JOÃO
, O BATISTA
(Pe.
Ignácio dos padres escolápios)
INTRODUÇAÕ:
A figura de João era importante, porque admitida por quase
todos os contemporâneos como um profeta que falava em nome
de Javé. Sua palavra estava pois, avaliada de forma que
era como Escritura para os judeus da época. As palavras
que ele dizia estavam previstas desde os tempos de Isaías.
Por isso, os três Sinóticos trazem estas palavras que não
são simples logoi como as que pronuncia um homem
comum, mas rêmata [ditos ou doutrina] que em Marcos
e Lucas se traduz pela palavra forte gregaptai [está
escrito]. A Palavra não é de um profeta qualquer mas do
grande Isaías que com Moisés constituía a base do judaísmo.
( ver transfiguração em Mt 17, 3). O original em hebraico
está em Isaías 40, 1-11.
Preparai
no deserto um caminho para o Senhor. Aplainai na estepe
uma senda para nosso Deus.Em
hebraico a palavra deserto é midbar que pode ser
traduzida por deserto ou região desabitada. É
o erêmos grego, ou desertum latino. Estepe
em hebraico é arabah que se refere particularmente
ao vale sem vida [terra seca- traduz a bíblia portuguesa
moderna] do Jordão que desemboca no mar Morto. Confunde-se
com Arábia nome próprio. Tal como vemos, a pregação de João
estava no ambiente próprio, predito pelo profeta Isaías.
Daí a importância que o local tem nos evangelistas: Pareceria
que Lucas estivesse por fora da questão, mas temos visto
como Arabah significava precisamente esse vale de terra
improdutiva do Jordão.
METÁNOIA:
Mateus inicia seu relato colocando João no deserto proclamando
uma conversão porque está próximo o Reino dos céus. A palavra
usada por conversão é metanoeite. Que significa metánoia?
É um retorno a Deus, cuja aliança tem sido traida pelo indivíduo
ou pela comunidade. Lemos em Isaías 31, 6: voltai para
aquele contra o qual se rebelaram tão profundamente os filhos
de Israel. A metánoia é um retorno que supõe um cambio,
tanto de mentalidade como de conduta prática, e que portanto
não deve ser simplesmente exterior e ritualista, senão interior
e real : Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o
bem! Buscai o direito, corrigi o opressor! Fazei justiça
ao órfão, defendei a causa da viúva! Em termos gerais,
Mateus como os demais sinóticos citará Isaías: Preparai
o caminho do Senhor; endireitai suas sendas. Será Lucas
quem nos indica como e qual deve ser a conversão. Demonstrai
com obras vosso arrependimento e não vos ponhais a dizer:
Temos por pai Abraão. Se queremos saber em que consistia
a metánoia devemos ler as respostas de João aos que lhe
perguntavam que devemos fazer? (Lc 3, 10) Repartir com o
necessitado. Essa é a obra que demonstra o arrependimento.
Essa é a verdadeira conversão.
O
REINO:
Evidentemente que a idéia do Reino de João é diferente da
que tinha Jesus. João pensava num reino mais bem político/teocrático.
Por isso envia seus discípulos a Jesus para perguntar se
era Jesus o esperado ou tinham que esperar um outro (Mt
11, 3). João, no estilo dos antigos profetas, fala de um
juízo em que toda árvore que não produz bom fruto será
cortada e lançada ao fogo (Mt 3, 10). Era precisamente
a idéia dos antigos profetas do dia do Senhor: É a expressão
bíblica privilegiada para designar a intervenção solene
de Deus na História: um dia de cólera, condenação e vingança
dos seus inimigos e de triunfo e glória dos seus servidores,
os verdadeiros israelitas. Parece que João pensava numa
restauração do reino davídico em toda sua pureza, do qual
evidentemente estavam excluídos os dirigentes tanto espirituais
como políticos do Israel atual: saduceus e fariseus aos
quais João dá o título de raça de víboras, expressão que
significa tipo de homens de esperteza, malignos e perniciosos.
Lucas usará a mesma expressão em 3, 7 referindo-a à multidão.
Jesus segundo Mateus usa duas vezes esta expressão: Como
podeis falar coisas boas se sois maus (12, 33) e serpentes,
raça de víboras, como podeis escapar ao julgamento da Gehena?
(23, 33) Porque Jesus torna os dirigentes de Israel cúmplices
na mesma medida dos seus ancestrais que mataram os profetas.
Isto quer dizer que tanto os fariseus como os saduceus não
estavam dispostos a escutar os profetas. Era o caso de João.
Ambos estamentos vieram a João não com o propósito de escutar
a palavra de Deus, mas de investigar a legitimidade de quem
a pronunciava. Era uma atitude crítica absolutamente negativa,
para não ter que mudar suas condutas. Negar a realidade
é melhor que modificar uma vida.
O
BATISTA:
Devemos distinguir entre a figura externa e a mensagem de
João. Ele se apresentava vestido como um dos antigos profetas,
especialmente Isaías (2 Rs 1, 8). A vulgata apelida a Isaías
de baal sear [= maestro do pelo] que a vulgata
traduz por vir pilosus ou homem de muito pelo. Ele
vestia uma túnica de pele sujeita com um cinto e por cima
dela um manto solto. Esta forma de vestir foi copiada pelos
outros profetas. A vestimenta externa ou manto de João era
um tecido de pelos de camelo o mesmo com o qual se teciam
as lonas das tendas dos nômades do deserto. Servia de proteção
contra os raios solares e impedia a chuva como capa. E unicamente
se servia de um cinto de couro para ajustar aos lombos uma
túnica de pele interior. Além dessa veste extremamente rústica,
havia na vida de João um outro detalhe que chamava a atenção
das multidões: sua comida que eram gafanhotos e mel silvestre.
Este mel que tem em grego o sobrenome de silvestre é provavelmente
a exudação de certas árvores como o Tamarix mannifera, de
gosto insípido, e abundante na região de Jericó. Tudo indicava
a austeridade de João e sua independência dos homens de
modo a depender unicamente de Deus. O povo assim o entendia,
pois não comia nem bebia (Mt 11, 18). Seu terreno de pregação
era o outro lado do Jordão na Peréia, terra de Herodes Antipas
(Jo 10, 40), onde ele tinha seu castelo de Maqueronte que
seria o cárcere do profeta.
O
BATISMO:
A imersão na água era rito comum na cultura judaica. Significava
a morte a um passado que ficava simbolicamente sepultado
na água. Utilizava-se no civil para indicar por exemplo,
a emancipação do escravo; e, no religioso, para a conversão
do prosélito e
entre os essênios como rito de entrada na seita que implicava
uma nova vida. Nesse caso significa a mudança de vida: o
passado de injustiça [de afastamento de Deus] fica sepultado.
Mateus fala de que eram batizados no rio Jordão confessando
seus pecados (3, 6). Marcos e Lucas falam abertamente
de batismo de arrependimento para remissão dos pecados.
É lógico que o verdadeiro batismo é o de Jesus. Sabemos
por outra parte que neste estágio inicial da pregação de
Jesus também seus discípulos batizavam no mesmo rio Jordão
um pouco mais ao sul do lugar escolhido por João (Jo 3,
22 e 4, 1-2). Evidentemente o batismo de João era um intento
humano de pedir perdão dos pecados cometidos que sem dúvida tem um efeito positivo.
Hoje sabemos que a simples contrição perdoa os pecados.
Não estamos infravalorando os sacramentos; nem o batismo
inicial, que nas crianças perdoa o pecado original e nos
adultos todos, nem a confissão sacramental, todos eles operando
ex opere operato. O batismo de João assim
como o feito pelos discípulos de Jesus era ex opere
operantis. Para se ter uma idéia o primeiro era ter
um cheque que o penitente enche com um valor proporcional
a seus méritos. O último era estender as mãos pedindo perdão.
A penitência da confissão tem o valor de um sacramento,
avaliada pelos méritos de Cristo e da Igreja. A particular
só está avaliada pelas intenções e dificuldades do penitente.
Sem dúvida que, como no caso de Zaqueu, a confissão devia
ser seguida por uma conduta reparadora. Neste caso vemos
como o arrependimento foi causa de salvação (Lc 19, 9).
É interessante saber que assim como João fala de que filhos
de Abraão podem sair das pedras (Mt 3, 8), Jesus dirá de
Zaqueu que ele também é filho de Abraão (Lc 19, 9) ou seja
forma parte dos eleitos de Javé. João afirma que ter nascido
como descendente de Abraão não é suficiente para se libertar
da ira que se aproxima.
MAIS
FORTE:
Eis a verdadeira razão de trazer à tona a figura de João:
Seu testemunho de que o que vem depois dele é mais forte
do que ele, ou seja tem mais poder. E o explica: meu batismo
é de água que
só pode perdoar pecados. Mas o dele é de fogo isto é: ele
traz o juízo definitivo de Deus condenando uns e salvando
outros. A outra expressão em espírito sagrado[sic,
literalmente] significa o espírito que permeava Jesus e
consequentemente ele podia fazer coisas extraordinárias,
ou o espírito que receberiam os que por ele fossem batizados?
Ambas as coisas são possíveis. Só sabemos que Jesus em particular
não batizava mas eram seus discípulos(vide supra). A segunda
opção é mais conveniente com a última frase: a pá está em
sua mão. Vai limpar a sua eira e recolher seu trigo no celeiro;
mas quanto à palha vai queimá-la num fogo inextinguível.
Este é o resultado do juízo que vem trazer à terra.
PISTAS:1)
A austeridade é um dos valores mais apreciados em todos
os tempos como garantia de um homem de Deus. Mas nem sempre
essa é a realidade suprema. No século 13 os cátaros eram
muito mais austeros do que os membros oficiais da Igreja.
E não obstante estavam errados, porque tem mais importância
a verdadeira humildade que nos aproxima de Deus e nos inferioriza
diante do próximo.
2)
O mais importante no homem é sua disposição de se arrepender
e mudar de vida diante do evangelho. Radical como este é,
hoje também temos muito a confessar como mal feito ou bem
descuidado e existe nestes tempos de advento uma boa chance
de conformar a vida com o evangelho. Essa deve ser a nossa
metánoia.
3) Nos tempos modernos temos abandonado o temor e sempre deixamos nosso último destino em mãos de um Deus que deve absolutamente perdoar qualquer pecado, porque nos consideramos filhos dele, assim como os antigos saduceus e fariseus se consideravam filhos de Abraão. João diz que a única razão de não sermos castigados são os frutos de penitência.
EXEMPLO:Uma
das coisas que parece João pedia a seus ouvintes era fazer
um uso correto das riquezas. Contam que um avaro, nos tempos
em que o ouro era o melhor banco da época, tinha seu tesouro
escondido perto de uma árvore no bosque. Todos os dias ele
se aproximava da árvore em cujo pé tinha enterrado o ouro,
abria o buraco e o contemplava cheio de alegria. Logo o
enterrava de novo e esperava até o dia seguinte. Um belo
dia um ladrão estava oculto no bosque fugindo da polícia.
Ele viu o avaro desenterrar seu tesouro e logo que se retirou
desenterrou o ouro e fugiu com ele. No dia seguinte o avaro
foi como de costume desenterrar o tesouro e levou o maior
susto de sua vida encontrando o buraco sem uma moeda dentro.
Desesperado contou o caso a seus vizinhos. E estes lhe perguntaram:
Mas além de contemplar seu ouro para que servia o tal de
tesouro? Eu era feliz contemplando-o disse o avaro. Então,
vai todas as manhãs e seja feliz pensando que alguém fez
melhor uso do que você de seu ouro e contemple todos os
dias o buraco deixado pelo ladrão.