fechar os portões do mesmo. Jesus, nesses dias,
esclareceu as dúvidas sobre a finalidade de seu messiado,
interpretando as Escrituras e, conseqüentemente, dando a estas a força da
palavra divina, como profecias dos eventos salvíficos.
Abriu os olhos dos seus discípulos à luz da fé, contrariamente do modo como o
pecado abriu os olhos de nossos primeiros pais: os olhos dos discípulos foram
abertos para compreender o mistério autêntico da salvação, trazida pela vitória
de Jesus; os de Adão e Eva, para reconhecer a derrota humilhante e vergonhosa
de seu pecado. E quando parecia que nada mais faltava ao ensinamento de Cristo,
na sua despedida, ele deu aos apóstolos dois preceitos novos: O primeiro era o
mandato de serem testemunhas para todos os povos (Lc
24, 48) de modo que as palavras e os escritos dos apóstolos fossem dirigidos
pelo Espírito Santo que iriam receber em plenitude nos próximos dias. O segundo
preceito era de ficar unidos em Jerusalém até que fossem revestidos do poder do
Espírito (Lc 24, 49).
A DÚVIDA:
Como podemos compaginar a recepção do Espírito Santo no domingo da
Páscoa com a infusão do mesmo no dia de Pentecostes? Quando é que
verdadeiramente os apóstolos receberam o Espírito Santo? No alento e sopro de
Jesus sobre eles, ou no vento impetuoso acompanhado das línguas de fogo, no dia
de Pentecostes? A resposta é: em ambos os casos. No primeiro deles, receberam
um poder ministerial; no segundo, um batismo de carismas como dons gratuitos da
graça divina. O poder ministerial é próprio dos homens que chamamos de
ordenados; os carismas, de qualquer fiel independente de sexo ou condição. São as duas faces do Espírito Santo, atuando dentro da Igreja.
De uma maneira contínua, como ministerial, e de maneira esporádica, como dom
extraordinário. O perdão será dado sempre; o fenômeno da xenoglossia foi
circunstancial e pontual desse domingo pentecostal. A palavra de Jesus revestidos
da força [dynamis] do Alto (Lc 24, 49), indica a função do Espírito Divino como vemos
em At 1,8 em que o mesmo autor fala da força [dynamis]
do Espírito Divino, porque sereis batizados [SUBMERGIDOS] no Espírito Divino
não dentro de muitos dias (At 1, 5). Para que essa força especial que
procede do Alto na qual é submergido um ser humano no
Espírito do mesmo Deus? É para ser testemunha de Jesus em toda a terra. Como
escreve o quarto evangelho, o Espírito será enviado para conduzir os discípulos
à verdade plena (Jo 16, 13) Como? Recordando o ensino
de Jesus (Jo 14, 26) e anunciando as coisas
futuras (Jo 16, 13). Sem distorcer o significado
das palavras que acabamos de ouvir, vemos que nem toda a revelação [a verdade]
foi dita por Jesus, principalmente porque agora não podeis suportar
[compreender] (Jo 16, 12). Que deduzimos destas
citações? Que a assistência do Espírito como revelador da verdade, Mestre da
mesma, como foi Jesus no seu tempo, é constante na sua Igreja: permanecerá
convosco para sempre (Jo 14, 16) dirá Jesus.
Podemos deduzir disso que não é um livro escrito num determinado momento, o
único que contém a verdade revelada. O Espírito está vivo na Igreja e deve existir um canal vivo também, para que sua voz seja ouvida através dos tempos. A
Igreja católica fala da Tradição e do Magistério. Por meio deste, se faz de
forma segura e unificada [que todos sejam um de Jo
17, 20], como foi elaborado o Catecismo da Igreja Católica, ou são elaboradas as Encíclicas papais para ensinar algum tema
doutrinal ou moral, condenar erros, informar os fiéis de perigos para a fé,
procedentes de correntes culturais, avivar a devoção. Segundo a Humani Generis do
Papa Pio XII (1950), elas refletem o Magistério Ordinário da Igreja e merecem o
respeito da parte dos fiéis. João Paulo II nos deixou uma herança de 14
Encíclicas, entre elas a Evangelium Vitae e a Veritatis Splendor. Do
Papa atual Deus Charitas est e Spe salvi. O maior número de encíclicas foi
escrito por Pio XI com 41, seguido de Bento XV com 30. A Igreja tem a
autoridade, fundada nas palavras de Jesus e reforçada pela presença do
Espírito, de formular as consequências explícitas ou
implícitas da primitiva revelação, como afirma Marin Sola no seu livro Evolução
Homogenia Del Dogma Católico.
O
ESPÍRITO HOJE: Se ele está como mestre no Magistério, tanto
extraordinário [ex cathedra] como ordinário da
Igreja, onde o encontramos nos fiéis? Todo fiel tem o Espírito e o encontra
principalmente no amor que ele tem no fundo de seu coração. Porque o Espírito é
amor. Por isso, amar Jesus por um
discípulo é a condição para que o Pai o ame e venha habitar nele como morada (Jo 14, 23). O amor é pois, a melhor maneira de saber se o
Espírito está conosco. O amor indicará qual é a verdade entre as muitas opções
e opiniões do momento. Por isso, o atual Papa fala da Caridade da Verdade. A caridade [o amor] é paciente, dirá Paulo em
1 Cor 13, 4. E o Papa atual falará da paciência de Deus e a impaciência do
homem. Diante de muitas confusões modernas sobre infusão do Espírito e batismo
no Espírito acreditamos que a melhor maneira de saber se alguém está imbuído
[batizado] pelo Espírito é ver sua disponibilidade para o amor, ou seja para o
serviço gratuito ao homem. Sabemos que passamos da morte para a vida porque
amamos os irmãos, dirá João em 1, 3 14. E em 4, 12-13: Se nos amarmos
uns aos outros, Deus permanece em nós...Nisto reconhecemos que permanecemos
nele e ele em nós: ele nos deu o seu Espírito. Finalmente, segundo Paulo, o
dom mais perfeito é o amor, sem o qual nenhum outro vale nada, como afirma no
capítulo 13 de sua primeira carta aos de Corinto. Os estabelecimentos de
caridade para a terceira idade e as crianças órfãs dirigidos pela caridade da
Igreja têm duas qualidades insuperáveis do ponto de vista social: cuidam de
seus internos com muito mais amor e com muito menos dinheiro do que fazem as
instituições que podemos chamar laicas.
PISTAS:
1) Como está nossa recepção do sacramento da reconciliação? Se não o precisamos
ou recebemos é porque não pecamos [e o justo peca 7vezes por dia] ou não
sentimos a necessidade de ser perdoados no amor. Talvez sejamos perdoados pela
misericórdia. Ou condenados pela justiça, porque desprezamos, como diz Dante, o
Amor.
2)
Quantos fiéis se sentem aliviados ao receber a absolução
em nome do Senhor por um sacerdote! Deveríamos experimentar esta paz, reflexo
da que Jesus deu a seus discípulos, absolvendo-os do pecado de covardia por
tê-lo abandonado nos momentos da paixão.
3) Que
uso fazemos das encíclicas, tanto sociais como sobre os problemas fundamentais
da vida ou da verdade? Não foram escritas para ouvidos surdos mas para homens
de boa vontade. A voz do Papa é a voz de Cristo ou a voz de um teólogo
ultrapassado e ultra-montano, dentro do agnosticismo e
do relativismo moderno?
4) Muitos
se fixam nos carismas, no dia de hoje e o único que, verdadeiramente, segundo
Paulo, indica a posse do Espírito é o amor. Este distinguirá os verdadeiros
carismas dos falsos. Escutemos João na sua epístola: Quem não ama seu irmão a quem vê, a Deus, a quem não vê, não pode amar
(1Jo 4, 20).
EXEMPLO: SÃO NIL E IOSIF VOTSKI Entre as Lauras
palestinianas [um conjunto de eremitas] e os cenóbios
egípcios que eram propriamente monastérios, a Igreja encerrou seus melhores
homens entre paredes materiais, para afastá-los do mundo, do mundanal ruído que tão precisamente
descreve Fr Luis de Leão.
Séculos mais tarde, uma vez convertida, a Rússia,
nos séculos XII a XIV passou pelos mesmos esquemas monacais. Primeiro foram as covas tipo lauras e logo os
grandes mosteiros, fundados por príncipes ou beatas. É deste tempo a anedota
que nos preocupa. Dizem as histórias, que houve duas classes de mosteiros. Uma
delas fundada por Nil. Sua preocupação era a
perfeição individual, através da pobreza e da ascese, chegando a ocupar o amor
de Deus o lugar do amor a si mesmo. Um outro tipo de mosteiros era o que seguia
a regra de Iosif Voltski.
Sua preocupação não era a perfeição, mas a decência; e a mola que impelia os
monges não era o amor mas o temor, temor a Deus, temor à morte, temor ao
castigo. Por isso, neste tipo de mosteiros a riqueza foi ostensiva e
principesca. Quando alguém lhe disse a Iosif como era
possível tanta riqueza nas mãos dos discípulos de Cristo, ele respondeu: Se aos mosteiros não é licita a posse de
bens, como é possível que um homem digno e nobre queira se tornar monge? Esta
pequena distinção entre um tipo e outro de cenóbio monacal claramente nos
indica porque Nil é santo e Josif
se tornou uma anedota a mais na história eclesiástica. Aquele buscava realmente
o Deus absconditus,
o Deus que está escondido e que só se deixa ver pelos que realmente renunciam a
si mesmos; Iosif pelo contrário buscava uma vida mais
humana no sentido de um maior bem-estar na qual não encontravam mais barreiras
a não ser o temor. Com temor não servimos a Deus mas cuidamos de nós mesmos. Será a doença ou a morte as que nos guiam. Por amor é que
Deus fez as coisas e as remiu, sem se importar dos resultados -por vezes bem
parcos- obtidos. Até não sair de nós mesmos e considerar Deus e o próximo como
nossas regras de conduta, estaremos vivendo na terra como discípulos de Iosif Voltski e não como discípulos de Jesus e companheiros
de S.Nil.
FRASE: Poucas ou nenhuma vez satisfazemos uma ambição que
não seja com prejuízo de um terceiro. (Miguel de Cervantes).