II DOMINGO DA PÁSCOA (Jo 20, 19-31)
APARIÇÕES AOS DISCÍPULOS E A TOMÉ
(Pe. Ignácio dos padres escolápios)

 

INTRODUÇÃO: A aparição aos onze e aos outros discípulos tem relatos paralelos, embora não tão detalhados em Lucas e no deuterocanônico de Marcos. Todos coincidem em que esta foi a primeira aparição ao círculo dos onze em que faltava, segundo João, um , Tomé o Dídimo (gêmeo) e em que havia outros discípulos com eles. A aparição a Tomé é relato especial de João com o qual se completam as aparições, vamos chamar de públicas, aos onze em Jerusalém. Os detalhes são, especialmente em João, de máxima importância.

DIA E HORA: Era ao entardecer do domingo, primeiro dia da semana segundo os judeus(19). Há uma dificuldade: os discípulos de Emaús pedem ao desconhecido que fique com eles, porque esta para entardecer e o dia já declinou. E efetivamente a janta já estava à mesa e Jesus abençoa o pão. Como em tão pouco tempo podem eles voltar a Jerusalém e ainda narrar João que era domingo e não segunda feira como devia ser chamado o dia que se iniciava sempre ao entardecer? Para nós não haveria dificuldade porque o dia começa às 24 horas mas para um leitor da época já estaríamos no dia seguinte ou seja segunda feira. Será que abrange algumas horas do novo dia e talvez queira relatar um fato acontecido realmente na segunda feira mas que o enquadra como se fosse uma ação pertencente a horas dominicais, pois o domingo era o dia do Senhor quando João escreveu o evangelho e convinha uma redação convergente com a liturgia do dia? Por outra parte os primitivos cristãos se reuniam para celebrar o dia do Senhor ao entardecer do sábado, após o descanso sabático do domingo (At 20, 7 e 1 Cor 16, 2). A idéia do domingo como dia do Senhor, leva João a preferir entardecer do Domingo a uma redação que comece com terminado o domingo e começando a segunda feira, que seria mais correta do ponto de vista cronológico, mas infeliz como consideração por parte do ritual da ceia do Senhor. Não devemos estranhar semelhantes incorreções que hoje nos parecem pecados históricos mas que na época eram comuns porque a cronologia servia ao rito e à memória e não ao contrário.

PORTAS TRANCADAS: Realmente a tradução mais comum é portas fechadas, mas preferimos trancadas, porque não existiam no tempo de Jesus portas fechadas, como para impedir a entrada de ladrões. João ressalta a circunstância, dando-nos uma pista de como o corpo de Jesus pode atravessar paredes aparentemente impenetráveis. A física moderna concede a probabilidade do fato, ao afirmar que se aumentarmos em zoom os átomos para o tamanho universal de estrelas e astros, a distância entre os mesmos seria a que existe entre os corpos celestes de modo que unicamente uma parte muito pequena dos sólidos está ocupada pelos átomos concentrados em matéria. O resto é espaço ocupado pelas forças energéticas. Jesus veio e se apresentou de pé no meio dos discípulos.

EIRENE: Paz é a tradução da palavra de saudação. É o Shalom lek ou lekim. Uma saudação ou comprimento ou um oferecimento de uma realidade íntima em que há um perdão e uma relação nova que restaura relações rotas e interrompidas de maneira violenta e covarde? Cremos que é este último o que Jesus oferece a seus discípulos, em parte pelo que na continuação relata o evangelista.

AS FERIDAS: Até agora eram dolorosas, agora se transformam em títulos de vitória. João dirá mãos e costado, pois é o único que relatou a ferida do mesmo após a morte. Lucas dirá mãos e pés. Não eram todas mas as principais e mais visíveis. O corpo de Jesus, agora Cristo (Ungido Messias-rei) terá essas feridas como parte de sua vitória. Era uma demonstração de que era o mesmo que sofreu e que eram elas as que lhe deram a nova existência de vitória e conquista. Não era uma demonstração de orgulho mas uma nova mensagem: seria desde agora o crucificado e como tal o deviam venerar seus discípulos.

EIRENE: De novo e antes de dar um novo ensinamento propõe o anúncio final como essência de sua missão: a paz de parte de quem não só se mostra como representante de Deus mas é Deus mesmo na história dos homens. Uma paz que é a quinta essência de sua missão. Reconciliar todos em sua pessoa porque ele tomou sobre si nossos pecados e misérias tornando-se pecado por nós(2 Cor 5, 18 e 21).

O ENVIO: É dado por meio do sopro, o alento, que inclui como em Gênesis 2, 7influindo com ele a vida ou seja o neshamah, o espírito de vida. Agora dará a seus discípulos uma nova forma de vida apostólica, inspirando neles o próprio espírito de missão que tinha recebido do Pai. Por isso os discípulos recebem o mesmo espírito de Jesus, esse que ele recebeu do Pai como missão e o mesmo encargo que constituiu a razão da vida de Jesus: o perdão dos pecados que ele, como Filho do homem, tinha poder de perdoar desde o início(Mt 9, 6). Se antes, no monte, foram escolhidos como discípulos e pregadores da proximidade do Reino(Mc 3,13), agora o sopro de Jesus os transforma em testemunhas e apóstolos com uma nova missão. Por isso não pode ser posto em dúvida o fato dos presentes a esta cena receberem o poder de perdoar os pecados, máxime que Jesus sopra sobre eles para que recebam Espírito Santo (sem artigo, a tradução seria espírito sagrado ou espírito divino.) o mesmo do qual ele era único possuidor. Um poder especial que é como uma nova alma (Gn 2, 7) que transforma sua vida em missão salvífica de perdoar. Existia no antigo Egito um costume interessante em correspondência à crença popular: o alento de um homem santo tinha poderes sobrenaturais. O patriarca copto de Alexandria enchia um odre com seu alento. Este odre era transportado pelo rio Nilo acima até a Etiópia,onde era desatado, soltando o ar sobre o Abuna ou seja o designado como cabeça da Igreja Etiópica na região. Neste gesto, afirmam os teólogos, ninguém pode duvidar da sucessão apostólica feita deste modo de insuflar. E alguns teólogos afirmam que como Jesus soprou o Espírito Santo, este último procede também do Filho por inspiração, à semelhança do que acontece com a inspiração do Pai. Daí a palavra Filioque do Credo que os ortodoxos rejeitam. Porém ao não ter o artigo podemos afirmar que Jesus entrega o mesmo poder , não a pessoa, do espírito que ele recebeu do Pai. O Espírito, como pessoa, será entregue aos apóstolos no dia de Pentecostes.

O PERDÃO: Jesus explica esta nova missão e como deve ser exercida. As palavras indicam que existe um julgamento; pois há a possibilidade de reter ou seja de uma sentença negativa. Os verbos Afiemi e Krateô são verbos com sentido judicial em grego. O sentido de afiemi é enviar livre após uma reclamação, soltar, liberar. E o de krateô manter preso, manter seguro, reter. Vejamos as duas interpretações sobre estas palavras: 1o) EVANGÉLICA:Os discípulos (havia quem não formava parte dos doze) recebem um poder ministerial e doutrinal que consiste na pregação do perdão total e livre dos pecados por meio do sangue de Cristo, segundo as riquezas da graça de Deus, declarando que tais pessoas que se arrependem e crêem em Cristo têm seus pecados perdoados por virtude de Cristo. E tem poder para declarar que um pecado não é perdoado como são no caso dos finalmente não crentes ou pecadores impenitentes. ( A questão é quem tem poder para declarar que um pecado não é perdoado, mas não para declarar quando um pecado é perdoado, o que não está muito a favor do texto sagrado). 2o) ORTODOXOS GREGOS E CATÓLICOS ROMANOS: O poder recebido pelos discípulos e sucessores é real, não unicamente de declarar, mas de perdoar em nome de Jesus através de dois sacramentos: o batismo inicial e a penitência sacramental para quem tiver pecado após o batismo. Perguntamos aos evangélicos: Seriam perdoados os pecados daquele que crendo em Cristo não quisesse se submeter ao batismo? Seriam perdoados também os pecados daquele que existindo um outro sacramento para o perdão não quisesse se submeter a esse requisito? S. Ambrósio nos fala de duas conversões: Água para o batismo e Lágrimas para a penitência. O ministério que Paulo reclama para si e chama de poder de reconciliação(2 Cor 5, 18) é apresentado pelos Padres da Igreja como segunda tábua de salvação, sendo a primeira o batismo. Se de início a Igreja não foi vista como usando este sacramento no sentido mais moderno da palavra, temos uma prova de que foi usado, pois sabemos como as diversas ordenes penitenciarum do século III até o século V obrigavam os pecadores a determinados atos de expiação pelos pecados. De onde se derivaram a intercessão dos confessores (martirizados pela fé, embora vivos) como são as indulgências, que forma parte do perdão dos pecados ao ser perdoadas parte ou totalidade da penitência pelos mesmos. È importante ver e notar neste texto evangélico que Jesus vinculou o perdão com sua vitória sobre a morte, sua missão como redentor, sua ligação com o Espírito que tinha prometido sobre os apóstolos como segundo Advogado (relação com o julgamento) e com os seus discípulos, com o que estes julgassem conveniente e necessário. Por isso a excomunhão tem seu lugar na igreja primitiva, como nota Paulo em 1 Cor 5, 5. Finalmente uma última reflexão: a voz passiva ¨serão perdoados, serão retidos¨, implica uma ação divina que acompanha a atuação humana: Se perdoais, Deus perdoa; se retendes, Deus os reterá. As fórmulas e maneiras do perdão mudaram através dos séculos mas ninguém duvidou até o século 16 que a Igreja tinha o poder de perdoar e condenar recebido de Cristo ressuscitado.

TOMÉ: Seu nome significa gêmeo, como o grego Dídimo. Era o domingo seguinte à primeira aparição do ressuscitado. A incredulidade de Tomé chega a propor um reto único. Até parece que nem acreditava na morte e crucifixão de Jesus. João repete as mesmas circunstâncias para dar a entender que este discípulo incrédulo recebe de Jesus, ele só, as mesmas considerações que tiveram os demais. Mas desta vez também se acomoda às petições do apóstolo: leva teu dedo aqui e olha minhas mãos e leva tua mão e joga-a no meu costado e não sejas incrédulo mas crente(tradução direta).

RESPOSTA: A resposta de Tomé é mais do que a aceitação de uma evidência. É a fé mais profunda que revela o sentido da primitiva Igreja: (Tu és) O Senhor meu e o Deus meu! Falta o verbo, que logicamente não existe em hebraico e que temos acrescentado para indicar melhor a força da afirmação. Parece que não pedia Jesus tanto do seu apóstolo rebelde; mas este dá de si tudo: torna-se o súdito mais completo e o adorador mais disposto que se poderia esperar. Por isso sua fé é modelo dos que sem ver abraçarão a mesma fé num futuro próximo. Esta fé é um dom de Deus como uma espécie de boa sorte que acompanha a nova notícia e que dá felicidade a quem a possui

PISTAS: 1) É bom falarmos do sacramento da confissão. A idéia hoje mais espalhada e aceita com a maior naturalidade é de que como é Deus quem perdoa é suficiente que confessemos a Ele nossos pecados sem intermediários humanos para ouvi-los. Ou bastaria a confissão comunitária dos mesmos em que os atos públicos de contrição e penitência seriam constituídos como juizes no caso. Ela pode pois determinar quais são as condições necessárias para a obtenção do perdão que não eram muito fáceis em épocas passadas julgando pelas penitências impostas. Após o Concílio de Trento a confissão individual foi declarada de necessidade para todo pecado mortal cometido após o batismo. Por isso devemos afirmar com o bem-aventurado Isaac, abade do mosteiro de Stella(séc XII): Sem Cristo nada pode a Igreja perdoar, nada quer Cristo perdoar sem a Igreja. A igreja não pode perdoar a não ser ao penitente, Isto é, aquele a quem Cristo tocou. Cristo não quer ter por perdoado aquele que despreza a Igreja. 2) Vantagens da confissão individual com respeito à confissão diante de Deus: Aquela só requer a contrição, o medo ao castigo, esta última a contrição, verdadeiro amor a Deus, que é mais difícil de se obter de um penitente. Aquela exige humildade e reconhecimento do pecado concreto pelo menos semipublicamente; nesta basta um reconhecimento geral de ser pecador, sem verdadeiro arrependimento particular de determinados atos maus, o que em psicologia não ajuda muito à conversão. A penitência da confissão individual é um ato integral do sacramento e portanto avaliada pelo sangue de Cristo e pelos méritos da Igreja. A penitência da confissão com Deus, se existe, é um ato humano preferido e praticado pelo penitente. 3) O pecador é um enfermo do espírito. Que diríamos de um doente corporal que pensasse: não necessito médico; me bastam os manuais de medicina e remédios que posso encontrar na Internet. ? Pois mutatis mutandis é o que realmente pensa o que só quer se confessar com Deus. 4)Nossa fé deve estar no mesmo plano que o de Tomé: Jesus é o meu Senhor; Jesus é o meu Deus. O que significa que ele é a pessoa à qual devo serviço em primeiro lugar e ao mesmo tampo devo o culto de minha religião. Fundar a religião sobre outra pessoa que não seja como diz Paulo Cristo e Cristo crucificado, com todas as consequências dessa cruz é não entender sua mensagem e sua ressurreição.

EXEMPLO: Num ato que podemos chamar de inusitado um grande senhor muito rico que visitava uma de suas vilas fez um anúncio: Espero vocês das 10 às doze da manhã. Todo aquele que me visitar terá de minha parte a sua dívida perdoada. Eram 11 horas e um pobre homem que devia o aluguel da casa e do campo se aproximou. Contou seu caso e o Senhor lhe disse : está tudo perdoado, mas espere aí até as doze. Eram 11 e ½ e mais um devedor se aproximou pedindo anulação da sua dívida, o qual foi feito de imediato. O relógio da praça bateu as 12 e o Senhor lhes disse: podeis sair agora e anunciar o perdão mostrando o papel do pago. Cheios de alegria saíram e mostraram os bilhetes que anulavam suas dívidas. Então uma multidão de devedores antes incrédulos quis forçar a porta da mansão do senhor da aldeia. Mas não foi possível, pois o tempo estava esgotado. A conclusão é óbvia para que seja aqui comentada.