EPIFANIA DO SENHOR

(Mt 2, 1-12)

(04/01/2004)

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

HERODES(75 4 aC) de sobrenome Ascalonite (= de Ascalon) hoje conhecido como O Grande. Os romanos tinham como identidade um nome complexo: Exemplo: o primeiro nome era o próprio do indivíduo(Gaius ou Caio); o segundo era o familiar do clã(Julius ou Julio) e o terceiro era o apelido(César, que significava cabeludo) e que aliás em César não era muito apropriado devido à calvície do imperador. Herodes, como judeu, tinha um nome próprio, Herodes, e Ascalonite como cognome, que podia ser patronímico (Bar Jonas, filho de Jonas, por exemplo) ou, como no caso de Maria Madalena, de origem geográfica; e aqui Ascalonte de Áscalon, o antigo Migdo Askelon dos filisteus na costa do Mediterrâneo. Um pouco de história é oportuno para conhecer a época e situar os personagens no lugar real e não imaginar situações ou negar fatos que podem muito bem ser verdadeiros. Com Simeão (142-135 aC), filho de Matatias e irmão do famoso Judas Macabeu, a Judéia se torna independente de 142 até 63 aC. Simão foi ao mesmo tempo Sumo Sacerdote e rei da Judéia. Seu sucessor João Hircano(135-104 aC) conquistou a Iduméia e a Samaria e obrigou seus habitantes a se tornarem judeus, ou seja a se circuncidar. Entre eles estava Antipatro, pai de Herodes. Este provavelmente foi circuncidado de menino. Após o breve reinado de Aristóbulo( 104-103), com Alexandre Janeu( 103-76) o reino chegou a ter a mesma extensão que na época do rei Davi. Sua viúva reinou até o 67. Na sua morte os dois irmãos, Aristóbulo II (67-63) e Hircano II, brigaram pelo poder . Em 63 Aristóbulo provoca Roma e Pompeu invade Jerusalém, deporta Aristóbulo II e coloca Hircano II (63-40) no poder. Do triunvirato César, Crasso e Pompeu, César resulta único dono e nomeia Antipatro, o idumeu, como procurador, sob as ordens de Hircano. Os filhos de Antipatro, Faselo e Herodes, recebem o governo de Judéia e Galiléia respectivamente. Herodes teria 25 anos. Um ano depois Antipatro morre envenenado. Três anos mais tarde, César é assassinado (44). No novo triunvirato(Augusto, Marco Antônio e Lépido) Herodes favorece Marco Antônio. Antígono, filho do deposto Aristóbulo II aproveita para tomar o poder(40-37) com a ajuda dos partos ou persas e cortar as orelhas do seu tio Hircano II, com o que impedia o cargo de Sumo Sacerdote deste último. Perseguiu os filhos de Antipatro, Faselo se suicida e Herodes se dirige a Roma(40) e recebe do senado e dos dois triunviros, Otavio e Antônio, a coroa da Judéia, dando graças no capitólio no templo de Júpiter pela nomeação. Mas a condição é que o novo rei terá que conquistar o reino. Isto ele faz conquistando Jerusalém, tremendamente devastada após duro assédio, com ajuda de tropas romanas. A luta foi cruenta até conseguir decapitar Antígono em 37. Com ele termina a saga dos macabeus. Em 38 Herodes tinha casado com Mariana ( Mariamme) neta de Hircano, vinculando-se assim ao clã dos Macabeus para ser aceito como heguemonos(= governador) pelos judeus. As lutas familiares terminaram pois, com a Judéia unida como nação e desde então submetida direta ou indiretamente a Roma. O reino de Herodes pode ser dividido em três períodos: a) 37-25 anos de desenvolvimento e progresso: Herodes apoiu Antônio na luta contra Augusto. Mas quando Antônio é vencido por Octaviano (=Augusto) em Accio no 31, Herodes visita o vencedor na ilha de Rodes e em gesto teatral, com uma corda no pescoço, como criminoso, depõe a coroa aos pés de Augusto. O resultado é que volta para casa reconfirmado e ainda consegue ser favorecido com a exoneração do tributo a Roma, com novos territórios e com autonomia no exército e nas finanças. Herodes atribuirá o fato ao deus Apolo e por isso dedicará a ele um templo de nova planta em Rodes. Para consolidar o poder, devido ao complexo de quem ocupa um cargo que não lhe pertence, Herodes matou uma enorme quantidade de judeus aristocratas, sacerdotes e principais da nação, afogou Aristóbulo, irmão de sua esposa, a quem aos 17 anos elevou ao Sumo Sacerdócio. Depois matou a própria Mariana(29), a mãe desta, Alexandra (28) b) 25-13 anos de esplendor: Herodes cuja renda anual era de mil talentos( 34,3x 1000=34,3mil quilos de prata, ou 60 mil dracmas), saneou a fazenda pública e dedicou grande parte da mesma a construir cidades, e templos. Assim Sebaste na Samaria, Cesaréia e seu magnífico porto no Mediterrâneo, dotando-as de teatros, anfiteatros e hipódromos, até mesmo Jerusalém. Construiu o templo de Apolo em Rodas e no ano 22 começou a construção do templo de Jerusalém, o mal chamado segundo templo ( o templo de Jesus). Também fortificou seus domínios com fortalezas como a torre Antônia, Heródium perto de Belém, Massada e Maqueronte onde o Batista foi decapitado. Jericó é embelezada tornando-a sua residência favorita. c)13-4 anos de tragédias e distúrbios domésticos: Nesta época mandou matar 300 oficiais do seu exército, estrangulou os próprios filhos tidos com Mariame, Aristóbulo e Alexandro (6), incriminados por Antipatro, o primogênito, que seria mais tarde morto pela acusação de querer envenenar seu pai, cinco dias antes da morte do rei. Ao que parece todos foram mortos por terem sangue macabeu, porque Herodes tinha medo de que o destronasse antes de sua morte alguém que era da estirpe dos asmonianos. Pois Herodes era um edomita, ou seja descendente de Abraão por meio de Esaú também conhecido como Edom. Augusto disse de Herodes que era preferível ser seu porco(hoiros em grego) que seu filho(huios) porque como judeu não comia carne de porco. Para que a Judéia chorasse sua morte mandou reunir no hipódromo de Jericó os principais do país e matá-los para que assim o choro fosse geral na sua morte. Testamento que não foi cumprido. Os judeus, pelo contrário, celebraram sua morte e houve distúrbios de modo que P. Quintílio Varo, legado da Síria, interveio, executando na cruz alguns milhares de rebeldes. Este Varo era o mesmo que cinco anos mais tarde (9) perdeu três águias (cada uma símbolo de uma legião) com as respetivas legiões (vinte mil homens)nos bosques de Teutoburgo, na Germânia. Ao saber da notícia, Augusto exclamava: Varo, Varo dá-me de volta minhas águias! Devolve-me minhas legiões! Herodes teve um biógrafo áulico, Nicolás de Damasco, para o qual o rei foi um verdadeiro herói, que logicamente nada dirá de suas atrocidades. Nicolás foi seu médico e embaixador ante Augusto. Herodes teve dez mulheres e 14 ou 15 filhos. Após 69 anos de boa saúde Herodes é dominado pela doença que lhe causou grande tristeza e que produziu uma revolta popular quando seus inimigos souberam da mesma. A doença progrediu muito num par de meses, causando-lhe febre constante, dores intoleráveis em todo o corpo, pruridos, mal-estar continuo no cólon, tumores nos pés e putrefação no pene do qual nasciam vermes. Só podia ficar sentado e tinha uma tremenda halitose. Os médicos da época pensaram que estava atacado da bilis preta e como remédio o banharam num cubo de azeite quente do qual saiu com os olhos extraviados como morto. Os médicos modernos vêem nesses sintomas (edema de extremidades, halitose, contrações musculares, e ortopneia) uma etapa terminal de insuficiência renal crônica, explicada por uma esquistossomose do schistosoma haematobium numa região onde a bilharziasis (= esquistossomose) é comum. Penetrando pela pele estas larvas se acomodam nos plexos pelvianos e perivesicales contando-se entre 4 e 19 mil ovos por grama de tecido, Herodes morre após um eclipse de Lua, dia 11 de abril de 4 aC.

A ESTRELA: O grego ASTER seria melhor traduzido por astro ou corpo celeste (em latim stella) e está associado com a luz que vem do firmamento, de modo que todo ser luminoso nos céus pode ser considerado um aster. A palavra sai 4 vezes no trecho de hoje. Fora do texto de Mateus só sai esse fenômeno luminoso num texto de Ignácio, o bispo mártir de Antioquia, escrito meio século após Mateus: "Sua luz foi indizível e sua novidade causou assombro". No proto-evangelho de Tiago, um apócrifo do início do século II , temos a descrição que os magos dão a Herodes: "Vimos como uma estrela indescritivelmente grande apareceu dentre estas estrelas e as deslumbrou de modo que já não luziam; e assim soubemos que um rei tinha nascido para Israel". Segundo o proto-evangelho a estrela devia ter sido tão brilhante como um plenilúnio para desluzir outras estrelas. Como é que Herodes não a viu? Uma solução é que no tempo em que a estrela apareceu as nuvens cobriam os céus da Palestia a causa do mal tempo especialmente se ela apareceu nos meses de Janeiro a março, como veremos depois. SOLUÇÕES: a)A estrela é um mito, inventado para dar importância ao sucesso. É uma teoria descartável, porque não acrescenta nada à mensagem evangélica e facilmente seria refutada pelos contemporâneos. b) Foi um sucesso milagroso só visto pelos magos à semelhança do que aconteceu em Fátima no ano 1917 com o sol, que só foi visto pelos que estavam num rádio a vinte quilômetros do lugar e que observatório algum constatou. Nada podemos dizer sobre esta hipótese. c) Um fenômeno real astronômico. A razão é que Mateus descreve fatos históricos comprováveis pelos contemporâneos que viviam quando sucedidos, neste caso 60 anos depois de terem acontecido. Vamos explicar o caso c porque os outros não tem explicação lógica. 1) Não foi um cometa: este era sempre de mau augúrio e além disso tanto em grego como em latim tem uma palavra própria (kometes, de cabeleira o mesmo em latim). Não foi uma estrela que permanecesse muito tempo à vista. O verbo grego é o aoristo que indica uma ação pontual do passado: Vimos é a tradução do eidomen grego. Assim só ficam duas hipóteses hoje prováveis:1o) Uma conjunção de planetas. No ano –7 houve uma conjunção triplex (três vezes no mesmo ano) de planetas na constelação de piscis que representava os judeus. Ao se aproximar com menos de 10 minutos de arco as luzes dos dois planetas se fundem dando a sensação de uma estrela nova. No dia 20 de fevereiro do ano 6 aC Marte estava em conjunção com Saturno e a só 8 graus de Júpiter ainda na constelação de piscis, formando um amassamento de planetas. Segundo a interpretação dos astrônomos ou astrólogos da época a conjução de Júpiter( rei dos planetas), Saturno ( estrela do Amurru, ou região Sírio-palestina) e Marte ( planeta da guerra) significava um nascimento de um rei entre os judeus que haveria de derrocar os romanos, pois piscis era o símbolo do fim. Nesse ano, pois apareceria na Palestina, o último Saushiant(ver mais tarde) de Zoroastro, Dominador do final identificado como Messias(rei) dos judeus. 2o) uma nova ou supernova, com brilho de 70 dias, como a descrita pelos chineses, vista perto da estrela Theta Aquilae( Zê de Águia), correspondente a março do ano 5 aC, observada após a conjunção e amassamento planetário de Piscis que acabamos de descrever. Esta teoria vem confirmada por uma tradução mais fidedigna do grego. En te anatole (grego original) significa no nascimento do sol ou seja ao amanhecer e não en toi anatoloi que significa no Oriente. Que a estrela acompanhe e se torne imóvel é um fenômeno ótico de experiência normal quando olhamos uma estrela fixa.Unindo pois as explicações 1a e 2a teremos um princípio de solução provável.

MAGOS: Em grego e em latim da mesma raiz Magos e Magus e em hebraico ashshaf. Segundo o dicionário, em termos religiosos, mago seria um sábio em astrologia pertencente à classe sacerdotal na religião zoroástrica entre medos e persas. O uso da palavra magos pelos setenta aparece em primeiro lugar em Dn 2,27 : Não há sábios, nem MAGOS(ashshaf), nem ADIVINHOS(hartom), nem ASTRÓLOGOS( guezar) que possam adivinhar. No léxico do AT a palvra ashsahf designa um feiticeiro e é traduzida ao grego por magos. Hartom originalmente significava escritores de hieróglifos, para designar mais tarde os praticantes de ciências ocultas (em grego epaoidos=encantador) e guezar eram os astrólogos aramaicos que intentavam determinar eventos futuros através da posição das estrelas no momento do nascimento.Com isso deixamos claro que não necessariamente os magos (tradução do aramaico sem dúvida de Mateus) eram persas onde o Zoroastrismo ou Mazdeísmo era dominante. Esta religião era um monoteísmo mitigado: frente ao princípio do bem, o deus bom (Ahura-Mazda) coexiste o princípio do mal (Ahriman) numa luta em que o bem sairá finalmente vitorioso. Esta seria a época do terceiro princípio (saushiant) o Auxiliador cuja vinda era esperada pela data do nascimento de Jesus e que constituia a época final. No NT fora de Mateus neste evangelho, aparece o nome de mago para Simão da Samaria(At 8, 9) e Elimas ( nome que pode ser traduzido por bruxo) de Chipre (At 13, 6-8). Mas na realidade qual era o significado de mago? Frente a afirmação de que os magos eram persas(hoje Irã, em cujo território está Bam, cidade destruída pelo recente terremoto) ou medos perto da Babilônia, estes últimos descendentes de judeus da diáspora, existe uma outra interpretação que os liga aos nabateus ou árabes. Se persas, deviam seguir a via maris pela costa ou a via regia através de Damasco e entrar pelo norte da Palestina. Seus presentes deviam ser telas de seda, madeiras preciosas e pérolas, pois estavam na rota dessas mercadorias. Jamais seriam chamados vindo do Oriente, mas do Norte. Pelo contrário os nabateus eram árabes que comerciavam na Arábia Felix com todos os presentes do evangelho: Ouro de Somalia, incenso da Arábia Félix e do Yemem. Os seus camelos portavam seiscentos quilos de espécies e suas viagens eram feitas à noite para evitar o calor do dia (até quase 50 graus) e dependiam do conhecimento das estrelas e sua religião estava fundada no sol e nos astros. Eram parentes próximos dos judeus e do próprio Herodes, filho de uma princesa nabatéia e casado com outra. Falavam a mesma língua e era lógico que procurassem em primeiro lugar o rei em Jerusalém, que conheciam bem por ser a cidade onde seu incenso e mirra eram vendidos. Quando Herodes morreu sua tumba foi literalmente forrada por milhares de quilos de mirra. Jesus teve 100 libras derramadas no seu enterro(Jo 19,39).Sabemos pela história que entre os séculos IV aC e II dC os nabateus constituíam um reino importante cuja capital era Petra, chegando a dominar o comércio terrestre de caravanas da Arábia e o marítimo do mar Vermelho, tendo além algumas bases no Mediterrâneo. Foi Trajano (105) que os incorporou à província romana de Arábia. CONCLUSÃO: A verosimilitude do relato de Mateus é mais que provável e nos daria como consequência lógica que houve realmente algum fenômeno que estudiosos astrônomos contemplaram e assim cumpriram a profecia de Isaias 60, 6: "Um afluxo de camelos te cobrirá, camelos novos de Midiã( terra dentro da península do Sinai) e de Efá( um dos descendentes de Abraão como Mdiã) , todos os de Shebá (Yemem do sul) virão trazendo ouro e incenso, e se tornarão os mensageiros dos louvores do Senhor".

INTENÇÃO de Mateus: Ressaltar a realeza de Jesus em nada diminuída por seu nascimento humilde e aparentemente ignorado de todos. Já desde o nascimento Jesus se mostra Messias (rei ungido) e como tal reconhecido pelos sábios que propositadamente vieram do Oriente. Os judeus ignoravam tal nascimento e Herodes, o representante oficial, quis fazer o que os outros representantes alcançaram realizar: matar a quem deviam adorar.