III DOMINGO DO ADVENTO C

 (Lc3, 10-18)

(Pe. Ignácio, dos padres Escolápios)

AS MULTIDÕES: O grego usa a palavra OXLOS, latim turba, para distingui-la de DEMOS, esta denotando um povo culto, cidadão e responsável. Aquela era o termo geral em que entravam todos os homens e mulheres próprias de uma aglomeração indiscriminada. Como veremos, entravam toda classe de homens. Mulheres e escravos estavam por lei excluídos de deveres religiosos.

A TÚNICA: A palavra grega XITON (túnica em latim), indica um vestido ao modo de uma camisola que chegava até o joelho ou um pouco mais curto. Era a roupa vestida sobre a carne, roupa de trabalho e se considerava desnudo aquele que se apresentasse com ela unicamente, como vemos em Pedro(Jo 21,7), que vestiu a blusa (ependites) para se apresentar a Jesus. Sobre a túnica vestia-se o Imation, vestido exterior e a Clâmide, o pallium latino, capa curta. Essa capa parecia ser um quadrado de pano com um buraco no meio para entrar a cabeça. Nenhum israelita podia entrar no templo sem vestir a capa. Esse foi o vestido que os jerosolimitanos estenderam ao passo de Jesus no Domingo que chamamos de ramos (Mt 21, 8). Paulo pede a Timóteo que lhe traga a capa (failones grego ou paenula latina) necessária na prisão para dormir nas noites frias(2 Tm 4,15).Algumas capas se transformavam em túnicas talares ou estolas. A Estola, o vestido talar próprio dos oficiais e das mulheres, que chegava até os calcanhares pois talares eram chamadas as asas de que estavam dotadas as sandálias de Mercúrio para melhor correr. Mercúrio era o deus grego do comércio e mensageiro dos outros deuses. Próprio dos judeus era o xale(talit) ou manto retangular com que cobriam a cabeça e até a metade superior do corpo para rezar, e que terminava nas listras negras ou azuis paralelas aos lados menores do retângulo e em faixas com borlas e fios(tzitzit) representando o número dos mandamentos da lei(613). A essas fímbrias alude Jesus em Mt 23,5. O Talit tinha um galão de ouro ou prata para segurá-lo no pescoço. O xiton era pois, o mínimo vestido, e portanto, o vestido dos pobres, ao qual todo mundo tinha direito, como à comida figurada por BROMA, termo geral para a mesma, diferente de arton que significa pão. As palavras do Batista indicam, pois, uma obrigação de todo homem de cuidar dos mais pobres no que se refere às necessidades básicas.

OS PUBLICANOS: A palavra grega TELONOS composta de Telos(fim ou pedágio) e oneomai(comprar) é traduzida ao latim por publicanus. Entre os romanos dessa época, era a classe equestre, a que proporcionava os cargos públicos da administração após os senadores (os optimates) deixarem os cargos secundários da mesma para a segunda classe, a dos equites. Existiam três diferentes degraus de publicanos: o mais elevado era os dos equites, Publicani propriamente ditos, que pagavam uma certa soma de dinheiro para depois se encarregar das taxas de uma determinada província. Geralmente moravam em Roma e deixavam a exação dos impostos aos Submagistri (arxitelones em grego) que se encarregavam de recolher as taxas em regiões particulares e moravam nas diversas províncias. Finalmente estavam os Portitores que eram os que realizavam o trabalho real de coletar os impostos nas bancas. Estes podiam ser de diferente cidadania da romana. Os que perguntaram ao Batista pertenciam sem dúvida a estes últimos.

OS SOLDADOS: A palavra própria é STRATIOTES, miles em latim, para soldado, e Lucas usa Stratiomenos. Como o nosso evangelista é tão cuidadoso nas palavras, podemos pensar que ele se referia a soldados recrutas ou melhor a soldados policiais. Como João batizava na Peréia, território de Herodes Antipas, eram provavelmente policiais quem lhe perguntavam, como foram os que estavam com o tetrarca quando do julgamento de Jesus em que Lucas usa também a palavra stratiomenos(23,11). Os evangelistas falam de stratiotes como sendo os soldados de Pilatos(Mc 15, 16) e stratiomenoi os guardas de um rei que quer punir os rebeldes(Mt 22,7) ou os guardas que o centurião mandou para salvar Paulo dos judeus revoltados(At 23,10). Esses policiais não deviam DIASEIO, latim concutere, agitar violentamente, extorquir (tirar com ameaças ou violência, tortura talvez e sua condenação?). Tampouco deviam acusar falsamente. O verbo grego SYCOFANTEO tem um significado particular. Sicofante era em Atenas a pessoa que delatava os contrabandistas de figos para fora da península Ática onde estava situada Atenas, uma cidade de 10 mil habitantes. A palavra se deriva de Sycon (=figo) e Fantes de faneo (=o que mostra ou descobre, daí a palavra fantasma) Parece que extorquiam dinheiro daqueles que não desejavam ser denunciados. Na antiga Grécia a formação do direito e a organização do estado eram deficientes. Não existiam fiscais, de modo que qualquer cidadão podia acusar um outro diante da Eklesia ou Assembléia do Povo. A muitos lhes agradava essa função e a exerciam regularmente e com certo prazer. Eram os sicofantes, acusadores ou delatores, que cumpriam uma função social mais tarde substituídos pela fiscalização do Estado. Sicofantes foram os que delataram Sócrates de impiedade por não acreditar nos deuses do Olimpo, acusação que o levou a ser condenado à morte mediante a bebida do veneno da cicuta, extraído da planta do mesmo nome. Sycon tinha um significado um tanto obsceno também, e se referia ao gesto de chupar o polegar introduzido na boca, gesto que os sicogfantes acostumavam fazer para indicar a culpabilidade de um delinqüente. Em tempos de Aristófanes (+386 aC) que satirizava em suas comédias aspectos da vida ateniense, o nome significou um maldoso acusador por amor ao lucro. O conselho de João é que não violentem nem exijam dinheiro de corrupção e se contentem com a sua paga. Parecem sentenças que podem perfeitamente ser interpoladas em nossos dias.

O BATISMO: No grego clássico havia dois verbos para indicar um mergulho em água: Bapto e Baptizo. O médico Lisander que viveu perto do ano 200 aC os distingue perfeitamente: para fazer picles deve primeiro mergulhar(bapto) o vegetal em água fervente e depois submergi-lo(baptizo) em vinagre. Desse modo o batismo não deve ser um ato casual mas um processo permanente. É uma conversão e portanto significa uma mudança continuada. Temos visto a mudança que João exige do povo comum, dos coletores de taxas e dos policiais. Isso entre os judeus. Para os gentios é só abrir as páginas de Paulo aos romanos em 1, 25-31 para ver em que devia consistir a methanoia entre eles. O batismo, segundo Paulo, é para se despojar do velho homem, corrompido com concupiscências enganosas, para se vestir do homem novo, criado segundo Deus em justiça e retidão, procedentes da verdade.(Ef 4,22-24). Podemos afirmar que diante destas reflexões os batizados são menores que os lavados pela água inicial.

O MESSIAS? Na mente de todos estava a proximidade dos tempos messiânicos e ante a figura de João muitos pensavam que talvez ele seria o esperado, o Ungido do Senhor. Foi o próprio João que desmentiu essa possibilidade dando testemunho diante da comissão de sacerdotes e levitas (Jo 1,19) e declarou negando não ser ele o Ungido do Senhor (Jo 1, 20). Por isso faz uma distinção entre seu batismo e o batismo de quem devia vir e ser superior a ele em poder. Por esta razão, este último batizará "em espírito santo e em fogo"( No grego não tem artigo determinado).

AS SANDÁLIAS: O Hypodema grego(atado em baixo literalmente; em latim calceamentum) indica qualquer tipo de calçado, especialmente uma sola de couro, casca de palmeira ou caniço, na planta dos pés que era depois atada com correias de couro(o imas grego, em latim corrigia). Esse calçado era usado para as viagens ou trabalho da lavoura da terra. Era próprio da mulher ou do escravo mais humilde receber o dono após voltar de uma viagem, desatar os cordéis das sandálias e lavar seus pés. Esta lavagem se fazia sempre que um hóspede entrava numa casa para um banquete (Gn 18,4 e Lc 7,38). Jesus lavou os pés aos discípulos antes da última ceia (Jo 13, 5).Na igreja primitiva as viúvas lavavam os pés aos santos(=cristãos)( 1 Tm 5, 10). Compreende-se o costume pela razão de que os comensais se deitavam praticamente no chão sobre travesseiros para os banquetes, entre os que devemos incluir a Ceia do Senhor(1 Co 11,20).O Batista se rebaixa até dizer que como servo nem é digno de fazer o que o último dos tais faria a seu senhor.

BATISMO DO MESSIAS: Era um batismo "em espírito santo e em fogo". Ou seja: um mergulho no espírito divino em que os profetas e os homens santos escolhidos por Deus estavam habitualmente imersos, ao mesmo tempo que uma simbólica purificação pelo fogo, ou seja a máxima pureza que um metal podia obter através de métodos de limpeza de escórias e contaminações. Logicamente o Batista não conhecia a ação do Espírito como terceira pessoa da Trindade; mas nós temos textos de Qumrã que ele podia conhecer e que dizem: "Então (quando apareça para sempre a verdade sobre a terra) Jahvé purificará em sua verdade todas as ações do homem e depurará (por meio do fogo) para si, o corpo de cada um; a fim de eliminar todo espírito de iniqüidade de sua carne e limpá-lo pelo espírito de santidade de todos os atos de impiedade. E ele derramará sobre o homem o espírito de verdade como água lustral".( água obtida pela imersão de um tição aceso trazido do altar dos sacrifícios ). No AT existiam várias lavagens com água que se consideravam ritos, e numa delas misturavam-se cinzas do sacrifício como é o caso da novilha vermelha para água purificadora da oferta pelo pecado(Num 19, 9).O chamado Korban Para Aduma(sacrifício da vaca vermelha) em que se prescreve a Juka (estatuto) da Torah (lei) como uma coisa especial, embora não se saiba o porquê de uma vaca vermelha. Talvez por representar a cor do sangue da menstruação feminina que constituía com a morte a principal causa de impureza. O fogo era também instrumento de purificação (Nm 31,23) O mensageiro do Senhor purificará como o fogo do ourives e a potassa dos lavandeiros. Purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata(Ml 3,2-3).Qual acrisolador te estabelecerei entre o meu povo...em vão continua o depurador porque os iníquos não são separados (Jr 6, 27-29). Com estes textos do AT podemos deduzir que sem dúvida que o batismo ao qual se referia João era um batismo de purificação. O dele era em água lustral para preparar o batismo mais completo do Messias, que apresentava duas partes diferentes: 1a). A parte principal era o espírito novo a receber os que se submergiam no novo batismo de verdade e santidade. 2a) Ao mesmo tempo pelo batismo em fogo referia-se João a esse sinal de contradição(Lc 2, 34) que foi a vinda do Messias, e que imediatamente expressará com o símbolo da pá para separar bons e maus. É o batismo na ira divina. Por isso no início clamará: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? O Batismo do Messias era pois, uma imersão no espírito divino da verdade para quem estivesse preparado pela mente da conversão, ou no fogo destruidor para quem não tivesse preparado o caminho da verdade, que não se admite sem uma pureza de mente e limpeza de sentimentos. A alusão ao Batismo sacramento é como diz um autor, um estágio tardio(o 3o) da tradição, uma vez sabida a força do Espírito Santo em Pentecostes.

A PÁ: Ptuon em grego e ventilabrum em latim, era a forquilha ou pá para lançar ao vento o trigo misturado com a palha após a trilha para que o vento separasse ambos. O Batista com esta figura indica como o Messias separará o trigo bom da palha inútil, num julgamento em que os culpados escolherão seu lado e os justos o lado correto da sentença, como ocorre em toda vida humana diante do mistério de Cristo. Os bons irão para o celeiro e os maus para o fogo inextinguível, único destino da palha que não serve para outra coisa.

PISTAS:.-1)Temos ouvido falar muito de opção preferencial pelos pobres, ou se se prefere de amor preferencial.. Porém existe uma opção essencial, muitas vezes esquecida,: é a opção pelo bem(Pai), pela verdade(Fiho ) e pelo amor(Espírito) para formarmos parte da família divina que será a próxima e última morada definitiva dos que querem viver conforme a essa vontade livremente determinada, em contraposição aos que chamamos condenados e que mais bem podemos designar como obstinados no mal, na mentira e na violência do ódio.-2) Por isso é necessário uma conversão que é essa opção primária como temos definido. Sem ela o mal toma posse do homem que se torna escravo do pecado, como afirma Paulo em Rm 6, 6, obedecendo-o para a morte (6,16).-3).Caso pareça difícil a conversão, temos dois meios para superar essa difícil situação sentimental: A oração. Agostinho diz: faz o que possas e pede o que não podes. A oração do publicano tem piedade de mim pecador, é uma oração salvífica. O segundo meio é a esmola que, livra da morte e impede que se vá para as trevas e purifica de todo pecado (Tb 4, 10 e 12,9).

EXEMPLO: Quando eu era pequeno, minha mãe costurava muito. Eu me sentava no chão, brincando perto dela, e sempre lhe perguntava o que estava fazendo. Respondia que estava bordando. Todo dia eram as mesmas perguntas e a mesma resposta. Observava seu trabalho de uma posição abaixo de onde ela se encontrava sentada e repetia: "Mãe, o que a senhora está fazendo?" Dizia-lhe que, de onde eu olhava, o que ela fazia me parecia muito estranho e confuso. Era um amontoado de nós e fios de cores diferentes, compridos, curtos, uns grossos e outros finos. Eu não entendia nada. Ela sorria, olhava para baixo e gentilmente me explicava: "Filho, saia um pouco para brincar e quando terminar meu trabalho eu chamo você e o coloco sentado em meu colo. Deixarei que veja o trabalho da minha posição" Mas eu continuava a me perguntar lá de baixo: "Por que ela usava alguns fios de cores escuras e outros claros?" "Por que me pareciam tão desordenados e embaraçados?" "Por que estavam cheios de pontas e nós?" "Por que não tinham ainda uma forma definida?" "Por que demorava tanto para fazer aquilo?" Um dia, quando eu estava brincando no quintal, ela me chamou: "Filho, venha aqui e sente em meu colo" Eu sentei no colo dela e me surpreendi ao ver o bordado. Não podia crer! Lá de baixo parecia tão confuso! E de cima vi uma paisagem maravilhosa! Então minha mãe me disse: "Filho, de baixo, parecia confuso e desordenado porque você não via que na parte de cima havia um belo desenho. Mas, agora, olhando o bordado da minha posição, você sabe o que eu estava fazendo." Muitas vezes, ao longo dos anos, tenho olhado para o céu e dito:"Pai, o que estás fazendo?" Ele parece responder: "Estou bordando a sua vida, filho." E eu continuo perguntando: "Mas está tudo tão confuso, Pai, tudo em desordem. Há muitos nós, fatos ruins que não terminam e coisas boas que passam rápido. Os fios são tão escuros. Por que não são mais brilhantes?" O Pai parece me dizer: "Meu filho, ocupe-se com seu trabalho, descontraia-se, confie em Mim e Eu farei o meu trabalho. Um dia, colocarei você em meu colo e então verá o plano da sua vida da minha posição."