1o Domingo do Advento C

(Pe. Ignácio, dos padres Escolápios)

 

A ESCATOLOGIA DE LUCAS: O discurso escatológico de Lucas se desenvolve no capítulo 21 dos versículos 5 ao 36. Tem paralelos em Mt 24, 1-44 e Mc 13, 1-37. Dizer escatológico não é afirmar em absoluto o fim último, mas o fim de uma era ou época, especialmente da época do AT, substituída por uma outra, o Reino de Jesus, ou Novo Testamento, até que venha depois o fim dos fins, ou seja a escatologia final. Aliás a palavra escatologia não é bíblica e nas Escrituras só encontramos o adjetivo: eskhatos que significa último. Com esta consideração em mente, vamos estudar a perícope de hoje de Lucas. Segundo autores modernos, existe em Lucas (ou podemos pensar assim) após a profecia sobre a destruição de Jerusalém, uma seção à parte, referida ao fim de todas as coisas que comumente chamamos de juízo final, a começar no versículo 24: "Jerusalém será pisada pelos gentios até que se cumpram os tempos das nações". Se realmente os versículos seguintes se referem ao fim do mundo, este versículo indica que devemos contar com um intervalo de tempo considerável e indefinido antes de que aconteça esse fim, pois devem se cumprir os tempos das nações. O discurso pois, que chamamos escatológico, expressa a certeza de Jesus quanto ao seu triunfo final, embora admita dias escuros pela frente. Mais uma coisa devemos ter em conta: a linguagem usada pertence a um estilo bem figurativo, próprio dos profetas do AT, inaugurado por Amós com o Dia de Jahveh, (Yom Jahveh), traduzido ao grego e latim pelo Dia do Senhor. Amós inaugura assim esse estilo que chamamos apocalíptico, em que a imagem predomina sobre a verdade histórica.

O DIA DE JAHVEH: Este dia do Senhor (de Jahvé) aparece por primeira vez em Amós( 760 aC) como manifestação da cólera divina no seu juízo de decisão e separação entre bons e maus. Estes para serem castigados, especialmente os inimigos de Israel, e aqueles para serem salvos como povo escolhido. Será um dia de trevas, não de luz, segundo "Ai daqueles que desejam o dia de Jahveh. Para que vos servirá o dia de Jahveh? Ele será trevas e não luz.(5,18)....Acontecerá naquele dia –oráculo de Jahveh- que eu farei o sol declinar em pleno meio-dia e escurecerei a terra em um dia de luz"(8,9). Esta metáfora do dia de Jahveh, como dia de julgamento ou decisão, é tomada depois por Isaias (740-687 aC). No ano de 689 houve um eclipse total de sol, visto pelo profeta que descreve assim a destruição de Babilônia pelo rei assírio Senaquerib: "Eis que vem o dia de Jahveh implacável, e o trasbordamento de uma ardente cólera que vai reduzir a terra à desolação e dela exterminar os pecadores. As estrelas do céu e as suas constelações não farão mais brilhar a sua luz. Desde o nascer o sol será escuro e a lua não dará mais a sua claridade..... Tornarei os homens mais escassos que o ouro, mais raros que o ouro de Ofir (lugar onde a frota de Salomão buscava ouro e pedras preciosas). Por isso abalarei os céus, e a terra tremerá nas suas bases, sob o furor do Senhor de todo poder, no dia de sua grande cólera"( 13, 9-13). De fato Babilônia foi arrasada e ficou deserta durante dez anos. Também tardiamente Joel (400 aC) usa a metáfora sobre um suposto julgamento feito contra as nações :" ....No vale de Josafá(=Jahveh julga; depois vale dos mortos)me sentarei como juiz para julgar todas as nações em redor....O dia de Jahveh está próximo no Vale da Decisão. Escureceram o sol e a lua e as estrelas perderam seu brilho"( 3, 12-16). Como vemos é um dia de castigo para os inimigos do verdadeiro Israel, mas um triunfo para estes últimos que confiam em Jahveh. No NT João, o Batista, usa a metáfora para definir os novos escolhidos dos tempos messiânicos: A pá que separará pela joeira o trigo do refugo, este para ser queimado no fogo inextinguível (Mt 3,12)

O TEMPLO: Reinava em Judá Manassés (687-642). Eis como descreve o segundo livro dos reis ( 622 aC) o que acontecerá com o rei e o templo: "Neste templo e em Jerusalém elegida por mim entre todas as tribos de Israel, porei meu nome para sempre. Não mais permitirei que os israelitas andem errantes ...de tal forma que façam o que eu lhes ordenei e cumpram a lei que lhes prescreveu meu servo Moisés"(2Re 21,7-8). Porém como Manassés tinha até sacrificado e queimado filhos aos ídolos daí que prossegue: "Eis que faço cair sobre Jerusalém e sobre Judá uma desgraça tal que fará retinir os dois ouvidos de todos os que dela ouvirem falar"(21,12). O oráculo se cumpriu segundo narra 2Cr 33, 6-11, sendo Assíria o instrumento da ira divina, e levando Manassés, amarrado com uma cadeia dupla de bronze a Babilônia, de onde voltou arrependido, retomando seu reinado. Fixemos nossa atenção para dois fatos claros: Primeiro, a promessa divina de não sair do templo caso os israelitas cumpram as ordens e a lei pactuadas no tempo de Moisés. Segundo, o fato de um imenso poder como Assíria ter que levantar o cerco de Jerusalém porque uma peste matou no ano 700 pelas preces de Isaias, o profeta, durante o reinado de Ezequias, 185 mil homens, devido ao anjo de Jahveh, 2 Rs 19, 35. O caso é explicável porque Ezequias mandou secar as fontes de água externas e talvez os poços estivessem contaminados. Como resultado desse fato os judeus acreditaram que o seu Deus lutava pela cidade e que esta seria sempre inexpugnável.

A PARUSIA. É a presença vitoriosa de Jesus, que pode ser vista do ponto de vista teológico ou cronológico, tendo como fundo a revelação que chamamos apocalíptica e como forma as imagens dos profetas para indicar uma ação direta de Deus. O apocalipse como fundo, é o triunfo do bem e da verdade sobre o mal e a mentira, triunfo que só será definitivo na escatologia final. Tomando esta palavra como forma significativa de um estilo não de uma visão final, podemos afirmar que Jesus toma do AT as imagens para descrever duas coisas: o castigo dos rebeldes com a destruição do templo e portanto das leis mosaicas, e o início de um novo reino. As primeiras estão tomadas quase literalmente de Isaias, sendo que Lucas une o mar (no seu abismo está o reino do mal) aos sinais perturbadores dos homens provindos do céu, onde estava escrito o sino da humanidade. O julgamento será para separar nesse dia, antigamente chamado de Jahveh e que agora se transforma no dia do Senhor Jesus, os crentes dos que rejeitaram seu senhorio e se aferraram às práticas tradicionais para o rejeitar, como fizeram fariseus e escribas. Ficariam sem templo, sem lei e sem pátria.Seriam praticamente dizimados a não ser pela abreviação dos dias por causa dos eleitos(Mt 24,22). Um segundo grupo de imagens é tomado de Daniel quando descreve no capítulo VII o quinto reino. "Eis que com as nuvens do céu vinha um como Filho do Homem; ele chegou até o Ancião e o fizeram aproximar-se da sua presença. E lhe foi dada a soberania, glória e realeza: as pessoas de todos os povos, nações e línguas o serviam. Sua soberania é uma soberania eterna, que não passará e sua realeza que jamais será destruída"(Dn 7,13-14). Tanto num caso como no outro, Jesus assume categorias divinas e assim o entenderam os juizes do Sinédrio e por isso decretaram que suas palavras eram blasfêmias(Mt 26, 64-65).

A PROXIMIDADE: Todos esses sinais são indicadores de que o resgate, a libertação para os bons, está próxima. E Jesus o indica, com o exemplo da figueira e outras árvores que prediziam a proximidade do verão. Estavam na semana anterior da Páscoa e eram portanto visíveis os brotos das árvores que eram indicação do estio. Portanto esses indicadores são prenúncio do Reino. Esse reino que Jesus afirmava estar já atuando dentro daquela geração (Lc 17, 21); mas encontrando resistência ou oposição desde sua aparição com João, o Batista(Mt 11,12). Esse impedimento da parte dos judeus que deveriam ser os que o promovessem, acabará com a destruição do templo e a ruína de Jerusalém. Esses fatos estavam próximos, dentro daquela geração, que inicialmente tinha rejeitado formalmente o Reino, matando o fundador.

A VIGÍLIA: A pequena parábola da figueira nos versículos 29-33 está fora do evangelho de hoje porque o que interessa é a preparação do Advento para os fiéis. E esse modo de viver sóbrio e frugal, sem se deixar dominar pelos instintos e preocupações materiais da vida, é o mais conveniente para um cristão, especialmente para quem se converteu do mundo pagão que era um mundo de comida, bebida e excessos sexuais à noite, perseguindo durante o dia o deus dinheiro. Segundo Mateus a preparação é dirigida principalmente aos próprios apóstolos com a parábola do servo prudente. Depois a todos, com as dez virgens e os talentos, para terminar com o juízo final das nações. Essa premonição de Jesus a seus discípulos está clara em Marcos quando diz que o que vos digo, digo-o a todos(13,37). Lucas pede também a oração.

FINALIDADE: Lucas é explícito ao indicar os dois motivos dessa vigília e dessa oração que pretende serem contínuas para que os discípulos estejam preparados para escapar a esses acontecimentos, e em segundo lugar para se mostrar dignos do Filho do Homem ao qual poderão receber de pé como cooperadores que aplaudem e não prostrados em terra como vencidos.

.CONSEQUÊNCIA: Temos visto como Jesus não inventa nada. Suas palavras são um empréstimo das palavras dos profetas que o precederam e que eram destinadas a descrever o dia do Senhor, ou seja um dia em que a justiça premiará os bons e castigará os maus num determinado momento histórico. Esse momento que Jesus prediz era a destruição da nação judia, de sua capital e do templo nos quais estava enraizada a sua religião. Logicamente essa devastação era o início de uma nova era em que Jesus, e não Moisés, seria o novo líder religioso que levaria o povo ao verdadeiro Deus. Esse contraste entre Moisés e Jesus é visto através de uma leitura pausada dos evangelhos, especialmente na transfiguração do monte Tabor. O esplendor da divindade está no corpo de Jesus a quem acompanham os dois representantes da lei: Moisés e Elias.

PISTAS: 1)Reduzir o texto a seus limites próprios não quer dizer que hoje a vigilância e a oração sejam menos necessárias do que eram nos tempos em que os evangelhos foram escritos, ou seja antes do ano setenta da destruição do templo. Isso porque o dia do Senhor está sempre presente na História humana. Devemos distingui-lo da verdadeira Parusia, que é a vinda gloriosa de Jesus no fim da História humana., à qual como diz o catecismo Romano está intimamente unida a ressurreição dos mortos: o último dia, segundo palavras de Jesus em Jo 6,40. Mas o Dia do Senhor, que agora podemos chamar do Dia do Cristo, estará presente em diversos acontecimentos da História. É o dia de triunfo do bem mais do que o dia de castigo do mal.-2) Em que deve consistir essa preparação para tempos escatológicos? O catecismo Romano fala da escatologia como já começada: "são tempos de salvação que começam com a efusão do Espírito Santo e que terminarão com a Volta do Senhor"(2771).Primariamente em reforçar a nossa esperança como diz Paulo(I Ts 1,10). Precisamente o Advento é palavra nascida dessa esperança no triunfo final dos discípulos de Cristo, quando as ovelhas serão separadas dos cabritos(Mt 25, 32) e elas irão para a vida eterna que não significa unicamente vida inextinguível, mas vida plena em gozo e intimidade com o Senhor. Essa vida eterna, segundo comentaristas, já começou nos seus elementos essenciais para os justos que nada tem a purificar-se em seguida depois da morte, como afirma Bento XII. .-3) Todos os elementos e as circunstâncias da Parusia final podem perfeitamente ser aplicados à escatologia das almas, ou seja a escatologia intermediária, a que se estende entre a morte e a ressurreição final. O Advento deve ser uma preparação para essa segunda vinda de Cristo em conformidade com a preparação feita pelos antigos judeus para a sua primeira vinda: com espírito de esperança, sabendo que os que tem respondido ao Amor e Piedade de Deus irão para a vida eterna; porém aqueles que rejeitaram o Cristo até o final(exitu em latim, ou seja saída do corpo, ou morte)serão destinados ao fogo que nunca acabará (Solene Profissão de Fé de Paulo VI, vulgarmente chamada de Credo do Povo de Deus).-4) Segundo Paulo, a melhor preparação, além da oração é tomar em conta nossa salvação e sair da noite e das obras das trevas: folias noturnas (geralmente em honra de Baco)bebedeiras, coitos sexuais, licenciosidade, brigas, disputas. Mais parece que Paulo está descrevendo essas bacanais noturnas juvenis das sextas e sábados que em alguns países são chamadas de "botellón’ ou garrafão. E se revestir de Cristo para abandonar a carne e suas apetências (Rm 13,13-14)

EXEMPLO: Dizem que um velho pároco contava a seguinte anedota: uma simples mulher do povo e um sacerdote se apresentaram ao mesmo tempo, após a morte de ambos, diante de Jesus. A mulher recebeu o veredicto favorável com estas palavras: "Sei quanto é difícil- lhe disse Jesus amavelmente- ser mãe nos dias de hoje. Com cinco filhos, todos amados e cuidados, és uma verdadeira imagem de meu Pai. Não posso te condenar. Teus filhos, especialmente a freira, que hoje tanto me ama, recriminar-me-iam e com razão. Venha, minha cara, a gozar do Reino preparado por meu Pai". O sacerdote estava certo de ser tratado até com maior benignidade que a mulher que o precedeu. Mas Jesus se mostrou um tanto adusto: Pregavas, e recebias aplausos, batizavas e cobravas o estipêndio, celebravas missas e a coleta enchia teus bolsos. Unicamente a visita aos enfermos e as confissões ouvidas estão no prato favorável da balança. É pouco; mas como sempre eu disse que até um copo de água será premiado, te dou um tempo para te purificar e depois humildemente entrarás num reino do qual te serviste e pouco a ele serviste.