III DOMINGO DO TEMPO COMUM

 (Lc 1,14; 4,14-21)

(Pe. Ignácio, dos padres Escolápios)

 

INÍCIO DO EVANGELHO SEGUNDO LUCAS.

PREFÁCIO: No ano C o evangelho a ser lido e meditado nos domingos comuns é o terceiro evangelho, atribuído a Lucas. Ao ler detidamente o terceiro evangelho vemos que é fruto de um autor único e bem personalizado. Suas idéias sobre o Reino, o protagonismo das mulheres, a hegemonia da misericórdia como atributo especial de Jesus, o homem escolhido como enviado pelo Pai para salvar o que estava perdido como eram os gentios, a universalidade da mensagem evangélica. É o evangelho da humanização do divino, assim como o de João é o da divinização do humano. Por isso Lucas inicia seu evangelho com os fatos de uma infância não diferente da de cada ser humano, antes de narrar a missão de evangelizar os mais necessitados entre os humanos e João sobe como teólogo até a divindade onde encontra o Verbo, que se torna homem.

LUCAS: parece que o nome era uma abreviatura de Lucanus assim como Silas é de Silanus. Nos dicionários não se encontra a tradução da palavra Loukas, que em grego como Loukos significaria Silva. Outros o derivam de Loukios. Lúcio, que significa nascido na aurora. Toda a tradição está conforme em acreditar que o autor, tanto do 3o evangelho como dos Atos, é Lucas, companheiro de Paulo e médico pessoal dele( Cl 4, 14). Como tal devia ser um ex-escravo, um liberto, pois no mundo romano este serviço da medicina era impróprio para os homens livres. Dentre a classe dos Liberos (cidadãos, latinos junianos e deditícios) é provável que Lucas fosse dos últimos, dos deditícios, dos que não tinham cidadania romana, e que como a palavra latina indica eram os que o amo remetia sem nenhum compromisso. Como sabemos os libertos destacaram em áreas do comércio, trabalhos manuais e banca. Fora os escravos estavam no último degrau humano. Paulo o chama seu cooperador em Fm 24. E é o único que o acompanha quando estava prisioneiro em Roma (2Tm 4,11). Parece ser o autor dos Atos que acompanha Paulo na sua 2a viagem(At 16, 26).

O PREFÁCIO: Como verdadeiro autor clássico dedica as primeiras linhas do seu livro a indicar seu propósito, conteúdo e dedicar a obra a um ilustre personagem. O primeiro parágrafo é de um grego clássico, com vocabulário, ritmo e equilíbrio escolhidos: "Visto que muitos tentaram ordenar a exposição dos sucessos entre nós acontecidos, como nos relataram desde o início testemunhas e ministros da palavra, pareceu-me também a mim, tendo investigado tudo minuciosamente desde o princípio, escrever-te metodicamente, excelentíssimo Teófilo, para que tenhas conhecimento exato da certeza das palavras em que foste instruído" Este é um prólogo semelhante ao que os autores clássicos redigiam no começo de suas histórias.

TEÓFILO: O adjetivo grego Kratiste, é equivalente ao Optime latino, ou seja da ordem dos senadores ou optimates e que no caso eram os governadores das diversas províncias, como vemos em At 23, 26 e 26, 25 em que os optimates eram os procuradores Félix e Festo. Quem era Teófilo? Um magistrado principal de uma das cidades da Grécia ou Anatólia? Não sabemos. Alguns dizem que sob esse nome está todo cristão que é na realidade Teófilo (= que ama Deus). O importante é que o autor deste evangelho quer escrever a história de Jesus com critérios de autenticidade e verdade tanto quanto sua investigação e as fontes fidedignas o permitam.

NO PODER DO ESPÍRITO: Esse mesmo Espírito que levou Jesus ao sertão de Judá, o impulsa à Galiléia, o norte da Palestina. Esse espírito de profecia do qual estava munido Miquéias cheio de juízo e força para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado(3,8). Era a Galiléia onde segundo Isaias (9,1-2) "nos últimos tempos tornará glorioso o caminho do mar (via maris)além do Jordão, Galiléia dos gentios. O povo que andava em trevas viu uma grande luz". Por isso sua fama, a de Jesus, espalhou-se por toda a região. A via maris clássica, comercial ou de conquista, tinha dois braços: um perto da costa por Tiro , Aco e Meguido onde se unia o outro ramal vindo do lago Hule, Hasor e Cafarnaum, seguindo o rio Jordão. Esta via maris abrangia toda a atual Galiléia nos seus dois ramais. A via regia prosseguia por Damasco, Ramot e Galaad pelo interior da atual Síria e Jordânia. Jesus ensinava nas sinagogas- logicamente aos sábados- e era louvado por todos os ouvintes. São termos gerais que admitem diversas interpretações. Como ensinava e qual era a base da sua doutrina será objeto dos seguintes parágrafos de Lucas como por exemplo da sinagoga de Nazaré.

A SINAGOGA: A) O NOME: Palavra de origem grega que já no AT era usada para designar a comunidade judaica, especialmente se reunida com finalidade religiosa. Em hebraico Knesset (assembléia). É pois o mesmo que Eklesia. B) O EDIFÍCIO: Desse nome coletivo passou a indicar o edifício de reunião da assembléia. As sinagogas eram como sucursais do templo de Jerusalém com a finalidade de ser centro de reunião(Beit Knesset), casa de oração(beit Tefilá) e casa de estudo(Beit Midrash). Era um edifício quadrado ou retangular, com teto mantido por colunas. Havia um cemitério (guenizá= depósito) para os rolos e objetos sagrados sem uso. Um escrito que continha o nome de Deus não podia ser queimado nem destruído. Um armário de nome Aron Hakodesh ( arca a sagrada) em que se guardavam os rolos da lei e colocada sempre em direção ao templo de Jerusalém. Nos lados estavam os bancos para os assistentes e no meio deles o bimá( estrado) ou plataforma elevada onde estava o púlpito (Al Mamor) para o dirigente das orações, leituras e cantos (Mt 23, 2), Este púlpito era semelhante aos das igrejas católicas com uma balaustrada ao redor do mesmo e um toldo de madeira sobre ele (Ver Ne 8, 4-5). As mulheres estavam separadas por grades ou ocupavam galerias superiores. As lâmpadas além de razões práticas eram símbolo da presença de Jahvé e por isso uma lâmpada perpétua (Ner Tamid) sempre ardia diante da Aron hakodesh à semelhança da lâmpada do sacrário, e dois castiçais acompanhavam o leitor da Torá no bimá C) FUNÇÃO: A inscrição de Teódoto explica a sua função com o fim da leitura da Lei e o ensino dos mandamentos. Também se reuniam ali no segundo e quinto dia da semana para ouvir a leitura das Escrituras. Para que houvesse uma sinagoga independente eram necessários 10 adultos ou Minyan, maiores de 13 anos. Escolhia-se um chefe de sinagoga(arkisinagogos), que dirigia o grupo e mantinha a ordem nos cultos(Lc 13, 14), ou convidava um visitante a pregar (Lc 4, 14) O culto iniciava-se ao que parece, com o canto de um salmo pelo Hazan, cantor ou oficiante. Um dos membros da sinagoga, provavelmente o assistente, é quem dirigia a oração, consistente na leitura do Kedushá ou triplo Kadosh(santo ou consagrado)que nos sábados recebia o nome de Kedushá Rabá (grande kedushá)que incluía Dt 6, 4-9 ( o Shemá) 11, 16-21(conselho como devem estar presentes na vida as palavras da Shemá) e Nm 15, 37-41 (complementos do anterior). Depois eram recitadas as 18 bênções (Shemoné Esré) pelo Ba’al Tefilá (chefe das orações). Logo seguia a oração do Kadish(consagração) era recitado antes dos Shemoné e ao terminar o estudo de uma Parashá. O Kadish começa com: "Seja o seu grande nome exaltado e santificado". E no fim, após a última bênção: "Ele com sua misericórdia conceda a paz sobre nós e sobre todo o seu povo de Israel". Os familiares dos mortos durante o ano podiam acrescentar ao Kadish comum o Kadish dos órfãos; por isso erroneamente o Kadish é apelidado de reza dos mortos. O povo permanecia de pé e respondia Amém quando terminava cada uma das estrofes. Imediatamente lia-se o Parashá correspondente da Torá pelo Baal Coré. A leitura da Lei era feita por diversos assistentes, oito no total, chamados Olim, que seguia uma ordem constante: sacerdote, levita e outros, cada um lendo um trecho correspondente a 15 versículos atuais aproximadamente. O último leitor era o Maftir( finalizador). Para se ter uma boa idéia veremos o exemplo do Gênesis: os 7 primeiros leitores lêem desde o I,1 até V, 5. Aqui entra o Maftir para ler até V, 9. Esta seção recebe o nome de Parashá ( para os sefarditas, de origem espanhola) e Sidrá(para os azkenazis de origem russa). Antes da leitura da Lei e depois do correspondente Parashá recitava-se uma ação de graças como Bendito o Eterno que é bendito para sempre...por nos teres dado a Torá. Alguns autores afirmam que o Kadish era recitado também após a leitura da correspondente Parashá. Na leitura da Torá o leitor, acompanhado por dois assistentes, pronunciava em voz baixa o texto hebraico e o ajudante recitava em voz alta o expressado em aramaico (Mt 10, 27); daí a necessidade dos targuns ou traduções simultâneas. Após a leitura da Torá, era escolhido um texto da Haftorá correspondente, ou seja de um dos Neviim (profetas). Para a sua interpretação era chamado ou um jovem estudioso, ou um novo convidado. Foi o caso de Jesus em Nazaré. O serviço terminava com a bênção do presidente da assembléia e a bênção sacerdotal de Nm 6, 24-26.

O TEXTO: Evidentemente Lucas usa o texto grego dos setenta, Is 60, 1-2: A tradução seria: "Espírito do Senhor sobre mim, pelo qual me ungiu para evangelizar os pobres(ptoxoi),enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, a convocar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança, a consolar todos os que choram." Porém o texto hebraico, ao que segue a vulgata e os modernos, não traz a palavra pobres, mas Anawin. O pobre era Dal e o Anaw significava o manso, o humilde, como Moisés é descrito (Nm 12, 3). A distinção entre as duas palavras está em Pr 22,22: "Não roubes o pobre(dal) porque é pobre; nem oprimas em juízo o aflito(ani). Traduzir anawin por pobres é uma inexatidão. E foi precisamente neste trecho de Lucas em que se apoiaram certos estudiosos para sobreestimar sua reflexão teológica. No texto hebraico não são nomeados os cegos, que saem sim em texto paralelo do mesmo profeta(42, 6-7). Os cegos como sinal dos novos tempos serão usados por Lucas. Por outra parte Lucas termina sua citação com o ano do Senhor: ano sabático de perdão em todos os níveis. Nada diz sobre o dia da vingança, que relembra o dia do Senhor de Joel (2,31), de modo que os novos tempos serão de bênção para uns e de terrível castigo para outros.

PISTAS: 1)As palavras da introdução dão uma segurança da verdade evangélica enquanto cuidadosamente investigada e transmitida por testemunhas oculares. Ainda viviam e podiam referendar a veracidade de Lucas com seu aval.-2)Uma idéia preconcebida pode ser causa de uma péssima interpretação da Escritura. Lucas quer indicar duas coisas com esta narração: Uma era nova de perdão( ano jubilar) e Jesus como seu arauto, porque estava possuído do Espírito como foi no seu tempo Isaias.-3) Logicamente esse é o Espírito predominante no Evangelho que por isso é chamado de Boa Nova e evangelho da misericórdia. Deus oferece seu amor e seu perdão e é aí onde encontramos a paz e a salvação.

EXEMPLO: Um sacerdote foi chamado para atender um ancião. Ao entrar na habitação em que o velho morava só, encontrou uma cadeira perto da cabeceira do leito. O senhor me esperava? perguntou.. O doente respondeu: Certamente não. Então por que essa cadeira? Disse o visitante. E o velho explicou: Quando morreu minha mulher fiquei muito triste e até com depressão. Então um amigo me disse que deveria encontrar a solução na amizade. Então pensei que meu melhor amigo, sempre ao meu lado, podia ser Jesus. E por isso, antes de dormir, colocava uma cadeira para que Ele se assentasse e me acompanhasse nas horas do sono. Realmente isso me consolou e animou tanto, que agora essa cadeira é dele. Se o senhor quer se assentar tome outra porque ela já está ocupada. O sacerdote ouviu a confissão, deu a unção e abençoou o doente. Dias depois a mesma pessoa que o tinha chamado antes lhe avisou: Sabe, Padre, o velho morreu. O que eu não posso explicar é por que ele estava tão sorridente, abraçado a uma cadeira que estava junto ao cabeçal de sua cama. Do exemplo podemos falar sobre como carregar medalhas e outros objetos de piedade.