II DOMINGO DO TEMPO COMUM
(Jo 2, 1-11)
(Pe. Ignácio, dos padres Escolápios)
INÍCIO DA VIDA PÚBLICA DE
JESUS.
O BANQUETE DE BODAS: Segundo a Mishna(compilação de comentários rabínicos sobre a Torá ou
lei escrita) uma virgem devia casar na terça-quarta feira e uma viúva na
Quarta/quinta. A razão é que se a esposa não fosse virgem o assunto devia ser
levado ao tribunal que se reunia nas segundas e quintas feiras. O costume foi
iniciado, segundo tradição, por Ezra, descendente de Judá conforme Crônicas
4,17. Assistir a um banquete era considerado como um ato de beneficência e
deferência por parte do convidado. Entre os convivas estava Maria, da qual o
evangelista não dá o nome, mas diz que era a Mãe de Jesus. Segundo alguns
comentaristas Alfeu ou Cleofás cunhado de Maria por estar casado com a sua irmã
(Jo 19, 25), tinha sua morada em Caná e era portanto uma boda familiar. Isso
explicaria a intervenção e protagonismo de Maria. Pois das três Canas que
conhecemos, a de Galiléia parece estar a 4 km de Nazaré. Jesus entrou como
convidado e com ele seus novos quatro discípulos ( André, João, Simão, Filipe e
Natanael, este último de Caná, segundo Jo 21,2).
NÃO TÊM VINHO: O diálogo entre Maria e Jesus começa com uma petição implícita e uma
exposição de uma circunstância constrangedora; falta uma bebida que se
considerava fundamental como era na época o vinho dos banquetes. É quase como
dizer que está faltando a cerveja ou a água. A reposta de Jesus é um tanto
desconcertante. Mulher, que a mi e a ti (sic)? Ainda não chegou a minha hora. A
palavra mulher significa uma pessoa do gênero feminino, a esposa de um homem e
como vocativo é usada 8 vezes nos evangelhos, desde Mateus 15, 28 em que Jesus
se dirige a uma siro-fenícia, Pedro se dirige à empregada que o delata em Lc
22, 27e em João sai 5 vezes uma à Nossa Senhora que comentamos, outra à
samaritana(4, 21)e duas à Madalena em 20, 13 e 20, 15. No Calvário de novo
Jesus se dirige à sua mãe com o mesmo apelativo(19, 26). Nestes casos podemos
dizer que no português usaríamos Senhora. Somente temos um vocativo diferente
em Mateus 9, 22 quando Jesus se dirige à hemorroisa chamando-a filha(thigater),
o que não era possível ao se dirigir à sua mãe. A frase, exatamente igual em
dois lugares do grego dos setenta, QUE A TI E A MIM, tem duas interpretações.1a)
Segundo 1 Rs 17, 18, a viúva de Sarepta se queixa das relações entre ela e o
profeta uma vez que ela o acusa, ao que parece, da morte do filho. Ou seja: que
tenho feito eu para que assim me trates? Aparece quando os demônios replicam a
Jesus porque este vem para os vencer(Mc 1, 24) O mesmo se repete Mc 5, 27. Tem
um sentido de hostilidade ou oposição. Na Segunda 2 Rs 3, 13 Eliseu rejeita a
presença do rei de Israel, dizendo: "Que tenho eu a ver contigo, pois tu
tens os profetas de teu pai e tua mãe. Se não fosse pela presença do rei de
Judá, eu nem sequer olharia para ti". Evidentemente é a segunda
interpretação a própria deste trecho .Significaria ,pois, neste assunto nada
temos em comum, eu não tenho nada a fazer porque ainda não chegou a minha hora.
O que pedes de mim não é conveniente neste momento, pois não chegou a hora de
mostrar-me como homem com poderes extraordinários. Parece que Jesus recusa o
milagre, porque este não depende dele só, mas da vontade do Pai, como em Jo 12,
27 em que Jesus pede seja glorificada a pessoa do Pai. A intenção de Jesus era
mostrar seus dotes de enviado em Jerusalém, como com SINAIS próprios de um
profeta enviado por Deus(Jo 2, 23).
AQUILO QUE ELE VOS
DISSER, FAZEI-O: Descartada a idéia de
que Jesus interviria com um fato extraordinário, Maria conhece o seu filho e
pensa que ele teria uma solução de um jeito ou outro, ela não sabe como, e por
isso pede aos serventes que obedeçam o que lhes ordene seu filho, fosse qual
fosse a ordem dada.
O PRIMEIRO SINAL: O vinho em que se transformaram os quase 500 ou 600 l de água foi
primeiro descoberto pelo mestre-sala. Este não era um mero diretor da ordem e
distribuição dos pratos ou viandas a serem servidos, mas também uma espécie de
ministro sacro, pois os judeus tinham prescritas seis ou sete bênçãos sobre os
alimentos e especialmente uma da copa de vinho a ser servida em primeiro lugar
antes que o resto dos comensais o provassem. Feita a bênção, o mestre-sala
comprovou que o vinho novo era de superior qualidade. Isso indica que a cor do
mesmo era possivelmente branca, porque os serventes pensavam ser água o que
serviam ao chefe de cerimônias, e que no instante de despejar o líquido na copa
do mestre-sala, é quando apareceu a transformação efetuada. Logicamente seriam
os serventes os que notificariam a todos o que realmente tinha acontecido. O
comentário do evangelista é digno de reflexão: Este foi o início dos sinais de
Jesus e manifestou sua glória e seus discípulos creram nele. O milagre para o
evangelista é antes de mais nada um sinal da intervenção divina. Por isso ele
declara que Jesus manifestou sua glória, mostrando seu poder maravilhoso que
demostrava sua missão como tendo origem divina. Por isso os discípulos, cinco
deles, creram nele como representante da autoridade de Deus na terra.
PISTAS: 1) Jesus garante com sua presença não só o matrimônio(detestado pelos
encratistas) mas também a alegre festa que o culmina.(contra os ebionitas
antigos e muitos evangélicos modernos). As festas, especialmente as familiares
e comemorativas, são como a delícia e o sabor da comida e da bebida, coisas que
Deus quer e aprova, mesmo sabendo que pode existir uma certa falta de
temperança em parte dos comensais.-2) O vinho, tão difamado por certas seitas
modernas que se dizem cristãs, aqui serve como critério último de uma
transformação, pois é a causa final, a mais importante dentro do plano de
realização de um projeto. O vinho que significava alegria e convivência, se
transformará em matéria escolhida na qual a vida de Cristo dar-se-nos-á como
bebida para alimento e união com o Senhor.-3) A intercessão de Maria: ela sabe
que seu Filho pode transformar uma situação de vergonha e desespero em estado
de alegria e paz. Ela é a intercessora por excelência. Sua súplica é de um
poder inigualável, pois mais do que um apelo é um mandato à misericórdia de
Jesus, o Filho. Esta solicitação está sempre presente diante das dificuldades
humanas. Constitui um confronto, aparentemente estranho à vontade de seu Filho,
porque reflete a vontade maternal de uma mãe com dois filhos entre si opostos.
Ela escolhe o mais débil para como diz um comentarista ser a mulher humilde que
sentiu no seu ombro a mão de Deus, Senhor do impossível.
EXEMPLO: Tudo o que temos afirmado não seria certo se não houvesse inúmeros
exemplos que o confirmam. A intercessão de Maria na História da Igreja tem dado
inúmeros exemplos de que sua atuação em Caná não é isolada e única. O exemplo
mais portentoso é o do coxo de Calanda no século XVII comentado por Vittorio
Messori no seu livro como o grande milagre ou o milagre dos milagres. Na noite
do 29 de março de 1640 entre as dez e onze da noite o jovem Miguel João Pelicer
teve sua perna amputada dois anos e meio antes, enterrada no hospital de
Zaragoza, segundo testemunho dos médicos que a cortaram, instantânea e
repentinamente reaparecida quando dormia sonhando que a Virgem del Pilar a
restaurava retirando a perna de pau que tão dolorosamente tinha lhe ajudado a
caminhar. Nenhuma voz levantou-se para duvidar do fato entre os que conheceram
e trataram de Miguel antes e depois do acidente que obrigou aos cirurgiões a
cortar sua perna. O fato foi de conhecimento universal porque Felipe IV, rei da
Espanha na ocasião quis ver o resultado do milagre diante dos embaixadores das
cortes européias. Olhando para a perna restituída, exclamou: Senhores já não
corresponde discutir mas crer e alegrar-nos como bons filhos da Igreja e
acercando-se a Miguel ajoelhou-se e beijou enternecido a perna recuperada. O
embaixador lord Hopton declarou o sucesso a seu rei Carlos I da Inglaterra,
que, apesar de ser cabeça da Igreja Anglicana, reconheceu o milagre e o
defendeu ante os teólogos de sua corte que o negavam. É o milagre esperado por
Jean Martin Charcot , o famoso neurologista e positivista francês que
declarava: "A fé nunca fez reaparecer um membro amputado". O milagre
prova a vivência de Maria, como mãe intercessora e a segurança moral de
invocá-la sobre uma determinada devoção. Como assegura Chesterton (Gilbert Keith):
"Crente é a pessoa que admite o milagre se obrigado pela evidência. Não
crente é quem nem sequer admite a discussão sobre o milagre porque a isso lhe
obriga a doutrina que professa e à qual não pode contradizer".