( Pe.
Ignácio odos padres escolápios)
MANIFESTAR-SE: O verbo grego significa tornar visível o que está oculto, e Jesus se manifestou, se tornou perceptível aos sentidos de sete dos seus discípulos. Quatro deles são nomeados pessoalmente, para que não exista dúvida alguma sobre o testemunho dos mesmos. O lugar era o lago que João chama de Tiberíades e que os outros evangelistas, menos propriamente, apelidam de Galiléia. Segundo Mateus era o lugar que o anjo apontou às mulheres, como próprio para se manifestar como ressuscitado(Mt 28, 10). Estavam juntos, provavelmente na casa de Simão Pedro, já que este toma a iniciativa de pescar durante a noite ou de madrugada (v. 3). O mar de Tiberíades, segundo a tradução judaica, era um mar de peixes puros, peixes que qualquer pessoa podia pescar com anzol, mas que, com rede, unicamente tinham direito a fazê-lo os descendentes da tribo a quem correspondeu a região como sorte da divisão territorial da terra prometida.
O CONVITE: É Simão Pedro que levado de sua vivacidade como homem tremendamente ativo, convida a todos a pescar. Saíram diz João, o que significa que estavam reunidos numa casa, e entraram no barco para pescar. Mas naquela noite nada apanharam.
A VISÃO: Feito o dia, Jesus estava de pé na margem ( na praia) porém não conheceram os discípulos que era ele. A falta de reconhecimento é própria da ressurreição como no caso da Madalena(Jo 20, 14) ou no caso de Lucas com os discípulos de Emaús, porque Marcos dirá que se apareceu em outra forma. Tudo indica que o corpo de Jesus ressuscitado, embora material, tinha qualidades diferentes do corpo anterior, corpo que Paulo chama de psíquico em contraposição àquele que denomina pneumático. A distância era de aproximadamente 100m ou duzentos côvados. E lhes disse: Meninos, que no grego original é paidion no plural paidia, palavra que é um diminutivo de pais, criança. A tradução espanhola é muchachos, ou ragazzi em italiano, que a bíblia ecumênica traduz por moços e a Vulgata por pueri. Tendes alguma coisa para comer? O grego prosfagion significa propriamente um acompanhamento para o pão, geralmente peixe. A vulgata traduz por pulmentarium manjar composto de farinha e legumes cozidas, ou qualquer manjar. Assim se explica como viram as brasas arrumadas encima das quais estavam os peixes e o pão. Jesus trazia, pois o pão e esperava que os peixes fossem ofertados pela pesca que estava no ponto de terminar, pois era de manhã cedo que os pescadores do lago traziam suas capturas. A reposta foi Não.
LANÇAI A REDE: Era um mandato ou uma proposta? Vejamos alguns pontos interessantes. O lado direito era o lado da sorte, o lado bom. A rede diktyon , era o nome comum que poderia ser diferenciado em amfiblestron (=tarrafa) e sagene (=rede de arrastão). Pela continuação veremos que parece ser a rede do tipo tarrafa, pois lemos que não podiam puxá-la por causa da multidão dos peixes, que eram grandes em número de 153. E se admiraram de que a rede não estivesse rota.
É O SENHOR: O discípulo amado reconheceu no fato a presença de Jesus e disse a Pedro. O senhor é Jesus ressuscitado pois não poderia ser outro devido ao fato tão extraordinário.Quem era esse discípulo? Há 4 possibilidades: um dos filhos do Zebedeu, ou um dos outros dois discípulos que não são nomeados. Descartados estes últimos, podemos pensar num dos dois irmãos filhos do Zebedeu. E dentre Tiago e João este tem a maior possibilidade porque era o companheiro de Pedro em muitas ocasiões de modo que entre os dois existia uma íntima amizade, como vemos na pergunta final de Pedro em 19, 20. Pedro e João serão os dois discípulos que prepararam a páscoa(Lc 22, 8). E desde o momento em que pela terceira vez Jesus aparece, estarão unidos como em At 1, 13, curam o paralítico 3, 11 e são chamados ao sinédrio após serem arrestados(4, 3,7). Por isso o mais provável é supor que era João o discípulo amado, também predileto de Pedro como amigo íntimo, que por ser amigo do pontífice abriu as portas a quem no instante da prisão não teve medo de lutar mas que logo caiu renegando conhecer Jesus diante dos criados. Pedro também nesta ocasião não esperou ter no barco os peixes e se cingiu o jaleco (de pescador), pois estava sem a túnica, e se lançou ao mar. Esta é a tradução que pensamos expressa melhor o original grego. Pedro não podia cumprimentar o Senhor nu, ou seja só com o calção, pois o intercâmbio de saudações era considerado como um rito religioso. Para um judeu vestir só a túnica era estar nu. Já a tradução das duas palavras chave epenyitês e diazônnymi tem o significado respectivo de casaco de pescador e cingir. Eis, pois, a razão da tradução que temos antes oferecido. Alguns autores traduzem que cingiu o blusão, pois não tinha embaixo outra roupa e assim se atirou no mar. Nas margens do lago, a terra afunda rapidamente, de modo que Pedro teve que nadar antes de encontrar o chão de areia da praia.
DESJEJUM: Quando Pedro chegou viu um peixe sobre umas brasas (andrakian= prunas latino) que estavam preparadas(keimenên, ou positas, como se descreve o estado dos panos vazios do sepulcro e que no caso traduzimos por arrumadas, Jo 20, 6) e pão. Jesus tinha preparado o café da manhã de seus discípulos. Neste tempo tinham chegado à margem os outros discípulos, arrastando a rede dos peixes e descido do barco. É quando vêem o café preparado, Jesus lhes pede que tragam dos peixinhos(sic) assim pescados. Foi quando Pedro subiu ao barco e arrastou a rede até terra, rede que estava cheia de 153 peixes.e sendo tentos não se rompeu.
CENTO E CINQUENTA E TRÊS: O número é exato, não redondo e pode significar, na gematria da época, algum mistério que S. Jerônimo explica dizendo que os gregos distinguiam exatamente 153 espécies de peixes, com o qual a captura era símbolo da totalidade da pesca que os discípulos, já como pescadores de homens viriam realizar. Mas esse número de espécies é contestado porque outros apontam números superiores ou inferiores. Uma outra solução é que o número 17 composto do 10 e 7, que simbolizam a perfeição, são pontos que, colocados como lado de um triângulo e multiplicados por 3, dá 51 e como são três lados teremos 153. Sabemos da gematria, ou seja da representação numérica de letras e frases, tal como o número 666 no Apocalipse 13, 18. Mas parece que o número é um claro indício de que o narrador estava lá e sabia bem e narrava corretamente o que tinha presenciado. Esta é a mais correta solução do caso. Por isso pode ele afirmar que esta era a terceira vez que Jesus apareceu aos discípulos, havendo sido ressuscitado dos mortos.
PEDRO: Após o desjejum, Jesus chamou Simão Pedro. Simão, de João, me amas mais do que estes? Jesus usa o nome real e o sobrenome patronímico do apóstolo. Quem era o pai de Simão? João ou Jonas? Segumdo o quarto evangelista era filho de João (1, 42 e 31, 15-17). Já Mateus em 16, 17.diz ser ele barjona o que significa filho de Jonas. O comparativo pode ser traduzido por estes ou estas coisas, ou seja seu barco,suas redes, seus peixes, seu trabalho. Parece que pela conclusão de toda a perícope devemos pensar nestes, ou seja os outros discípulos. Jesus faz três perguntas que todos pensam correspondem às três negações do apóstolo.Os verbos empregados por Jesus nas duas primeiras perguntas são agapáô. E na terceira filéô. Há uma pequena diferença entre ambos, sendo apapáô um amor mais espiritual, como o que existe entre homem e Deus ou usado para o amor para os inimigos e filéô o amor entre amigos. Nas respostas, Pedro sempre usa o filéô mas não parece existir grande diferença entre os dois verbos; pois antes de dar a terceira resposta o evangelista une os dois verbos ao afirmar que Pedro ficou triste por Jesus ter perguntado três vezes se o amava(filéô).
AS RESPOSTAS: Pedro repete Sim, Senhor, tu sabes que te amo. O verbo saber (eideo) tem como significado original ver mas também a Vulgata traduz por scire (saber) como o fazem as línguas vernáculas. Na terceira resposta usa o verbo gignosko, conhecer, como complemento de eidô: todas as coisas tu soubeste(oidas, viste), tu conheces (gignoskeis) que te amo. O emprego do passado indica que Pedro tem consciência de que Jesus está querendo tirar dele tantas respostas afirmativas quantas negações obtiveram os criados na noite em que Jesus esteve em casa de Anás. A cada resposta Jesus acrescenta um pastoreio especial. Os verbos usados bosko e poimaino tem significados parecidos. Bosko é usado na pergunta 1 e 3 e tem como significado fundamental alimentar e poimaino significa tomar conta ou guardar. Porém não parece que estes detalhes entrem nos preceitos de Jesus. Os animais que metaforicamente representam os homens a ser pastoreados são cordeiros(1) e reses menores como ovelhas e cabras.(2 e 3). Na metáfora existe alguma distinção com sentido especial? Provavelmente não. Os três mandatos seguem as três disponibilidades de Pedro, mas poderiam ter sido uma só pergunta e um só mandato; mas, como temos dito, foi um ato premeditado de Jesus para indicar que cada uma das negações tinha um sentido tanto teológico como humano especial. Jesus também sentiu cada uma das negações como um golpe baixo de quem era seu amigo e de quem se esperava mais coragem e amor. Mas existe também uma conclusão óbvia: Pedro é o pastor do rebanho de Jesus, seu sucessor e não somente como pastor mas também como oferenda ao Pai a quem devia dar glória como Jesus fez com sua morte.
O DESTINO: As palavras amém, amém são o início com que Jesus reclama a atenção e propõe uma espécie de juramento em que o discursante empenha sua palavra sobre a verdade do que se afirma. A palavra tem origem hebraica, era a resposta que os ouvintes davam à oração do dirigente como resposta, à semelhança do que fazem os evangélicos após ouvir um sermão, e significaria assim seja. Mas também temos o amém no início de uma afirmação, exatamente como o quarto evangelho, que tem o costume de repetir a palavra, e significa que a declaração equivale a um juramento e traduziríamos por verdadeiramente os asseguro. O destino de Pedro era perder a liberdade de modo a ter que estender as mãos (ou braços) porá um cinto ao teu redor e serás levado onde não desejas. E isto na velhice. O evangelista comenta que essa foi a morte com a qual daria Pedro glória a Deus. Significava morte de cruz? Ágabo, o profeta, predisse a Paulo que seria preso (At 21, 11-12), ligando-se pés e mãos com o cinto do apóstolo. Pelo menos Jesus profetiza a prisão de Pedro e uma morte como conseqüência da mesma, que nas palavras deste versículo não podemos afirmar seja de cruz. Porém existe uma circunstância que sempre foi admitida como símbolo da cruz: estender os braços. Tendo em conta que o kai grego é tradução do wau hebraico e que este nem sempre é uma conjunção copulativa, poderíamos traduzir: estenderás os braços(= morte de cruz), já que outro te cingirá(ser preso) e te conduzirá onde tu não desejas. Por isso o evangelista dirá que essas palavras seriam sinal da morte com a qual ele daria glória( unicamente) a Deus e o anima a seguí-lo.
PISTAS: 1) Temos aqui um perdão dado, pecado por pecado, e com uma penitência que exige o amor onde antes existia uma apostasia. Se Jesus assim perdoa o pecado gravíssimo de seu apóstolo e o confirma em seu ministério, não se compreende como alguns rigoristas dos primeiros séculos recusaram o perdão aos apóstatas que, levados pela covardia, renegaram sua fé oferecendo incenso aos ídolos. 2) A conduta de Jesus não é unicamente de perdão, mas também de restituição de um ministério do qual mostrou-se indigno com sua conduta. A conduta dos homens constituídos como pastores não deve ser motivo de tanto escândalo como para desanimar e anular a fé dos crentes. 3) Jesus exige amor dos que quer sejam seus pastores e amor dos que um dia quebraram seus vínculos. Um pecador arrependido não é só um desgarrado que volta, mas todo aquele que admite sua maldade e quer voltar ao caminho do amor e da fidelidade.
EXEMPLO: Contam que um humilde monge estava na cozinha lavando pratos. Nesse momento apareceu o anjo da morte que lhe disse: Chegou a hora. Estou chamando-o para a eternidade. Espere um pouco, vou terminar meu trabalho; porque não quero deixar este trabalho para os outros- disse o monge. O anjo concordou. Passado um tempo, o anjo veio procurá-lo quando estava cultivando a horta. O monge lhe pediu um pouco de tempo par terminar seu trabalho, pois não podia cortar a água com a qual irrigava as plantas. O anjo concordou. Finalmente o anjo veio procurá-lo quando estava cuidando de um doente. Estou disposto, mas não poderíamos esperar um pouco porque os outros monges estão no coro rezando e este doente só tem a mim para o cuidar? O anjo foi embora. E muitos anos depois o monge estava idoso e doente. Por que não vem o anjo agora ? – Pensava. E o anjo se lhe apresentou dizendo: Você não precisa mais pedir para entrar na eternidade. Desde a primeira vez que vim visitá-lo você já está na eternidade, porque você fez tudo por amor e em favor dos irmãos. Cada vez que você amou seus irmãos você já estava na eternidade. Dizem que Haendel dirigiu seu célebre oratório O Messias na presença de Jorge II rei da Inglaterra, quem ao escutar os primeiros compassos do Aleluia se pôs de pé, junto com todo o auditório. Antes de compor O Messias, Haendel estava enfermo. Tinha dívidas e estava ameaçado de ser levado aos tribunais e parar no xadrez. Ainda não estava cego, mas não conseguia se alimentar, deprimido e sem vontade de viver, acabado como estava aos 56 anos. Por isso dirigiu-se a Jesus pedindo entre lágrimas: Senhor, por que me abandonaste? Haendel conta que teve a impressão de que a sala se iluminava e seu coração batia com nova força. Desapareceu o cansaço, o abatimento e a depressão. Sentou-se diante do piano e começou a compor durante 14 dias, quase sem interrupção. Essa sua grande obra, mais conhecida, foi O Messias, porque ele tinha renascido das lágrimas do desespero à vida nova da esperança. Daí o agradecido e triunfal final do Aleluia.