Festa do Batismo do Senhor
(11/01/2004)
(Pe. Ignácio, dos padres Escolápios)
ERA O MESSIAS? Do evangelho paralelo de João ( 1,
19-25) sabemos que a pergunta foi feita de modo formal por sacerdotes e
levitas, especialistas em questões de purificação ritual, da classe dos
fariseus. Tenhamos em conta que João era filho de um sacerdote e que os levitas
eram geralmente os guardas do templo. A pergunta era dupla: quem és tu? E qual
o teu direito para batizar? A reposta de João indica que os judeus na época
esperavam um ou vários Messias, Elias de volta e um profeta. O Messias era o
título de um rei davídico esperado na época. Elias porque também era esperado
como precursor. Finalmente o profeta, pois era voz comum que com o Messias
proposto por Malaquias em 3, 1 e 23: Os envio o meu mensageiro(...) e vos
enviarei Elias, o profeta, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor.
Do texto podemos deduzir que a vinda do Mesias(o mensageiro) era um ato de
juizo divino, pois o dia do Senhor é como anteriormente demostramos (ver
comentário 1o Domingo do Advento no Dia do Senhor) um dia terrível.
Isso mesmo afirmará o Batista ao afirmar quem vos ensinou a fugir da ira que
está por vir?(Lc 3,7). A PALAVRA Massiyah significa ungido (lambuzado) com
óleo, traduzida ao grego por Xristós ou Cristo. A palavra sai 40 vezes no AT.
Inicialmente era o sacerdote o Ungido no livro do Levítico. Logo passou a
designar o Rei, nos livros de Samuel, Crônicas e Salmos; algumas vezes o povo
de Israel (1 Cr 16,22 e Sl 105, 15)e unicamente em Is 45,1 é Ciro o ungido (
como para designar que devia ser respeitado como rei de Israel?) e a palavra
tem um significado de Messias em sentido do NT em Dn 9, 25-26, que em grego
emprega o mesmo termo Xristós que João em 1, 41. Segundo a profecia de Natã
"Tua casa e tua realeza serão para sempre estáveis diante de ti, e teu
trono, confirmado para sempre"(2 Sm 7, 10), o Messias como ungido do
Senhor viria quando o rei de Israel não fosse de origem davídica. E
precisamente estes eram os tempos .O Messias seria um rei que administrasse
justiça, governasse todos os homens e seria a salvação do povo.
SERIA ELIAS? Seu nome significa cujo deus é Jahveh.
Foi o restaurador do javismo ao exterminar os profetas dos "Baalim"
no monte Carmelo(1 Rs cap 18). Milagroso e solitário, vestia uma túnica de
pelos com os lombos cingidos dum cinto de couro (2 Rs 1,8) à semelhança do
Batista. Sua vida não terminou com a morte comum, mas foi elevado ao céu num
carro com cavalos de fogo(2 Rs 2, 11). Devido a este último sucesso os judeus
esperavam sua volta nos tempos messiânicos.(Ml 4,5). Jesus identifica Elias com
o Batista(Mt 11, 12-14) O próprio João o nega em sua humilde confissão.
O PROFETA? A palavra significa aquele que fala em
nome de Deus. Em hebraico é geralmente usada a palavra NAVI em plural naviim.
De Aarão diz-se que era o profeta de Moisés(Ex 4, 10-16). Este terceiro
personagem, esperado nos tempos messiânicos, era sem dúvida devido às palavras
de Moisés em Dt 18, 17-22.:"Um profeta como tu suscitarei do meio de teus
irmãos’. João nega também esta suposição que aparece implícita nas palavras de
Jesus: (Mt 11, 9-10) louvando a figura do Batista. É mais que um profeta porque
não unicamente revela a palavra, mas a pessoa que é a mesma palavra de Deus.
A VOZ: João justifica sua norma de atuação
declarando que é a voz que brada no deserto, como disse o profeta Isaias (40,
3-4 ). A finalidade dessa voz era preparar os caminhos para o Senhor. Uma volta
dos corações dos filhos à crença dos pais e conduzir os rebeldes a pensar como
homens honestos a fim de formar um povo digno do Senhor (Lc 1, 17). Em
definitiva um reformador do verdadeiro Javinismo, como foi Elias, o profeta.
BATISMO DE JOÃO E BATISMO DE JESUS: Remito a meu
artigo do Domingo II do advento, em que explicamos como Jesus não batizou mas
foi sinal de separação para manifestar os realmente fiéis e os rebeldes em
Israel (Lc 2, 34).
A EPIFANIA: Usando os tempos do verbo de modo
correto podemos traduzir: e aconteceu que quando Jesus foi batizado e estando
em oração. O primeiro é um passado e o segundo um presente. Houve, pois dois
tempos diferentes. Uma vez batizado(em latim Jesu baptizato), e estando orando
(orante) é quando se abriu o céu, ou seja a abóbada ou teto arqueado do qual
pendiam as estrelas e que segurava as águas superiores, separando o terceiro
céu, morada esta do Altíssimo. Esse abrir-se indica um relâmpago (Deus é luz)
com o correspondente trovão, como descreve João evangelista a voz da epifania
aos gregos(Jo 12, 28). Testemunha deste sucesso extraordinário foi o Batista
porque como ele afirmou em testemunho: tenho visto o Espírito descendendo como
uma pomba do céu e permaneceu sobre ele. Esse Espírito será santo para Lucas e
será o Espírito, o de Deus (sic) para Mateus. Em nenhum caso se afirma que era
figura de pomba ou como pomba, mas a sua descida era suave como a de uma pomba
que está se pousando.
A VOZ: Tu és o meu Filho, o amado, em ti encontrei
satisfação. O adjetivo, o amado, é propriamente um epíteto, um cognome que o
distingue perfeitamente dos outros filhos e estabelece uma relação especial
entre Jahveh e Jesus, acrescentada por que em Ti tenho meu agrado, que
poderíamos traduzir por ti encontro meu enlevo, tu és minha maravilha, o desejo
cumprido de meus planos. Seria esta a tradução direta do texto hebraico de Is
42,1 : "Aqui está meu servo a quem protejo; meu escolhido em quem minha
alma se agrada. Pus nele meu espírito para que traga a justiça às nações".
Porém o texto grego diz: Jacó, meu servo, eu o assistirei; Israel, meu
escolhido, eu o aceitei. Não obstante Mateus traz uma versão em 12, 18 citando
o profeta Isaias que confirma um texto grego próximo ao hebraico original:
"Eis o meu servo[pais](em grego pais significa filho ou servo) a quem eu
escolhi, o meu bem amado[agapetos] em quem se alegrou minha alma. Sobre ele
porei o meu Espírito e ele anunciará o julgamento às nações". Com isso o
filho se transforma em servo, o servo de Jahveh e a sua incumbência será
proclamar um juizo às nações ou uma sentença contra os gentios. Se comparamos o
texto de hoje com os outros dois das epifanias evangélicas, o do Tabor (Lc 9,
35;Mt 17,5 e Mc 9,7) e o do João 12, 28, vemos como o Filho é louvado e agrada
plenamente o Pai por se transformar em servo(escravo)(At 3, 13) e vemos como o
servo (Maria e Israel, Lc 1,54) se transforma em filho precisamente pela sua
obediência, e assim agrada plenamente o Pai. Ver Jo 15, 10